Perdoa-me, visão dos meus amores – Álvares de Azevedo

 

Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores…

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…

Sem que última esperança me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!

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Alma em Agonia

É apenas, apenas agonia, desterro, sangue, cheiro de sangue!

Nas pernas do ar é a guerra, o mar, tudo se prontifica em minhas mãos.

 Não quero saber de mais nada, há confusão por toda parte, há manadas,

gados obedientes, dor de dente, dor de parto, dor!

Já não me importo se amo, respeito, e não quero saber de cabresto,

amor ao próximo, perdoar e ser perdoada. Tudo acabou, o vento trouxe a miséria,

a agonia do vale da morte. Ossos secos que não tomam vida, não expurgam sangue

 nem verdade; o que posso fazer, eu, somente eu nesta estrada de poeira

nadando a pé, a sós.  Agora não quero mais ser tua amiga, te amar, ser boa,

não, não posso mais voltar, contaminada de ira e desejo torpe.

Aceito, resignada, que sou maldita entre as mulheres (de tua cama),

que poderei fazer, se a sina sinaliza nossas mortes, e ejeta-me para além das galáxias,

e eu nada posso afirmar, então escrevo, escrevo, escrevo!

Decido ficar por aqui mesmo.

Meu fim é apenas o começo.