Sem Crítica Literária Novas Modalidades de Escrever Via Net – Fim Dos Tempos

                    Os novos “escritores” da linguagem eletrônica – Literatura?

O Globo Blogs – Impasses da literatura contemporânea, por Alcir Pécora (Ver mais…)


“Ocorre, hoje, uma impressionante expansão das narrativas no cerne da própria existência. Antes mesmo de existir como evento, a ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality show, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe. Ocorre também na multidão que fala pelos blogs e pelas redes sociais, ou se monitoram pelos celulares, de modo que a ação ou a conversa é sempre exibição/narração da conversa. É como se o mundo inteiro fosse virtualidade narrativa antes de ser existência particular, e principalmente como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido. Esse é um dos pontos não negligenciáveis que parecem retirar a prioridade ou a exclusividade da narração do narrador literário. É um problema basicamente de inflação simbólica.

Escrever literatura, para mim, entretanto, é um gesto simbólico que traz uma exigência: a de ser de qualidade. Literatura mediana é pior que literatura ruim, pois, mais do que esta, denuncia a falta de talento e a frivolidade. A literatura decididamente ruim pode ser engraçada, ter a graça do kitsch, do trash, da paródia mesmo involuntária e grosseira: pode ter a graça perversa do rebaixamento. Já a literatura mediana não serve para nada. É a negação mesma da literatura, cuja primeira exigência é a de se justificar (justificar a própria presença) face aos outros objetos de cultura. E o que eles exigem é que você os supere, que se apresente como novo ou não dê as caras por lá.” (Alcir Pécora)

O bizarro movimento de (não) escritores que usam as ferramentas da web para se comunicar, tem fomentado grandes discussões no meio intelectual. Tal fenômeno, para lá de estranho, nem de longe eu chamaria de Kitsch. (Day)

O reboliço insano nas Letras, que está aquém do Kitsch, tem tomado proporções epidêmicas, mas nada que possa enfermar a Literatura. Porque quando não se faz realmente Arte, a ‘coisa’, por si só, desaparece com o tempo.

Tenho pesquisado na web blogs que alimentem tal movimento anti-literário, entretanto, até agora, só tenho como referência o blog Duelo de Escritores. Se o leitor for lá, perceberá bem o que  Alcir Pécora, professor de teoria literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está querendo nos passar.

Com o desaparecimento da crítica literária (que hoje restringe-se praticamente ao jornalismo), novas linguagens despontam. Certamente nada deverá convencer a estas pessoas de que o que fazem não é literatura, mas letrelagem, ou seja, um amontoado de palavras, feridas pelas más gramática e ortografia, abandonadas a um vazio de estética filosófica.

E não somente isto, mas a ausência perceptível e ao extremo da falta de leitura.

Um bom começo…

Como alguém pode pretender-se escritor sem, antes, ler Shakespeare, Platão, Machado de Assis, Freud, Jung, Franz Kafka, Fiodor Dostoievski, Nikolai Gogol, Jane Austen, Sófocles, Aristóteles, Mahabharata, Agostinho de Hipona, Dante Aliguieri, Cervantes, Erasmo de Roterdã, Ghoethe,  Hermann Hesse, Antoine de Saint-Exupéry, Marcel Proust, Alexandre Dumas (pai), Charles Baudelaire, León Tolstoi, Oscar Wilde, George Orwell, Rabindranath Tagore, Camões, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José de Alencar, Graciliano Ramos, Érico veríssimo, Clarice Lispector.

Exemplo de Arte. O retrato acima é de Dante Aliguieri, obra do artista norte-americano John Sokol, que desenha o rosto com frases grafadas dos prórios escritores. Somente uma alma refinada pode entender o mergulho de Sokol; a ânsia com a qual ele quer definir o escritor, fundindo sua obra com sua psiquê (imagem).

No blog Duelo de Escritores, o constrangimento é total. O crítico literário Jefferson Maleski chama seu conluiado de escritores amadores :

“tenho certeza dq vc vai apreciar a interação entre os escritores amadores e leitores do blogue.”

Em outro trecho o próprio moderador dúbio define o espaço:

“deixo como sugestão q vc leia o regulamento (clique aqui) da nossa brincadeira literária p q na próxima vez apareça com uma bazuca.” (?!)

Pessoas deste quilate fazem parte de uma falange obscura que confunde escrever com escrever literatura. De alguma forma, em seu íntimo não reverbera o canto da Arte. Afinal, a Arte é uma das formas que o homem encontrou para filosofar com seus sentimentos. Uma obra é Arte se, e só se, exprime sentimentos e emoções do artista.

