O Fantasma Russo

“… é a doença que gera o crime ou é o próprio crime que , por sua natureza específica, de certa forma é sempre acompanhado de algo como uma doença? (Crime e Castigo)

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Neste dia eu estava especialmente má. Um gosto amargo específico destilando um ódio seco que escorria junto com a saliva quando imaginava que iria beijá-lo. Mais uma vez. E o beijaria enquanto vivesse. Joguei fora, pela manhã, Crime e Castigo, livro que lemos e relemos incansavelmente. Falávamos e defendíamos o direito à liberdade. Liberdade plena, e muitas vezes ríamos das leis punitivas que a nós não afligiam jamais. Bebíamos e arrotávamos niilismo e vodkas.

Por me chamar Sônia, ele, ridiculamente, me comparava à personagem de Dostoiévski, me imaginando uma espécie de reencarnação. Eu certamente jamais seria pura e religiosa como a Sôniade Rodion Românovitch Raskólnikov, o personagem de DostoiévskiContudo, ele, meu espécie de marido, era incrédulo, um homem entre ateu e agnóstico, com aterrorizante sensibilidade mediúnica, algo metafísico, estranhamente desconhecido por mim.

Meu Grigory Gatilov pressentia as coisas, e enquanto pintava seus quadros de violentas paisagens, eu sempre ficava impressionada com tantas coincidências. Não raro seus quadros viravam notícia de páginas policiais.

Na tela impressionista uma linda jovem com cabelos de fogo se mantinha estática em uma corda, enforcada; dias depois de terminada a obra, uma rapariga complexada aparecera dependurada no quarto de  numa estalagem. Motivo para o suicídio? Nem os amigos, a senhoria ou mesmo a polícia descobriram.

Todavia, eu já vivia assombrada e determinada a me afastar de Grigory e suas enlouquecidas telas. Mesmo não sendo, digamos, sensitiva, eu podia sentir que algo terrível estava para acontecer. Vivíamos no passado. Isso me assustava às vezes, quando olhava em volta e observava tantas tecnologias e gente contemporânea. Enquanto eu era a Sônia russa. Até nossas trajes eram do século XIX. Um “mimo inofensivo à estética, dizia ele.

Cheguei ao apartamento, naquele bairro sinistro, repleto de drogados e miseráveis prostitutos. Subi as escadas e entrei – a porta estava sempre aberta. Vi que no meio da sala, num cavalete, tinha uma tela por terminar. Um pano negro a encobria; entretanto, era voraz e mórbida minha curiosidade. Minha bexiga doía, precisava ir ao banheiro, mas fiquei ali, paralisada diante do quadro coberto.

Que premonição ele pintara desta vez? Outro suicídio? Homicídio como da vez da senhora desdentada? Essa pintura era de dar medo, aquelas covas cinzas e os cabelos arrepiados da anciã, somados à uma expressão enigmática, era de dar medo, e até pavor, se vista à noite em meia luz. Embora já estivesse disposta a deixá-lo para trás com sua loucura que já não suportava a minha, eu não me contive. Este foi meu grande erro.

Puxei o pano. Um frio mortal percorreu meu corpo. Senti, pela primeira vez, uma espécie de desapego da vida, do amor, do meu próprio corpo.

Muito calma, perambulei pelos cômodos da casa tentando adivinhar em qual deles eu morreria, pois sem dúvida aquele pescoço estrangulado na tela borrada de coloridas tintas era o meu, com a inconfundível medalhinha de ouro branco que eu jamais tirava do peito. E as mãos grandes, de dedos longos e austeros eram, indubitavelmente, as mãos de Grigory Gatilov.

Suspirei resignada e sentei-me em uma cadeira próxima à janela, respirando uma brisa que soprava e anunciava uma noite fresca que, se não fosse o quadro de Grigory, seria uma noite perfeita para o amor. Para uns drinks e boa música.

Todavia, na tela inacabada do estrangulamento dava para ver ao fundo uma reprodução de Degas – a Prima Ballerina -, e este quadro pertencia a Grigory, à casa dele. Fiquei confusa. Ele tencionava me matar em frente ao quadro de Degas? O que isso poderia significar?

Estiquei um sorriso ao lembrar dele me chamando sempre de ‘minha bailarina de Degas. Confesso nunca ter entendido ao certo. Talvez este impressionista pintara a irmã prostituta que era bailarina, ah, eu nunca me importei muito com os por quês. Eu o amava tanto, eu era sua pupila, sua súdita. A mulher capaz de tudo para vê-lo feliz.

