O MENDIGO E A CARTA

O Mendigo e a Carta

MENSAGEIRO DA LOUCURA
MENSAGEIRO DA LOUCURA

É com alegria e alívio que venho entregar-te esta carta, senhorita. Ela queimava minhas mãos durante a viagem, escorregava de meus bolsos furados; de meus dedos, nutria todo esforço para virar pássaro quando do vento. Não sou bobo, fechei as janelas. E agora, ei-la, a tua carta. Ela insistia em me contar o que trazia, e eu respondia ‘não, cartas são pessoais’. Talvez, querendo dissuadir-me de minha tarefa, porque sou pobre e aceitei trazê-la a ti; sou mendigo, miserável, tenho consciência limpa, e comi por esta carta. Bebi por ela. Na travessia do trem, dormi com um sorriso de barrriga cheia. Toma, aqui está a tua carta. Olha, ela tentou fugir, caiu no chão molhado do banheiro público, quis nadar como um peixe para longe de mim. Teimosa, borrou algumas letras, queria se apagar, deu-me trabalho, a infeliz. Porém, cá está tua missiva, meio amassada, meio mendiga, mas lacrada, eu não quis ouvi-la. Toma-a agora, pois que já me vou, estou contente, cumpri a missão, e a fome passou. Mas ela não queria vir não, deve ser tímida, deve ser de amor. Não, não chores, pior seria não tê-la em teu colo, é tua, a carta, guarde-a bem como eu o fiz. Por que choras, moça? O que ela diz? Não! Não a rasgues, pobre carta, isto dói! Voltei-me abruptamente para catar os pedaços, e em um deles pude ler claramente: ‘está morto’.

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ONTEM NÃO É HOJE

ONTEM NÃO É HOJE

Ontem eu era virgem e amada
Hoje trago o ventre vazio de fomes
Ontem me dizias coisas belas
Hoje olho o quarto, tu somes

Ontem eu ri, mais de mil vezes apaixonei
Hoje, acordei fraca, sem beijo
Ontem repeti te amo te amo
Hoje aos pés de Deus me ajoelhei

Ontem viramos crianças enamoradas
compomos juntos as músicas
Tirei a roupa dancei na varanda
Ontem foi como noites recém-casadas

Ontem foi madrugada em alarde
Hoje na mesa apenas um copo
Ontem tu ficaste até tarde
Mas sem ti por aqui não galopo

Ontem sorrias e me lambias feito gato
Hoje vi melhor eram arranhões
Ontem tu parecias lindo e mui grato
Hoje só tenho dor e degradações

O CAVALEIRO INFIEL

O Cavaleiro Infiel

Me transformo agora em negra flor
pois que vens e me perfumas
com loções de barba ervas sumas
em abraço és-me tórrido beijador

Teu grasnar é tal surpresa
mesmo ali oh!, lugar qualquer
a volúpia não tem qualquer juízo
inda mais nas entranhas da mulher

Ardem chamas em transe louca
transformada em fêmea e aquarela
olho o cavaleiro, co’a voz rouca
pergunto surda: quem é a tua bela?

O ricochete vem em doces rios
minhas pernas andam sem vontade
tremem, cruel amor sem brios
que me torna escrava da infidelidade

Um dia hei de rescindir sem dó
com inóspita medieval paixão
preferirei o azar, estátua de pó
ou ir-me embora nas asas do dragão

___E dá-se a mentir o tempo inteiro
a mulher que não vive longe
do brasão do amante cavaleiro