Reptiliano – Luiz Guilherme Volpato

E acordo assim.

Com o sono invadido por sonhos e lembranças.

Como realidades hipotéticas.

De uma época onde curvas no caminho ainda poderiam ser tomadas.

Num mundo onde fechar os olhos e sentir a brisa contra o rosto ainda fazia sentido.

Numa época onde meus desejos e orações eram endereçados a mesma pessoa.

Onde haveria sentido voltar ou não sair de casa.

Mas de cicatrizes sobrepostas meu coração se tornou escamoso.

Duro, frio… feio.

Não desejo saber de seu paradeiro.

Não me interesso por sua vida.

A curiosidade é menor que a segurança da beira do meu lago.

Não a quero aqui hoje.

Mas sinto falta de mim, aí, ontem.

 

 

 

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Tratado sobre o fim, ou o brilho eterno de uma mente sem lembrança

“Feliz é o destino da inocente vestal. Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.”

Quantos anos terei ainda na vida? Viverei até os cem? Ou terei dez anos a mais, ou menos que isso? Kurt Cobain aos 24 anos de idade, no auge de sua banda Nirvana, não pensava que dali a apenas três anos ele morreria, ainda que supostamente por suas próprias mãos. Charles Bukowski, com sua vida de excessos e mulheres loucas, imaginava não passar dos 50, no entanto viveu até os 73, sempre dizendo que tinha sorte de chegar lá (na verdade ele dizia que Linda Bukowski, sua última mulher, havia lhe dado dez anos extras cuidando de sua saúde). Pois é, não se pode saber uma coisa dessas.

Posso viver quantos anos mais o destino me der, sejam cinco, dez, vinte ou cem anos a mais, mas na realidade não é isso o que importa nesse momento em que acabo de matar a melhor parte de mim, e observo seu sangue escorrer pelo chão.

Sim, eu me encontro no pior momento da vida de um homem: o momento em que ele deve matar seu amor diariamente para não morrer por inteiro. Há muitos que sucumbem, matando literalmente esse amor, ou seja, a mulher depositária dele, mas depois não sobra muito a fazer senão meter uma bala na cabeça, e boa parte não tem nem essa coragem depois de cometer um crime tão grotesco. Não.

Eu falo da morte do meu amor, da doçura, da leveza e da beleza interior, que a despeito de sua profundidade e amplitude interna, acaba por sucumbir sob o peso dos ataques traiçoeiros e mesquinhos do mundo e dos que dele fazem parte.

Eu vivo uma luta homérica mortal diária. Minha luz e minhas sombras se engalfinham todo dia buscando o controle dessa vida. Amar ou secar ao Sol, fritando em sombras e desamparo? Cada momento uma coisa, e frequentemente acabo por passar por ambos de uma só vez. Cada vez mais eu aprendo que a Vida na verdade é uma queda de braço entre o criador e o ceifador dentro de mim mesmo, cada hora vencendo um deles, mas há raros momentos em que ambos repousam aqui dentro, e essa trégua se dá no meu amar.

Quando isso não acontece, eu assisto à luta voraz que me corrói por dentro, embora você veja algo diferente disso quando me olha do lado de fora, caso me observe por algum tempo. Sim, estou ficando bom nas retóricas perguntas feitas a mim no dia-a-dia. Os nunca pouco casuais “Tudo bem?” que sempre ouço.

Para que eu possa viver pela metade, e não deixar de viver COMPLETAMENTE, mato todo dia metade de mim, o criador, o que ama, o que sente completamente tudo ao redor sem reservas, o que chora, o que dói mais.

Nesse exato momento, observo com esse cadáver, mas é só a melhor parte de mim que morre, como eu já disse antes. Tudo bem, faz parte do meu show, além disso, quando eu me levantar amanhã, essa parte acordará mais uma vez, pois ela se recusa a morrer, então, terei de matá-la outra vez. Cada dia, um novo dia.

É um serviço sujo…

Mas alguém tem que fazer.

