Lágrimas de Escuridão _ Mais um fantástico conto do Reino de Morserus

LÁGRIMAS DE ESCURIDÃO, BY MARCELO SCHWEITZER

É realmente um prazer voltar a comentar a obra do escritor Marcelo Schweitzer, que criou um mundo o qual vai além da literatura por questionar a vida de forma filosófica, sempre dando a seus personagens escolhas, vários caminhos, provocando pensamentos morais, discutindo ética e, acima de tudo, instigando o pensamento do leitor, obrigando-o muitas vezes reverem seus valores e tudo no que acreditaram até o momento de entrar no maravilhoso e fantástico mundo de Morserus, lugar além de todas as galáxias, um mundo onde os habitantes não são homens, tampouco são animais, porém uma intrigante mistura dos dois.

Desta vez o autor nos apresenta a doce Adell, menina com sérios conflitos de autoestima, que ao mesmo tempo em que acredita no amor como redenção para todos os problemas do mundo, dispensa mais tempo ao desamor, na dor da ausência do pai, e na confusa convivência com a meia irmã, e a mãe que parece preteri-la, em favor da outra que, mesmo sendo a mais nova, parece merecer mais ir para a Academia e ser amada.

Aqui, neste mundo surreal, tabus são quebrados, incestos e fratricídios são mais comuns do que se possa imaginar. Profecias questionadas e superadas! Afinal, estamos em Morserus.

A tragédia de Adell começa quando ganha uma máquina de escrever, novidade que o pai traz de Troferus, a Nação dos Gatos. Entretanto, a mãe ordena que o acessório fique para a irmã, por esta ser mais inteligente e apta a estudar.

A partir de um diário “mágico”, a triste menina vive uma odisseia de descobertas e acontecimentos perfeitamente normais para uma adolescente de treze anos, se não estivéssemos em Morserus, e Adell não fosse uma complexada cadelinha da linhagem Bexor, sem relevância na sociedade do lugar.

Em determinada altura, a personagem encara o desafio de defender o amor, de lutar por ele, através de uma verdadeira paixão por um cão de linhagem superior e muito mais bonito e rico que ela, o Jokua. Um toque shakespeariano, por que não? As coisas neste mundo parecem mais avançadas intelectual e filosoficamente, contudo, alguns sentimentos são semelhantes aos dos humanos.

O conto vem mesmo com grande apelo filosófico, e a personagem ser a narradora usando o diário como ferramenta é emocionante e remete a uma outra menina que viveu a mesma experiência, Anne Frank, ela mesma.

Neste episódio, o autor não economiza nas metáforas, e o coração aperta quando Adell compara o mau tempo, o redemoinho negro com seu interior. Uma dor latente que incomoda o leitor.

A busca incessante pelo amor e por uma elevação social a fim de conquistar sua paixão proibida, leva a jovem a passar por muitas situações inusitadas, entretanto, ela parece vencedora! Alcançou o status dos ricos e conquistou seu amante, com direto a bailes e ostentações.

Preservando o suspense do autor, paro por aqui, recomendando esta viagem onde quando menos esperamos, somos nós lá, nos conflitos, nas páginas do diário de Adell.

Como pista, subscrevo a personagem, que do alto de sua conquista, profere estas palavras, desconcertando o leitor:

“Os pobres saciam a sua (fome) com alimento, enquanto que nós temos fome de luz, e não encontramos no brilho do ouro luz suficiente para nos alimentar.”

Lágrimas de Escuridão trata do Efeito Borboleta. O que você faria se pudesse mudar algo em sua vida? Se pudesse voltar bem lá atrás e refazer o que estava errado? Bem, Adell o fez, mas o resultado seria, no mínimo, deselegante contar aqui.

Leiam o conto, é sensacional! Recomendo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A DANÇA DOS ORKSHAS

ESCRITOR  MARCELLO SCHWEITZER

essadança

O mundo de Morserus traz mais um livro de sua odisseia filosófica. Mais um conto sobrenatural, e mais um personagem que o autor apresenta –  Malfaer, um rapaz, um Rato que anseia mudar sua vida e a de sua família. Busca a liberdade para ver o céu amarelo e laranja de Morserus. Mesmo sabendo-se fraco e ocioso, ele anuncia à família que é o escolhido para a salvação da pobreza, e que sairão das favelas subterrâneas para a superfície, onde poderão viver com dignidade. As lágrimas de felicidade de sua mãe justificavam sua fantasiosa estória de herói.

