Tolos

‘Não quero choro nem velas’

lá onde minha sombra quer ficar assim mesmo,

sem estardalhaço, sem vozes

eu mesma aprendi a gritar no vazio espantoso

de meu solitário abrigo,

eu mesma cantando e contando cédulas e células

de meu tronco, e eu vazia

porque esvaziei-me na penumbra

do meu achado, o tesouro que outrora escondido,

fazia curiosos outros diferentes de mim,

agora estou bem e até desconfio

que aquele que vem lá é o próximo trem

para eu sumir luzindo em luz azul

que desta cor é o louco céu

e não necessito eu de mais nada

que não seja minha própria clausura

assim penso melhor, vivo melhor

e adeus rapinas do meu idílio

vejam que me fui…

sosseguem tolos

que tudo que some aos olhos

descansa do abuso

de olhar o que não quer.

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Poema do Advogado

 

Poema ao advogado

(Aónio Eliphis, Filadélfia, Dezembro de 69)

Onde estavas meu cabrão
quando Lhe decretaram
a crucificação?

Onde estavas filho da puta
quando Lhe recriminaram a conduta?

Onde estavas meu cabrão
quando nem Madalena
Lhe esticou a mão?

Onde estavas Cristão-Novo
quando a sentença
Lhe decretou o povo?

Onde estavas advogado
quando Ele foi açoitado?

Ei-lo disse Pilatos
e após os maus-tratos
após ser chicoteado
após o Filho ser vexado
depois de denunciado
E aos Seus nobres atos
Tu advogado
Ficaste calado
e perante os factos
consideraste-O
culpado!

Onde estavas meu cabrão
quando Lhe decretaram
a crucificação?

Tu que enriqueceste
a defender o violador
o pederasta e o corruptor

Tu que te imiscuas
com mulheres nuas
na política e na finança
que defendes o violador
o pedófilo e o doutor
tu que vives na fartança
do dinheiro amealhado
ao incauto desgraçado
que dás a retardança
ao processo do corruptor
e delineias a esquivança
jurídica do prevaricador

Onde estavas meu cabrão
quando ninguém
Lhe esticou a mão?

Enriqueces com o incauto
e defendes o pederasta.
Adulteras o auto
defendes o traficante
e o déspota dinasta.
Já ao plebeu errante
aplica-se a Lei nefasta

Não te vi naquele dia
em que Pilatos decretou
em que o povo gritou
Não te vi, no monte das Oliveiras
nem quando o soldado O açoitou
mas vejo-te nas ombreiras
dos palácios e dos castelos
nas mansões dos corruptores
com Lúcifer crias os elos
nas mansões dos pecadores

Não te vi naquele dia
em que o Filho sofria
mas vejo-te na TV
a defenderes quem não crê

Defendes o rico
o poderoso e o estuprador
e perplexo fico
quando ilibas o corruptor

Nefasta clientela
que com luxo, te alimenta
Libertas da cela,
quem do povo
corruptamente
se sustenta

Onde estavas meu cabrão
quando o cravo Lhe cravou a mão?
Onde estavas ralé
quando o cravo Lhe cravou o pé?
Devias estar no cadafalso
quando O chamaram de falso

Não te vi naquele dia
em que o Filho sofria
Não te vi advogado
quando Ele foi açoitado
de Lúcifer és o neto
e desapareceste
quando Pilatos
Lhe proferiu o decreto

És um génio em expedientes dilatórios
para o corrupto e o poderoso
e perante os factos acusatórios
usas de um ardil asqueroso

Já ao pobre e ao miserável
que se fodam pensas Tu
que apodreças numa cela
nauseabundo e nu!

Onde estavas naquele dia
em que o Filho sofria?

Artigo pertencente ao Blog Vera Veritas

Edgar Allan Poe

Não fui, na infância, como os outros

e nunca vi como outros viam.

Minhas paixões eu não podia

tirar de fonte igual à deles;

e era outra a origem da tristeza,

e era outro o canto, que acordava

o coração para a alegria.

Tudo o que amei, amei sozinho.

Assim, na minha infância, na alba

da tormentosa vida, ergueu-se,

no bem, no mal, de cada abismo,

a encadear-me, o meu mistério.

Veio dos rios, veio da fonte,

da rubra escarpa da montanha,

do sol, que todo me envolvia

em outonais clarões dourados;

e dos relâmpagos vermelhos

que o céu inteiro incendiavam;

e do trovão, da tempestade,

daquela nuvem que se alterava,

só, no amplo azul do céu puríssimo,

como um demônio, ante meus olhos.


Noite Apressada

Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh’alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!

David Mourão-Ferreira, in “À Guitarra e à Viola”

MegaBytes

De imediato me vem à cabeça uma imagem obscura quando pretendo refletir a respeito de meus anseios literários. Tantos estilos desembocaram nesta era de mentira, fragmentos e superficialidade, que me bastava apenas folhear minha memória tão antiga quanto Almeida Garrett e seus românticos teatros. O que faria eu em Lisboa, hoje? Sem honorários a Castro Alves ou Fernando Pessoa, o mundo ficou mais frio. Os hiperlinks e mídias imediatas, destroem os livros de papel. Não sei mesmo viver sem este perfume, e quanto mais antigo mais digno é o odor das folhas amareladas. Sinceramente já não me alegro com a

 

Literatura pós-moderna, que se vale da tecnologia para esquecer parnasianos, congelando Olavo Bilac, alienando toda esperança de uma nova arte. Apenas vejo o reflexo do Realismo e Naturalismo, mas submerso no lodo político, na ganância do capital. Século XIX deixou em mim nostalgia, sepultando para sempre qualquer expectativa de uma revolução artística, por conta da computação gráfica e da celeridade internética. Empunho minha alma, mas a arte não sai. Não há motivo para se fazer arte; não há apelo mais. O interior humano está cravejado de megabytes. E poesias são como uivos, mas não como os de Allen Ginsberg.

Expurgo

Sempre quando durmo assassinada por ti, ou melhor, por tuas palavras,

Fica um grito, uma coisa como um bicho na garganta, sensação inócua

Porque é pueril a realidade de tua existência em mim.

Pensa que pensa que pensa e nada, e nada faz sentido ou muda as coisas.

Homens não querem ser amados, não querem ser furtados em seu ser.

Expurga do meu pensamento lágrimas de asco e dor em minha face;

Como pude querer ser e estar ao teu lado, uma passageira e cinematográfica nuvem,

Um sol que não aquece que é estóico como um carrasco medieval, prurido de sal,

De beijos como os de Edward, e beijos franceses, mordidas de abelhas  in África.

Bondoso é teu coração, folhagem de independência, sexo oculto, mente brilhante!

Dormir é apenas fechar os olhos úmidos e odiar sonhar, pra quê sonhar?

Bendigo a distância entre mim e você, curumim de olhos claros, bonacha da terra…

Agora suspiro, vomitei, esbravejei minh’alma… Adormeci.

Luto

Luto
Luto contra
Eu luto meu luto
Sempre
Por um instante
Se luto é meu
Não-luto não luto
Se luto os outros
Luto com palavras
Sozinho
Mas ainda
Luto.
……………
Mais que um poema, são palavras fortes que causam espanto ao espírito porventura adormecido pelo cansaço. Poema do escritor e filósofo Jefferson Maleski.