Levantei-me, fui à cozinha beber água. Voltei e me sentei outra vez.

Só neste momento atentei para o fato de que, talvez por pura tensão, eu não havia ido ao banheiro. Para lá me dirigi, já bastante aflita pela ausência do meu artista. Que ele viesse logo e terminasse sua tela, juntamente com a minha vida. Que era sua, afinal.

Caminhei lentamente pelo longo corredor sem luz e abri a porta do lavabo, sentindo-me mais morta do que viva. Imaginei meu homem na Sibéria a prestar trabalhos forçados como Rodka Raskólnikov, o grande herói de meu querido Grigory. Sorri mais uma vez.

A porta do banheiro rangeu, como sempre acontecia. Eu entrei puxando a lingerie para baixo da saia e sentei calmamente no vaso. Pareceram horas o tempo que ali fiquei a urinar minha última urina. Sentia o líquido quente escorrer pela vagina, e por uns segundos experimentei prazer.

Lembrei das tantas vezes que nos amamos, Grigory e eu, das longas viagens pela Europa e Ásia, África, Oriente Médio; o orgulho que ele possuía em falar de seus antepassados russos, seus pais mortos pela fome, as desgraças bolcheviques. Até de seu ódio pelos ingleses eu lembrei com carinho e amor. Eu já não tinha a boca amarga e nem ódio, talvez em nenhum momento chegara mesmo a enfastiar-me desse meu amor.

Fechei os olhos enquanto me enxugava e pedi a Deus que eu tivesse uma prova de amor do meu querido insano; que eu morresse sabedora de seu amor por mim. Fiquei com a calcinha arriada enquanto lágrimas quentes davam vida ao meu rosto pálido, naquele banheiro escuro.

Não sei se Deus ou destino, ou mesmo Deus me perdoando – mas se eu nem cria! – O fato era que por estar escuro eu não havia notado no box aquele lindo homem tão conhecido do meu afeto, meu paladar e meu tato, caído no frio chão, como um animal abandonado.

Névoa cobriu meus olhos e eu vi finalmente a morte diante de mim. Assim, sem susto ou alarde…

Um corpo se redimia enfartado ao chão, secando as últimas gotas de um banho. Do último banho de Grigory Gatilov.

Nem alívio, nem dor, nem medo. Eu fiquei impassível, e tudo que me ocorreu, foi que eu deveria terminar a tela onde eu estava morta, e assumir os trabalhos do meu russo, porque tinha que ser assim. O show não poderia jamais parar. Peguei o pincel, o mergulhei na tinta vermelha e lambuzei aquele corpo pálido e nu.

Desci ao porão e descobri a minha tela de aluna. Sim, Grigory estava absoluta e soturnamente idêntico à minha pintura. Abri a vodka e relaxei, enquanto ligava para a polícia.

Por Daisy Carvalho

 

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Túmulo

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Brigite entrou em seu apartamento e sentiu que havia algo errado no ar. Precisamente no ar, um odor de queimado, pano queimado, correu até a porta a fim de chamar o síndico.

Antes que alcançasse a maçaneta, sentiu uma forte mão segurando a sua, pequena e trêmula. Foi um momento insuportável, aos poucos se virou e deu de cara com o síndico. “Graças a Deus”, respirou, “ia mesmo chamá-lo, há algo de errado aqui, sente o cheiro?”

Acordou e viu o teto do seu quarto. Pulsos e tornozelos doíam, estava amarrada. Entre as pernas uma gosma incômoda cheirava forte, era sêmen, ela constatou enjoada e quis vomitar. E vomitou pelo canto da boca, no travesseiro.

O síndico entrou, tinha olhos diferentes, com um brilho que Brigite jamais vira. Contorceu-se, mas era inútil, mil pensamentos passaram por sua cabeça. Pensou em Mônica, só pensava nela, era tudo que tinha. Jamais fora amada na vida. Pais ausentes, abusos, perdas, mortes. Pais drogados, tios, sombras, medo.

“Como se sente, sua vaca lésbica?”

E foi a última coisa que ouviu antes de desmaiar com um soco no queixo.

O síndico a retalhou em várias partes do corpo delicado e nu. Com um resto de consciência, Brigite pensou que era seu fim. Constatou resignada que a sua vida era assim, que felicidade nunca existiu. Pensou no sorriso de Mônica e pela última vez suspirou. Ainda viu seu gato tosquiado e morto ao seu lado. Sufocou com o sangue na garganta. Olhou para o síndico e esboçou o que julgou ser um sorriso.