O que seria Literatura Amadora?

Segundo entendi, o escritor quis dizer com tal termo (que não se acha nem no Google) que escrever com erros gravíssimos de gramática, ortografia, sintaxe, textos vazios e sem mensagens,  pode passar despercebido. Não sendo eu radical, até ignoro alguns erros (quem não erra?) desde que a criação seja de qualidade, que o escritor tenha propriedade sobre o assunto abordado, ainda que ficcional, e, claro, que o escritor não seja aculturado, néscio, obtuso e filosoficamente analfabeto. E nenhum dos participantes do blog (com excessão de Maleski que é filósofo e leitor ferrenho) pode escapar deste crivo, infelizmente, e, ao se envergonharem em público, envergonham também a nós outros, brasileiros, que tanto amamos a Literatura. Ou não. Cada macaco no seu galho.

Segue abaixo trechos de imperdoáveis erros para um escritor, mesmo iniciante:

– “Lágrima que soluça a magoa que meu coração trás.” (Maria Dias)

– “1. o certo é meio-dia e não meio dia
2. no seu texto vc usou 2x “de encontro a” (multidão/marcos) qdo o certo seria “ao encontro de”, por causa do sentido da frase.” (Natália Oliveira).

Esta é uma leve correção do próprio crítico para não denotar a conivência com tal fraude literária.

Que contraste perturbador existe entre a inteligência radiante de uma criança e a frágil mentalidade de um adulto mediano. (Sgmund Freud)

Frases célebres de alguns candidatos a escritores do blog Duelo de Escritores:

Me atrapalhei com a data, escrever e diagramar com duas crianças de 3 e 4 anos no meu pé não é fácil.

(Natália Oliveira que em seu texto tacanho começa, xenofobicamente, criticando o clima de Copacabana e assaltos nas areias. Esta é forte candidata à lista de blogs de literatura amadora. Confiram o seu espaço intitulado Pensebook).

…fiquei assustada quando subi um pouco o cursor do computador para terminar de ler, mais foi um susto muito bom…

(Maria Dias, a novata que ainda estamos curiosos em saber se é brasileira, criança ou fugiu da escola, pois nem as regras do joguinho ela entendeu, transformando o blog numa babilônia dos horrores.)

Cada dia que passa fica mais difícil decidir entre os textos. Publicar um livro Duelo de Escritores até que não é uma má ideia.

(Mais Natália Oliveira, prolixa e sem noção)

já que mencionei em fazer um livro, vou aproveitar este espaço para divulgar um projeto do qual estou participando/Se trata de um livro com mil autores…

(Natália Oliveira espalhando o vírus)

Vou ter que discordar do nosso amigo JLM. Erros ortográficos quando se trata de fala do personagem está perdoado pois ninguém fala o português corretamente o tempo todo, a não ser que seja um personagem milionário como o príncipe da Inglaterra.

(Ela, Natália, de novo, totalmente gripada, justificando seus erros fenomenais de escrita)

Apenas um comentário que venho recebendo pelos meus editores…

(Natália Oliveira (editoreS?) bateu o record da rodada. Se escrevesse bem como escreve besteiras…)

É verdade Natalia, seriamos mudas sem agilidades e força nos dedos que é a nossa farinha de cordão

(Maria Dias, aquela)

O que seriamos de nós escritores sem elas? (as palavras)

(Ainda Natália Oliveira –  “Elas” quem Natália? As palavras? Ditas ou escritas? “Elas” quem? Novos signos? Novas linguagens? Novo surto? Pense nisso, pense book, leia books)

              Como diz a logo de seu blog: pense book, escrever é o de menos.

Teríamos muitos mais exemplos, porém o artigo precisa acabar. Contudo, na continuidade estarei falando sobre este assunto tão importante: Literatura e Crítica Literária.  Trarei textos de escritores e críticos renomados. Quiçá até matéria em jornais.

Por falar em críticos, aos leitores que estão sentindo falta de minhas opiniões (que não são críticas) dos últimos textos concorrentes no Duelo de Escritores, explico: por não considerar aquilo Literatura, dei-me ao luxo de ignorar os textos Duelo de Palavras, de Maria Dias; e O fim é apenas o recomeço, de Natália Oliveira. My time is precious to the true art and literature. Contentem-se com o que já comentei acima, queridos leitores.

