QUEBRA DE CONTRATO _ livro

QUEBRA DE CONTRATO _ Baseado em fatos reais. 

Uma viagem no tempo, de volta à Segunda Guerra, pelo olhar de um judeu que perdeu a fé.

Literatura _ Romance QUEBRA DE CONTRATO, de Kito Mello

Livraria Cultura

QUEBRAIMAGEM

Intrigante perceber como uma mentira, muitas vezes repetida, pode se tornar verdade, e como uma verdade, igualmente repetida, pode parecer simplória e sem importância. O Irã, até os dias de hoje, nega que o Holocausto tenha realmente acontecido. E, por insistir em tal afirmação, ainda que totalmente desprovida de lógica e racionalidade, levou milhões de muçulmanos a negarem a História. Mesmo os ocidentais foram alcançados pela mentira repetida. Um fenômeno, de fato, perturbador e nocivo à humanidade.

Esta bela obra, Quebra de Contrato, copilada por um escritor judeu brasileiro, Kito Mello, é imprescindível para quem realmente quer entender a História, através de uma ótica honesta e imparcial; embora o autor tenha sido um religioso, hoje é um crítico da religião, e não somente do Judaísmo como do Cristianismo e Islamismo, numa notável capacidade de separar o joio do trigo, e mostrar, com bases históricas, experiência própria e fatos reais, que sim, o Holocausto foi, certamente, a maior tragédia moderna de genocídio, já vista pela humanidade, contra um povo específico.

Em Quebra de Contrato, o escritor conta a emocionante história de um homem judeu, preso nos campos de concentração, que se tornou um sonderkommando, uma função tão angustiante e cruel, que foge à qualquer forma juízo. Os sonderkommandos eram judeus escolhidos dentre os condenados para trabalharem na tarefa mais ignóbil, mais danosa e desumana, que era ajudar a matar e enterrar outros judeus, adultos, velhos, mulheres e crianças; judeus obrigados a matarem seus próprios irmãos.

É um romance que usa como pano de fundo, toda a história moderna do judeu e a Segunda Guerra Mundial. Repensa a fé, racionaliza a realidade do homem, e vai muito além da história de um povo, porque leva à reflexão da própria condição humana. Do quanto o homem pode ser bárbaro e cruel, cego pelo ódio, em nome de uma ideologia. Adolf Hitler foi esse homem!

Para quem se interessa pela História do Holocausto, é um livro mais que indicado, eu diria obrigatório. Para quem deseja honestidade dos fatos, não somente sobre o genocídio, mas sobre a ajuda do islã em perseguir e matar os judeus, bem como envolvimento do Cristianismo nessa barbárie, é, sem dúvidas, um livro que deve estar em sua estante, caso queira estar atualizado em um dos maiores problemas contemporâneos, que é o terrorismo islâmico, mais atuante do que nunca.

Além das profundas reflexões que a obra instiga, é uma poesia de lamento, escrita pela vida de um homem que perdeu os pais, irmão e amigos diante de seus olhos, que viu multidões de pessoas entrarem na câmara de gás, e a esperança se esvair pela fumaça da chaminé do terror.

Como sobreviver, depois de testemunhar pessoas se amontoarem e morrerem em pé, sem nem mesmo um espaço para, ao menos, deitarem seus corpos. Como seguir em frente, é o desafio do personagem.

Ele, então, renega sua posição de rabino e põe Deus em xeque, através de um julgamento entre outros judeus presos.

Ao ser julgado culpado pela quebra de contrato firmado com Seu povo, Deus é retirado da vida daqueles homens, quando então Jacob lidera uma revolta, onde milhares de judeus morrem e poucos se salvam na fuga, e Jacob é um deles. Ele sobrevive ao horror daquilo tudo e terá que encarar uma nova vida, sem família, esperança, somente lembranças de todo aquele pesadelo.

O objetivo era a rebelião contra os alemães, por questão de honra e não por querer ser feliz em uma nova vida, deixando todos para trás, principalmente o irmão, que já não possuía fé, e morreu cobrando o Deus de Jacob.

O ex-rabino, então, integra a Mossad (serviço secreto de inteligência de Israel surgido após o Holocausto), e trabalha por trinta anos, na missão de caçar e punir nazistas refugiados ao redor mundo, bem como árabes envolvidos em missões de atentados terroristas aos judeus, inclusive na Argentina, onde Jacob resolve morar, país esse que também é criticado pelo antissemitismo em acolher ex-nazistas e incentivar a segregação.

Livro raro, onde o leitor reflete sobre Bem e Mal, religião, crueldade, razão, preconceito e política de terror.

Uma obra literária que emociona a cada página, pois o autor, apesar de ser duro nas críticas, não abre mão da poesia, e nos conta uma belíssima história de amor entre um avô e seu neto, ou Harold e Calvin, como se tratavam, em um mundo secreto e fuga da realidade; um amor pouco visto entre duas pessoas.

Leiam, e deixem guardado para seus filhos e netos. Realmente o Holocausto não deve ser esquecido jamais, não somente pelos judeus, mas por todos os homens de bem deste mundo.

Um grande livro!

Daisy Carvalho

“Como é maravilhoso que ninguém precise esperar um minuto sequer antes de começar a melhorar o mundo”. Anne Frank

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Livraria Cultura

Contato com o autor

https://web.facebook.com/kito.mello

 

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O Fantasma Russo

“… é a doença que gera o crime ou é o próprio crime que , por sua natureza específica, de certa forma é sempre acompanhado de algo como uma doença? (Crime e Castigo)

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Neste dia eu estava especialmente má. Um gosto amargo específico destilando um ódio seco que escorria junto com a saliva quando imaginava que iria beijá-lo. Mais uma vez. E o beijaria enquanto vivesse. Joguei fora, pela manhã, Crime e Castigo, livro que lemos e relemos incansavelmente. Falávamos e defendíamos o direito à liberdade. Liberdade plena, e muitas vezes ríamos das leis punitivas que a nós não afligiam jamais. Bebíamos e arrotávamos niilismo e vodkas.