“Obrigada”.

A vida é muito importante para ser levada a sério. Oscar Wilde

 

 

Lágrimas de Escuridão _ Mais um fantástico conto do Reino de Morserus

LÁGRIMAS DE ESCURIDÃO, BY MARCELO SCHWEITZER

É realmente um prazer voltar a comentar a obra do escritor Marcelo Schweitzer, que criou um mundo o qual vai além da literatura por questionar a vida de forma filosófica, sempre dando a seus personagens escolhas, vários caminhos, provocando pensamentos morais, discutindo ética e, acima de tudo, instigando o pensamento do leitor, obrigando-o muitas vezes reverem seus valores e tudo no que acreditaram até o momento de entrar no maravilhoso e fantástico mundo de Morserus, lugar além de todas as galáxias, um mundo onde os habitantes não são homens, tampouco são animais, porém uma intrigante mistura dos dois.

Desta vez o autor nos apresenta a doce Adell, menina com sérios conflitos de autoestima, que ao mesmo tempo em que acredita no amor como redenção para todos os problemas do mundo, dispensa mais tempo ao desamor, na dor da ausência do pai, e na confusa convivência com a meia irmã, e a mãe que parece preteri-la, em favor da outra que, mesmo sendo a mais nova, parece merecer mais ir para a Academia e ser amada.

Aqui, neste mundo surreal, tabus são quebrados, incestos e fratricídios são mais comuns do que se possa imaginar. Profecias questionadas e superadas! Afinal, estamos em Morserus.

A tragédia de Adell começa quando ganha uma máquina de escrever, novidade que o pai traz de Troferus, a Nação dos Gatos. Entretanto, a mãe ordena que o acessório fique para a irmã, por esta ser mais inteligente e apta a estudar.

A partir de um diário “mágico”, a triste menina vive uma odisseia de descobertas e acontecimentos perfeitamente normais para uma adolescente de treze anos, se não estivéssemos em Morserus, e Adell não fosse uma complexada cadelinha da linhagem Bexor, sem relevância na sociedade do lugar.

Em determinada altura, a personagem encara o desafio de defender o amor, de lutar por ele, através de uma verdadeira paixão por um cão de linhagem superior e muito mais bonito e rico que ela, o Jokua. Um toque shakespeariano, por que não? As coisas neste mundo parecem mais avançadas intelectual e filosoficamente, contudo, alguns sentimentos são semelhantes aos dos humanos.

O conto vem mesmo com grande apelo filosófico, e a personagem ser a narradora usando o diário como ferramenta é emocionante e remete a uma outra menina que viveu a mesma experiência, Anne Frank, ela mesma.

Neste episódio, o autor não economiza nas metáforas, e o coração aperta quando Adell compara o mau tempo, o redemoinho negro com seu interior. Uma dor latente que incomoda o leitor.

A busca incessante pelo amor e por uma elevação social a fim de conquistar sua paixão proibida, leva a jovem a passar por muitas situações inusitadas, entretanto, ela parece vencedora! Alcançou o status dos ricos e conquistou seu amante, com direto a bailes e ostentações.

Preservando o suspense do autor, paro por aqui, recomendando esta viagem onde quando menos esperamos, somos nós lá, nos conflitos, nas páginas do diário de Adell.

Como pista, subscrevo a personagem, que do alto de sua conquista, profere estas palavras, desconcertando o leitor:

“Os pobres saciam a sua (fome) com alimento, enquanto que nós temos fome de luz, e não encontramos no brilho do ouro luz suficiente para nos alimentar.”

Lágrimas de Escuridão trata do Efeito Borboleta. O que você faria se pudesse mudar algo em sua vida? Se pudesse voltar bem lá atrás e refazer o que estava errado? Bem, Adell o fez, mas o resultado seria, no mínimo, deselegante contar aqui.

Leiam o conto, é sensacional! Recomendo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LITERATURA _ ENIGMA DA VIDA

 

zemial

ESCRITOR MARCELLO SCHWEITZER

ENIGMA DA VIDA _ RESENHA

O escritor Marcelo Schweitzer, traz mais uma intrigante história de Morserus. Os que acompanham a odisseia, conhecem a gama de personagens desse fictício mundo, onde não existe o homem, mas apenas animais antropomórficos, isto é, animais com características do homem; com o diferencial de que neste mundo, tanto os sentimentos, as crenças e conceito de bem e mal, certo e errado, estão além da cognição humana.

