LITERATURA _ ENIGMA DA VIDA

 

zemial

ESCRITOR MARCELLO SCHWEITZER

ENIGMA DA VIDA _ RESENHA

O escritor Marcelo Schweitzer, traz mais uma intrigante história de Morserus. Os que acompanham a odisseia, conhecem a gama de personagens desse fictício mundo, onde não existe o homem, mas apenas animais antropomórficos, isto é, animais com características do homem; com o diferencial de que neste mundo, tanto os sentimentos, as crenças e conceito de bem e mal, certo e errado, estão além da cognição humana.

Neste conto, Enigma da Vida, o autor apresenta, mais uma vez, Zemial, o Gato albino, que desde a infância e adolescência, vem lutando pela paz interior, mergulhado em questões vitais, como amor, a ausência dele, solidão e depressão. O personagem passou a vida tentando descobrir por que jamais fora amado pelo pai que o abandonou, e por sua mãe que também o rejeitou, entregando-o a um orfanato, onde Zemial viveu momentos tenebrosos e assustadores, como a tentativa de sua mãe em matá-lo.

O Gato albino, está agora com quarenta e um anos, e se esconde em uma cabana no meio do nada, cercado por vegetação e fantasmagórica solidão. Guardou, por quinze anos, o frasco de veneno, e decide que chegou a hora de se despedir de uma vida sem sentido e sem respostas às suas questões existenciais.

Juntamente com o amadurecimento do personagem, vemos que suas decisões também ficaram mais firmes. Era a hora de morrer, envolto no suicídio dos que nada mais esperam de sua existência.

Entretanto, o Gato cresceu, também, espiritualmente. Suas indagações são mais globais, ele aprendeu ciência, e deixou de ser ateu. Sim, ele consegue ver o mundo de uma forma mais altruísta. Entende que sua dor é a dor de todos, e que o amor não pode vir morar em um coração negro de ódio e ressentimentos.

O conto faz referências jungianas, usando a metáfora dos exspes, insetos-deuses que se alojam nas mentes dos habitantes deste mundo sombrio, mas que na verdade é ele mesmo lidando com seus deuses e demônios, isto é, confrontando a própria consciência.

Em sua filosofia aprimorada pelos anos, Zemial descobre que “ideias que sobrevivem séculos são ideias imortais, que nascem de dentro de cada um, demonstrando que existe um elo entre todos, esse elo revela que todos formam o um.” Com esse pensamento panteísta, o Gato se encontra, de novo, em posição de questionar a vida, por uma última vez, antes de morrer. Menos cético, contudo, com as mesmas dilacerações na alma.

Apesar de alegar não querer ser “um cego que finge ser feliz”, Zemial, involuntariamente, se vê cercado de acontecimentos que irão mudar o rumo de sua sofrida e solitária existência.

Acredito que neste episódio, o personagem surpreende, ao se conectar ao mundo todo, dos insetos aos astros do céu de Morserus. Mais um conto eletrizante, carregado se suspense, com um desfecho que deixará o leitor em transe, pois Zemial, desde criança, demonstrou ser muito mais que um garotinho assustado. Explode, então, a força contida que nem ele mesmo sabia possuir.

Como disse Carl Jung, quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda.

Congratulações, Marcelo Schweitzer, por mais um excelente conto de Morserus.

By Day

METÁSTASE MORAL

METÁSTASE

O comportamento humano é viral. “Coisas” vão passando de geração em geração. Muitas vezes são boas, são benéficas à humanidade. Entretanto, as notícias são humilhantes para nós mesmos.

O homem, hoje, vive uma fase derradeira de amoralidade, falta de castidade espiritual, ausência total de qualquer sentimento que chegue, ao menos, próximo de amor.

Estamos voando na base aérea dos anjos negros, negros não de pele, negros não como a pelagem de um gato. São como trevas, não fictícias, e sim tão amargos e ásperos que, possivelmente, as próximas geraçãoes não terão conhecimento do que fora a humanidade.

Estamos criando em estufas etéreas e biológicas, pequenos monstros de egoísmo e fanatismo pelo Mal. Tais criaturas crescerão como fermento em massa humana, estarão a esfolar os semelhantes e, canibais, degustarão do fel do eterno fracasso que estamos produzindo, passo a passo.

O Último Negócio – Tagore

Foto – Tagore e Gandhi

Certa manhã
ia eu pelo caminho pedregoso,
quando, de espada desembainhada,
chegou o Rei no seu carro.
Gritei:
— Vendo-me!
O Rei tomou-me pela mão e disse:
— Sou poderoso, posso comprar-te.
Mas de nada lhe serviu o seu poder
e voltou sem mim no seu carro.

As casas estavam fechadas
ao sol do meio dia,
e eu vagueava pelo beco tortuoso
quando um velho
com um saco de oiro às costas
me saiu ao encontro.
Hesitou um momento, e disse:
— Posso comprar-te.
Uma a uma contou as suas moedas.
Mas eu voltei-lhe as costas
e fui-me embora.

Anoitecia e a sebe do jardim
estava toda florida.
Uma gentil rapariga
apareceu diante de mim, e disse:
— Compro-te com o meu sorriso.
Mas o sorriso empalideceu
e apagou-se nas suas lágrimas.
E regressou outra vez à sombra,
sozinha.

O sol faiscava na areia
e as ondas do mar
quebravam-se caprichosamente.
Um menino estava sentado na praia
brincando com as conchas.
Levantou a cabeça
e, como se me conhecesse, disse:
— Posso comprar-te com nada.
Desde que fiz este negócio a brincar,
sou livre.

Rabindranath Tagore é conhecido principalmente por seus poemas, mas é também autor de canções, de contos e de ensaios. Seus poemas estão repletos de mensagens espirituais. Saiba mais aqui.