Mundo paralelo

Na realidade, ela sabia que tudo estava errado em sua vida. Desde sempre, carregara aquele defeitinho, que foi crescendo, crescendo, até explodir em sua própria alma. Seus pais, e toda a família sabiam, mas, por pena ou medo, jamais tocavam no assunto.

Eu a vi, depois de muito tempo, quando já estávamos com trinta e cinco anos. E, mesmo crescendo juntas, nunca me senti muito amiga dela. Sua excentricidade sempre me incomodou. E, precisamente, aquela mania, que só crescia, muito me assustava.

Marly estava rica. Morava em uma cidadezinha francesa chamada Vichy; porém vivia mais em Paris, por conta de seus badalados livros, e de suas peças para teatro. Casara-se com um belo e rico francês, um produtor de Arte. Conversamos por quase uma hora, e foi tudo que aguentei, naquele dia, no Rio de Janeiro, quando nos encontramos, casualmente.

A morena de olhos verdes, entre uma taça e outra de champanhe, descrevia como sua vida era feliz e agitada. Falava de seus amigos, seus livros, suas roupas, e de como era altruísta, ajudando muitos jovens artistas em início de carreira. Foi quando percebi que ela continuava a mesma Marly de sempre.

Ela jamais fora altruísta de verdade. Ao contrário, vociferava, aos quatro ventos, que amava as pessoas, que as entendia, e que faria de tudo por elas. Entretanto, sempre soubemos, nós duas, que, no fundo, Marly só queria se sentir rodeada de pessoas, e ser admirada, custasse o que custasse. Mesmo que, para isso, ela criasse um mundo paralelo.

De todos os erros cometidos, o mais grave foi ela ter insistido na antiga prática de inventar amores. Para cada estação, havia homens diferentes, e, muitas vezes, até acreditava que, de fato, os amava. Chegava mesmo ao cúmulo de sofrer por amores inventados por sua complexa mente de escritora.

Despedimo-nos e fomos, cada qual, para seus destinos. Confesso que senti pena de minha amiga de infância. Jamais conheci alguém que tivesse esta incrível capacidade de viver em um mundo paralelo, onde tudo é fake, tudo é de mentira, até o amor.

Cheguei a casa, ainda pensando. Quando anoiteceu, cochilei no sofá, e fui acordada com a terrível notícia do suicídio da Marly. Ela dera cabo da sua vida. De verdade. Pela primeira vez, de verdade, Marly existiu.

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Leitura em Excesso

 

Excesso de Leitura

Existem dois modos distintos de ler os autores: um deles é muito bom e útil, o outro, inútil e até mesmo perigoso. É muito útil ler quando se medita sobre o que é lido; quando se procura, pelo esforço da mente, resolver as questões que os títulos dos capítulos propõem, mesmo antes de se começar a lê-los; quando se ordenam e comparam as idéias umas com as outras; em suma, quando se usa a razão.

Pelo contrário, é inútil ler quando não entendemos o que lemos, e perigoso ler e formar conceitos daquilo que lemos quando não examinamos suficientemente o que foi lido para julgar com cuidado, sobretudo se temos memória bastante para reter os conceitos firmados e imprudência bastante para concordar com eles.

O primeiro modo de ler ilumina e fortifica a mente, aumentando o entendimento. O segundo diminui o entendimento e gradualmente o torna fraco, obscuro e confuso. Ocorre que a maior parte daqueles que se vangloriam de conhecer as opiniões dos outros estuda apenas do segundo modo. Quando mais lêem, portanto, mais fracas e mais confusas se tornam as suas mentes.

Nicolas Malebranche, in ‘Procura da Verdade’