A Garota do Jack

Ela nasceu, cresceu e morreu da mesma forma. Sorria e chorava nos tempos certos, comedidamente. Tristemente. Nada pediu da vida, nem mesmo irmãos teve para brincar.

Era só, escondida no final do corredor, no quartinho úmido onde raramente alguém entrava. Ela era esquecida, abandonada pela desolação daqueles duros tempos. Londres era fria como sempre fora. Escura-cinzenta, agourenta, má.

Homem bom, namorado, não sabia deveras o significado.

Sua única companheira era aquela, mesmo deixando-a só nas noites de natal, sempre voltava com um presente barato, e ela sabia que era daqueles homens que a apertavam, na velha cama, quando ela resolvia não sair de casa. Preguiça alcoólica, dores no corpo. Cólica de aborto.

Viveu da forma que aprendeu na vida. Desgraçada e nebulosa, sem filhos, sem irmãos. Apenas marcas na alma, e profundos arranhões no coração.

Os assassinatos não pararam até que a próxima vítima fora sua mãe. Estripada e só, jogada numa calçada.

Anos mais tarde, igualmente, morreu sozinha, numa noite de chuva fina. Afecção desconhecida. Londres se despediu dela, com um leve sorriso de alívio. E nada mais.

2 comentários em “A Garota do Jack

  1. Muito bom o conto, complexo em sua própria simplicidade…
    O cenário da cidade gótica e sombria me vem a memória, trás um gosto metálico na boca
    e um aperto melancólico no peito, a saudade daquilo que nunca existiu…
    Sua escrita me fascinou, espero que ainda escreva muitos outros contos.

    Beijos Sangrentos.
    Calisto Seraphan.

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