Por me chamar Sônia, ele, ridiculamente, me comparava à personagem de Dostoiévski, me imaginando uma espécie de reencarnação. Eu certamente jamais seria pura e religiosa como a Sôniade Rodion Românovitch Raskólnikov, o personagem de DostoiévskiContudo, ele, meu espécie de marido, era incrédulo, um homem entre ateu e agnóstico, com aterrorizante sensibilidade mediúnica, algo metafísico, estranhamente desconhecido por mim.

Meu Grigory Gatilov pressentia as coisas, e enquanto pintava seus quadros de violentas paisagens, eu sempre ficava impressionada com tantas coincidências. Não raro seus quadros viravam notícia de páginas policiais.

Na tela impressionista uma linda jovem com cabelos de fogo se mantinha estática em uma corda, enforcada; dias depois de terminada a obra, uma rapariga complexada aparecera dependurada no quarto de  numa estalagem. Motivo para o suicídio? Nem os amigos, a senhoria ou mesmo a polícia descobriram.

Todavia, eu já vivia assombrada e determinada a me afastar de Grigory e suas enlouquecidas telas. Mesmo não sendo, digamos, sensitiva, eu podia sentir que algo terrível estava para acontecer. Vivíamos no passado. Isso me assustava às vezes, quando olhava em volta e observava tantas tecnologias e gente contemporânea. Enquanto eu era a Sônia russa. Até nossas trajes eram do século XIX. Um “mimo inofensivo à estética, dizia ele.

Cheguei ao apartamento, naquele bairro sinistro, repleto de drogados e miseráveis prostitutos. Subi as escadas e entrei – a porta estava sempre aberta. Vi que no meio da sala, num cavalete, tinha uma tela por terminar. Um pano negro a encobria; entretanto, era voraz e mórbida minha curiosidade. Minha bexiga doía, precisava ir ao banheiro, mas fiquei ali, paralisada diante do quadro coberto.

Que premonição ele pintara desta vez? Outro suicídio? Homicídio como da vez da senhora desdentada? Essa pintura era de dar medo, aquelas covas cinzas e os cabelos arrepiados da anciã, somados à uma expressão enigmática, era de dar medo, e até pavor, se vista à noite em meia luz. Embora já estivesse disposta a deixá-lo para trás com sua loucura que já não suportava a minha, eu não me contive. Este foi meu grande erro.

Puxei o pano. Um frio mortal percorreu meu corpo. Senti, pela primeira vez, uma espécie de desapego da vida, do amor, do meu próprio corpo.

Muito calma, perambulei pelos cômodos da casa tentando adivinhar em qual deles eu morreria, pois sem dúvida aquele pescoço estrangulado na tela borrada de coloridas tintas era o meu, com a inconfundível medalhinha de ouro branco que eu jamais tirava do peito. E as mãos grandes, de dedos longos e austeros eram, indubitavelmente, as mãos de Grigory Gatilov.

Suspirei resignada e sentei-me em uma cadeira próxima à janela, respirando uma brisa que soprava e anunciava uma noite fresca que, se não fosse o quadro de Grigory, seria uma noite perfeita para o amor. Para uns drinks e boa música.

Todavia, na tela inacabada do estrangulamento dava para ver ao fundo uma reprodução de Degas – a Prima Ballerina -, e este quadro pertencia a Grigory, à casa dele. Fiquei confusa. Ele tencionava me matar em frente ao quadro de Degas? O que isso poderia significar?

Estiquei um sorriso ao lembrar dele me chamando sempre de ‘minha bailarina de Degas. Confesso nunca ter entendido ao certo. Talvez este impressionista pintara a irmã prostituta que era bailarina, ah, eu nunca me importei muito com os por quês. Eu o amava tanto, eu era sua pupila, sua súdita. A mulher capaz de tudo para vê-lo feliz.

Levantei-me, fui à cozinha beber água. Voltei e me sentei outra vez.

Só neste momento atentei para o fato de que, talvez por pura tensão, eu não havia ido ao banheiro. Para lá me dirigi, já bastante aflita pela ausência do meu artista. Que ele viesse logo e terminasse sua tela, juntamente com a minha vida. Que era sua, afinal.

Caminhei lentamente pelo longo corredor sem luz e abri a porta do lavabo, sentindo-me mais morta do que viva. Imaginei meu homem na Sibéria a prestar trabalhos forçados como Rodka Raskólnikov, o grande herói de meu querido Grigory. Sorri mais uma vez.

A porta do banheiro rangeu, como sempre acontecia. Eu entrei puxando a lingerie para baixo da saia e sentei calmamente no vaso. Pareceram horas o tempo que ali fiquei a urinar minha última urina. Sentia o líquido quente escorrer pela vagina, e por uns segundos experimentei prazer.

Lembrei das tantas vezes que nos amamos, Grigory e eu, das longas viagens pela Europa e Ásia, África, Oriente Médio; o orgulho que ele possuía em falar de seus antepassados russos, seus pais mortos pela fome, as desgraças bolcheviques. Até de seu ódio pelos ingleses eu lembrei com carinho e amor. Eu já não tinha a boca amarga e nem ódio, talvez em nenhum momento chegara mesmo a enfastiar-me desse meu amor.

