O sino da madrugada – Parte II

Leia a parte I

 

O Salvador

Na verdade, a culpa deveria ser atribuída a mim. Eu poderia ter cuidado dela. Quando nos conhecemos, eu percebi que Sônia era uma mulher diferente. Vestia-se com roupas de cores escuras. As sobrancelhas eram bem recortadas, mas notavam-se alguns ínfimos pontos de cicatrizes de onde, certamente, gotas de sangue escorreram um dia. Nada comentei na ocasião. Eu era um cara simples. Escrevia poesias como se fosse contemporâneo de Baudelaire e, em outros momentos, dos negros ativistas, os Panteras Negras.

Central Park. Foi lá que eu a conheci. Uma brasileira perdida em seus cabelos negros, citando Augusto dos Anjos e seus poemas de morte, dando-me sua boca ressequida de maconha, com traços de um artista chamado Salvador Dali. Aliás, sempre achei esse pintor um bosta.

O pai dela era das Forças Armadas. A família possuía bens e muito dinheiro. Disse-lhe que ela não passava de uma princesa da ditadura militar. Certamente a magoei, contudo, eu também era um exilado em Nova York. Descendente da antiga União Soviética, minha família migrara para o Brasil. Eu tinha índole de criminoso, e gostava de citar escritores russos como Dostoievski, e, enlouquecido, trazia até Nietzsche quando trepávamos em um sobrado onde, com muito custo, eu pagava o aluguel semanal.

A vagina dela era diferente de todas. Não sei como explicar. Era algo que, ao mesmo tempo em que parecia livre e sem virgindades, exalava odores e sons de uma santa. Porém jamais mencionei tal fato que me enchia de excitação e dor. Tudo que eu queria era falar para ela que jamais me importaria com detalhes tais que impedissem nosso amor. Eu não acreditava em nada. Família, moral e pudor, de nada me serviam.

Certa vez, estávamos nus no terraço do prédio. Na verdade, só hoje entendo aquela metáfora. Disse ela, na época, que já que estávamos ambos longe de nossa pátria e de nossa família,  somente do alto do prédio poderíamos sentir o mundo paralelo. De alguma forma, por alguns segundos, eu a entendi. Senti meu corpo livre de roupas e passaportes. Envergonhado pelo meu passado, chorei, olhando aquelas construções concretas e egoístas abaixo de nós. Lembrei do meu pai que dizia sempre que a mulher nascera para confundir um homem que se apaixonasse por ela. Eu estava apaixonado e totalmente perdido nas entranhas daquela mulher que poderia, a qualquer momento, se jogar do terraço só para me provar que estava viva. Sempre achei que fosse meio suicida.

Quando Cazuza morreu, voltamos ao Brasil. Cada um para um lado. Ela ainda estava com nuances de bela fêmea às portas dos trinta anos. Eu, acabado, entre a vida e a morte existenciais a deixei se afastar de mim no aeroporto.

O livro que ela publicaria aqui no Brasil fora censurado, não pelo governo em franca abertura, mas por seu pai, um reaça imbecil que, além de ter feito parte da ditadura em final dos anos 70, era um homem obtuso que queimara todos os seus poemas. Até o certificado que ganhara em um concurso literário em NY, como a maior poetisa do expressionismo e surrealismo ele destruíra, pois ela o enviara para sua mãe. Disse-me, com os dentes trincados, que jamais perdoaria o filho da puta.

A mãe dela morreu. Eu fiquei em meu apartamento na Urca, esperando os deuses ou demônios me ajudarem. Ainda acreditava nela. E a amava. O mundo estava mudando. Pessoas morriam de overdose e AIDS no governo pós-ditadura. Ainda carregava meu violão e alguns rascunhos de poesias e  músicas que escrevemos na puta que nos pariu, os Estados Unidos da América.

Minha deusa morena entrou em depressão profunda. Fui trabalhar nas empresas da minha  família. Ela não queria mais saber de mim. E eu, ainda novo, me envolvi com a filha do sócio do meu pai. Uma vadia burra que, piscando para mim, disse que no Brasil nada mudara. Éramos duas famílias interessadas em fazer dinheiro. Eu pensei que ela era mais burra do que eu imaginara. Era feia por dentro, egoísta  pra cacete. Mas eu estava fraco para lutar.

Então soube, alguns anos mais tarde, que minha guria publicara seu livro e que era o maior sucesso. Morava só e triste, porém sua casa era seu paraíso. Vivia taciturna e pintava telas. Possuía um gato especial que ela amava. E este era sua única companhia. Moravam em um prédio antigo na Glória. Eu soube, ainda agora, que seu gato, andando pelo beiral do prédio, fora assassinado. Jogaram o pobre animal do décimo andar. Tinha lógica, pois gatos simplesmente não caíam. Ela, desiludida com tudo, parou de pintar e escrever, foi o que me disseram. Vivia como um zumbi naquele apartamento sombrio. Somente eu, seu ex-amor, poderia ajudá-la. E começaria por descobrir o assassino de seu gato.

Em breve a  parte III com grandes revelações…

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2 comentários em “O sino da madrugada – Parte II

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