Domingo, Bem Acompanhada

dayatual

Acordei sem vontade de assistir tv, olhar as notícias, ou fazer qualquer coisa que não seja ficar na cama, assistindo (isso sim) vários filminhos. O dia está nublado. Vou até publicar um poema do Fernandinho.

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

fernandop

Ângela, o Anjo do Mal

caveirablog

Quando a borboleta pousou sobre meus ossos, tive a sensação de um arrepio, entretanto, ossos não têm tal sensação. Olhei em volta, mas não com os olhos de minha carne que já não existia.

A chuva fina trazia cheiro de mato e terra. Exalava também odor estranho, madeira podre, corpos pútridos.

Tentei me levantar. Uma onda de bem estar invadiu minha alma. Estava de pé!

Olhei ao redor, estava verticalmente morto. E via os muros daquele lugar. Sorri um sorriso fixo, ansiando por um trago. Agora eu poderia beber um drink, eu estava de pé.

Nunca acreditei em milagres. Deus, nunca vira. Eu devia a mim mesmo aquele prodígio. Eu estava de pé, no meio do cemitério.

Um fato chamou minha atenção. Havia, ao lado de meu túmulo, flores frescas. Alguém havia sido enterrado ao meu lado. Olhei mais atentamente e vi tratar-se de uma jovem mulher.

Ângela era seu nome. Ele estava cravado em alto relevo dourado. Vinte e cinco anos. Pobrezinha. Não dei um passo sequer, desejando poder acordá-la e convidá-la para aquele drink. Quem sabe pudéssemos formar um casal apaixonado. Mortos e apaixonados. Por que não?

Imaginei Ângela dando-me suas mãos,e, entrelaçados, nos amaríamos. Havia de ter um modo de nos amarmos. Eu não podia compreender nada do que estava acontecendo. mas eu estava em pé, bem ali, em frente à Ângela.

Pensei que, mesmo que não fosse possível sairmos para o mundo lá fora, ao menos teríamos nosso lugar. Afinal, os cemitérios quase sempre eram vazios à noite. Regozijei-me com tal esperança.

Eu já não usava gravatas, nem calças. Apenas ossos e dentes perfeitos. Ela gostaria de mim. Mesmo sem olhos, ela veria através de mim, o quanto eu era perfeito para ela.

Finalmente tomei coragem. Alguns passos e eu a tiraria de lá, daquele buraco frio e escuro.Minha alma palpitava, todo meu ser cantava sons de harpas. Eu iria amar de novo. Ângela, o meu anjo morto.

Sempre ouvi falar de vida após a morte. Seria isso? Não importava. Eu só queria amá-la de todo meu coração, seja lá onde ele esteja. Eu estou aqui, bem vivo. Louco de paixão. Ângela, querida, Vou lhe dar flores todas as noites. Eu as colherei nas tumbas e mausoléus. Eu a farei tão feliz, que haverás de ignorar minha aparência.

Um ruído chamou minha atenção. Eram os ossos dos meus joelhos. Eu estava ansioso e um pouco sôfrego. Os ossos tilintavam como os sinos de Thomas Mann !hahahaha). Os sinos que por mim dobravam, e por Ângela também. Desprezei a vida naquele momento. A carne, o desejo físico, os livros, os homens. Eu era um esqueleto arruinado por um deus que nunca vi.

Então, tomei coragem no cálice do pavor e preparei-me para andar. Ansioso, quase desisti. Contudo, por Ângela eu o faria.

Um gato saiu correndo com um grunhido de medo, ao ouvir-me espatifar, eu desmontava, osso por osso, antes de chegar à Ângela. E, desta vez, achei que fosse milagre ao sentir uma fria lágrima em minha caveira.

Rimando ao Acaso

Mãe, mãezinha...

O sorriso de Marcela, a bela.
A. janela por onde posso olhar o mundo
E ter um pouco de esperança nela.
Marcela, a vela.
A vela acesa quando fico triste.
Marcela, Cela, o milagre que me aconteceu.
Marcela, de sentinela à porta de meu quarto.
Tá, chorando, mãe?
Nada, é só resfriado.
Marcela que não trela,
Mas é bela.
Garota que por mim zela,
A seu modo, mas é o jeito Marcela de ser.
Ela, tão sem tutela,
Marcela, que noite aquela…
Marcela, procela que veio a mim,
Magrela, depois cresceu bela.
Marcela, que vida novela,
Que grande parcela de dor
Mexida na panela
Com chocolate e marmela.
Marcela, a bela, da minha vida a aquarela
De cores nela.
Marcela, a bela de sombra beringela,
Marcela que foge por viela,
Pela favela,
E volta de braços abertos,
Abrindo pro sol a minha janela.