Fechei os olhos enquanto me enxugava e pedi a Deus que eu tivesse uma prova de amor do meu querido insano; que eu morresse sabedora de seu amor por mim. Fiquei com a calcinha arriada enquanto lágrimas quentes davam vida ao meu rosto pálido, naquele banheiro escuro.

Não sei se Deus ou destino, ou mesmo Deus me perdoando – mas se eu nem cria! – O fato era que por estar escuro eu não havia notado no box aquele lindo homem tão conhecido do meu afeto, meu paladar e meu tato, caído no frio chão, como um animal abandonado.

Névoa cobriu meus olhos e eu vi finalmente a morte diante de mim. Assim, sem susto ou alarde…

Um corpo se redimia enfartado ao chão, secando as últimas gotas de um banho. Do último banho de Grigory Gatilov.

Nem alívio, nem dor, nem medo. Eu fiquei impassível, e tudo que me ocorreu, foi que eu deveria terminar a tela onde eu estava morta, e assumir os trabalhos do meu russo, porque tinha que ser assim. O show não poderia jamais parar. Peguei o pincel, o mergulhei na tinta vermelha e lambuzei aquele corpo pálido e nu.

Desci ao porão e descobri a minha tela de aluna. Sim, Grigory estava absoluta e soturnamente idêntico à minha pintura. Abri a vodka e relaxei, enquanto ligava para a polícia.

Por Daisy Carvalho

 

Lágrimas de Escuridão _ Mais um fantástico conto do Reino de Morserus

LÁGRIMAS DE ESCURIDÃO, BY MARCELO SCHWEITZER

É realmente um prazer voltar a comentar a obra do escritor Marcelo Schweitzer, que criou um mundo o qual vai além da literatura por questionar a vida de forma filosófica, sempre dando a seus personagens escolhas, vários caminhos, provocando pensamentos morais, discutindo ética e, acima de tudo, instigando o pensamento do leitor, obrigando-o muitas vezes reverem seus valores e tudo no que acreditaram até o momento de entrar no maravilhoso e fantástico mundo de Morserus, lugar além de todas as galáxias, um mundo onde os habitantes não são homens, tampouco são animais, porém uma intrigante mistura dos dois.

Desta vez o autor nos apresenta a doce Adell, menina com sérios conflitos de autoestima, que ao mesmo tempo em que acredita no amor como redenção para todos os problemas do mundo, dispensa mais tempo ao desamor, na dor da ausência do pai, e na confusa convivência com a meia irmã, e a mãe que parece preteri-la, em favor da outra que, mesmo sendo a mais nova, parece merecer mais ir para a Academia e ser amada.

Aqui, neste mundo surreal, tabus são quebrados, incestos e fratricídios são mais comuns do que se possa imaginar. Profecias questionadas e superadas! Afinal, estamos em Morserus.

A tragédia de Adell começa quando ganha uma máquina de escrever, novidade que o pai traz de Troferus, a Nação dos Gatos. Entretanto, a mãe ordena que o acessório fique para a irmã, por esta ser mais inteligente e apta a estudar.

A partir de um diário “mágico”, a triste menina vive uma odisseia de descobertas e acontecimentos perfeitamente normais para uma adolescente de treze anos, se não estivéssemos em Morserus, e Adell não fosse uma complexada cadelinha da linhagem Bexor, sem relevância na sociedade do lugar.

Em determinada altura, a personagem encara o desafio de defender o amor, de lutar por ele, através de uma verdadeira paixão por um cão de linhagem superior e muito mais bonito e rico que ela, o Jokua. Um toque shakespeariano, por que não? As coisas neste mundo parecem mais avançadas intelectual e filosoficamente, contudo, alguns sentimentos são semelhantes aos dos humanos.

O conto vem mesmo com grande apelo filosófico, e a personagem ser a narradora usando o diário como ferramenta é emocionante e remete a uma outra menina que viveu a mesma experiência, Anne Frank, ela mesma.

Neste episódio, o autor não economiza nas metáforas, e o coração aperta quando Adell compara o mau tempo, o redemoinho negro com seu interior. Uma dor latente que incomoda o leitor.

A busca incessante pelo amor e por uma elevação social a fim de conquistar sua paixão proibida, leva a jovem a passar por muitas situações inusitadas, entretanto, ela parece vencedora! Alcançou o status dos ricos e conquistou seu amante, com direto a bailes e ostentações.

Preservando o suspense do autor, paro por aqui, recomendando esta viagem onde quando menos esperamos, somos nós lá, nos conflitos, nas páginas do diário de Adell.

Como pista, subscrevo a personagem, que do alto de sua conquista, profere estas palavras, desconcertando o leitor:

“Os pobres saciam a sua (fome) com alimento, enquanto que nós temos fome de luz, e não encontramos no brilho do ouro luz suficiente para nos alimentar.”

Lágrimas de Escuridão trata do Efeito Borboleta. O que você faria se pudesse mudar algo em sua vida? Se pudesse voltar bem lá atrás e refazer o que estava errado? Bem, Adell o fez, mas o resultado seria, no mínimo, deselegante contar aqui.

Leiam o conto, é sensacional! Recomendo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LITERATURA _ ENIGMA DA VIDA

 

zemial

ESCRITOR MARCELLO SCHWEITZER

ENIGMA DA VIDA _ RESENHA

O escritor Marcelo Schweitzer, traz mais uma intrigante história de Morserus. Os que acompanham a odisseia, conhecem a gama de personagens desse fictício mundo, onde não existe o homem, mas apenas animais antropomórficos, isto é, animais com características do homem; com o diferencial de que neste mundo, tanto os sentimentos, as crenças e conceito de bem e mal, certo e errado, estão além da cognição humana.

