O Fantasma Russo

“… é a doença que gera o crime ou é o próprio crime que , por sua natureza específica, de certa forma é sempre acompanhado de algo como uma doença? (Crime e Castigo)

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Neste dia eu estava especialmente má. Um gosto amargo específico destilando um ódio seco que escorria junto com a saliva quando imaginava que iria beijá-lo. Mais uma vez. E o beijaria enquanto vivesse. Joguei fora, pela manhã, Crime e Castigo, livro que lemos e relemos incansavelmente. Falávamos e defendíamos o direito à liberdade. Liberdade plena, e muitas vezes ríamos das leis punitivas que a nós não afligiam jamais. Bebíamos e arrotávamos niilismo e vodkas.

Por me chamar Sônia, ele, ridiculamente, me comparava à personagem de Dostoiévski, me imaginando uma espécie de reencarnação. Eu certamente jamais seria pura e religiosa como a Sôniade Rodion Românovitch Raskólnikov, o personagem de DostoiévskiContudo, ele, meu espécie de marido, era incrédulo, um homem entre ateu e agnóstico, com aterrorizante sensibilidade mediúnica, algo metafísico, estranhamente desconhecido por mim.

Meu Grigory Gatilov pressentia as coisas, e enquanto pintava seus quadros de violentas paisagens, eu sempre ficava impressionada com tantas coincidências. Não raro seus quadros viravam notícia de páginas policiais.

Na tela impressionista uma linda jovem com cabelos de fogo se mantinha estática em uma corda, enforcada; dias depois de terminada a obra, uma rapariga complexada aparecera dependurada no quarto de  numa estalagem. Motivo para o suicídio? Nem os amigos, a senhoria ou mesmo a polícia descobriram.

Todavia, eu já vivia assombrada e determinada a me afastar de Grigory e suas enlouquecidas telas. Mesmo não sendo, digamos, sensitiva, eu podia sentir que algo terrível estava para acontecer. Vivíamos no passado. Isso me assustava às vezes, quando olhava em volta e observava tantas tecnologias e gente contemporânea. Enquanto eu era a Sônia russa. Até nossas trajes eram do século XIX. Um “mimo inofensivo à estética, dizia ele.

Cheguei ao apartamento, naquele bairro sinistro, repleto de drogados e miseráveis prostitutos. Subi as escadas e entrei – a porta estava sempre aberta. Vi que no meio da sala, num cavalete, tinha uma tela por terminar. Um pano negro a encobria; entretanto, era voraz e mórbida minha curiosidade. Minha bexiga doía, precisava ir ao banheiro, mas fiquei ali, paralisada diante do quadro coberto.

Que premonição ele pintara desta vez? Outro suicídio? Homicídio como da vez da senhora desdentada? Essa pintura era de dar medo, aquelas covas cinzas e os cabelos arrepiados da anciã, somados à uma expressão enigmática, era de dar medo, e até pavor, se vista à noite em meia luz. Embora já estivesse disposta a deixá-lo para trás com sua loucura que já não suportava a minha, eu não me contive. Este foi meu grande erro.

Puxei o pano. Um frio mortal percorreu meu corpo. Senti, pela primeira vez, uma espécie de desapego da vida, do amor, do meu próprio corpo.

Muito calma, perambulei pelos cômodos da casa tentando adivinhar em qual deles eu morreria, pois sem dúvida aquele pescoço estrangulado na tela borrada de coloridas tintas era o meu, com a inconfundível medalhinha de ouro branco que eu jamais tirava do peito. E as mãos grandes, de dedos longos e austeros eram, indubitavelmente, as mãos de Grigory Gatilov.

Suspirei resignada e sentei-me em uma cadeira próxima à janela, respirando uma brisa que soprava e anunciava uma noite fresca que, se não fosse o quadro de Grigory, seria uma noite perfeita para o amor. Para uns drinks e boa música.

Todavia, na tela inacabada do estrangulamento dava para ver ao fundo uma reprodução de Degas – a Prima Ballerina -, e este quadro pertencia a Grigory, à casa dele. Fiquei confusa. Ele tencionava me matar em frente ao quadro de Degas? O que isso poderia significar?