Neste conto, Enigma da Vida, o autor apresenta, mais uma vez, Zemial, o Gato albino, que desde a infância e adolescência, vem lutando pela paz interior, mergulhado em questões vitais, como amor, a ausência dele, solidão e depressão. O personagem passou a vida tentando descobrir por que jamais fora amado pelo pai que o abandonou, e por sua mãe que também o rejeitou, entregando-o a um orfanato, onde Zemial viveu momentos tenebrosos e assustadores, como a tentativa de sua mãe em matá-lo.

O Gato albino, está agora com quarenta e um anos, e se esconde em uma cabana no meio do nada, cercado por vegetação e fantasmagórica solidão. Guardou, por quinze anos, o frasco de veneno, e decide que chegou a hora de se despedir de uma vida sem sentido e sem respostas às suas questões existenciais.

Juntamente com o amadurecimento do personagem, vemos que suas decisões também ficaram mais firmes. Era a hora de morrer, envolto no suicídio dos que nada mais esperam de sua existência.

Entretanto, o Gato cresceu, também, espiritualmente. Suas indagações são mais globais, ele aprendeu ciência, e deixou de ser ateu. Sim, ele consegue ver o mundo de uma forma mais altruísta. Entende que sua dor é a dor de todos, e que o amor não pode vir morar em um coração negro de ódio e ressentimentos.

O conto faz referências jungianas, usando a metáfora dos exspes, insetos-deuses que se alojam nas mentes dos habitantes deste mundo sombrio, mas que na verdade é ele mesmo lidando com seus deuses e demônios, isto é, confrontando a própria consciência.

Em sua filosofia aprimorada pelos anos, Zemial descobre que “ideias que sobrevivem séculos são ideias imortais, que nascem de dentro de cada um, demonstrando que existe um elo entre todos, esse elo revela que todos formam o um.” Com esse pensamento panteísta, o Gato se encontra, de novo, em posição de questionar a vida, por uma última vez, antes de morrer. Menos cético, contudo, com as mesmas dilacerações na alma.

Apesar de alegar não querer ser “um cego que finge ser feliz”, Zemial, involuntariamente, se vê cercado de acontecimentos que irão mudar o rumo de sua sofrida e solitária existência.

Acredito que neste episódio, o personagem surpreende, ao se conectar ao mundo todo, dos insetos aos astros do céu de Morserus. Mais um conto eletrizante, carregado se suspense, com um desfecho que deixará o leitor em transe, pois Zemial, desde criança, demonstrou ser muito mais que um garotinho assustado. Explode, então, a força contida que nem ele mesmo sabia possuir.

Como disse Carl Jung, quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda.

Congratulações, Marcelo Schweitzer, por mais um excelente conto de Morserus.

By Day

A DANÇA DOS ORKSHAS

ESCRITOR  MARCELLO SCHWEITZER

essadança

O mundo de Morserus traz mais um livro de sua odisseia filosófica. Mais um conto sobrenatural, e mais um personagem que o autor apresenta –  Malfaer, um rapaz, um Rato que anseia mudar sua vida e a de sua família. Busca a liberdade para ver o céu amarelo e laranja de Morserus. Mesmo sabendo-se fraco e ocioso, ele anuncia à família que é o escolhido para a salvação da pobreza, e que sairão das favelas subterrâneas para a superfície, onde poderão viver com dignidade. As lágrimas de felicidade de sua mãe justificavam sua fantasiosa estória de herói.

Então começam seus conflitos, pois entra em um labirinto de mentiras, mentiras que, para ele, se tornam a única forma de trazer alívio para sua família.

O conto é ambientado em favelas subterrâneas povoada por ratos, onde imperam, além da pobreza, a dor de jamais se vislumbrar a superfície. E é na superfície onde, a cada ano, acontece uma batalha de vida e morte.

Os  animais têm uma espécie de oráculo, conhecido como Rodamorta. A partir da visita do Rato a esse oráculo, seu drama começa de forma intensa e dolorosamente conflitante. Malfaer precisa ir em frente com suas mentiras, e resolve se inscrever nessa tradicional disputa, onde acontece a Dança dos Orkshas, entidades que se dividem entre as de luz e as das trevas, entretanto, por alguma razão, as das trevas prevalecem.