Neste conto, Enigma da Vida, o autor apresenta, mais uma vez, Zemial, o Gato albino, que desde a infância e adolescência, vem lutando pela paz interior, mergulhado em questões vitais, como amor, a ausência dele, solidão e depressão. O personagem passou a vida tentando descobrir por que jamais fora amado pelo pai que o abandonou, e por sua mãe que também o rejeitou, entregando-o a um orfanato, onde Zemial viveu momentos tenebrosos e assustadores, como a tentativa de sua mãe em matá-lo.

O Gato albino, está agora com quarenta e um anos, e se esconde em uma cabana no meio do nada, cercado por vegetação e fantasmagórica solidão. Guardou, por quinze anos, o frasco de veneno, e decide que chegou a hora de se despedir de uma vida sem sentido e sem respostas às suas questões existenciais.

Juntamente com o amadurecimento do personagem, vemos que suas decisões também ficaram mais firmes. Era a hora de morrer, envolto no suicídio dos que nada mais esperam de sua existência.

Entretanto, o Gato cresceu, também, espiritualmente. Suas indagações são mais globais, ele aprendeu ciência, e deixou de ser ateu. Sim, ele consegue ver o mundo de uma forma mais altruísta. Entende que sua dor é a dor de todos, e que o amor não pode vir morar em um coração negro de ódio e ressentimentos.

O conto faz referências jungianas, usando a metáfora dos exspes, insetos-deuses que se alojam nas mentes dos habitantes deste mundo sombrio, mas que na verdade é ele mesmo lidando com seus deuses e demônios, isto é, confrontando a própria consciência.

Em sua filosofia aprimorada pelos anos, Zemial descobre que “ideias que sobrevivem séculos são ideias imortais, que nascem de dentro de cada um, demonstrando que existe um elo entre todos, esse elo revela que todos formam o um.” Com esse pensamento panteísta, o Gato se encontra, de novo, em posição de questionar a vida, por uma última vez, antes de morrer. Menos cético, contudo, com as mesmas dilacerações na alma.

Apesar de alegar não querer ser “um cego que finge ser feliz”, Zemial, involuntariamente, se vê cercado de acontecimentos que irão mudar o rumo de sua sofrida e solitária existência.

Acredito que neste episódio, o personagem surpreende, ao se conectar ao mundo todo, dos insetos aos astros do céu de Morserus. Mais um conto eletrizante, carregado se suspense, com um desfecho que deixará o leitor em transe, pois Zemial, desde criança, demonstrou ser muito mais que um garotinho assustado. Explode, então, a força contida que nem ele mesmo sabia possuir.

Como disse Carl Jung, quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda.

Congratulações, Marcelo Schweitzer, por mais um excelente conto de Morserus.

By Day

A DANÇA DOS ORKSHAS

ESCRITOR  MARCELLO SCHWEITZER

essadança

O mundo de Morserus traz mais um livro de sua odisseia filosófica. Mais um conto sobrenatural, e mais um personagem que o autor apresenta –  Malfaer, um rapaz, um Rato que anseia mudar sua vida e a de sua família. Busca a liberdade para ver o céu amarelo e laranja de Morserus. Mesmo sabendo-se fraco e ocioso, ele anuncia à família que é o escolhido para a salvação da pobreza, e que sairão das favelas subterrâneas para a superfície, onde poderão viver com dignidade. As lágrimas de felicidade de sua mãe justificavam sua fantasiosa estória de herói.

Então começam seus conflitos, pois entra em um labirinto de mentiras, mentiras que, para ele, se tornam a única forma de trazer alívio para sua família.

O conto é ambientado em favelas subterrâneas povoada por ratos, onde imperam, além da pobreza, a dor de jamais se vislumbrar a superfície. E é na superfície onde, a cada ano, acontece uma batalha de vida e morte.

Os  animais têm uma espécie de oráculo, conhecido como Rodamorta. A partir da visita do Rato a esse oráculo, seu drama começa de forma intensa e dolorosamente conflitante. Malfaer precisa ir em frente com suas mentiras, e resolve se inscrever nessa tradicional disputa, onde acontece a Dança dos Orkshas, entidades que se dividem entre as de luz e as das trevas, entretanto, por alguma razão, as das trevas prevalecem.

Na verdade, é uma corrida pela sobrevivência, onde apenas um concorrente pode sair vencedor. Dentre os cem competidores, está Malfaer, o  fraco, covarde, obrigado a crer em seu Orksha, que representa o Medo. Contudo, o improvável herói aceita o desafio de sua própria mentira, se apresentando como voluntário para o evento de carnificina, onde apenas os ricos se divertem de forma sádica, brindando com o sangue dos concorrentes que, misturado a algum estranho elemento, permite que entrem nas mentes de seus concorrentes, compartilhando tudo que os participantes vivem nessa cruel corrida para a morte.

Como sempre, Marcello Schweitzer se posiciona como um escritor que não se envolve emocionalmente com seus personagens, e mesmo o narrador parece ficar indiferente diante de tanto sofrimento e medo. Exceto pela pérola “A ignorância do Mal não nos protege do Mal” citada no conto, os personagens estão entregues à sua solidão. À sua própria sorte.

Uma estória que remete à Caverna de Platão (as favelas são como pequenas cavernas), e faz com que o leitor transite pela história da própria humanidade, desde a Grécia Antiga, com suas arenas sangrentas, aos tempos atuais, onde a solidão abraça os menos favorecidos, e onde os miseráveis só servem para a reflexão de alívio dos ricos e bem sucedidos.