Estiquei um sorriso ao lembrar dele me chamando sempre de ‘minha bailarina de Degas. Confesso nunca ter entendido ao certo. Talvez este impressionista pintara a irmã prostituta que era bailarina, ah, eu nunca me importei muito com os por quês. Eu o amava tanto, eu era sua pupila, sua súdita. A mulher capaz de tudo para vê-lo feliz.

Levantei-me, fui à cozinha beber água. Voltei e me sentei outra vez.

Só neste momento atentei para o fato de que, talvez por pura tensão, eu não havia ido ao banheiro. Para lá me dirigi, já bastante aflita pela ausência do meu artista. Que ele viesse logo e terminasse sua tela, juntamente com a minha vida. Que era sua, afinal.

Caminhei lentamente pelo longo corredor sem luz e abri a porta do lavabo, sentindo-me mais morta do que viva. Imaginei meu homem na Sibéria a prestar trabalhos forçados como Rodka Raskólnikov, o grande herói de meu querido Grigory. Sorri mais uma vez.

A porta do banheiro rangeu, como sempre acontecia. Eu entrei puxando a lingerie para baixo da saia e sentei calmamente no vaso. Pareceram horas o tempo que ali fiquei a urinar minha última urina. Sentia o líquido quente escorrer pela vagina, e por uns segundos experimentei prazer.

Lembrei das tantas vezes que nos amamos, Grigory e eu, das longas viagens pela Europa e Ásia, África, Oriente Médio; o orgulho que ele possuía em falar de seus antepassados russos, seus pais mortos pela fome, as desgraças bolcheviques. Até de seu ódio pelos ingleses eu lembrei com carinho e amor. Eu já não tinha a boca amarga e nem ódio, talvez em nenhum momento chegara mesmo a enfastiar-me desse meu amor.

Fechei os olhos enquanto me enxugava e pedi a Deus que eu tivesse uma prova de amor do meu querido insano; que eu morresse sabedora de seu amor por mim. Fiquei com a calcinha arriada enquanto lágrimas quentes davam vida ao meu rosto pálido, naquele banheiro escuro.

Não sei se Deus ou destino, ou mesmo Deus me perdoando – mas se eu nem cria! – O fato era que por estar escuro eu não havia notado no box aquele lindo homem tão conhecido do meu afeto, meu paladar e meu tato, caído no frio chão, como um animal abandonado.

Névoa cobriu meus olhos e eu vi finalmente a morte diante de mim. Assim, sem susto ou alarde…

Um corpo se redimia enfartado ao chão, secando as últimas gotas de um banho. Do último banho de Grigory Gatilov.

Nem alívio, nem dor, nem medo. Eu fiquei impassível, e tudo que me ocorreu, foi que eu deveria terminar a tela onde eu estava morta, e assumir os trabalhos do meu russo, porque tinha que ser assim. O show não poderia jamais parar. Peguei o pincel, o mergulhei na tinta vermelha e lambuzei aquele corpo pálido e nu.

Desci ao porão e descobri a minha tela de aluna. Sim, Grigory estava absoluta e soturnamente idêntico à minha pintura. Abri a vodka e relaxei, enquanto ligava para a polícia.

Por Daisy Carvalho

 

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Túmulo

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Brigite entrou em seu apartamento e sentiu que havia algo errado no ar. Precisamente no ar, um odor de queimado, pano queimado, correu até a porta a fim de chamar o síndico.

Antes que alcançasse a maçaneta, sentiu uma forte mão segurando a sua, pequena e trêmula. Foi um momento insuportável, aos poucos se virou e deu de cara com o síndico. “Graças a Deus”, respirou, “ia mesmo chamá-lo, há algo de errado aqui, sente o cheiro?”

Acordou e viu o teto do seu quarto. Pulsos e tornozelos doíam, estava amarrada. Entre as pernas uma gosma incômoda cheirava forte, era sêmen, ela constatou enjoada e quis vomitar. E vomitou pelo canto da boca, no travesseiro.

