O Dia Depois De Ontem – Louis Alien

O clarão veio.

Acordou, esfregou os olhos,virou a cabeça para o lado. Tinha dormido de bruços, ajeitou-se sobre o colchão, entre os lençóis úmidos de suor. O pesadelo de hoje tinha sido melhor que o de ontem. Não sabia quem era. Onde estava? Desvirou-se , com certa dificuldade sentou e afastou a roupa de cama molhada.

Abriu os olhos. A luz impedia de sua visão, seus olhos já eram naturalmente apertados.

Por que acordar? Por que sair da cama todos os dias? Por que andava sempre do mesmo jeito, meio grogue, até o banheiro comunitário da cabeça de porco onde morava, e precisava molhar o rosto com a água putamente gelada para poder se reconhecer diante do espelho gasto e sujo?

Todo dia igual. Um copo de leite com água para render, talvez alguns biscoitos de água e sal que não pareciam ter o tal sal na composição, insípidos. Depois o cigarro, raramente não amarrotado, normalmente ausente. Alguns minutos para ler o jornal do dia anterior. A única diferença era a máquina de escrever, sob a escrivaninha velha, com adesivos de correspondência colados no tampo direito. Alguns dias escrevia nela, com ela, outros não. A maioria. Sentia-se bem ao desempenhar o ato, ver as coisas vindo à vida. “Coming to life” como leu um dia desses.

E o dia de hoje, sempre depois do de ontem. Parecia que carregava o mundo nas costas. Quem poderia falar de liberdade? Talvez ninguém. Ser livre demandaria muita responsabilidade. “Quem pensa por si mesmo é livre, e ser livre é coisa muito séria”, disse alguém na rádio, em meio a uma canção perdida qualquer, que ninguém devia dar ouvidos.

Liberdade, que piada.

Sentou-se em frente à maquina, acendeu o cigarro amarrotado. As mãos começaram a trabalhar, como se tivessem adquirido vida própria.

O sonho começa então com a visão tubular enevoada de uma enorme escada rolante. Na verdade, duas, emparelhadas, num lugar qualquer indescritível em termos de localização. Uma delas sobe, outra desce. Há outras pessoas nelas, mas elas não são importantes, não prendem sua atenção.

Luzes mornas amareladas.

Tudo tranquilo.

Escolhe a escada de descida, não sabe bem porquê, mas parece que tem que descer.

De repente tudo muda, mas o lugar é o mesmo, nota que as pessoas ao seu redor não têm rosto, nome, parecem feitas de borracha, pelo movimento flip flapt flept que fazem. Parece um tipo de epilepsia moderada. São artificiais, mas não são. Tudo que ao redor, inclusive as mesmas pessoas, vertem-se em tons de cinza. As cores mornas esfriam, e não só elas, mas o clima torna-se gélido, contundente, desesperador. E a descida parece durar uma eternidade – mas é rápida, certeira. Só há uma luz, onde termina a escada. Branca como o esquecimento e o vazio, que é Tudo – e Nada.

Sente a garganta secar, contrair, apertar tanto que não pode mais respirar. Tenta virar-se e subir por ali mesmo – pela descida, mas as pernas não obedecem, malditas pernas, nunca funcionam quando se quer, ficam moles, ocas, sem sensação e simplesmente não recebem as ordens de seu sistema-mais-que-nervoso. Começa a gritar, gritar tão alto que todas as pessoas sem rosto viram, de modo repressor e agressivo, e se voltam em sua direção.

A luz branca fica mais perto, cada vez mais, e as pessoas sem identidade também. Sente o sangue grosso e morno contrastando com a temperatura ambiente escorrer livremente pelo nariz boca e pescoço. E sua voz se vai.

Mãos por todo o lado, mais frias que o resto, tateando, afagando antes do ataque.

O clarão.

O grito.

E lá estava a maquina de escrever, diante dele. Suspirou fundo, como quem sai de um banho de mar que acabou num caixote. Ainda tonto; terminou o cigarro, amassando contra o cinzeiro ao lado da máquina.

De algum modo, dava pra sobreviver mais um dia…

Louis Alien é Escritor, leia mais dele em seu blog.

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Criando Com Medo de Perder – A Quimera Literária

Como já era de se esperar, nada de novo ou surpreendente aconteceu – até agora – no blog Duelo de Escritores. O tema da rodada, como já havia informado é pesadelo. Já chegaram três textos.

– O primeiro, da novata Elaine Rocha, cujo título (muito original) é Pesadelo, na verdade não preencheu nenhuma expectativa, entretanto, também não causou dissabores à leitura. Por ser iniciante, eu diria até que a jovem escritora saiu-se razoavelmente bem, narrando, em “tempo real”, as angústias de um sonho, daqueles onde a pessoa é perseguida por monstros de olhos vermelhos. Mesmo errando no tempo, que exagerou, uma vez que está comprovado que este tipo de sonho dura, no máximo, cinco minutos, creio que cumpriu a proposta do tema. Este sonho está no imaginário do chamado terror noturno. Está bem escrito, porém eu percebo que, a cada rodada, os escritores, por se verem obrigados a competir, deixam de lado sua alma poética e criadora. Tomara que Elaine Rocha acorde a tempo, e perceba que em literatura não se duela, mas se encanta e se é encantado com textos produzidos a partir de uma ideia própria, com paixão e amor.