Mais do autor em http://odiadpois.blogspot.com

Castelo de Cartas – Luiz Guilherme Volpato

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Castelo de cartas

De tanto empilharmos sonhos

tentamos alcançar o céu

Construimos algo grande

Baseado no que não somos

Nosso construto foi invejado

por todos ao redor

algo que erigimos, com sonhos e suor

Superando as nuvens, almejando o céu

Nem vimos quando ruíu

A nossa torre de Babel

Hoje falamos línguas diferentes

e mal podemos nos comunicar

e entre dois pares de braços

um abismo se criou

E ficamos distantes,

ficamos pequenos no horizonte

Nunca mais voltei a torre

nunca mais empilhei meus sonhos

nunca mais dei as costas ao mundo

nunca mais

nunca mais

Porém ainda olho para cima

e assim, contemplo o céu

E sinto falta de nós dois, em nossa torre de babel

Alheios a tudo

Alheios ao mundo

felizes

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Esquivas Amorosas – Luiz Guilherme Volpato

Incertezas de um futuro esquecer

Não sei que brados irão me levar

Pois não sou mais indolente o bastante, para me deixar levar pelo indomável amanhã.

Nem serei seduzido pelo inevitável amanhecer.

Careço de alguma definição

Pois já gozo de algum amadurecimento

E as letras das músicas de suas baladas, necessitam entendimento.

Não quero ter de prestar significações,

A romances incertos na madrugada

Não desejo ser apenas mais um corpo a ser usado.

Nem ser o refém de um maldito telefonema.

Cujo não tocar, abala minha noite de sono.

Porém nem tão pouco algo seguro e calmo… que manteria minha cabeça firme em um travesseiro.

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Afogado

A escondo em fotografias

Subtraindo-a da memória

Lembranças valiosas, sufocantes.

Um solo sagrado, onde não mais poderemos ser vistos juntos.

E o guarda-chuva de seu daiquiri, não a protegerá das lágrimas boemias.

Dos vidros embaçados.

Dos olhares opacos.

Da fórmula do elixir que criastes, com icebergs perdidos em seu copo de whisky.

Macular seus antigos sorrisos, com sua visão atual.

Refugio seus grandes momentos nos papéis guardados.

Escondidos, protegidos.

Não os levarei comigo.

Mas reconheço sua beleza.

E por isso a encarcero numa fortaleza de papel.

Pois em algum lugar, ainda é necessário que você exista.

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Despertar

Tenho estado distraído

Muitas coisas passaram sem atenção

Lugares perdidos

A mente ancorada em algum lugar

E pessoas entraram e saíram da minha vida como vultos despercebidos

Sem a menor ansiedade, deixei fluir sem significado.

Sem merecer um “por quê?”.

Sem merecer um segundo olhar.

Deixei muito passar.

Você passou?

O que houve com seu brilho?

Por que não me atraiu?

Julguei que estivesse esperando por você.

Mas onde está todo o nervosismo?

E finalmente, totalmente desperto, olho para você.

E não sinto mais nada.

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Continentes

No horizonte você repousa
Meus olhos não te alcançam
Por vezes meu coração ruma sozinho

Começo então a peregrinar

Saboreando o alívio que é saber de sua existência
Minha jornada não me preocupa quanto aos perigos
Mas com o que encontrarei
Na outra extremidade dessa estrada

Me mostre onde você se esconde
Quero me mesclar a sua essência
E banhar-te em meu suor

Por mais escaldante que seja o caminho
Imaginarei a brisa que emaranha seus cabelos
chegar a mim com seu perfume

Não sabes por onde andei
Não sei aonde ainda chegar

Não me espere de braços abertos
Não me espere de forma alguma

Venha em minha direção
Ou dificulte minha vida,
não importa.

Como posso me perder?

Todos os caminhos me levam a você.

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Volpato

Luiz Guilherme Ricci Volpato tem 32 anos, é Psicólogo Comportamental Cognitivo, trabalha com adolescentes, perda de peso e sexologia. Seus interesses começam na Filosofia, passando pela mitologia, literatura estrangeira. Começou nas a expressar-se no universo das palavras através de poemas e crônicas; atualmente tem planos de escrever contos ( que serão muito bem-vindos aqui!).