O Rato Malfaer traz uma grande lição de vida para nós, humanos. Lição essa que surpreende, não tanto pelas ações, mas pelas reflexões que o personagem consegue ter, em meio ao corredor da morte. Lidando com vertiginosa corrida pela sobrevivência, algo muda seu interior e surpreende o leitor.

O escritor é, indubitavelmente, um artista pós-moderno; ainda que mergulhando na filosofia grega, traz grandes estórias reflexivas do caos em que vivemos nesse século XXI. Lançando mão do estilo socrático-platônico, cria grandes e profundos diálogos entre seus personagens. O leitor fica diante de várias opções para lidar com sua própria vida.

Conheça esse mundo de estórias assustadoramente humanas, ainda que povoado por animais construídos por excitante morfologia.

A Dança dos Orkshas é uma obra prima, em minha opinião.

Leia no blog do autor e baixe o ebook

By Day

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Maior de Todos os Poetas Americanos era uma Mulher – Emily Dickinson

                                 Justa Homenagem – Emily Dickinson

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O maior de todos os poetas americanos era uma mulher: Emily Dickinson (1830-1886). Apesar de ter vivido reclusa por 56 anos, sem receber visitas, numa casa de Amherst, no interior de Massachusetts, refém do puritanismo asfixiante da Nova Inglaterra e de um pai dominador, apaixonou-se por um homem casado (mas evitou consumar a paixão) e deixou 1775 poemas, que têm, até hoje, emocionado sucessivas gerações. Como escreveu Otto Maria Carpeaux em sua monumental História da Literatura Universal: “Ela não inspirará nunca admiração perplexa, como Poe, nem será tão popular como Whitman.”  Mas é o próprio Carpeaux quem lhe dá o mérito de “maior poeta americano”, considerando a sua obra das mais originais em língua inglesa, especialmente pela reiterada quebra das convenções, no conteúdo e, para desgosto dos puristas, também na forma: nunca hesitou em surrar a gramática, para sintetizar seu desconforto diante do mundo.

emily em pé

Teve um amigo com quem se correspondia, Thomas Wentworth Higginson, um poeta hoje esquecido que inutilmente tentou “corrigir” as transgressões de seus poemas, copidescando forma e conteúdo, “para o bem de Emily”. Mas, sua obra sobreviveu a Higginson e ao pai. De Higginson ficaram as reminiscências que escreveu sobre ela. Seu pai, um tipo antigo e puritano, era sempre a figura princi­pal, um homem que, como ela disse, lia aos domingos “livros solitários e rigorosos”, e que, desde sua infância, lhe havia incutido temor. Até a idade adulta, Emily leu apenas a Bíblia e, escondida do pai, Shakespeare: “Quando perdi a visão, era um alívio pensar que os livros importantes são tão poucos. Depois, quando recuperei a visão, pensei: ‘Além de Shakespeare, por que preciso ler outro livro’?”. Na reclusão que escolheu, além de escrever, tinha ocupações gastronômicas que cumpria com prazer: diariamente ela fazia todo o pão da ca­sa, porque seu pai só gostava do pão feito por ela. E, segundo relatos de contemporâneos, seus pudins eram tão bons como os poemas. A obra de Emily Dickinson, exceto por raros versos isolados, acolhidos em pequenos jornais do interior, só foi impressa depois de sua morte.

emilylivro

A boa notícia é que foi lançada no Brasil (2008), em livro de bolso, uma primorosa edição de Poemas Escolhidos de Emily Dickinson (L&PM). O autor da magnífica tradução, além da seleção dos poemas, introdução e notas, é o professor Ivo Bender, que conseguiu preservar a graça, a originalidade e força dos versos, num criterioso trabalho de recuperação e adaptação dessa riqueza imensa à língua portuguesa. Por certo que ficaram de fora as receitas dos pães e pudins. Mas o professor Ivo Bender tem uma justificativa inatacável: as receitas desapareceram com Emily, em 1886.

Fonte: Zero Hora (14/03/08) /

10 Poemas de Emily traduzidos por Jorge de Sena

A Letter is a joy of Earth –
It is denied the Gods –

Uma carta é uma alegria da Terra
– Denegada aos Deuses.

* * *

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer’s morn –
A flash of Dew – A Bee or two –
A Breeze – a caper in the trees –
And I’m a Rose!

Sépala, pétala, espinho.
Na vulgar manhã de Verão –
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
Brisa saltando nas árvores –
– E sou uma Rosa!

* * *

Afraid? Of whom am I afraid?
Not Death – for who is He?
The Porter of my Father’s Lodge
As much abasheth me.

Of Life? ‘Twere odd I fear [a] thing
That comprehendeth me
In one or more existences –
At Deity decree –

Of Resurrection? Is the East
Afraid to trust the Morn
With her fastidious forehead?
As soon impeach my Crown!

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!

* * *

By a departing light
We see acuter, quite,
Than by a wick that stays.
There’s something in the flight
That clarifies the sight
And decks the rays.

A uma luz evanescente
Vemos mais agudamente
Que à da candeia que fica.
Algo há na fuga silente
Que aclara a vista da gente
E aos raios afia.

* * *

I died for beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb,
When One who died for Truth was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly why I failed?
“For Beauty,” I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren are,” He said –

And so, as Kinsmen met a-Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –

Morri pela Beleza – mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
– Pela Beleza – disse eu.
– A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos Irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes – tapou.

* * *

I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me –
Almost a loneliness.

Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures –
Quase uma solidão.
* * *

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também – tu não és – Ninguém?
Somos um par – nada digas!
Banir-nos-iam – não sabes?

Mas que horrível – ser-se – Alguém!
Uma Rã que o dia todo –
Coaxa em público o nome
Para quem a admira – o Lodo.