Na verdade, é uma corrida pela sobrevivência, onde apenas um concorrente pode sair vencedor. Dentre os cem competidores, está Malfaer, o  fraco, covarde, obrigado a crer em seu Orksha, que representa o Medo. Contudo, o improvável herói aceita o desafio de sua própria mentira, se apresentando como voluntário para o evento de carnificina, onde apenas os ricos se divertem de forma sádica, brindando com o sangue dos concorrentes que, misturado a algum estranho elemento, permite que entrem nas mentes de seus concorrentes, compartilhando tudo que os participantes vivem nessa cruel corrida para a morte.

Como sempre, Marcello Schweitzer se posiciona como um escritor que não se envolve emocionalmente com seus personagens, e mesmo o narrador parece ficar indiferente diante de tanto sofrimento e medo. Exceto pela pérola “A ignorância do Mal não nos protege do Mal” citada no conto, os personagens estão entregues à sua solidão. À sua própria sorte.

Uma estória que remete à Caverna de Platão (as favelas são como pequenas cavernas), e faz com que o leitor transite pela história da própria humanidade, desde a Grécia Antiga, com suas arenas sangrentas, aos tempos atuais, onde a solidão abraça os menos favorecidos, e onde os miseráveis só servem para a reflexão de alívio dos ricos e bem sucedidos.

O Rato Malfaer traz uma grande lição de vida para nós, humanos. Lição essa que surpreende, não tanto pelas ações, mas pelas reflexões que o personagem consegue ter, em meio ao corredor da morte. Lidando com vertiginosa corrida pela sobrevivência, algo muda seu interior e surpreende o leitor.

O escritor é, indubitavelmente, um artista pós-moderno; ainda que mergulhando na filosofia grega, traz grandes estórias reflexivas do caos em que vivemos nesse século XXI. Lançando mão do estilo socrático-platônico, cria grandes e profundos diálogos entre seus personagens. O leitor fica diante de várias opções para lidar com sua própria vida.

Conheça esse mundo de estórias assustadoramente humanas, ainda que povoado por animais construídos por excitante morfologia.

A Dança dos Orkshas é uma obra prima, em minha opinião.

Leia no blog do autor e baixe o ebook

By Day

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ângela, o Anjo do Mal

caveirablog

Quando a borboleta pousou sobre meus ossos, tive a sensação de um arrepio, entretanto, ossos não têm tal sensação. Olhei em volta, mas não com os olhos de minha carne que já não existia.

A chuva fina trazia cheiro de mato e terra. Exalava também odor estranho, madeira podre, corpos pútridos.

Tentei me levantar. Uma onda de bem estar invadiu minha alma. Estava de pé!

Olhei ao redor, estava verticalmente morto. E via os muros daquele lugar. Sorri um sorriso fixo, ansiando por um trago. Agora eu poderia beber um drink, eu estava de pé.

Nunca acreditei em milagres. Deus, nunca vira. Eu devia a mim mesmo aquele prodígio. Eu estava de pé, no meio do cemitério.

Um fato chamou minha atenção. Havia, ao lado de meu túmulo, flores frescas. Alguém havia sido enterrado ao meu lado. Olhei mais atentamente e vi tratar-se de uma jovem mulher.

Ângela era seu nome. Ele estava cravado em alto relevo dourado. Vinte e cinco anos. Pobrezinha. Não dei um passo sequer, desejando poder acordá-la e convidá-la para aquele drink. Quem sabe pudéssemos formar um casal apaixonado. Mortos e apaixonados. Por que não?

Imaginei Ângela dando-me suas mãos,e, entrelaçados, nos amaríamos. Havia de ter um modo de nos amarmos. Eu não podia compreender nada do que estava acontecendo. mas eu estava em pé, bem ali, em frente à Ângela.

Pensei que, mesmo que não fosse possível sairmos para o mundo lá fora, ao menos teríamos nosso lugar. Afinal, os cemitérios quase sempre eram vazios à noite. Regozijei-me com tal esperança.

Eu já não usava gravatas, nem calças. Apenas ossos e dentes perfeitos. Ela gostaria de mim. Mesmo sem olhos, ela veria através de mim, o quanto eu era perfeito para ela.

Finalmente tomei coragem. Alguns passos e eu a tiraria de lá, daquele buraco frio e escuro.Minha alma palpitava, todo meu ser cantava sons de harpas. Eu iria amar de novo. Ângela, o meu anjo morto.

