ONTEM NÃO É HOJE

ONTEM NÃO É HOJE

Ontem eu era virgem e amada
Hoje trago o ventre vazio de fomes
Ontem me dizias coisas belas
Hoje olho o quarto, tu somes

Ontem eu ri, mais de mil vezes apaixonei
Hoje, acordei fraca, sem beijo
Ontem repeti te amo te amo
Hoje aos pés de Deus me ajoelhei

Ontem viramos crianças enamoradas
compomos juntos as músicas
Tirei a roupa dancei na varanda
Ontem foi como noites recém-casadas

Ontem foi madrugada em alarde
Hoje na mesa apenas um copo
Ontem tu ficaste até tarde
Mas sem ti por aqui não galopo

Ontem sorrias e me lambias feito gato
Hoje vi melhor eram arranhões
Ontem tu parecias lindo e mui grato
Hoje só tenho dor e degradações

Anúncios

DAS RELAÇÕES AFETVAS E SUAS TANTAS NUANCES ERÓTICAS

Sabemos que a natureza humana é dotada de certos privilégios, inclusive o de ter a consciência mais desenvolvida em relação aos demais animais. Não obstante, em muitos aspectos somos unos quando, por exemplo, se trata de sobrevivência.

Deixando introduções de lado, irei direto ao ponto. Sexo.

O sexo é uma dádiva para as espécies. Muito além de representar a continuidade da vida, ele traz consigo o cio. O desejo. A pré-concepção que vem dotada das mais variadas formas dos animais se atraírem e acasalarem. Uns dançam, outros cantam, assoviam, e se exibem de inúmeras formas.

Voltando ao ponto da espécie humana. O sexo é uma festa dionisíaca entre nós. Uma celebração tórrida acompanhada de vários apetrechos, tais como bebidas, roupas, perfumes, e tantas mais parafernálias de sedução. A festa do casamento e a espera dos filhos, no caso do casamento heterossexual, têm sido a principal forma de legitimar o sexo.

Não fosse a ética e a moral, possivelmente o homem experimentaria inenarráveis formas de sentir prazer. Por algum motivo – que vai além do apelo religioso – nos organizamos, envoltos em regras e pilares morais de acasalamento.

Antropologicamente colocando a questão, observamos certas exceções no que tange a leis de comportamento. Há tribos em longíquos lugares que pensam o sexo de forma muito distinta de nós, entretanto, são suas regras advindas de sua cultura, portanto a moral analisada pela ética vai bem além do nosso suposto monopólio orgástico.

O que o homem não conseguiu, contudo, foi reprimir certas formas de amar, tais como as relações homoafetivas, que aliás são a principal característica desse início de pós-modernidade. O queer é o desejo manifestado do amor entre pessoas do mesmo sexo, mas de gêneros variados; é a total quebra das tradições. Uma realidade que não poderá ser negada e nem intimidada com poderes das políticas e nem da Igreja.

Queer Culture

Entrementes, ainda é possível manter as coisas sob um certo controle administrativo. Não que isso vá inibir os amantes queers, mas eles precisarão aceitar alguns preceitos de moralidade, contribuindo, assim, para um consenso social legítimo e estável. E, da mesma forma, os heterossexuais terão a mesma responsabilidade, já que muitas vezes cometem torpezas inigualáveis.

Não fossem as organizações humanas como um todo, não seria de admirar que o homem chegasse ao ponto de se reinventar no amor, admitindo e praticando todo tipo de prazer, inclusive com espécies diferentes da sua, o que, em escala diminuta, já acontece de fato.

Concluo que a única explicação para que o homem necessite de freios a fim de  se relacionar afetiva e sexualmente, seja o fator biológico e genético que o retira do ordinário cenário da natureza e o eleva a um patamar melindroso, o que demoniza o entendimento sexual entre nós.

Porque o único ser que se utiliza de todos os seus cinco sentidos ao praticar o sexo, somos nós. Esta sensação única nos ensoberbece, e é quando confundimos tal dádiva com liberdade desenfreada de nossas ações. Os cinco sentidos trabalhando no ato sexual, faz do homem o maior beneficiário do amor. Mas também o mais confuso e irresponsável herdeiro de tão estonteante prazer.

