A Puta de Cada Dia – O Desbunde

Uma Thurman

Seria a puta daquele que a fizesse uma. Não era mulher cotidiana, esporrava entre pernas dores de uma barbárie. Não sabia o significado da palavra “felicidade” e abortava filhos não desejados, quase corrompidos. Ainda sangrava e como sangrava. Confundia-se entre o existencialismo e o materialismo. Não era mulher parideira. Era um ser em eterno combate com sua própria natureza. Ventava cabelos entre florestas e relutava em aceitar existência. Não era mulher refletida e manifesta em costelas de um único indivíduo. Era a própria coluna: mulher. A diferença rasgava sua boceta de Pandora, ainda molhada pelos males do mundo. Negava! Negava! Abnegava! E, na Bíblia, encontrou sua resposta: seria a puta que jamais iria parir.
Salve Nossa Senhora!

O Desbunde

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Ei Defunto – O Desbunde

Remexia-se na cama como defunto na cova.

Ei, defunto

o tempo seduz ponteiros de madeira fria
meras redundâncias contemporâneas…

Ei, defunto

Neruda se confunde com tempos verbais
lombadas de livros deixam ásperas as mãos de Borges.

Ei, defunto

vem, com dissonante voz, vem
alimenta ruídos de meu estômago

ei, defunto

quase me esqueci das entrelinhas esgarçadas
cobre meu corpo com teu manto noturno
e, por fim, descobre a aurora de meu corpo
no fundo de um quarto de Van Gogh

Ei, defunto
Ei, defunto!
Ei, defunto?

A sete palmos lhe beijo a face
quem sabe de amanhã

O Desbunde

Camila Marins é proprietária do blog O Desbunde, é jornalista, poeta, contista e gente boa à beça!

Esquivas Amorosas – Luiz Guilherme Volpato

Incertezas de um futuro esquecer

Não sei que brados irão me levar

Pois não sou mais indolente o bastante, para me deixar levar pelo indomável amanhã.

Nem serei seduzido pelo inevitável amanhecer.

Careço de alguma definição

Pois já gozo de algum amadurecimento

E as letras das músicas de suas baladas, necessitam entendimento.

Não quero ter de prestar significações,

A romances incertos na madrugada

Não desejo ser apenas mais um corpo a ser usado.

Nem ser o refém de um maldito telefonema.

Cujo não tocar, abala minha noite de sono.

Porém nem tão pouco algo seguro e calmo… que manteria minha cabeça firme em um travesseiro.

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Afogado

A escondo em fotografias

Subtraindo-a da memória

Lembranças valiosas, sufocantes.

Um solo sagrado, onde não mais poderemos ser vistos juntos.

E o guarda-chuva de seu daiquiri, não a protegerá das lágrimas boemias.

Dos vidros embaçados.

Dos olhares opacos.

Da fórmula do elixir que criastes, com icebergs perdidos em seu copo de whisky.

Macular seus antigos sorrisos, com sua visão atual.

Refugio seus grandes momentos nos papéis guardados.

Escondidos, protegidos.

Não os levarei comigo.

Mas reconheço sua beleza.

E por isso a encarcero numa fortaleza de papel.

Pois em algum lugar, ainda é necessário que você exista.

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Despertar

Tenho estado distraído

Muitas coisas passaram sem atenção

Lugares perdidos

A mente ancorada em algum lugar

E pessoas entraram e saíram da minha vida como vultos despercebidos

Sem a menor ansiedade, deixei fluir sem significado.

Sem merecer um “por quê?”.

Sem merecer um segundo olhar.

Deixei muito passar.

Você passou?

O que houve com seu brilho?

Por que não me atraiu?

Julguei que estivesse esperando por você.

Mas onde está todo o nervosismo?

E finalmente, totalmente desperto, olho para você.

E não sinto mais nada.

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Continentes

No horizonte você repousa
Meus olhos não te alcançam
Por vezes meu coração ruma sozinho

Começo então a peregrinar

Saboreando o alívio que é saber de sua existência
Minha jornada não me preocupa quanto aos perigos
Mas com o que encontrarei
Na outra extremidade dessa estrada

Me mostre onde você se esconde
Quero me mesclar a sua essência
E banhar-te em meu suor

Por mais escaldante que seja o caminho
Imaginarei a brisa que emaranha seus cabelos
chegar a mim com seu perfume

Não sabes por onde andei
Não sei aonde ainda chegar

Não me espere de braços abertos
Não me espere de forma alguma

Venha em minha direção
Ou dificulte minha vida,
não importa.

Como posso me perder?

Todos os caminhos me levam a você.

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Volpato

Luiz Guilherme Ricci Volpato tem 32 anos, é Psicólogo Comportamental Cognitivo, trabalha com adolescentes, perda de peso e sexologia. Seus interesses começam na Filosofia, passando pela mitologia, literatura estrangeira. Começou nas a expressar-se no universo das palavras através de poemas e crônicas; atualmente tem planos de escrever contos ( que serão muito bem-vindos aqui!).