Sempre ouvi falar de vida após a morte. Seria isso? Não importava. Eu só queria amá-la de todo meu coração, seja lá onde ele esteja. Eu estou aqui, bem vivo. Louco de paixão. Ângela, querida, Vou lhe dar flores todas as noites. Eu as colherei nas tumbas e mausoléus. Eu a farei tão feliz, que haverás de ignorar minha aparência.

Um ruído chamou minha atenção. Eram os ossos dos meus joelhos. Eu estava ansioso e um pouco sôfrego. Os ossos tilintavam como os sinos de Thomas Mann !hahahaha). Os sinos que por mim dobravam, e por Ângela também. Desprezei a vida naquele momento. A carne, o desejo físico, os livros, os homens. Eu era um esqueleto arruinado por um deus que nunca vi.

Então, tomei coragem no cálice do pavor e preparei-me para andar. Ansioso, quase desisti. Contudo, por Ângela eu o faria.

Um gato saiu correndo com um grunhido de medo, ao ouvir-me espatifar, eu desmontava, osso por osso, antes de chegar à Ângela. E, desta vez, achei que fosse milagre ao sentir uma fria lágrima em minha caveira.

ELA E EU

Ontem à noite, revirei meu apartamento procurando alguma coisa que havia perdido. Sei lá, era algo que me parecia imprescindível; alguma coisa que me fazia bem. Revirei os armários, olhei debaixo da cama, na cozinha, no porão e no sótão.

Vasculhei os jardins, e até no telhado do vizinho eu a procurei. Não estava lá também. Perscrutei em volta de mim mesmo, olhei para a garrafa de vinho vazia, a taça quebrada, e os guardanapos manchados. Parecia sangue, mas deveria ser apenas o vinho tinto. Como louco, até no banheiro, onde jamais a guardava, procurei.

Procurei nos bolsos dos paletós, entre as gravatas, na carteira, dentro de minha boca – quem sabe um pequeno vestígio para me indicar algo…

Imaginei que a única prova seria eu me olhar. Deveria haver algum detalhe diferente em mim. Qual nada!

Então, fui até à janela e acendi o charuto cubano –  mesmo não sendo de esquerda, eles eram ótimos. Respirei o perfume do fumo. Retirei o roupão, fiquei nu. Meu pensamento me ajudava a lembrar de mais algum lugar onde pudesse encontrá-la… Qual lugar? Onde? Quem?

Apaguei o charuto, voltei a ler Os contos fantásticos do século XIX.  Eu estava assombrado por vinte e seis autores do passado. Minha mente embaralhava com aquelas tradições literárias tão diversificadas. De Hoffmann e Walter Scott a Kipling e H. G. Wells, passando, claro, por Gogol, Poe e Andersen, dentre outros.

Sem falar dos autores considerados realistas famosos, como Balzac, Dickens, Maupassant e Henry James. Eu procurava, além da realidade, atrás da aparência cotidiana dos fatos, um mundo encantado, lúdico e infernal que, mais do que me atemorizar, me deixava perplexo. Eu flutuava dentro de mim, no silêncio que as paredes faziam ao meu redor.

Enlouquecera de tanto ler. Será?

Dormi entre os personagens aterradores. Quando acordei, lá estava ela, bem diante de mim. Como não a avistara no dia anterior?

Estava lá, bem no centro da mesa, ao lado da jarra de água, rodeada de livros e cinzeiros. Estiquei o braço, abri a caixa e tomei a medicação. Agora, era só esperar alguns minutos e puff! Eles sumiriam de vez. Contudo, depois, como sempre, eu não tomaria a pílula, só para voltar aos livros. E aos fantasmas de Italo Calvino.

O Amor é Acidente, uma Renúncia, um Hábito, uma Maldição – José Eduardo Agualusa

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O amor é um acidente.
Eu estava sentada no regaço de uma mulher de cobre, uma escultura de Henry Moore, e Bill debruçou-se sobre mim e beijou-me nos lábios. E de repente eu amava-o. Amava-o e só isso importava. Reparei nas mãos dele, mãos de pianista. Mãos preparadas para o amor. Ainda hoje gosto de lhe ver as mãos enquanto folheia um livro, enquanto lê um jornal. As mãos dele envelheceram, envelheceram a apertar outras mãos, milhares de outras mãos, a jogar golfe, a assinar autógrafos e documentos importantes. Envelheceram, sim, mas continuam belas. Continuam a excitar-me.

