Nero Fiore

 

Ouve, louco, este silêncio que faz um barulho tão ensurdecedor!

São navios piratas, é ela! É ela! Ouve, alucinado, abestado dos infernos,

que chega a tua hora, paranóia, venha para a janela, o fogo se espalha rapidamente!

Queres tu morrer desta forma, acinzentado, sem flores negras,

sem ter quem te venere, o velório, louco, corre para cá, cospe nas chamas…

Não, não olhes para o céu, Ele está zangado, Ele está mais doido!

Faz silêncio, a vizinha fofoqueira, a bruxa que nos fez feitiço sorri.

Ela gargalha, com dentinhos de bruxismo, olhando-nos pela fresta da janela de vitral!

Não, esquece as roupas, agônico atrapalhado, sai daí, esquece as fotos,

as cartas da tua amada! Ela não virá. Tua noiva não virá,

tua mãe morreu faz tempo, idiota, e esta barba por fazer, engole, engole esta

palavra feia, isto é proibido, tu vais para o inferno, alucinado!

 Não, não pules! Não pules! Não!…

Tolo, eras mesmo um louco… O fogo nem chegou até aqui.

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Copacabana ou kuta kahuana ou Kopakawana – Um mergulho literário na mitologia

              Dos Incas às atuais concupiscências de Copacabana – Elaine Rocha

Criatividade & Pesquisa

Recebi, com satisfação, o novo texto do site literário de criação Duelo de Escritores, o Kopakawana, da escritora Elaine Rocha, aquela autora que critiquei em seus últimos trabalhos. Sinto-me feliz em ver que minhas críticas foram construtivas, uma vez que este seu novo texto está excelente para uma  novata, como ela mesma se define, até porque, com quinze anos, a coisa vai indo muito bem.

Trata-se, ainda, do exercício de criar um conto ambientado em Copacabana, onde 100 “palavras-clichês” são proibidas. Uma ideia de um escritor, José Castello, que impôs tal exercício aos alunos, tempos atrás, e que um escritor e moderador do site propôs nesta rodada, onde cada participante envia seu texto a fim de concorrer ao primeiro lugar,  por votação.

Todo escritor, seja de qual for o segmento literário, deve ser adepto das pesquisas, das buscas mitológicas, das essências históricas. Da semântica, sintaxe, enfim.

Confesso que, a princípio, torci o nariz, como boa carioca “esperta” que desconfia de quem quer falar mal de nossa cidade. Devo, porém, dar um graças a deus, pois até aqui os concorrentes têm se saído muito bem. Surpreenderam-me, pois, devido à ousadia do desafio, esperava uma bela derrocada literária. Contudo, ganha a literatura com resultados contrários às minhas expectativas.

 Copacabana – Da origem

Elaine Rocha, que escreve também no Recanto das Letras, teve um ótimo insight ao buscar, antes, uma luz mitológica onde  pudesse ambientar seu conto. Mergulhando na origem do adjetivo feminino copacabana, vislumbrou a possibilidade de trazer aos tempos atuais, personagens divinos, destilando irônicas controvérsias religiosas, e confrontando crenças.

Kuta Kahuana são palavras de origem inca, do dialeto Aymara, que significa vista do lago, ou olhando o lago. Na verdade, uma deusa foi criada para adoração por índios da Bolívia que, catequizados pelos espanhóis católicos, mantiveram a crença na deusa que se tornou santa católica. Uma estátua dessa deusa, a Virgem de Copacabana foi talhada por um indio chamado Tito Yupanqui, e trazida ao Rio de Janeiro, no final do séc. XVII por um comerciante português, onde está até hoje. Daí o nome do bairro.

O Conto “Kopakawana”

Uma mulher, a deusa pagã Kopakawana, vem ao Rio de Janeiro, trazendo consigo seu lacaio pessoal. Cosnpiratória e já envelhecida, hospeda-se em um hotel em Copacabana. Planeja enfraquecer a fé cristã dos cariocas e reinar na cidade, até porque acha justo tomar posse de Copacabana, já que o bairro recebeu seu nome e sua imagem no passado. Com certo humor refinado, a escritora discute crenças, paganismo, falência da fé cristã, e a alma corruptível do homem.

O desfecho é engraçado e inesperado. Boa escrita, ótima pesquisa. Eu exploraria mais a condição de deusa pagã, discutiria mais as questões da fé, aproveitando o ótimo gancho cômico advindo do personagem “lacaio”. De qualquer forma, gostei muito. Original. Um mergulho na história e na mitologia inca.

A nota, de 1 a 5, para o conto Kopakawana de Elaine Rocha, é 4,o.

E, aproveitando o ensejo e a inspiração mitológica das deusas, o Blog da Day homenageia a deusa carioca de todos os tempos, a imortal deusa transgressora de Ipanema e toda orla carioca, imortal  e linda, mesmo morrendo prematuramente em acidente de avião, aos vinte e sete anos – Leila Diniz

Não morreria por nada deste mundo,
Porque eu gosto realmente é de viver.
Nem de amores eu morreria,
Porque eu gosto mesmo é de viver de amores.

Inté!