Livro – Frederico García Lorca

Sonetos de amor obscuro é uma linda coletânea, um clímax na lírica deste poeta extravagantemente sensível; um escritor que faz com que o leitor suspire e repense a vida a cada leitura.

O POETA PEDE A SEU AMOR QUE LHE ESCREVA

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra e nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

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Isso é que é pesadelo

Cada passo que eu ouvia, mais sentia vontade de ficar no mesmo lugar. Era eu ou ele. Pelas vidraças podia ver seus olhos negros, a pele muito branca, e as mãos eram, eram como se fossem terríveis garras. Cada passo seu eu tomava coragem para abatê-lo, matá-lo com minhas próprias mãos.

Não havia nenhuma arma ao meu alcance. Teria que ser do meu jeito, da forma como aprendi a lutar. O monstro filho da puta só me olhava agora. Indecente, seus olhos mudavam de cor a toda hora. Agora eram verdes. Mas um verde que não era daqui da terra. Finalmente percebi que ele poderia ser um alienígena. Respirei fundo. Contei até dez. Depois até vinte. Precisava de coragem. Mil e um, mil e dois, mil e…

Ele pulou em minha garganta, esfolando-a com suas enormes unhas negras. Ele era negro, acho, talvez pela falta de luz que ele não trazia consigo. Argh! Ele me mordeu os olhos e a boca. Mas não era beijo, era a morte, a raiva, a dor. Não, eu não gritei, não, mas senti meu amor caindo num precipício, ele era o meu horror.

Finalmente, ferida, triste, humilhada pelo monstrengo, eu voltei para meu computador. Olhei e olhei. Então entendi: o portal era o MSN, a internet! Monstros virtuais não poderiam me atacar mais. Sonho louco, pesadelo dos infernos. Eu o excluí. Mas fiquei pensando em sua próxima vítima…