Túmulo

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Brigite entrou em seu apartamento e sentiu que havia algo errado no ar. Precisamente no ar, um odor de queimado, pano queimado, correu até a porta a fim de chamar o síndico.

Antes que alcançasse a maçaneta, sentiu uma forte mão segurando a sua, pequena e trêmula. Foi um momento insuportável, aos poucos se virou e deu de cara com o síndico. “Graças a Deus”, respirou, “ia mesmo chamá-lo, há algo de errado aqui, sente o cheiro?”

Acordou e viu o teto do seu quarto. Pulsos e tornozelos doíam, estava amarrada. Entre as pernas uma gosma incômoda cheirava forte, era sêmen, ela constatou enjoada e quis vomitar. E vomitou pelo canto da boca, no travesseiro.

O síndico entrou, tinha olhos diferentes, com um brilho que Brigite jamais vira. Contorceu-se, mas era inútil, mil pensamentos passaram por sua cabeça. Pensou em Mônica, só pensava nela, era tudo que tinha. Jamais fora amada na vida. Pais ausentes, abusos, perdas, mortes. Pais drogados, tios, sombras, medo.

“Como se sente, sua vaca lésbica?”

E foi a última coisa que ouviu antes de desmaiar com um soco no queixo.

O síndico a retalhou em várias partes do corpo delicado e nu. Com um resto de consciência, Brigite pensou que era seu fim. Constatou resignada que a sua vida era assim, que felicidade nunca existiu. Pensou no sorriso de Mônica e pela última vez suspirou. Ainda viu seu gato tosquiado e morto ao seu lado. Sufocou com o sangue na garganta. Olhou para o síndico e esboçou o que julgou ser um sorriso.

“Obrigada”.

A vida é muito importante para ser levada a sério. Oscar Wilde