Peixe Morto

No exato momento em que te magoo, sinto-me também magoada e ferida.

Palavras ásperas em crises existenciais. Medo da perda – é esta a visão de mundo.

Não quero perder-te, e tu também não queres perder a tua roupa, teus sapatos tão bem acomodados em teus pés cansados. Ou melhor,  relaxados , por não mais andares em busca de luz e verdade.

Sofre o teu (meu) coração insano, estilhaçado por tantos torpedos em busca do teu (meu) peito já ferido e  quase morto entre o bem e o mal.

De onde, diga-me, virá tamanha força para consolar teu lar e tua frustração, vivendo tu mesmo num mundo entre homens magoados?

Diga-me, alma bipartida, onde estará a minha resposta? Não há mais carteiros, mas tão-somente desengonçados e-mails, escritas mal feitas e verdades pela metade. Fugazes ilusões.

Melhor seria me vires  insensata a te buscar nos bares, talvez? Teu hálito é sempre o mesmo, e tua fala mente eternamente, digo-te, oh bar de exús!

Teu charuto fede a horror. Queres guerra, eu quero paz. Vida eterna e morte passageira; uma palavra mais pesada, uma grande palavra, um palavrão é o que preferes.

Cadê aquele mundo utópico, onde poderíamos fazer amor, brincar e apostar corrida, cada qual em seu novo carro? Prefiro que não…

Minha infância, desde que te deixei, tenho chorado a desesperança. A falta de ilusão não mais me permite ler Baudelaire ou Sócrates. Estou perdida num invólucro de maldição. Entre a fé e a razão, num mosteiro repleto de mosquitos a zoar minhas orelhas.

Onde a verdade estará inteira? Diga-me, espírito do bem, moço trabalhador, poupa-me de ir mais fundo e ter que comer a carne podre dos peixes!

Como evitar tal testemunho de desgraça, afinal, é mau este mundo; eu sou apenas um grão dentro de um imenso saco no paiol. Sou solidão enquanto escrevo, sou raça misturada, sou homem, animal, e aquele peixe morto (!)

Sangra teus pés, fazeis  como eu faço, não desiste de lutar. Não poderia ser fácil ser solitário no Universo que não fala e não responde aos e-mails, tampouco esta carta de amor que sucumbe na escuridão da minha sala de leitura, enquanto um cão se coça, com as mesmas sarnas daqueles tempos.

Salva tua vida, e deixa que a morte faça-te como alimento. Mas não sejais apenas pragmático vegetal. Não adentra este túnel sem esperança onde, como toupeiras, vê-se o ladrão roubar, o sábio mentir, e o profeta debater-se entre sexo e falácias, oh Santo Deus!

Dai-me de beber, nem que seja do absinto que escorreu pela garganta do carrasco no século dezoito; que seja pela eternidade, e não por mim. Seja por nós e não pelos nossos pés.

Que a guerra finalmente venha. Estarei aqui, empunhando minha certeza de que valeu a pena viver longe daquele lago. E daqueles peixes mortos.

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2 comentários em “Peixe Morto

  1. Gosto de parabenz com ‘z’, lembra um amigo da Argentina, é chique. Sim, Cello, a honestidade dos sentimentos acima de tudo. Obrigada pela visita. Beijo, amigo meu 🙂

  2. Nossa muito lindo, na verdade lindo e pouco, achei esse texto simplesmente maravilhoso.

    Quando um escritor tira a dor do seu peito e coloca nas palavras e depois essas palavras ao serem lidas fazem ao leitor sentir a dor, então e por que o escritor foi honesto, escrever bem pra mim e isso, ser honesto e verdadeiro.

    parabenz com Z

Sua opinião me interessa ;)

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