Mesmo nos tempos de mais grave doença, nunca me tornei doentio. (Nietzsche)

Esta é uma epidemia, um vírus que tem tentado destruir a Literatura, contudo, como disse-o bem Alcir Pécora (que alívio!), nada que necessite grandes alarmes. É praticamente inofensivo, não deve se alastrar tanto. Por uma simples razão: por mais que estes estranhos seres invadam a arte de forma tão inescrupulosa, nós, leitores, estaremos de prontidão. Ninguém pode nos enganar. E todo bom leitor saberá separar o joio do trigo. Graças a Zeus! (E a Dionísio).

A crítica literária é hoje praticada por duas espécies de indivíduos: a dos críticos e a dos recenseadores. A partir daqui, considero crítico literário todo aquele indivíduo que também sabe ou soube ser teórico, conhece ou reconhece o que é ser teórico. Assim, o crítico é aquele que mais próximo está de um filósofo. (António Sérgio)

Inté!

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Reptiliano – Luiz Guilherme Volpato

E acordo assim.

Com o sono invadido por sonhos e lembranças.

Como realidades hipotéticas.

De uma época onde curvas no caminho ainda poderiam ser tomadas.

Num mundo onde fechar os olhos e sentir a brisa contra o rosto ainda fazia sentido.

Numa época onde meus desejos e orações eram endereçados a mesma pessoa.

Onde haveria sentido voltar ou não sair de casa.

Mas de cicatrizes sobrepostas meu coração se tornou escamoso.

Duro, frio… feio.

Não desejo saber de seu paradeiro.

Não me interesso por sua vida.

A curiosidade é menor que a segurança da beira do meu lago.

Não a quero aqui hoje.

Mas sinto falta de mim, aí, ontem.

 

 

 

Para que escrever poesia? Para quem? – Les Murray

Reprodução/Internet / Les Murray.
Les Murray.

O instrumento

Quem lê poesia? Não nossos intelectuais;
eles querem controlá-la. Não os amantes, não os combativos,
não os examinadores. Eles também roçam-na em busca de bouquets
e trunfos mágicos. Não os alunos pobres
que peidam furtivamente enquanto criam imunidade contra ela.

A poesia é lida pelos amantes da poesia
e ouvida por mais uns que eles levam ao café
ou à biblioteca local para uma leitura bifocal.
Os amantes de poesia podem somar um milhão
no planeta todo. Menos do que os jogadores de skat.

O que lhes dá prazer é um roçar nunca-assassino
destilado, principalmente versado, e suspenso em êxtase
calmo na superfície de papel. O resto da poesia
de que isso uma vez já foi parte ainda domina
os continentes, como sempre fez. Mas sob a condição hoje

de que seu nome nunca seja dito: construções, poesia selvagem,
o oposto mas também o secreto do racional.
E quem lê isso? Ah, os amantes, os alunos,
debatedores, generais, mafiosos, todos leem:
Porsche, plástica, Gaia, Bacana, patriarcal.

Entre as estrofes selvagens há muitas que exigem tua carne
para incorporá-las. Só a arte completa
livre de obediência a seu tempo pode te fazer dar piruetas
ao longo e através dos poemas maiores em que você está.
Estar fora de toda poesia é um vazio inalcançável.

Por que escrever poesia? Pelo estranho desemprego.
Pelas dores de cabeça indolores, que devem ser aproveitadas para atacar
por meio de seu braço que escreve no momento acumulado.
Pelos ajustes posteriores, alinhando facetas em um verbo
antes que o transe te deixe. Para trabalhar sempre além

de sua própria inteligência. Para não precisar se erguer
e trair os pobres para fazê-lo. Por uma fama não-devoradora.
Pouca coisa na política lembra isso: talvez
os colonizadores australianos reinventando o falso
e muito adotado voto secreto, no qual a deflação podia se esconder

e, como um portador do bem-estar, envergonhar as Revoluções da vala-comum.
Tão cortada a machado, tão cônsul-ar.
Foi essa uma brilhante vitória mundial da covardia moral?
Respirar em ritmo de sonho quando acordado e longe da cama
revela o dom. Ser trágico com um livro na sua cabeça.