* * *

Silence is all we dread.
There’s Ransom in a Voice –
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.

O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz –
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.

* * *
Soft as the massacre of Suns
By Evening’s Sabres slain

Suave como o massacre dos Sóis
Mortos pelos sabres do Anoitecer.

* * *

Volcanoes be in Sicily
And South America
I judge from my Geography –
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb –
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.

Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia –
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir –
Cratera que eu possa ver –
Há um Vesúvio cá em casa.

Fonte: http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/antologia/traducao/texto.php?id=440

http://www.lpm-editores.com.br/site/default.asp?TroncoID=805133&SecaoID=816261&

ELA E EU

Ontem à noite, revirei meu apartamento procurando alguma coisa que havia perdido. Sei lá, era algo que me parecia imprescindível; alguma coisa que me fazia bem. Revirei os armários, olhei debaixo da cama, na cozinha, no porão e no sótão.

Vasculhei os jardins, e até no telhado do vizinho eu a procurei. Não estava lá também. Perscrutei em volta de mim mesmo, olhei para a garrafa de vinho vazia, a taça quebrada, e os guardanapos manchados. Parecia sangue, mas deveria ser apenas o vinho tinto. Como louco, até no banheiro, onde jamais a guardava, procurei.

Procurei nos bolsos dos paletós, entre as gravatas, na carteira, dentro de minha boca – quem sabe um pequeno vestígio para me indicar algo…

Imaginei que a única prova seria eu me olhar. Deveria haver algum detalhe diferente em mim. Qual nada!

Então, fui até à janela e acendi o charuto cubano –  mesmo não sendo de esquerda, eles eram ótimos. Respirei o perfume do fumo. Retirei o roupão, fiquei nu. Meu pensamento me ajudava a lembrar de mais algum lugar onde pudesse encontrá-la… Qual lugar? Onde? Quem?

Apaguei o charuto, voltei a ler Os contos fantásticos do século XIX.  Eu estava assombrado por vinte e seis autores do passado. Minha mente embaralhava com aquelas tradições literárias tão diversificadas. De Hoffmann e Walter Scott a Kipling e H. G. Wells, passando, claro, por Gogol, Poe e Andersen, dentre outros.

Sem falar dos autores considerados realistas famosos, como Balzac, Dickens, Maupassant e Henry James. Eu procurava, além da realidade, atrás da aparência cotidiana dos fatos, um mundo encantado, lúdico e infernal que, mais do que me atemorizar, me deixava perplexo. Eu flutuava dentro de mim, no silêncio que as paredes faziam ao meu redor.

Enlouquecera de tanto ler. Será?

Dormi entre os personagens aterradores. Quando acordei, lá estava ela, bem diante de mim. Como não a avistara no dia anterior?

Estava lá, bem no centro da mesa, ao lado da jarra de água, rodeada de livros e cinzeiros. Estiquei o braço, abri a caixa e tomei a medicação. Agora, era só esperar alguns minutos e puff! Eles sumiriam de vez. Contudo, depois, como sempre, eu não tomaria a pílula, só para voltar aos livros. E aos fantasmas de Italo Calvino.

O Eterno Marido – Fiódor Dostoiévski

Copiado do site Libru Lumen

Atenção: o texto abaixo contém revelações sobre o enredo (spoilers)

Alguns livros são inesgotáveis. A cada releitura revelam novos olhares, temas, teses e impressões da condição humana. Leia-os cem vezes e em cem vezes eles te surpreenderão. Entram facilmente nessa categoria as obras de Shakespeare, Cervantes, Homero e Dostoiévski  entre outras. E dentre os livros de Dostoiévski  O Eterno Marido certamente é uma rica fonte de reflexão e conhecimento. Escrito na Rússia de 1870, em apenas três meses, revela não só aspectos culturais e históricos como também psicológicos e humanistas. É considerado uma das poucas comédias escritas por Dostoiévski  embora carregada de dramaticidade. Ao lê-lo, o leitor vislumbra como que uma peça teatral sendo encenada à sua frente. Os protagonistas desfilam virtudes e defeitos que fazem ora odiá-los ora amá-los. Um paradoxo que só os seres humanos e os melhores personagens literários conseguem ter, tornando-os imperfeitos e íntimos aos leitores. Para os não iniciados em Dostoiévski  se quiserem antes de se aventurarem nos densos Crime e Castigo ou Os Irmãos Karamazov, O Eterno Marido é um ótimo antepasto que aguçará a vontade em se aprofundar mais na literatura russa.

Mas cuidado! Deve-se optar por edições recentes, traduzidas direto do russo, por preservarem o mais próximo possível o tom da língua original. As melhores edições de O Eterno Marido neste quesito são as da Editora 34 e da L&PM. As demais são traduções antigas do francês ou inglês que suavizam ou alteram o sentido de expressões e significados do texto. Contudo, a edição da 34, da famosa e cara Coleção Leste, apesar de trazer o nome de Boris Schnaiderman como tradutor, deixa a desejar pelo menos em três aspectos. Primeiro, por trazer palavras em total desuso aos brasileiros deste século, como cacete (adjetivo), incontinenti, imo, chusma, imiscuir, álacre e furibundo, para citar algumas. Não que se deva ser contra o uso de palavras da língua portuguesa para enriquecer o vocabulário do leitor, mas quando estas deixam uma impressão estranha e possuem alternativas torna-se uma falha de tradução e revisão, passando a impressão que ou a tradução é antiga (não neste caso) ou o tradutor é antigo (Schaneiderman nasceu em 1917). O segundo aspecto são as expressões estrangeiras traduzidas ao pé da letra – como “dar tiros de pólvora seca”, “sem mais aquela”, etc. – sem uma nota de rodapé que a situe no contexto brasileiro, quando muito só aparecendo entre aspas. O “dar tiros de pólvora seca” é encontrado em jornais lusitanos online, mas não se consegue captar o sentido. Por último, o tradutor indica no prefácio que a construção dos nomes em de Dostoievski dão importantes dicas sobre a personalidade das personagens, mas ele mesmo não traduz nenhum dos nomes do livro! É mostrar o doce à criança só para passar vontade. Na edição da L&PM tais detalhes aparecem, o que a torna uma opção interessante a se analisar. Além, é claro, da diferença no preço: enquanto a edição da 34 varia em torno de R$ 30,00 a de bolso da L&PM custa R$ 10,00.