ESCREVENDO ESCREVENDO E ESCREVENDO “MOMENTOS FANTÁSTICOS DE SOLIDÃO”

É SÓ O COMEÇO. NÃO SEI SE SERÁ UM LIVRO, OU UMA SÉRIE, DESSAS QUE VAMOS PUBLICANDO AOS POUCOS.

    MOMENTOS FANTÁSTICOS

               DE

             SOLIDÃO                                       

       

      O CORVO        

Em certo dia, à hora, à hora                     

Da meia-noite que apavora.

Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,

Ao pé de muita lauda antiga,

De meu quarto um soar devagarinho

De uma velha doutrina agora morta,

Ia pensando, quando ouvi à porta

E disse estas palavras tais:

“É alguém que me bate à porta de mansinho;

Há-de ser isso e nada mais.” […]

(Edgar Allan Poe)                         

 

      

PREFÁCIO

” EU”

Eu preciso falar com você. Bem vindo.

Não falo com ninguém há anos. Neste caso, você é meu ouvinte imaginário. Não é amigo, porque eu não os possuo.

A partir de agora, vou lhe contar coisas que nunca falei antes, nem mesmo para mim. É como se eu houvesse acumulado tanta sujeira que, agora, sinto a necessidade de cuspir tudo. Espero que não desista de me ouvir. Mas o que estou falando… Eu o obrigo a ficar, pois, agora, você me pertence. Mas fique à vontade.

Muito bem, esta é a minha estória. Estarei atento a qualquer demonstração de fastio. Nada de tédio, caso contrário, eu o destruirei diante de seu bocejo.

Durante o dia, eu lia. Lia todo tipo de livros e revistas que encontrasse. Os de minha casa eu já lera todos, dos romances aos didáticos e filosóficos. Ficavam em uma estante antiga de minha mãe. Ela era professora de universidade, e muito culta. Depois de esgotar as leituras em casa, comecei a roubá-los, os livros das lojas do mercado, ou os pegava nas calçadas, pensando em como havia idiotas no mundo, a ponto de jogar um Poe, Marx, Sartre, e tantos outros no lixo.

Geralmente eu dormia até ao meio dia. E ficava lendo até a madrugada chegar, que era quando saía para as ruas do bairro, atrás de alimento. Eu era um zumbi humano, mas me orgulhava por ser um intelectual. Aprendi algumas línguas sozinho, e isto me dava muita satisfação. Era auto-didata, não precisava de ninguém.

Era eu uma torrente de sentimentos confusos. Não havia padrão de moral e ética para mim. Minha leitura preferida eram os jornais de gosto duvidoso, os chamados marrons. Eu amava ler aquelas notícias de assassinatos, aquele desfile de mau gosto nas fotos horrendas. Eu me sentia vivo às custas dos mortos. Livros de ficção-terror também me fascinavam.

Eu era podre. Meus cabelos escorriam pelos ombros, sempre oleosos porque raramente eu os lavava; isto acontecia tão esporadicamente, que nem sei dizer quantos meses levava entre uma lavagem e outra.

Magro e alto, sabia que tinha certo charme, sempre vestido com um surrado casaco de couro preto que contrastava com minha pele muita branca, já que eu não  pegava sol, jamais.

Tive alguma sorte genética, a minha mãe era muito bonita, morena, com grandes olhos castanhos claros. No entanto, eu me via feio, pálido e feio como um cadáver.

Meu casaco ia até abaixo dos joelhos. Usava botas militares, e no pescoço longo, uma caveira de prata, pendurada por um cordão de couro.

Tinha adoração por elas, eram bonitas, as minhas sobrancelhas negras e espessas. Minha diversão era desenhar autorretratos. Em alguns eu era um rato, em outros o Corcunda de Notre Dame, ou Drácula. E as sobrancelhas eram a marca registrada em todos os desenhos em nanquim. Patético, eu sei. Sarcástico, eu me comparava à Frida Kahlo.

Todavia, me tornar um assassino, não estava em meus planos. Aliás, não havia planos em minha sórdida vida. Porém, ele, o assassino, poderia ter estado sempre lá, no fundo da minha mente, no meu sangue, na alma doente. Eu era assim, ódio e desprezo; fome e solidão. Autômato como um robô. Inquieto como um rato. Homem, apenas.

Meu nome?

Pode me chamar de Eu – Black.

trsite