Tratado sobre o fim, ou o brilho eterno de uma mente sem lembrança

“Feliz é o destino da inocente vestal. Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.”

Quantos anos terei ainda na vida? Viverei até os cem? Ou terei dez anos a mais, ou menos que isso? Kurt Cobain aos 24 anos de idade, no auge de sua banda Nirvana, não pensava que dali a apenas três anos ele morreria, ainda que supostamente por suas próprias mãos. Charles Bukowski, com sua vida de excessos e mulheres loucas, imaginava não passar dos 50, no entanto viveu até os 73, sempre dizendo que tinha sorte de chegar lá (na verdade ele dizia que Linda Bukowski, sua última mulher, havia lhe dado dez anos extras cuidando de sua saúde). Pois é, não se pode saber uma coisa dessas.

Posso viver quantos anos mais o destino me der, sejam cinco, dez, vinte ou cem anos a mais, mas na realidade não é isso o que importa nesse momento em que acabo de matar a melhor parte de mim, e observo seu sangue escorrer pelo chão.

Sim, eu me encontro no pior momento da vida de um homem: o momento em que ele deve matar seu amor diariamente para não morrer por inteiro. Há muitos que sucumbem, matando literalmente esse amor, ou seja, a mulher depositária dele, mas depois não sobra muito a fazer senão meter uma bala na cabeça, e boa parte não tem nem essa coragem depois de cometer um crime tão grotesco. Não.

Eu falo da morte do meu amor, da doçura, da leveza e da beleza interior, que a despeito de sua profundidade e amplitude interna, acaba por sucumbir sob o peso dos ataques traiçoeiros e mesquinhos do mundo e dos que dele fazem parte.

Eu vivo uma luta homérica mortal diária. Minha luz e minhas sombras se engalfinham todo dia buscando o controle dessa vida. Amar ou secar ao Sol, fritando em sombras e desamparo? Cada momento uma coisa, e frequentemente acabo por passar por ambos de uma só vez. Cada vez mais eu aprendo que a Vida na verdade é uma queda de braço entre o criador e o ceifador dentro de mim mesmo, cada hora vencendo um deles, mas há raros momentos em que ambos repousam aqui dentro, e essa trégua se dá no meu amar.

Quando isso não acontece, eu assisto à luta voraz que me corrói por dentro, embora você veja algo diferente disso quando me olha do lado de fora, caso me observe por algum tempo. Sim, estou ficando bom nas retóricas perguntas feitas a mim no dia-a-dia. Os nunca pouco casuais “Tudo bem?” que sempre ouço.

Para que eu possa viver pela metade, e não deixar de viver COMPLETAMENTE, mato todo dia metade de mim, o criador, o que ama, o que sente completamente tudo ao redor sem reservas, o que chora, o que dói mais.

Nesse exato momento, observo com esse cadáver, mas é só a melhor parte de mim que morre, como eu já disse antes. Tudo bem, faz parte do meu show, além disso, quando eu me levantar amanhã, essa parte acordará mais uma vez, pois ela se recusa a morrer, então, terei de matá-la outra vez. Cada dia, um novo dia.

É um serviço sujo…

Mas alguém tem que fazer.

Mais do autor em http://odiadpois.blogspot.com

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Sobre Louis Alien

Poeta, só isso. E não apenas isso.
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2 respostas para Tratado sobre o fim, ou o brilho eterno de uma mente sem lembrança

  1. Day disse:

    Lou, agora li o texto, pensei que fosse sobre cinema. UAU! Que texto maravilhoso, existencial e verdadeiro. Acima de tudo filosófico. Eu aprendi com ele. Parabéns!
    “Para que eu possa viver pela metade, e não deixar de viver COMPLETAMENTE, mato todo dia metade de mim, o criador, o que ama, o que sente completamente tudo ao redor sem reservas, o que chora, o que dói mais.” Genial. Amei!!!!! Beijo, pensador 🙂

  2. Day disse:

    Arrasou! Vi este filme, mas não “entrei” na estória, peguei quase no final! Muita sintonia! Valeu!!!! Beijo, Lou! 🙂 Agora quero ver mesmo!

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