Então começam seus conflitos, pois entra em um labirinto de mentiras, mentiras que, para ele, se tornam a única forma de trazer alívio para sua família.

O conto é ambientado em favelas subterrâneas povoada por ratos, onde imperam, além da pobreza, a dor de jamais se vislumbrar a superfície. E é na superfície onde, a cada ano, acontece uma batalha de vida e morte.

Os  animais têm uma espécie de oráculo, conhecido como Rodamorta. A partir da visita do Rato a esse oráculo, seu drama começa de forma intensa e dolorosamente conflitante. Malfaer precisa ir em frente com suas mentiras, e resolve se inscrever nessa tradicional disputa, onde acontece a Dança dos Orkshas, entidades que se dividem entre as de luz e as das trevas, entretanto, por alguma razão, as das trevas prevalecem.

Na verdade, é uma corrida pela sobrevivência, onde apenas um concorrente pode sair vencedor. Dentre os cem competidores, está Malfaer, o  fraco, covarde, obrigado a crer em seu Orksha, que representa o Medo. Contudo, o improvável herói aceita o desafio de sua própria mentira, se apresentando como voluntário para o evento de carnificina, onde apenas os ricos se divertem de forma sádica, brindando com o sangue dos concorrentes que, misturado a algum estranho elemento, permite que entrem nas mentes de seus concorrentes, compartilhando tudo que os participantes vivem nessa cruel corrida para a morte.

Como sempre, Marcello Schweitzer se posiciona como um escritor que não se envolve emocionalmente com seus personagens, e mesmo o narrador parece ficar indiferente diante de tanto sofrimento e medo. Exceto pela pérola “A ignorância do Mal não nos protege do Mal” citada no conto, os personagens estão entregues à sua solidão. À sua própria sorte.

Uma estória que remete à Caverna de Platão (as favelas são como pequenas cavernas), e faz com que o leitor transite pela história da própria humanidade, desde a Grécia Antiga, com suas arenas sangrentas, aos tempos atuais, onde a solidão abraça os menos favorecidos, e onde os miseráveis só servem para a reflexão de alívio dos ricos e bem sucedidos.

O Rato Malfaer traz uma grande lição de vida para nós, humanos. Lição essa que surpreende, não tanto pelas ações, mas pelas reflexões que o personagem consegue ter, em meio ao corredor da morte. Lidando com vertiginosa corrida pela sobrevivência, algo muda seu interior e surpreende o leitor.

O escritor é, indubitavelmente, um artista pós-moderno; ainda que mergulhando na filosofia grega, traz grandes estórias reflexivas do caos em que vivemos nesse século XXI. Lançando mão do estilo socrático-platônico, cria grandes e profundos diálogos entre seus personagens. O leitor fica diante de várias opções para lidar com sua própria vida.

Conheça esse mundo de estórias assustadoramente humanas, ainda que povoado por animais construídos por excitante morfologia.

A Dança dos Orkshas é uma obra prima, em minha opinião.

Leia no blog do autor e baixe o ebook

By Day

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Último Rei da Escócia – ator mandou bem!




THE LAST KING OF SCOTLAND

Para quem viu, sabe que é uma boa produção. Melhor, é uma ótima produção, principalmente pela direção sensível e equilibrada de Kevin Mac’Donald, um bem reconhecido documentarista, diga-se de passagem. E quem ainda não viu, nunca é tarde. As locadoras ainda existem.
Trata-se de uma adaptação (legal, né?) do romance homônimo de Giles Foden. E botaram mesmo pra foder (não pude evitar, sou carioca).

O filme maravilhoso é narrado pelo ponto de vista do médico escocês Dr. Carrigan (David Ashton)), um idealista e jovem médico que vai para Uganda, em busca de esperanças. Entretanto é convencido pelo ditador Idi Amin (anos 70) a ficar ao lado dele, argumentando que, desta forma, estaria ele – o jovem médico – de fato, ajudando aquele país. Uganda.

Mas, infelizmente, há choques culturais e de poderes supremos. E assim, nesta película genial, podemos mergulhar num antigo pensar, ou seja, até hoje vemos e não vemos o poderio africano. Como também não sentimos a verdadeira fome daquele quase povo.

Eu indico este filme concorrente ao Oscar, e que elevou um dos meus atores favoritos ao merecidíssimo Globo de Ouro.

Este filme emocionou-me tanto que por hoje é só. Porque ainda faltou falar da trilha sonora e da fotografia.

Parabéns vai para Forest Whitaker!!

Fala você!