Cabe aqui um pequeno adendo sobre os nomes russos que ajudará na leitura. O site Falando Russo explica que existem nome + patronímico (para revelar o pai) + o sobrenome (para o nome da família ou clã). O que se percebe na leitura de O Eterno Marido é o uso formal do sobrenome (por exemplo, Trussótzki), informal do nome composto (Páviel Pávlovitch) e íntimo dos diminutivos e apelidos (Pál Palitch). Assim, um mesmo personagem pode ser chamado de vários nomes diferentes, o que pode confundir inicialmente os leitores, além dos ‘itchs’ e ‘ovs’. Como já mencionado, Dostoievski usa palavras na composição dos nomes para indicar algumas características das personagens. Vieltchâninov deriva da palavra grandioso, opulento; Trussótzki de medroso. Como se já não fosse o suficiente esta salada de nomes, patronímicos, sobrenomes e apelidos, ainda existem as variações de sobrenomes femininos: marido e esposa possuem sobrenomes diferenciados: Trussótzki e Trussótzkaia, Pogoriéltzev e Pogoriéltzeva, Zakhlébinin e Zakhlébinina.

O enredo do livro é o bem conhecido triângulo amoroso, com marido, esposa e amante (Páviel, Natália e Aleksiéi). Apesar de o narrador estar em terceira pessoa, o ponto de vista (POV) adotado é o do amante. Diferente de Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que o POV era o do marido supostamente traído (Bentinho, Capitu e Escobar). Aliás, um ponto em comum entre os dois livros envolve a paternidade duvidosa de uma criança. E também, que muitas impressões, desconfianças e julgamentos sobre os personagens provêm do POV, podendo ser parciais e até incorretas. Pelo menos 20 personagens transitam no livro, grande parte mulheres, apesar de a obra ser considerada uma novela curta. Contudo, os protagonistas são apenas quatro, que evocam algumas teorias interessantes:

  1. O amante, Aleksiéi Ivânovitch Vieltchâninov – POV, solteiro, de 38/39 anos, morador de São Petersburgo, robusto, de alta estatura, barba até o peito, olhos claros, experimentado sedutor. Já dilapidara duas fortunas e estava envolvido em um processo que lhe retornaria uma boa renda. Julga-se hipocondríaco e somente no final parece curar-se de seu mal imaginário, justamente quando se livra de Páviel. Seria a relação de dependência, amor e ódio entre amante e marido uma correlação entre o hipocondríaco e a doença?
  2. O marido, Páviel Pávlovitch Trussótzki – viúvo, 45 anos, morador em T…, aparece na vida de Vieltchâninov depois de 9 anos de ausência. Após o falecimento da esposa passa a maltratar a filha, se vingando na pequena os pecados da esposa. É muitas vezes descrito como um paspalhão que comete maldades por ignorância ou capaz de crimes hediondos por impulso, sem que os tenha planejado. Ao final do livro, reaparece casado com uma cópia simplória da primeira mulher: jovem e dominadora.
  3. A esposa, Natália Vassílievna Trussótzkaia – falecida há 3 meses, morre de tísica aos 37 anos, mãe de Lisa, amante de Vieltchâninov por um ano e de Bagaútov, na sequência, por cinco. Vieltchâninov é dispensado por ela, que arruma um novo amante de qualidade inferior logo em seguida, surge a dúvida: ela o dispensou porque ele se apaixonara e insistia para que fugisse com ele ou porque ela temia aceitar a proposta?
  4. A filha, chamada somente de Lisa (apelido de Elisabete ou Ielisavieta) – menina de 8 anos, órfã de Natália, que sofre nas mãos de Páviel e desperta a empatia de Vieltchâninov. Morre poucas semanas depois, aparentemente de tristeza. Poderia ter contraído a tísica da mãe já que a depressão é um dos sintomas. Ou definhou porque se viu maltratada e abandonada pelo pai. Mas outra teoria da conspiração seria a de que ela cometeu suicídio, sendo a menção sobre o seu dedinho negro um indício.

 

Os capítulos são curtos – o mais longo tem vinte páginas – apesar de trazerem descrições, informações e reviravoltas. Entra aqui a capacidade genial do escritor de sintetizar muito em poucas palavras. O tom de suspense permeia todo o livro, começando em Vieltchâninov tentar lembrar-se quem é o homem que o persegue inclusive em sonhos. Depois, ele procura até o final do livro descobrir o quanto Páviel sabe sobre suas intimidades com a viúva e sobre a paternidade de Lisa. Os diálogos entre Páviel e Vieltchâninov são geniais e cheios de ambiguidades, como um jogo de xadrez em que o amante tenta forçar o marido a revelar o que sabe e o marido procura torturar os nervos e a consciência do amante. Como na passagem em que Páviel apresenta Lisa como “esta é nossa filha!”, podendo referir-se tanto a ele e Natália ou ele e Vieltchâninov; ou quando Páviel se confessa corno fazendo um par de chifres sobre a testa, mas que desejava tomar champanhe com Bagaútov, ex-amante da esposa, enquanto o fazia com Vieltchâninov.