Copiado do Blog Palavras Todas Palavras
Créditos – Gazeta do Povo
O blog traduz mais um poema de Les Murray, torcendo para na semana que vem ele ser anunciado como o vencedor do Nobel…

Fugindo das proibições, caiu em desatino pela Princesinha do Mar

              Quimera e loucuras, mas nem tudo é possível em Copacabana

Como não estou de TPM literária, o escritor Vogan Carruna passará pela malha fina sem muitos arranhões com seu conto Só mais um dia por aqui que está concorrendo na rodada do Duelo de Escritores, um blog de exercícios literários repleto de controvérsias, porém inegavelmente excitante no que tange à discussão e aprendizagem na arte de escrever.

Para quem não está acompanhando a via crucis, trata-se de um jogo onde, a cada quinzena, o ganhador da última rodada escolhe um tema para ser desenvolvido, fazendo com que muitas vezes os concorrentes, por falta de inspiração, tropecem em suas criações, já que são impulsionados por qualquer coisa, menos pela inspiração criativa. Vá lá, até aí morreu Neves.

Nesta rodada, o desafio da galera é escrever um conto ambientado em Copacabana, sendo, contudo, proibido usar 100 palavras que o autor do exercício, José Castello, chama de clichê , no que foi cegamente seguido pelo escritor e moderador do blog, Jefferson Maleski, um controvertido crítico de artes que, vez por outra, credita valores inexistentes a trabalhos literários, talvez para manter seus fiéis escudeiros, os participantes lá do blog.

Mas hoje é o dia de Vogan Carruna!, um bom escritor que representa, nesta rodada, minhas análises sobre o absurdo de se criar sob pressão, principalmente de proibições.

Quimera dos inocentes

Ao ler o conto de Carruna, a primeira palavra que me veio à cabeça foi quimera. Passei horas pensando no porquê desse substantivo feminino martelando em minha mente. Claro que, de cara, vi que a estória era totalmente inverossímel, com muitas deficiências,  abusando de uma linguagem coloquial que me lembrou alguns filmes nacionais e telenovelas, onde o roteirista e o escritor não conhecem a realidade do que escrevem quando o assunto é malandragem carioca.

O autor poderia argumentar que não se trata de malandros, mas de policiais malandros. A diferença seria pouca. Na verdade o policial malandro nem sempre usa gírias, porém geralmente faz uso de palavras obscenas, grosseiras e ofensivas, ou seja, os famosos palavrões. Pode até ser considerado estilo do autor não usar tais termos em suas criações, o que é uma pena, pois assim ele acaba com a verossimilhança dos personagens, conotando sua própria personalidade (a do autor).

O escritor que não faz uso correto da linguagem coloquial em seus personagens, geralmente é preconceituoso,  medroso, ou os dois, e isso prejudica sensivelmente suas obras. Melhor seria escolher outros personagens e ambientações, que deixar os personagens à deriva, entregues nas mãos do leitor e do crítico. Uma covardia. “Então presta atenção e tira o dedo dessa p**** de gatilho.” Quem pode levar isso a sério?

O  conto “Só mais um dia por aqui”

Trata-se da estória, até engraçada, de um policial veterano, e um policial novato que vive uma angustiante expectativa ante a disputa pela orla de Copacabana por dois bandidos. A ideia do tira iniciante apavorado pelo iminente confronto é boa, contudo, foi pouco explorada, levando o leitor a uma surpresa no desfecho, não posso negá-lo, entretanto, mais uma vez o escritor  virou criança, conduzindo-nos  a um espantoso o quê?!

Posso entender perfeitamente as limitações em criar quando  são impostas infindáveis regras para escrever. Compreendo que censura na arte é um vômito pela manhã, um absurdo despropositado. Todavia, como diziam os antigos, tá chuva é para se molhar. Ou se afogar, parceiro.

Deselegância, ô loco!

Não foi elegante citar um famoso Morro que está pacificado, o Morro dos Tabajaras, fazendo alusão à violência. Esta e muitas outras comunidades estão pacificadas, o que é uma vitória, não somente para o Rio de Janeiro, mas para o mundo inteiro que vem nos visitar.

E, se a ideia tão singela da disputa pelo “ponto” foi para nos remeter a um Rio de Janeiro lúdico ou  Antigo, não poderia ter citado o contemporâneo crocks, muito menos o sofrível linguajar “cracudos”. Não se trata do “politicamente incorreto”, a arte é livre, mas trata-se da falta de pesquisa ao escrever, uma vez que fazer uso da gíria pejorativa “cracudos”  associada à  orla de Copa, é simplesmente impossível. Os viciados se reúnem em guetos e em linhas de trem, geralmente às portas das comunidades. E, por fim,  falar de crack em um momento em que este – graças a Zeus! – está sendo contido, é realmente um p*** despreparo de pesquisa.

