ESCREVENDO ESCREVENDO E ESCREVENDO “MOMENTOS FANTÁSTICOS DE SOLIDÃO”

É SÓ O COMEÇO. NÃO SEI SE SERÁ UM LIVRO, OU UMA SÉRIE, DESSAS QUE VAMOS PUBLICANDO AOS POUCOS.

    MOMENTOS FANTÁSTICOS

               DE

             SOLIDÃO                                       

       

      O CORVO        

Em certo dia, à hora, à hora                     

Da meia-noite que apavora.

Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,

Ao pé de muita lauda antiga,

De meu quarto um soar devagarinho

De uma velha doutrina agora morta,

Ia pensando, quando ouvi à porta

E disse estas palavras tais:

“É alguém que me bate à porta de mansinho;

Há-de ser isso e nada mais.” […]

(Edgar Allan Poe)                         

 

      

PREFÁCIO

” EU”

Eu preciso falar com você. Bem vindo.

Não falo com ninguém há anos. Neste caso, você é meu ouvinte imaginário. Não é amigo, porque eu não os possuo.

A partir de agora, vou lhe contar coisas que nunca falei antes, nem mesmo para mim. É como se eu houvesse acumulado tanta sujeira que, agora, sinto a necessidade de cuspir tudo. Espero que não desista de me ouvir. Mas o que estou falando… Eu o obrigo a ficar, pois, agora, você me pertence. Mas fique à vontade.

Muito bem, esta é a minha estória. Estarei atento a qualquer demonstração de fastio. Nada de tédio, caso contrário, eu o destruirei diante de seu bocejo.

Durante o dia, eu lia. Lia todo tipo de livros e revistas que encontrasse. Os de minha casa eu já lera todos, dos romances aos didáticos e filosóficos. Ficavam em uma estante antiga de minha mãe. Ela era professora de universidade, e muito culta. Depois de esgotar as leituras em casa, comecei a roubá-los, os livros das lojas do mercado, ou os pegava nas calçadas, pensando em como havia idiotas no mundo, a ponto de jogar um Poe, Marx, Sartre, e tantos outros no lixo.

Geralmente eu dormia até ao meio dia. E ficava lendo até a madrugada chegar, que era quando saía para as ruas do bairro, atrás de alimento. Eu era um zumbi humano, mas me orgulhava por ser um intelectual. Aprendi algumas línguas sozinho, e isto me dava muita satisfação. Era auto-didata, não precisava de ninguém.

Era eu uma torrente de sentimentos confusos. Não havia padrão de moral e ética para mim. Minha leitura preferida eram os jornais de gosto duvidoso, os chamados marrons. Eu amava ler aquelas notícias de assassinatos, aquele desfile de mau gosto nas fotos horrendas. Eu me sentia vivo às custas dos mortos. Livros de ficção-terror também me fascinavam.

Eu era podre. Meus cabelos escorriam pelos ombros, sempre oleosos porque raramente eu os lavava; isto acontecia tão esporadicamente, que nem sei dizer quantos meses levava entre uma lavagem e outra.

Magro e alto, sabia que tinha certo charme, sempre vestido com um surrado casaco de couro preto que contrastava com minha pele muita branca, já que eu não  pegava sol, jamais.

Tive alguma sorte genética, a minha mãe era muito bonita, morena, com grandes olhos castanhos claros. No entanto, eu me via feio, pálido e feio como um cadáver.

Meu casaco ia até abaixo dos joelhos. Usava botas militares, e no pescoço longo, uma caveira de prata, pendurada por um cordão de couro.

Tinha adoração por elas, eram bonitas, as minhas sobrancelhas negras e espessas. Minha diversão era desenhar autorretratos. Em alguns eu era um rato, em outros o Corcunda de Notre Dame, ou Drácula. E as sobrancelhas eram a marca registrada em todos os desenhos em nanquim. Patético, eu sei. Sarcástico, eu me comparava à Frida Kahlo.

Todavia, me tornar um assassino, não estava em meus planos. Aliás, não havia planos em minha sórdida vida. Porém, ele, o assassino, poderia ter estado sempre lá, no fundo da minha mente, no meu sangue, na alma doente. Eu era assim, ódio e desprezo; fome e solidão. Autômato como um robô. Inquieto como um rato. Homem, apenas.

Meu nome?

Pode me chamar de Eu – Black.

trsite

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2 comentários em “ESCREVENDO ESCREVENDO E ESCREVENDO “MOMENTOS FANTÁSTICOS DE SOLIDÃO”

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