O síndico entrou, tinha olhos diferentes, com um brilho que Brigite jamais vira. Contorceu-se, mas era inútil, mil pensamentos passaram por sua cabeça. Pensou em Mônica, só pensava nela, era tudo que tinha. Jamais fora amada na vida. Pais ausentes, abusos, perdas, mortes. Pais drogados, tios, sombras, medo.

“Como se sente, sua vaca lésbica?”

E foi a última coisa que ouviu antes de desmaiar com um soco no queixo.

O síndico a retalhou em várias partes do corpo delicado e nu. Com um resto de consciência, Brigite pensou que era seu fim. Constatou resignada que a sua vida era assim, que felicidade nunca existiu. Pensou no sorriso de Mônica e pela última vez suspirou. Ainda viu seu gato tosquiado e morto ao seu lado. Sufocou com o sangue na garganta. Olhou para o síndico e esboçou o que julgou ser um sorriso.

“Obrigada”.

A vida é muito importante para ser levada a sério. Oscar Wilde

 

 

Lágrimas de Escuridão _ Mais um fantástico conto do Reino de Morserus

LÁGRIMAS DE ESCURIDÃO, BY MARCELO SCHWEITZER

É realmente um prazer voltar a comentar a obra do escritor Marcelo Schweitzer, que criou um mundo o qual vai além da literatura por questionar a vida de forma filosófica, sempre dando a seus personagens escolhas, vários caminhos, provocando pensamentos morais, discutindo ética e, acima de tudo, instigando o pensamento do leitor, obrigando-o muitas vezes reverem seus valores e tudo no que acreditaram até o momento de entrar no maravilhoso e fantástico mundo de Morserus, lugar além de todas as galáxias, um mundo onde os habitantes não são homens, tampouco são animais, porém uma intrigante mistura dos dois.

Desta vez o autor nos apresenta a doce Adell, menina com sérios conflitos de autoestima, que ao mesmo tempo em que acredita no amor como redenção para todos os problemas do mundo, dispensa mais tempo ao desamor, na dor da ausência do pai, e na confusa convivência com a meia irmã, e a mãe que parece preteri-la, em favor da outra que, mesmo sendo a mais nova, parece merecer mais ir para a Academia e ser amada.

Aqui, neste mundo surreal, tabus são quebrados, incestos e fratricídios são mais comuns do que se possa imaginar. Profecias questionadas e superadas! Afinal, estamos em Morserus.

A tragédia de Adell começa quando ganha uma máquina de escrever, novidade que o pai traz de Troferus, a Nação dos Gatos. Entretanto, a mãe ordena que o acessório fique para a irmã, por esta ser mais inteligente e apta a estudar.

A partir de um diário “mágico”, a triste menina vive uma odisseia de descobertas e acontecimentos perfeitamente normais para uma adolescente de treze anos, se não estivéssemos em Morserus, e Adell não fosse uma complexada cadelinha da linhagem Bexor, sem relevância na sociedade do lugar.

Em determinada altura, a personagem encara o desafio de defender o amor, de lutar por ele, através de uma verdadeira paixão por um cão de linhagem superior e muito mais bonito e rico que ela, o Jokua. Um toque shakespeariano, por que não? As coisas neste mundo parecem mais avançadas intelectual e filosoficamente, contudo, alguns sentimentos são semelhantes aos dos humanos.

O conto vem mesmo com grande apelo filosófico, e a personagem ser a narradora usando o diário como ferramenta é emocionante e remete a uma outra menina que viveu a mesma experiência, Anne Frank, ela mesma.

Neste episódio, o autor não economiza nas metáforas, e o coração aperta quando Adell compara o mau tempo, o redemoinho negro com seu interior. Uma dor latente que incomoda o leitor.

A busca incessante pelo amor e por uma elevação social a fim de conquistar sua paixão proibida, leva a jovem a passar por muitas situações inusitadas, entretanto, ela parece vencedora! Alcançou o status dos ricos e conquistou seu amante, com direto a bailes e ostentações.

Preservando o suspense do autor, paro por aqui, recomendando esta viagem onde quando menos esperamos, somos nós lá, nos conflitos, nas páginas do diário de Adell.