Sentenças ao infrator

Para terminar a reflexão sobre pesquisa na criação literária, aponto mais uma falha do escritor ao dar vida a um personagem que seria dono do Leme à Lapa. Quimera. Do Leme à Lapa, mesmo sendo da mesma facção, não pode existir apenas um dono. Bicheiro? Nem.

Algumas sentenças equivocadas do autor:

“É só uma disputa pela orla.”

“Tu não tá na favela e nem num filme do Tarantino.”

“Um dia vamos subir a Ladeira dos Tabajaras para você ver o que é diversão.”

“Do Leme até a Lapa é ele que manda.”

“… o bicheiro que mandava aqui no bairro. Ele controlava além do bicho, a prostituição e o tráfico.”

“Se o Belzebu ganhar, isso aqui vai lotar de cracudos!”

Finalmente, para não dizer que não falei das flores, destaco positivamente:  alguns poucos, mas cômicos momentos do texto; a coragem do autor em dar alma carioca aos personagens (até agora foi o único);  e apresentar um desfecho menos violento do que o esperado, a julgar pela estrutura do conto.

A nota, de 1 a 5, para “Só mais um dia por aqui” de Vogan Carruna, é 2,7.

Em tempo: A Princesinha do Mar não tem dono, ela é de todos!

A grande coragem, para mim é a prudência. (Eurípedes)

Inté!

Nero Fiore

 

Ouve, louco, este silêncio que faz um barulho tão ensurdecedor!

São navios piratas, é ela! É ela! Ouve, alucinado, abestado dos infernos,

que chega a tua hora, paranóia, venha para a janela, o fogo se espalha rapidamente!

Queres tu morrer desta forma, acinzentado, sem flores negras,

sem ter quem te venere, o velório, louco, corre para cá, cospe nas chamas…

Não, não olhes para o céu, Ele está zangado, Ele está mais doido!

Faz silêncio, a vizinha fofoqueira, a bruxa que nos fez feitiço sorri.

Ela gargalha, com dentinhos de bruxismo, olhando-nos pela fresta da janela de vitral!

Não, esquece as roupas, agônico atrapalhado, sai daí, esquece as fotos,

as cartas da tua amada! Ela não virá. Tua noiva não virá,

tua mãe morreu faz tempo, idiota, e esta barba por fazer, engole, engole esta

palavra feia, isto é proibido, tu vais para o inferno, alucinado!

 Não, não pules! Não pules! Não!…

Tolo, eras mesmo um louco… O fogo nem chegou até aqui.

Copacabana ou kuta kahuana ou Kopakawana – Um mergulho literário na mitologia

              Dos Incas às atuais concupiscências de Copacabana – Elaine Rocha

Criatividade & Pesquisa

Recebi, com satisfação, o novo texto do site literário de criação Duelo de Escritores, o Kopakawana, da escritora Elaine Rocha, aquela autora que critiquei em seus últimos trabalhos. Sinto-me feliz em ver que minhas críticas foram construtivas, uma vez que este seu novo texto está excelente para uma  novata, como ela mesma se define, até porque, com quinze anos, a coisa vai indo muito bem.

Trata-se, ainda, do exercício de criar um conto ambientado em Copacabana, onde 100 “palavras-clichês” são proibidas. Uma ideia de um escritor, José Castello, que impôs tal exercício aos alunos, tempos atrás, e que um escritor e moderador do site propôs nesta rodada, onde cada participante envia seu texto a fim de concorrer ao primeiro lugar,  por votação.

Todo escritor, seja de qual for o segmento literário, deve ser adepto das pesquisas, das buscas mitológicas, das essências históricas. Da semântica, sintaxe, enfim.

Confesso que, a princípio, torci o nariz, como boa carioca “esperta” que desconfia de quem quer falar mal de nossa cidade. Devo, porém, dar um graças a deus, pois até aqui os concorrentes têm se saído muito bem. Surpreenderam-me, pois, devido à ousadia do desafio, esperava uma bela derrocada literária. Contudo, ganha a literatura com resultados contrários às minhas expectativas.

 Copacabana – Da origem

Elaine Rocha, que escreve também no Recanto das Letras, teve um ótimo insight ao buscar, antes, uma luz mitológica onde  pudesse ambientar seu conto. Mergulhando na origem do adjetivo feminino copacabana, vislumbrou a possibilidade de trazer aos tempos atuais, personagens divinos, destilando irônicas controvérsias religiosas, e confrontando crenças.

