O MENDIGO E A CARTA

O Mendigo e a Carta

MENSAGEIRO DA LOUCURA
MENSAGEIRO DA LOUCURA

É com alegria e alívio que venho entregar-te esta carta, senhorita. Ela queimava minhas mãos durante a viagem, escorregava de meus bolsos furados; de meus dedos, nutria todo esforço para virar pássaro quando do vento. Não sou bobo, fechei as janelas. E agora, ei-la, a tua carta. Ela insistia em me contar o que trazia, e eu respondia ‘não, cartas são pessoais’. Talvez, querendo dissuadir-me de minha tarefa, porque sou pobre e aceitei trazê-la a ti; sou mendigo, miserável, tenho consciência limpa, e comi por esta carta. Bebi por ela. Na travessia do trem, dormi com um sorriso de barrriga cheia. Toma, aqui está a tua carta. Olha, ela tentou fugir, caiu no chão molhado do banheiro público, quis nadar como um peixe para longe de mim. Teimosa, borrou algumas letras, queria se apagar, deu-me trabalho, a infeliz. Porém, cá está tua missiva, meio amassada, meio mendiga, mas lacrada, eu não quis ouvi-la. Toma-a agora, pois que já me vou, estou contente, cumpri a missão, e a fome passou. Mas ela não queria vir não, deve ser tímida, deve ser de amor. Não, não chores, pior seria não tê-la em teu colo, é tua, a carta, guarde-a bem como eu o fiz. Por que choras, moça? O que ela diz? Não! Não a rasgues, pobre carta, isto dói! Voltei-me abruptamente para catar os pedaços, e em um deles pude ler claramente: ‘está morto’.

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