 

 

 

 

 

Pérolas de Luiz Guilherme Volpato

 

Marcas

triste2

Às vezes fazemos o que não queremos
Obrigados a viver, escolhas que não fizemos
Ou escolher viver o que escolheram para nós
Não quero lhe pedir mais nada
Cansei de me esforçar para ser visto
A dor de não ser encarado
Corta o coração, como a forma mais cruel de abandono
Eu escolhi amar você
E tenho culpa de deixar o mundo todo de lado
Eu me obriguei a te amar
E me inocentei da culpa de lhe deixar
Não sei por quanto tempo deixei de te olhar
Mas agora cada instante, simplesmente não se vai.
As coisas que ficam, as vezes mudam
Mudam de sentido
Mudam de opinião
Talvez por obrigação.
Será que obrigamos a vida a flexionar-se a nossa vontade?
Não obrigaria você a voltar para mim
Mas obrigaria o mundo a fazê-la feliz
Você não me obriga a nada…
Mas também não me dá escolhas

 

Meu libertar

gotica

Teu silêncio
Tão calado, voraz…
Como se devorasse todos os sons ao redor.
Uma exclamação muda, incapaz de se passar despercebida.
Os significados que me dizem respeito e não lhe serão atribuídos.
Finalmente virar a esquerda ao invés da direita.
Se deixar levar pela descoberta de um novo universo.
Nova vida, novos sentimentos.
Se surpreender com uma mudança em suas intensões e limites.
Violento então, teu silêncio desagregador.
Com meu grito de alívio,
Retomando a marcha, conduzindo a uma viagem a um novo velho mundo.
Para o qual rumo, cantarolando a felicidade de ser livre.

 

Esse poeta lida muito bem com o amor, afinal o amor não mente e não é egoísta. Você sempre bem vindo, Luiz Guilherme.

Beijo!

Mundo paralelo

Na realidade, ela sabia que tudo estava errado em sua vida. Desde sempre, carregara aquele defeitinho, que foi crescendo, crescendo, até explodir em sua própria alma. Seus pais, e toda a família sabiam, mas, por pena ou medo, jamais tocavam no assunto.

Eu a vi, depois de muito tempo, quando já estávamos com trinta e cinco anos. E, mesmo crescendo juntas, nunca me senti muito amiga dela. Sua excentricidade sempre me incomodou. E, precisamente, aquela mania, que só crescia, muito me assustava.

Marly estava rica. Morava em uma cidadezinha francesa chamada Vichy; porém vivia mais em Paris, por conta de seus badalados livros, e de suas peças para teatro. Casara-se com um belo e rico francês, um produtor de Arte. Conversamos por quase uma hora, e foi tudo que aguentei, naquele dia, no Rio de Janeiro, quando nos encontramos, casualmente.

A morena de olhos verdes, entre uma taça e outra de champanhe, descrevia como sua vida era feliz e agitada. Falava de seus amigos, seus livros, suas roupas, e de como era altruísta, ajudando muitos jovens artistas em início de carreira. Foi quando percebi que ela continuava a mesma Marly de sempre.

Ela jamais fora altruísta de verdade. Ao contrário, vociferava, aos quatro ventos, que amava as pessoas, que as entendia, e que faria de tudo por elas. Entretanto, sempre soubemos, nós duas, que, no fundo, Marly só queria se sentir rodeada de pessoas, e ser admirada, custasse o que custasse. Mesmo que, para isso, ela criasse um mundo paralelo.

De todos os erros cometidos, o mais grave foi ela ter insistido na antiga prática de inventar amores. Para cada estação, havia homens diferentes, e, muitas vezes, até acreditava que, de fato, os amava. Chegava mesmo ao cúmulo de sofrer por amores inventados por sua complexa mente de escritora.

Despedimo-nos e fomos, cada qual, para seus destinos. Confesso que senti pena de minha amiga de infância. Jamais conheci alguém que tivesse esta incrível capacidade de viver em um mundo paralelo, onde tudo é fake, tudo é de mentira, até o amor.

Cheguei a casa, ainda pensando. Quando anoiteceu, cochilei no sofá, e fui acordada com a terrível notícia do suicídio da Marly. Ela dera cabo da sua vida. De verdade. Pela primeira vez, de verdade, Marly existiu.