Kuta Kahuana são palavras de origem inca, do dialeto Aymara, que significa vista do lago, ou olhando o lago. Na verdade, uma deusa foi criada para adoração por índios da Bolívia que, catequizados pelos espanhóis católicos, mantiveram a crença na deusa que se tornou santa católica. Uma estátua dessa deusa, a Virgem de Copacabana foi talhada por um indio chamado Tito Yupanqui, e trazida ao Rio de Janeiro, no final do séc. XVII por um comerciante português, onde está até hoje. Daí o nome do bairro.

O Conto “Kopakawana”

Uma mulher, a deusa pagã Kopakawana, vem ao Rio de Janeiro, trazendo consigo seu lacaio pessoal. Cosnpiratória e já envelhecida, hospeda-se em um hotel em Copacabana. Planeja enfraquecer a fé cristã dos cariocas e reinar na cidade, até porque acha justo tomar posse de Copacabana, já que o bairro recebeu seu nome e sua imagem no passado. Com certo humor refinado, a escritora discute crenças, paganismo, falência da fé cristã, e a alma corruptível do homem.

O desfecho é engraçado e inesperado. Boa escrita, ótima pesquisa. Eu exploraria mais a condição de deusa pagã, discutiria mais as questões da fé, aproveitando o ótimo gancho cômico advindo do personagem “lacaio”. De qualquer forma, gostei muito. Original. Um mergulho na história e na mitologia inca.

A nota, de 1 a 5, para o conto Kopakawana de Elaine Rocha, é 4,o.

E, aproveitando o ensejo e a inspiração mitológica das deusas, o Blog da Day homenageia a deusa carioca de todos os tempos, a imortal deusa transgressora de Ipanema e toda orla carioca, imortal  e linda, mesmo morrendo prematuramente em acidente de avião, aos vinte e sete anos – Leila Diniz

Não morreria por nada deste mundo,
Porque eu gosto realmente é de viver.
Nem de amores eu morreria,
Porque eu gosto mesmo é de viver de amores.

Inté!

Um Conto sem Hoffmann

Autor – Thiers Rimbaud

A fome enevoava resquícios
verbo acrílico sem parâmetro
seguindo rastros
e Hoffmann?
tempos passaram e não eram verbos
eram tempos de algum pretérito
raiva escondida na esquina
apunhalava
roubava-me pedaços
de pão
contida como
paralelepípedo ensangüentado
chovia fino
os pensamentos dançavam…
teria enlouquecido?
debaixo do temporal
pensei nos cachos de mademoiselle
a permear nuca branca e saliente
abri a boca, lambi
precisava arder em sangue
precisava
queimar-me na lama
desta aventura
leva me, leva-me…
easy rider.

Thiers R> é uma promessa na literatura brasileira.

Cartas de Amor de Rua

Autor – Paulo Castro

Antes dela ter uma ideologia, a gente a fodia em troca de pinga e histórias em quadrinhos. Eu sempre acrescentava algo mais, tinha pena do menino, presenteava o pequeno com roupas, mas sempre estava um tanto atrasado em seu crescimento.
Bêbada, ela me chamava de saudosista.
A gente ria muito e depois íamos para a praça ou algum quarto vago e barato por ali.
Depois ela foi colocada contra a parede pelo Conselho Tutelar, algo assim, arrumou um emprego, conversava com outras moças e ainda bebia, mas falava de seus direitos e segurava um pouco a onda.

Eu a prefiro assim.
Parece outra mulher, óculos, os cabelos curtos estão lisos e brilhantes, ela me conta das notícias de jornal, frequenta passeatas e o menino já é um rapaz que sonha com a faculdade de Sociologia.
Somos bons amigos e atualmente é ela que me aconselha.
Nunca deixará de ser uma dona de boa alma.
Mas eu estou bem como estou.
Tomando coragem pra lhe entregar todas as cartas de amor que não entreguei durante esses anos.
Mas ela vai me achar tolo.
É uma besteira arrastada e nada mais.
Paulo Castro é escritor e  médico psiquiatra, e já não dá para saber onde começa um e termina outro.

