As Coisas Transitórias – Tagore

Irmão,nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.

A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre…
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas …
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.

É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera”
Tradução de Manuel Simões

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Se Fosse Possível

Quantas opções de vida e morte trago em mim não saberia dizer. Arde-me ânsia quase etérea de mudar todas as coisas. Data de nascimento, origem das galáxias, a cor dos planetas e até Deus eu posso mudar. Tudo enjoa, e nada muda se eu não mover o inferno e as estrelas cadentes. Antes que me torne eu mesma decadente, vou rasgar os céus, engolir pedras de gelo, adoecer e me curar, a verdade é que a felicidade é a ausência da dor. Eliminando minhas dores poderei sorrir. Parir nunca mais, esperar o trem do Raul não vou mais, e se qualquer vizinho me chamar para uma festa, escolho a do enterro do velho da esquina. É. Quando morre alguém a vida desperta em mim. Egoísmo? Talvez seja, mas só me sinto viva matando. E mato as estrelas, e faço chover. Na realidade ou na ficção, Deus sou eu.

A Garota do Jack

Ela nasceu, cresceu e morreu da mesma forma. Sorria e chorava nos tempos certos, comedidamente. Tristemente. Nada pediu da vida, nem mesmo irmãos teve para brincar.

Era só, escondida no final do corredor, no quartinho úmido onde raramente alguém entrava. Ela era esquecida, abandonada pela desolação daqueles duros tempos. Londres era fria como sempre fora. Escura-cinzenta, agourenta, má.

Homem bom, namorado, não sabia deveras o significado.

Sua única companheira era aquela, mesmo deixando-a só nas noites de natal, sempre voltava com um presente barato, e ela sabia que era daqueles homens que a apertavam, na velha cama, quando ela resolvia não sair de casa. Preguiça alcoólica, dores no corpo. Cólica de aborto.

Viveu da forma que aprendeu na vida. Desgraçada e nebulosa, sem filhos, sem irmãos. Apenas marcas na alma, e profundos arranhões no coração.

Os assassinatos não pararam até que a próxima vítima fora sua mãe. Estripada e só, jogada numa calçada.

Anos mais tarde, igualmente, morreu sozinha, numa noite de chuva fina. Afecção desconhecida. Londres se despediu dela, com um leve sorriso de alívio. E nada mais.

Deus! Acabou o Pesadelo!


Ideias Medievais

Na boa, e sinceramente, muito me custou acompanhar a rodada do bloguito literário Duelo de Escritores, tarefa realmente estafante, inglória e entediante, haja vista que minhas previsões se cumpriram. Nenhum texto brilhante, nada de novo. E muita falta de imaginação, culminando com o sofrível “mini-conto” do “moderador” Jefferson Luiz Maleski. Ao menos ele tentou justificar sua deficiência:

eu tinha outro texto em mente, mas como estou em viagem ñ consegui separar o tempo necessário p trabalhar nele. assim, fica oq consegui produzir, hehhe. espero q tenha ficado legalz.

Entretanto, como o escritor é mesmo criativo, eis que conseguiu produzir atmosfera de terror, de pesadelo, já que no referido conto intitulado Quando eu crescer quero ser igual ao meu pai, o autor narra o sufoco de alguém menos favorecido que trabalha para comer, alguém pobre e escravizado pelo Sistema, sem o menor respeito pelo personagem, ou pela sinopse de sua vida. E não sei se a ideia chega a ser um pesadelo, uma vez que o país já se acostumou com esse Status quo. Enfim. Cumprida minha missão, e como fui cobrada para ir até o fim, aí está a crítica do último texto da rodada.

Como amante da arte, espero que os duelistas, visivelmente fatigados, tenham mais capricho nas próximas propostas, para que eu, também cansada deste famigerado duelo, possa seguir em frente. Por favor, não me provoquem mais com textos tão desprovidos de alma.

Que Elaine Rocha, Natália Oliveira, Vogan Carruna, e Jefferson Maleski, tenham mais amor à arte, à literatura. E que não envergonhem a classe de escritores da internet em troca de comentários em seus textos. Às vezes o silêncio faz crescer o artista. Feedbacks muito desejados conotam insegurança e falta de amor à arte que não pode ser tão egoísta.

Contudo, não baixem a guarda. Se aparecerem motivos na próxima rodada, estarei aqui, de olho, não em vocês, mas na arte de escrever literatura genuína, aquela que nasce de uma ideia apaixonada, e não com a imposição de um tema proposto.

Boa sorte a todos os duelistas!

Inté!

Castelo de Cartas – Luiz Guilherme Volpato

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Castelo de cartas

De tanto empilharmos sonhos

tentamos alcançar o céu

Construimos algo grande

Baseado no que não somos

Nosso construto foi invejado

por todos ao redor

algo que erigimos, com sonhos e suor

Superando as nuvens, almejando o céu

Nem vimos quando ruíu

A nossa torre de Babel

Hoje falamos línguas diferentes

e mal podemos nos comunicar

e entre dois pares de braços

um abismo se criou

E ficamos distantes,

ficamos pequenos no horizonte

Nunca mais voltei a torre

nunca mais empilhei meus sonhos

nunca mais dei as costas ao mundo

nunca mais

nunca mais

Porém ainda olho para cima

e assim, contemplo o céu

E sinto falta de nós dois, em nossa torre de babel

Alheios a tudo

Alheios ao mundo

felizes

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A Puta de Cada Dia – O Desbunde

Uma Thurman

Seria a puta daquele que a fizesse uma. Não era mulher cotidiana, esporrava entre pernas dores de uma barbárie. Não sabia o significado da palavra “felicidade” e abortava filhos não desejados, quase corrompidos. Ainda sangrava e como sangrava. Confundia-se entre o existencialismo e o materialismo. Não era mulher parideira. Era um ser em eterno combate com sua própria natureza. Ventava cabelos entre florestas e relutava em aceitar existência. Não era mulher refletida e manifesta em costelas de um único indivíduo. Era a própria coluna: mulher. A diferença rasgava sua boceta de Pandora, ainda molhada pelos males do mundo. Negava! Negava! Abnegava! E, na Bíblia, encontrou sua resposta: seria a puta que jamais iria parir.
Salve Nossa Senhora!

