Cascavel Adoecida

Serena como pomba ferida
Mergulho na estranha certeza de não mais ficar
Desta forma à mercê do meu carrasco
Como babel, doces lábios de Frida.

Que pena, meu Deus, não há como eu
Quem saiba amar desesperadamente
No redemoinho dos açoites da vida
Amar com verdade e sangue, desgraçadamente!

Nenhum deus grego é maior que meu gatuno
Dionísio, Netuno, o diabo – nada é comparável
Tal qual cascavel adoecida, assim é minha paixão
Descompassada, ignorada, morta, deplorável…

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Aforismos Célebres da Humanidade

O pensamento é a presença do infinito na mente humana.
Emílio Castelat

Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

Amamos sempre no que temos o que não temos quando amamos.

Fernando Pessoa

O sono é a morte sem a responsabilidade.
Fran Lebowitz

O homem pode tanto quanto sabe.
Francis Bacon

A leitura torna o homem completo; a conversação torna-o ágil, e o escrever dá-lhe precisão.
Francis Bacon

Não tenho medo de morrer; tenho medo, sim, é de deixar de viver.
François Mitterant

Às vezes um charuto é apenas um charuto.
Sigmund Freud

Não pode haver felicidade quando as coisas nas quais acreditamos são diferentes das que fazemos.
Freya Stark

A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens.
George Bernard Shaw

Aquele que não tem um objetivo, raramente sente prazer em qualquer empreendimento.
Giacomo Leopardi

O sexo é. Simplesmente é. O sexo não constrói estradas, não escreve romances e não dá significado a nada na vida, exceto por si mesmo.
Gore Vidal

A Virtude do Aforista – Samuel Johnson

A excelência dos aforismos não consiste tanto na expressão de algum sentimento raro e abstruso, como na compreensão de algumas óbvias e úteis verdades em poucas palavras. Nós frequentemente caímos em erros e distrações, não porque os verdadeiros princípios de ação não sejam conhecidos, mas porque, durante algum tempo, eles não são recordados; e o aforista pode, então, ser enumerado justamente entre os benfeitores do gênero humano que contrai as grandes regras da vida em sentenças curtas, que podem ser facilmente colocadas na memória, e serem ensinadas através da lembrança frequente para que possam ocorrer periodicamente à mente.

Samuel Johnson, in ‘The Rambler’

A Solidão do Artista – Vergílio Ferreira

Pintura sem título de Herman Hesse, de 1917.

Diz-se às vezes de certas pessoas, e para isso se reprovar, que têm dupla personalidade. Mas dupla ou múltipla têm-na normalmente os artistas. Ela é pelo menos a do convívio exterior e a do seu intimismo. Se trazem esta para a rua, são quase sempre insuportáveis. Só se suporta o que é de um profundo interesse, quando isso é rentável. Imagino que o capitalista tenha na sua vida íntima um mundo de cifrões. Se o cifrão vier à rua, tem ainda cotação. Mas o artista? Mesmo a coisa minúscula da sua pequena vaidade é irritante. Um político pode blasonar pimponice, que tem adeptos a aplaudir. O artista é um condenado, com o ferrete da ignomínia. O seu dever social é ocultar a degradação ou então marginalizar-se. Para efeitos cívicos ou mundanos, só depois de bem morto. A solidão é assim o seu destino. Aí sofre ou tem alegrias, aí obedece a um estranho mandato que lhe passaram na eternidade. Discreto, envergonhado, todo o seu esforço, no domínio das relações, é esconder a sua mancha. Nenhum povo existe senão pelo seu espírito. Somos o que somos pelo que foi excepção dos que nos precederam. Mas o dia a dia não é espiritual, e é esse que tem de se viver. Há uma lei injusta que condenou o artista como a outros condenou com uma deficiência física ou a serem tarados. Mas a um tarado (interrompido).

Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente 3’