Como pista, subscrevo a personagem, que do alto de sua conquista, profere estas palavras, desconcertando o leitor:

“Os pobres saciam a sua (fome) com alimento, enquanto que nós temos fome de luz, e não encontramos no brilho do ouro luz suficiente para nos alimentar.”

Lágrimas de Escuridão trata do Efeito Borboleta. O que você faria se pudesse mudar algo em sua vida? Se pudesse voltar bem lá atrás e refazer o que estava errado? Bem, Adell o fez, mas o resultado seria, no mínimo, deselegante contar aqui.

Leiam o conto, é sensacional! Recomendo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NEUROSE

 

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“Mulher Sentada e Janela Gótica” __ Eduardo Machado

Espanto a vida é uma ruela que prende teu corpo minha vida estranha se jogará da janela, tantas nuances e a política apunhala entre as pernas o povo está nu, vilipêndio estupendas lágrimas mendigando fortunas no nome de Deus enquanto anjos tocam trombetas mendigos coçam bocetas e enquanto isso cachorros se alimentam de vômitos. Ruas desertas Moro o capeta e santo duas faces depende quanto pagará minha vida se despede e olha uma última vez para a antiga vitrola e Jmi Hendrix sorri, Lúcifer mija no fogo ardente das gurias do baixo cracolândia, beiços queimados futuros arruinados e dança a dançarina no Municipal. Cabral preso Brasil descobriu Cabral puta que o pariu tudo foi em vão a criação Eva e Adão, agora é suportar quando no pó descansarei, um dia serei estrela, desabou a  porra da janela virei cadáver.

Day

 

 

LITERATURA _ ENIGMA DA VIDA

 

zemial

ESCRITOR MARCELLO SCHWEITZER

ENIGMA DA VIDA _ RESENHA

O escritor Marcelo Schweitzer, traz mais uma intrigante história de Morserus. Os que acompanham a odisseia, conhecem a gama de personagens desse fictício mundo, onde não existe o homem, mas apenas animais antropomórficos, isto é, animais com características do homem; com o diferencial de que neste mundo, tanto os sentimentos, as crenças e conceito de bem e mal, certo e errado, estão além da cognição humana.

Neste conto, Enigma da Vida, o autor apresenta, mais uma vez, Zemial, o Gato albino, que desde a infância e adolescência, vem lutando pela paz interior, mergulhado em questões vitais, como amor, a ausência dele, solidão e depressão. O personagem passou a vida tentando descobrir por que jamais fora amado pelo pai que o abandonou, e por sua mãe que também o rejeitou, entregando-o a um orfanato, onde Zemial viveu momentos tenebrosos e assustadores, como a tentativa de sua mãe em matá-lo.

O Gato albino, está agora com quarenta e um anos, e se esconde em uma cabana no meio do nada, cercado por vegetação e fantasmagórica solidão. Guardou, por quinze anos, o frasco de veneno, e decide que chegou a hora de se despedir de uma vida sem sentido e sem respostas às suas questões existenciais.

Juntamente com o amadurecimento do personagem, vemos que suas decisões também ficaram mais firmes. Era a hora de morrer, envolto no suicídio dos que nada mais esperam de sua existência.

Entretanto, o Gato cresceu, também, espiritualmente. Suas indagações são mais globais, ele aprendeu ciência, e deixou de ser ateu. Sim, ele consegue ver o mundo de uma forma mais altruísta. Entende que sua dor é a dor de todos, e que o amor não pode vir morar em um coração negro de ódio e ressentimentos.

O conto faz referências jungianas, usando a metáfora dos exspes, insetos-deuses que se alojam nas mentes dos habitantes deste mundo sombrio, mas que na verdade é ele mesmo lidando com seus deuses e demônios, isto é, confrontando a própria consciência.

Em sua filosofia aprimorada pelos anos, Zemial descobre que “ideias que sobrevivem séculos são ideias imortais, que nascem de dentro de cada um, demonstrando que existe um elo entre todos, esse elo revela que todos formam o um.” Com esse pensamento panteísta, o Gato se encontra, de novo, em posição de questionar a vida, por uma última vez, antes de morrer. Menos cético, contudo, com as mesmas dilacerações na alma.