A REUNIÃO NO VILAREJO

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Há muito, muito tempo atrás, um homem que era conhecido como O Homem que Sabia, reuniu algumas pessoas e as levou a uma praça, onde muita gente se aglomerara, a fim de ouvi-lo. Ele levou consigo uns trabalhadores que eram, um médico, o outro um jardineiro, um padeiro, um carpinteiro, e ainda um escritor muito erudito.

Depois de acomodados em cadeiras de madeira feitas pelo carpinteiro, o Homem que Sabia, pigarreou discretamente e começou a falar. O silêncio era absoluto.

“Meus amigos, eu os reuni hoje para explanar sobre algumas questões que têm me tirado o sono. Certamente eu já cheguei a uma conclusão, contudo, tenho observado no povoado que vocês andam confusos com as questões trabalhistas. Sei que precisam ganhar o sustento para suas famílias; entretanto, vêm-me aos ouvidos muitas reclamações no que tange às suas habilidades…”

A esta altura, uns homens negros e fortes chegaram com alguns utensílios. Eram materiais e ferramentas de acordo com as profissões dos demais.

Depois de tudo arrumado e organizado, o sábio mandou que cada profissional se apossasse das ferramentas, aleatoriamente. Desta forma, o médico ficou com os apetrechos do padeiro, o padeiro com os do carpinteiro, este com os do escritor. E, finalmente, o escritor tomou das ferramentas do jardineiro.

Então, o Homem que Sabia, cortesmente, pediu a cada um dos participantes que procurassem desenvolver alguma coisa com as ferramentas de que dispunham.

Muitas horas depois, cansados, desistiram de suas obras. E todos admitiram que não possuíam habilidades para outras artes ou ofícios, mas que eram excepcionais naquilo que faziam.

O velho sábio olhou em volta. Chamou apenas dois dos concorrentes, objetivando prestar exemplo ao povoado. Se aproximaram dele o carpinteiro e o escritor.

Perguntou ao primeiro:

_ O senhor, como excelente carpinteiro, como se sentiu ao ter que elaborar um belo texto, um escrito artístico, que só pode sair de um coração deveras literário?

O homem, ressentido, retrucou:

_ Meu senhor, sou capaz de construir qualquer móvel, qualquer apetrecho, e até crio formas e detalhes a cada invento, contudo, nenhuma palavra escrevi que pudesse ser chamada literatura.

O velho desviou o olhar do carpinteiro e se dirigiu ao escritor:

_ E o nobre escritor, também execelente em seus atributos, como se lhe deu com as artes da jardinagem?

_ Oh, meu nobre senhor da pura sabedoria…- redarguiu o escriba – Minha tarefa, aparentemente simplória, que era apenas plantar umas mudas de flores, em nada redundou, uma vez que mal consegui distinguir a terra do adubo.

O Homem que Sabia levantou-se, e olhando para o povo decretou:

_ E assim todos os concorrentes não conseguiram desenvolver suas tarefas de forma agradável. – respirou e continuou – o grande Criador do Universo dá a cada um de nós uma habilidade específica. Às vezes  até mais de uma. Todavia, não é o caso aqui.

Ai daquele que ignora seus dons e avara obter o dom do outro, tirando-lhe seu campo de trabalho e reconhecimento. Tal homem, que age com tamanho desatino, geralmente é um fracassado. E pior, ele mancha a arte do trabalho e da própria.

Anelo saber que, a partir de hoje, deste memorável dia, cada um dos amigos procure sua habilidade, seu ofício, seus dons. Porque mais tolo que o mau profissional, que pode crescer e aprender, é aquele que nem profissional é digno de ser chamado.

(Dedico este texto a todos que escrevem por amor e dom)

Importado do Blog da Day, meu blog literário.

Ambientação no conto, um desafio e tanto!

                                             “Criar é matar a morte” –  Rolland

A ambientação na literatura do conto

A ambientação é a alma do conto. Cronologia é importante em romances e novelas, entretanto, não é de grande importância em contos. Quando o leitor “entra” na estória, algo já está acontecendo, portanto, é mister que ele seja imediatamente envolvido na atmosfera da narrativa. Ele deve entrar no clima das percepções, imagens e emoções.

Esta ambientação, porém, não deve ser cansativa, com excessos de descrições e adjetivos. Todavia, a carência na descrição pode fazer fracassar o que poderia ser uma bela obra literária.

Durante a ambientação algo ocorreu, está ocorrendo, ou ocorrerá, portanto, é necessário que o escritor tenha cuidado com este detalhe. O clima tem que envolver o leitor. Cabe ao narrador, seja ele em primeira ou terceira pessoa; seja um simples observador, ou um intruso, cabe ao narrador descrever tal ambientação, para só então desenvolver a estória, levando o leitor consigo.

