Ângela, o Anjo do Mal

caveirablog

Quando a borboleta pousou sobre meus ossos, tive a sensação de um arrepio, entretanto, ossos não têm tal sensação. Olhei em volta, mas não com os olhos de minha carne que já não existia.

A chuva fina trazia cheiro de mato e terra. Exalava também odor estranho, madeira podre, corpos pútridos.

Tentei me levantar. Uma onda de bem estar invadiu minha alma. Estava de pé!

Olhei ao redor, estava verticalmente morto. E via os muros daquele lugar. Sorri um sorriso fixo, ansiando por um trago. Agora eu poderia beber um drink, eu estava de pé.

Nunca acreditei em milagres. Deus, nunca vira. Eu devia a mim mesmo aquele prodígio. Eu estava de pé, no meio do cemitério.

Um fato chamou minha atenção. Havia, ao lado de meu túmulo, flores frescas. Alguém havia sido enterrado ao meu lado. Olhei mais atentamente e vi tratar-se de uma jovem mulher.

Ângela era seu nome. Ele estava cravado em alto relevo dourado. Vinte e cinco anos. Pobrezinha. Não dei um passo sequer, desejando poder acordá-la e convidá-la para aquele drink. Quem sabe pudéssemos formar um casal apaixonado. Mortos e apaixonados. Por que não?

Imaginei Ângela dando-me suas mãos,e, entrelaçados, nos amaríamos. Havia de ter um modo de nos amarmos. Eu não podia compreender nada do que estava acontecendo. mas eu estava em pé, bem ali, em frente à Ângela.

Pensei que, mesmo que não fosse possível sairmos para o mundo lá fora, ao menos teríamos nosso lugar. Afinal, os cemitérios quase sempre eram vazios à noite. Regozijei-me com tal esperança.

Eu já não usava gravatas, nem calças. Apenas ossos e dentes perfeitos. Ela gostaria de mim. Mesmo sem olhos, ela veria através de mim, o quanto eu era perfeito para ela.

Finalmente tomei coragem. Alguns passos e eu a tiraria de lá, daquele buraco frio e escuro.Minha alma palpitava, todo meu ser cantava sons de harpas. Eu iria amar de novo. Ângela, o meu anjo morto.

Sempre ouvi falar de vida após a morte. Seria isso? Não importava. Eu só queria amá-la de todo meu coração, seja lá onde ele esteja. Eu estou aqui, bem vivo. Louco de paixão. Ângela, querida, Vou lhe dar flores todas as noites. Eu as colherei nas tumbas e mausoléus. Eu a farei tão feliz, que haverás de ignorar minha aparência.

Um ruído chamou minha atenção. Eram os ossos dos meus joelhos. Eu estava ansioso e um pouco sôfrego. Os ossos tilintavam como os sinos de Thomas Mann !hahahaha). Os sinos que por mim dobravam, e por Ângela também. Desprezei a vida naquele momento. A carne, o desejo físico, os livros, os homens. Eu era um esqueleto arruinado por um deus que nunca vi.

Então, tomei coragem no cálice do pavor e preparei-me para andar. Ansioso, quase desisti. Contudo, por Ângela eu o faria.

Um gato saiu correndo com um grunhido de medo, ao ouvir-me espatifar, eu desmontava, osso por osso, antes de chegar à Ângela. E, desta vez, achei que fosse milagre ao sentir uma fria lágrima em minha caveira.

Anúncios

Sua opinião me interessa ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s