O amor é uma renúncia. Amar alguém é desistir de amar outros, é desistir por esse amor do amor de outros. Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convicções mais profundas. Não me queixo! Não sou ingénua nem estúpida. Quando digo que o amor é uma renúncia, quero dizer que foi assim para mim. Para Bill foi sempre uma outra coisa. Eu sabia que ele reparava noutras mulheres, e que outras mulheres reparavam nele. Um homem feio, com poder, é quase bonito. Um homem bonito, com poder, é quase um Deus.

Apesar da minha educação cristã, ou por causa dela, sempre me recusei a viver sujeita à ameaça do pecado. As grandes indústrias vêm tentando convencer-nos de que é possível tirar o veneno ao prazer e ficar apenas com o prazer: café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro sem nicotina – amor platónico. Quanta estupidez. Quem bebe café procura a exaltação da cafeína. Quem pede uma cerveja numa tarde de sol quer refrescar o corpo, sim, mas também quer soltar o espírito. Se é para pecar quero o pecado inteiro.

Bill teve o seu castigo. Tivemos os dois. Foram dias difíceis, foram noites ainda mais difíceis, mas passaram. Uma manhã acordei e já não tinha lágrimas. Noutra manhã acordei e já não o odiava. Finalmente acordei e estava de novo abraçada a ele.
O amor é um hábito. Como acham que cheguei até este dia? Foi o amor que me trouxe. Maldito seja.

José Eduardo Agualusa

Mundo paralelo

Na realidade, ela sabia que tudo estava errado em sua vida. Desde sempre, carregara aquele defeitinho, que foi crescendo, crescendo, até explodir em sua própria alma. Seus pais, e toda a família sabiam, mas, por pena ou medo, jamais tocavam no assunto.

Eu a vi, depois de muito tempo, quando já estávamos com trinta e cinco anos. E, mesmo crescendo juntas, nunca me senti muito amiga dela. Sua excentricidade sempre me incomodou. E, precisamente, aquela mania, que só crescia, muito me assustava.

Marly estava rica. Morava em uma cidadezinha francesa chamada Vichy; porém vivia mais em Paris, por conta de seus badalados livros, e de suas peças para teatro. Casara-se com um belo e rico francês, um produtor de Arte. Conversamos por quase uma hora, e foi tudo que aguentei, naquele dia, no Rio de Janeiro, quando nos encontramos, casualmente.

A morena de olhos verdes, entre uma taça e outra de champanhe, descrevia como sua vida era feliz e agitada. Falava de seus amigos, seus livros, suas roupas, e de como era altruísta, ajudando muitos jovens artistas em início de carreira. Foi quando percebi que ela continuava a mesma Marly de sempre.

Ela jamais fora altruísta de verdade. Ao contrário, vociferava, aos quatro ventos, que amava as pessoas, que as entendia, e que faria de tudo por elas. Entretanto, sempre soubemos, nós duas, que, no fundo, Marly só queria se sentir rodeada de pessoas, e ser admirada, custasse o que custasse. Mesmo que, para isso, ela criasse um mundo paralelo.

De todos os erros cometidos, o mais grave foi ela ter insistido na antiga prática de inventar amores. Para cada estação, havia homens diferentes, e, muitas vezes, até acreditava que, de fato, os amava. Chegava mesmo ao cúmulo de sofrer por amores inventados por sua complexa mente de escritora.

Despedimo-nos e fomos, cada qual, para seus destinos. Confesso que senti pena de minha amiga de infância. Jamais conheci alguém que tivesse esta incrível capacidade de viver em um mundo paralelo, onde tudo é fake, tudo é de mentira, até o amor.

Cheguei a casa, ainda pensando. Quando anoiteceu, cochilei no sofá, e fui acordada com a terrível notícia do suicídio da Marly. Ela dera cabo da sua vida. De verdade. Pela primeira vez, de verdade, Marly existiu.

O sino da madrugada – Parte II

Leia a parte I

 

O Salvador

Na verdade, a culpa deveria ser atribuída a mim. Eu poderia ter cuidado dela. Quando nos conhecemos, eu percebi que Sônia era uma mulher diferente. Vestia-se com roupas de cores escuras. As sobrancelhas eram bem recortadas, mas notavam-se alguns ínfimos pontos de cicatrizes de onde, certamente, gotas de sangue escorreram um dia. Nada comentei na ocasião. Eu era um cara simples. Escrevia poesias como se fosse contemporâneo de Baudelaire e, em outros momentos, dos negros ativistas, os Panteras Negras.