Justamente por ser a ambientação tão importante na copilação de contos, volto a analisar o desafio literário imposto a escritores no blog já mencionado aqui, onde o concorrente deverá escrever um conto ambientado no bairro de Copacabana, sem contudo usar 100 palavras relacionadas à cultura e tradição do bairro. De fato um desafio e tanto!

Como esta rodada de comentários será mais trabalhosa, resolvi analisar conto por conto, até porque é um baita exercício de aprendizagem para todos nós, escritores.

Prós e contras do primeiro concorrente – “Escrever é perigoso”

O primeiro conto chama-se Escrever é perigoso, do escritor Jefferson Maleski. Vou abrir aqui  colchetes para explicar aos leitores por que venho fazendo análises sobre tais escritores e seus desafios. Na verdade, depois que de lá saí, fui acometida de um desejo nobre de estudar mais literatura e língua portuguesa, ao invés de ficar andando a passos curtos e lentos, escrevendo em um blog que não dá retorno, apenas nos faz exercitar na escrita ortográfica e gramatical, sem nenhum suporte de aprendizagem, de fato, literária.

Voltando ao conto “Escrever é perigoso”

Encarando um desafio insano de ser proibido de usar palavras alusivas à tradição, palavras estas que conotam a cultura de Copacabana, o autor Jefferson Maleski, como qualquer outro canditado vivenciará, se viu em maus lençóis, e isto dá para notar pelo excessivo cuidado de não infringir as regras do “exercício das proibições”.

O conto tem potencial e sairia vitorioso, se o escritor focasse justamente o que lhe fora proibido, ou seja, a descrição da ambientação. Por mais que seja um exercício árduo e cansativo, haveria Maleski de se concentrar no ambiente da ação – ok, sem clichês -, já que é  possível dar vida à narrativa, uma vez que Copacabana, de fato,  não é só praia, bunda, asa delta, surf, picolé, onda, etc.

Partindo deste princípio, ao criar sua ambientação, o escritor deveria “mergulhar”,  mais corajosamente,  no cenário da estória, pois  já que se passa em um hotel famoso de Copacabana, uma pesquisazinha lhe daria várias ideias, podendo até trazer fatos reais acontecidos em tal hotel, dando, assim, mais realismo à estória, no que tange à Copacabana.

O Conto e a ambientação

Trata-se da estória (possivelmente uma metáfora ou  alegoria, não fica claro) de um escritor entediado que, talvez enlouquecido, busca emoções fortes para um provável ou imaginário livro – o livro de sua vida (?), marcando encontro insólito com um assassino, em um hotel famosso de Copacabana muito mal descrito, infelizmente.

Não se sabe se intencionalmente, mas o fato é que o autor usa nomenclatura de audiovisual (plot point), sugerindo, talvez, que a insanidade do personagem o levou a viver a situação em tempo real, com cenas carnais, associando a estória ao cinema, em sua mente obviamente conturbada.

A partir de um anúncio que o escritor publica em um jornal de elite (por que não na imprensa marrom?!), oferecendo-se como matador de aluguel, o delírio mistura-se com realidade, levando-o  a um desfecho inesperado, o que dá um tom valoroso à narrativa. Entretanto, o desafio não é simplesmente escrever um bom conto livre, mas escrever um conto que desafia a alma do próprio conto: a ambientação.

Conclusão

O concorrente pode vangloriar-se por ter feito um bom trabalho, com bons diálogos, boa narrativa, tensão psicológica em boa medida; começo, meio e fim bem delineados. Contudo, no principal quesito o conto ficou aquém das expectativas. Diria mesmo que o autor pegou sua estória e a trouxe para o  terraço de um hotel no Rio de Janeiro, só para participar da rodada no Duelo de Escritores.

Uma coisa é seguir regras de desafio ao criar; outra, bem diferente, é se esquecer que driblar a literatura é algo, praticamente, impossível.

Nota de 1 a 5 para o conto “Escrever é perigoso”: 2,5. Errata: a referida nota é 3,5.

O verdadeiro crítico exige apenas que o plano
intencionado seja exemplarmente cumprido,
através dos meios mais eficientes.
Edgar Allan Poe

Boa sorte aos demais concorrentes e boas escritas!

Fonte: Aqui e aqui.

Inté!