Rubro-Rútilo – Fernanda Cristina

Depois que tudo começou: o pai a trancou e nunca mais a deixou sair. Oito anos em menina, desesperava-se perguntas. Ela começou com engasgos assustadores: ameaça de morte de sufocamento. Num desses espasmos (na sala), tossindo engasgando envermelhando olhos cheios medo lágrimas tossindo medo e mãe aos berros (querendo ambulância): da tosse a primeira lagarta saiu pela boca da menina. A menina: passou a percorrer cômodos com lenços para recolher suas lagartas. Trancou-a. O pai teve nojo nojo nojo da filha. Um dia, na cozinha: menina engasgou tossiu envermelhou tossiu e preparou o lenço. Mas de sua boca (ela ria) saíram vermelhas-minúsculas-rutilantes-em-centenas borboletinhas. E a menina ria e chorava e a menina e a mãe e o pai maravilhados. A cozinha ficou torpe e dura do incêndio de borboletinhas. Centenas de milhares rubras: ininterruptas. Ela riu com mais força. Queria que elas entrassem pelos olhos do pai, até que rasgassem.

Selecionado para exposição a partir do 4º Concurso de Minicontos do IST Taguspark/Portugal

Leia mais a escritora Fernanda Cristina em seu blog Numa Dessas.

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