Central Park. Foi lá que eu a conheci. Uma brasileira perdida em seus cabelos negros, citando Augusto dos Anjos e seus poemas de morte, dando-me sua boca ressequida de maconha, com traços de um artista chamado Salvador Dali. Aliás, sempre achei esse pintor um bosta.

O pai dela era das Forças Armadas. A família possuía bens e muito dinheiro. Disse-lhe que ela não passava de uma princesa da ditadura militar. Certamente a magoei, contudo, eu também era um exilado em Nova York. Descendente da antiga União Soviética, minha família migrara para o Brasil. Eu tinha índole de criminoso, e gostava de citar escritores russos como Dostoievski, e, enlouquecido, trazia até Nietzsche quando trepávamos em um sobrado onde, com muito custo, eu pagava o aluguel semanal.

A vagina dela era diferente de todas. Não sei como explicar. Era algo que, ao mesmo tempo em que parecia livre e sem virgindades, exalava odores e sons de uma santa. Porém jamais mencionei tal fato que me enchia de excitação e dor. Tudo que eu queria era falar para ela que jamais me importaria com detalhes tais que impedissem nosso amor. Eu não acreditava em nada. Família, moral e pudor, de nada me serviam.

Certa vez, estávamos nus no terraço do prédio. Na verdade, só hoje entendo aquela metáfora. Disse ela, na época, que já que estávamos ambos longe de nossa pátria e de nossa família,  somente do alto do prédio poderíamos sentir o mundo paralelo. De alguma forma, por alguns segundos, eu a entendi. Senti meu corpo livre de roupas e passaportes. Envergonhado pelo meu passado, chorei, olhando aquelas construções concretas e egoístas abaixo de nós. Lembrei do meu pai que dizia sempre que a mulher nascera para confundir um homem que se apaixonasse por ela. Eu estava apaixonado e totalmente perdido nas entranhas daquela mulher que poderia, a qualquer momento, se jogar do terraço só para me provar que estava viva. Sempre achei que fosse meio suicida.

Quando Cazuza morreu, voltamos ao Brasil. Cada um para um lado. Ela ainda estava com nuances de bela fêmea às portas dos trinta anos. Eu, acabado, entre a vida e a morte existenciais a deixei se afastar de mim no aeroporto.

O livro que ela publicaria aqui no Brasil fora censurado, não pelo governo em franca abertura, mas por seu pai, um reaça imbecil que, além de ter feito parte da ditadura em final dos anos 70, era um homem obtuso que queimara todos os seus poemas. Até o certificado que ganhara em um concurso literário em NY, como a maior poetisa do expressionismo e surrealismo ele destruíra, pois ela o enviara para sua mãe. Disse-me, com os dentes trincados, que jamais perdoaria o filho da puta.

A mãe dela morreu. Eu fiquei em meu apartamento na Urca, esperando os deuses ou demônios me ajudarem. Ainda acreditava nela. E a amava. O mundo estava mudando. Pessoas morriam de overdose e AIDS no governo pós-ditadura. Ainda carregava meu violão e alguns rascunhos de poesias e  músicas que escrevemos na puta que nos pariu, os Estados Unidos da América.

Minha deusa morena entrou em depressão profunda. Fui trabalhar nas empresas da minha  família. Ela não queria mais saber de mim. E eu, ainda novo, me envolvi com a filha do sócio do meu pai. Uma vadia burra que, piscando para mim, disse que no Brasil nada mudara. Éramos duas famílias interessadas em fazer dinheiro. Eu pensei que ela era mais burra do que eu imaginara. Era feia por dentro, egoísta  pra cacete. Mas eu estava fraco para lutar.

Então soube, alguns anos mais tarde, que minha guria publicara seu livro e que era o maior sucesso. Morava só e triste, porém sua casa era seu paraíso. Vivia taciturna e pintava telas. Possuía um gato especial que ela amava. E este era sua única companhia. Moravam em um prédio antigo na Glória. Eu soube, ainda agora, que seu gato, andando pelo beiral do prédio, fora assassinado. Jogaram o pobre animal do décimo andar. Tinha lógica, pois gatos simplesmente não caíam. Ela, desiludida com tudo, parou de pintar e escrever, foi o que me disseram. Vivia como um zumbi naquele apartamento sombrio. Somente eu, seu ex-amor, poderia ajudá-la. E começaria por descobrir o assassino de seu gato.

Em breve a  parte III com grandes revelações…