O Desbunde

Ei Defunto – O Desbunde

Remexia-se na cama como defunto na cova.

Ei, defunto

o tempo seduz ponteiros de madeira fria
meras redundâncias contemporâneas…

Ei, defunto

Neruda se confunde com tempos verbais
lombadas de livros deixam ásperas as mãos de Borges.

Ei, defunto

vem, com dissonante voz, vem
alimenta ruídos de meu estômago

ei, defunto

quase me esqueci das entrelinhas esgarçadas
cobre meu corpo com teu manto noturno
e, por fim, descobre a aurora de meu corpo
no fundo de um quarto de Van Gogh

Ei, defunto
Ei, defunto!
Ei, defunto?

A sete palmos lhe beijo a face
quem sabe de amanhã

O Desbunde

Camila Marins é proprietária do blog O Desbunde, é jornalista, poeta, contista e gente boa à beça!

Esquivas Amorosas – Luiz Guilherme Volpato

Incertezas de um futuro esquecer

Não sei que brados irão me levar

Pois não sou mais indolente o bastante, para me deixar levar pelo indomável amanhã.

Nem serei seduzido pelo inevitável amanhecer.

Careço de alguma definição

Pois já gozo de algum amadurecimento

E as letras das músicas de suas baladas, necessitam entendimento.

Não quero ter de prestar significações,

A romances incertos na madrugada

Não desejo ser apenas mais um corpo a ser usado.

Nem ser o refém de um maldito telefonema.

Cujo não tocar, abala minha noite de sono.

Porém nem tão pouco algo seguro e calmo… que manteria minha cabeça firme em um travesseiro.

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Afogado

A escondo em fotografias

Subtraindo-a da memória

Lembranças valiosas, sufocantes.

Um solo sagrado, onde não mais poderemos ser vistos juntos.

E o guarda-chuva de seu daiquiri, não a protegerá das lágrimas boemias.

Dos vidros embaçados.

Dos olhares opacos.

Da fórmula do elixir que criastes, com icebergs perdidos em seu copo de whisky.

Macular seus antigos sorrisos, com sua visão atual.

Refugio seus grandes momentos nos papéis guardados.

Escondidos, protegidos.

Não os levarei comigo.

Mas reconheço sua beleza.

E por isso a encarcero numa fortaleza de papel.

Pois em algum lugar, ainda é necessário que você exista.

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Despertar

Tenho estado distraído

Muitas coisas passaram sem atenção

Lugares perdidos

A mente ancorada em algum lugar

E pessoas entraram e saíram da minha vida como vultos despercebidos

Sem a menor ansiedade, deixei fluir sem significado.

Sem merecer um “por quê?”.

Sem merecer um segundo olhar.

Deixei muito passar.

Você passou?

O que houve com seu brilho?

Por que não me atraiu?

Julguei que estivesse esperando por você.

Mas onde está todo o nervosismo?

E finalmente, totalmente desperto, olho para você.

E não sinto mais nada.

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Continentes

No horizonte você repousa
Meus olhos não te alcançam
Por vezes meu coração ruma sozinho

Começo então a peregrinar

Saboreando o alívio que é saber de sua existência
Minha jornada não me preocupa quanto aos perigos
Mas com o que encontrarei
Na outra extremidade dessa estrada

Me mostre onde você se esconde
Quero me mesclar a sua essência
E banhar-te em meu suor

Por mais escaldante que seja o caminho
Imaginarei a brisa que emaranha seus cabelos
chegar a mim com seu perfume

Não sabes por onde andei
Não sei aonde ainda chegar

Não me espere de braços abertos
Não me espere de forma alguma

Venha em minha direção
Ou dificulte minha vida,
não importa.

Como posso me perder?

Todos os caminhos me levam a você.

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Volpato

Luiz Guilherme Ricci Volpato tem 32 anos, é Psicólogo Comportamental Cognitivo, trabalha com adolescentes, perda de peso e sexologia. Seus interesses começam na Filosofia, passando pela mitologia, literatura estrangeira. Começou nas a expressar-se no universo das palavras através de poemas e crônicas; atualmente tem planos de escrever contos ( que serão muito bem-vindos aqui!).

A Troca Justa

Aprendi que a Paz é mais saborosa que a guerra; entretanto, também cursei a escola da dignidade, onde entendi que “quando um não quer dois não brigam”, mas também sou a favor de duas mãos cumprimentando-se, fazendo a honrosa paz. Contudo, se falta uma das mãos, não vejo motivo para ficar sozinha com minha mão estendida. Cansa, e dá cãibra, na alma e no espírito.

Chamados Noturnos – Braulio Tavares

Bateram à tua porta
você abriu
e recuou:
era um homem
com os olhos esmagados.

Chamaram à tua janela,
você atendeu:
era um homem
com o corpo cheio de aranhas.

Entraram no teu quarto
você acendeu a luz:
era um homem
com um serrote atravessado no peito.

E agora
o que farás com eles?
Agora, que ficarão aqui contigo
até o fim da tua existência?

Braulio Tavares, velho conhecido, poeta, escritor, cineasta, compositor e ser humano maravilhoso!