– O segundo texto chama-se Ele quer você, do experiente escritor Vogan Carruna que, mesmo sendo experiente, caiu na ordinária tentação de escrever sobre perseguição e monstros de olhos vermelhos (hehehe). É o caminho mais fácil quando não se faz um estudo mais profundo sobre o tema, principalmente este, que carece de muitas pesquisas. O texto é longo, mas prende a atenção do leitor, conduzindo-o ao desfecho que, mesmo já sabendo qual é, ainda assim, considero um bom texto. Um pouco mais de pesquisa e o escritor poderia ter explorado mais o tema “psicose”, uma vez que sua personagem é, claramente, psicótica. Sem contar com a última frase do texto que, por demais coloquial, prejudicou a literariedade do mesmo. Podemos ver no trabalho de Carruna o mesmo anseio em competir, o que, certamente, diminuiu a qualidade da obra.

– E o terceiro texto é Pesadelo real, da escritora iniciante Natália Oliveira. Apesar dos erros ortográficos que podem “assassinar” um texto, com tantas ausências de vírgulas, pontos finais, ponto e vírgula, é um texto diferente dos outros, e ela chamou minha atenção pela originalidade, optando por uma narração real, um assalto seguido de estupro e, possivelmente, de morte. Só temo que esta estreante seja seduzida pelo glamour da disputa, consequentemente da vitória. Há muitas deficiências em seu texto, mas há garra e criatividade suficientes para derrubar os concorrentes até agora, uma vez que ainda não foi “contaminada” pelo monstro da disputa inquisitória que reina no bloguito literário, o Duelo das Quimeras.

Este post é para fazermos um alerta a respeito da mola criadora do escritor que não pode ser “obrigado” a escrever, a menos que seja para retorno financeiro, do contrário, o máximo que se consegue em tal “jogo literário” é receber feedbacks, nem sempre elegantes, nem sempre embasados, já que todos por lá são críticos despreparados, a exemplo dos “moderadores” Jefferson Luiz Maleski, e o proprietário do blog Fábio Ricardo. Nem um e nem outro têm formação acadêmica em Língua Portuguesa e Literatura.

No mais, estaremos aguardando os próximos textos. Ou pesadelos.

Inté!

Sêneca – Leitura & Escrita

Leitura e Escrita
A leitura, é de facto, em meu entender, imprescindível: primeiro, para me não dar por satisfeito só com as minhas obras, segundo, para, ao informar-me dos problemas investigados pelos outros, poder ajuizar das descobertas já feitas e conjecturar as que ainda há por fazer.
A leitura alimenta a inteligência e retempera-a das fadigas do estudo, sem, contudo, pôr de lado o estudo. Não deve­mos limitar-nos nem só à escrita, nem só à leitura: uma diminui-nos as forças, esgota-nos (estou-me referindo ao trabalho da escrita), a outra amolece-nos e embota-nos a energia. Devemos alternar ambas as actividades, equilibrá­-las, para que a pena venha a dar forma às ideias coligidas das leituras. Como soe dizer-se, devemos imitar as abelhas que deambulam pelas flores, escolhendo as mais apropriadas ao fabrico do mel e depois trabalham o material recolhido, distribuem-no pelos favos e, nas palavras do nosso Vergilio, o líquido mel acumulam, e fazem inchar os alvéolos de doce néctar.

(…) Nós devemos imitar as abelhas, discri­minar os elementos colhidos nas diversas leituras (pois a memória conserva-os melhor assim discriminados), e depois, aplicando-lhes toda a atenção, todas as faculdades da nossa inteligência, transformar num produto de sabor individual todos os vários sucos coligidos de modo a que, mesmo quando é visível a fonte donde cada elemento provém, ainda assim resulte um produto diferente daquele onde se inspirou. Um processo idêntico àquele que nós vemos a natureza operar no nosso corpo sem a mínima interferên­cia da nossa parte (os alimentos que consumimos, enquanto se conservam inteiros e flutuam sólidos no estômago são para este um peso; mas quando se transformam, logo são assimilados e se tornam músculos e sangue), um processo idêntico, dizia eu, devemos operar nos alimentos da inteli­gência, sem permitir que as ideias recebidas se conservem tal qual, como corpos estranhos. Assimilemo-las; se assim não for, elas podem perdurar na memória, mas não pene­tram na inteligência. Demos-lhes a nossa total concordân­cia, façamo-las nossas, tornemos um grande número de ideias num organismo único, tal como numa adição jun­tamos parcelas diferentes para obter um único total Que o nosso espírito faça a mesma coisa: mantenha ocultas as parcelas de que se serviu para exibir tão somente o resul­tado global obtido. Mesmo que seja visível em ti a seme­lhança com algum autor cuja admiração se gravou mais profundamente em ti, que essa semelhança seja a de um filho, não de uma estátua: a estátua é um objecto morto.

Séneca, in ‘Cartas a Lucílio’