O livro apresenta um desfile dos costumes russos do século XIX. Se por um lado traz duas famílias grandes (os Pogoriéltzev e Zakhlébinin) com várias filhas além de agregados, morando em zonas rurais e com chefes de família funcionários públicos, por outro lado apresenta a vida boêmia dos solteiros e viúvos na cidade, arrumando facilmente amantes, noivas ou esposas. Também aparecem secundariamente preconceitos de idades, classes sociais e gêneros. Aparecem as tradições do beijo na boca entre homens em sinal de amizade, do crepe no chapéu como luto, das cuspidas de desprezo. A influência francesa é evidenciada no beber champanhe ao invés de vodca e no uso de expressões e palavras. Dostoievski cita peças teatrais e músicas conhecidas pelos leitores da época que se encaixam perfeitamente no enredo.

Outra característica importante de Dostoievski é que “o escritor é exaltado por especialistas justamente por ter adiantado em sua obra muitas das questões que seriam desenvolvidas pela psicanálise nos anos seguintes” (fonte). Além dos sonhos de Vieltchâninov repletos de significados com a trama, a obra analisa a psique dos protagonistas, levantando algumas teses únicas:

  • Existem mulheres predispostas inconscientemente a serem esposas infiéis. Antes de se casarem são modelos de virtude, mas depois se tornam dominadoras e veem a infidelidade apenas como um mero aspecto do casamento.
  • Toda esposa infiel tem um parceiro que a aceita assim. São os “eternos maridos”, que lembram os cornos-mansos definidos nas peças de Nelson Rodrigues.
  • Pode-se amar alguém pelo ódio que se sente por ele. Páviel admirava Vieltchâninov por sua cultura antes de descobrir que era amante da esposa. Por ser de personalidade inocente, facilmente enganável, quando confrontado com a verdade, perdeu-se entre sentimentos e pensamentos. Como poderia odiar quem sempre admirou por uma falta cometida há tantos anos?
  • Existem homicidas não premeditados, irracionais, impulsivos. Estes estariam na teoria do crime andando sobre a linha tênue que separa os criminosos culposos dos dolosos, podendo desiquilibrar-se e cair tanto para um lado quanto para outro.

Tais considerações iniciais servem apenas como provocações para quem leu ou pretende ler O Eterno Marido. Embora em uma nova leitura, possam aparecer novos aspectos a serem considerados. A filmografia existente sobre a obra indica dois filmes: um francês de 1946 e um canadense de 1999, ambos inacessíveis. Porém, mais inacessível é a peça encenada em 1964, no sétimo episódio da 14ª temporada do programa Grande Teatro Tupi, da brasileira TV Tupi.

13 livros de Fernando Pessoa para download gratuito

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Publicado por Universia

(Crédito: Luis Santos/Shutterstock.com)

Confira 13 obras do escritor Fernando de Pessoa que estão em dominio público

No 76º aniversário da morte de Fernando Pessoa, a Universia Brasil separou 13 obras do escritor e poeta português disponíveis em dominio público para download gratuito.

Os livros foram retirados do portal Dominio Público, biblioteca digital mantida pelo Ministério da Educação. Entre a selação estão inclusive obras de dois de seus heterônimos: Alberto Caeiro e Bernardo Soares, autores fictícios que possuem personalidade.

Veja a seguir as obras de Fernando de Pessoa para download:

Cancioneiro – Fernando Pessoa

Mensagem – Fernando Pessoa

O Banqueiro Anarquista – Fernando Pessoa

O Eu profundo e os outros Eus – Fernando Pessoa

Poemas de Fernando Pessoa – Fernando Pessoa

Poemas Traduzidos – Fernando Pessoa

Poesias Inéditas – Fernando Pessoa

Primeiro Fausto – Fernando Pessoa

Poemas em Inglês – Fernando Pessoa

O Guardador de Rebanhos – Alberto Caeiro

(heterônimo de Fernando Pessoa)

O Pastor Amoroso – Alberto Caeiro

(heterônimo de Fernando Pessoa)

Poemas Inconjuntos – Alberto Caeiro

(heterônimo de Fernando Pessoa)

Do Livro do Desassossego – Bernardo Soares

(heterônimo de Fernando Pessoa)

dica da Luciana Leitão

Copiado do Livros só Mudam o Mundo

Leitura em Excesso

 

Excesso de Leitura

Existem dois modos distintos de ler os autores: um deles é muito bom e útil, o outro, inútil e até mesmo perigoso. É muito útil ler quando se medita sobre o que é lido; quando se procura, pelo esforço da mente, resolver as questões que os títulos dos capítulos propõem, mesmo antes de se começar a lê-los; quando se ordenam e comparam as idéias umas com as outras; em suma, quando se usa a razão.

Pelo contrário, é inútil ler quando não entendemos o que lemos, e perigoso ler e formar conceitos daquilo que lemos quando não examinamos suficientemente o que foi lido para julgar com cuidado, sobretudo se temos memória bastante para reter os conceitos firmados e imprudência bastante para concordar com eles.

O primeiro modo de ler ilumina e fortifica a mente, aumentando o entendimento. O segundo diminui o entendimento e gradualmente o torna fraco, obscuro e confuso. Ocorre que a maior parte daqueles que se vangloriam de conhecer as opiniões dos outros estuda apenas do segundo modo. Quando mais lêem, portanto, mais fracas e mais confusas se tornam as suas mentes.

Nicolas Malebranche, in ‘Procura da Verdade’