Apesar de alegar não querer ser “um cego que finge ser feliz”, Zemial, involuntariamente, se vê cercado de acontecimentos que irão mudar o rumo de sua sofrida e solitária existência.

Acredito que neste episódio, o personagem surpreende, ao se conectar ao mundo todo, dos insetos aos astros do céu de Morserus. Mais um conto eletrizante, carregado se suspense, com um desfecho que deixará o leitor em transe, pois Zemial, desde criança, demonstrou ser muito mais que um garotinho assustado. Explode, então, a força contida que nem ele mesmo sabia possuir.

Como disse Carl Jung, quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda.

Congratulações, Marcelo Schweitzer, por mais um excelente conto de Morserus.

By Day

FINITUDE

O mais importante na vida é termos consciência de que nada merece nossa atenção em escala de cem porcento. Por mais que haja motivos e objetos necessitando de atenção, carinho e zelo, digo que não possuimos tempo para tantas tarefas; e desta forma tudo se torna sem importância. Hedonistas ou místicos; materialistas ou religiosos, todos estamos sem tempo. Por mais que queiram desdobrar-se em mil tarefas no intuito de vencer as barreiras dos anos, claro está que alguns destes afazeres deixarão a desejar, portanto não insistamos.

Agir como Nietzsche e desligar os relógios e a rotação da terra, é demais para mortais, este foi encargo pessoal do filósofo que assim vislumbrou o mundo, e com sucesso, tendo em vista que dedicou-se apenas a pensar.

Lembremo-nos do tempo que é finito e implacável. Volto a insistir – larguemos as incumbências secundárias e terciárias para apenas haver dedicação àquilo que mais nos dá prazer, e seja o que for, façamos apenas o que amamos, porque dentro em pouco a Morte se ocupará de nós, e este é seu único e irrevogável prazer.

Conclusão

Desejando as asas da galinha
Desejando as asas da galinha

Andar andei como é a vontade do corpo

Pensar pensei como é a exigência da mente

Cuspi, vomitei

Perdi coisas, gente, mãe e pai. Você…

Chorar chorei porque faz parte do metabolismo

Jung eu li, e Freud quase não.

Tive prisão de ventre mas não pensei em Deus.

E agora, não sei por que, penso nessa causa.

De onde eu vim?

De um jardim que ninguém jamais viu?

Achava que a vida era um mistério

E agora acho minha vida muito simples:

Nasci para morrer.

O sino da madrugada – Parte I

 

Medo

Eu acordei no meio da madrugada. Deveria ser algo por volta de duas horas. O sino do filho do vizinho havia disparado (de novo), e aquele som estridente e inconveniente me deixava verdadeiramente irritado. Revirei-me na cama, contudo, voltar a dormir, nesta madrugada, sentira não ser possível. Mesmo achando aterrorizante aquele maldito som, ainda assim, reunindo coragem, resolvi averiguar tal mistério.

Levantei-me, bocejando. Olhei para ela que dormia profundamente ao meu lado. Como era linda! Imaginei, caso fosse algo sobrenatural na casa do vizinho, se ela não correria perigo. Poderia ser um zumbi, um espectro, demônios. Essas coisas existiam, disso eu tinha certeza. Entretanto, nem todos podiam vê-las. A mãe dela costumava dizer que apenas os médiuns possuíam a capacidade de presenciar tais fenômenos. Na rua mesmo onde moramos, há um senhor que mora só. Dizem que é bruxo, que fala com os espíritos, e que se comunica à noite, e para tal acende velas e coloca umas coisas como pequenas caveiras e pedras sobre uma mesa coberta por pano vermelho. O sino voltou a tocar mais nervoso. Resoluto, saltei da cama e, sem fazer barulho a fim de não acordá-la, deslizei pelos cômodos escuros até chegar à janela da sala. Decidi que indo pelo beiral eu poderia chegar até ao quarto do menino sem ser visto. Talvez, dessa forma, eu o observasse impune. Se fosse fantasma, pensei na época, ele não me veria. Sentia-me um verdadeiro espião das trevas.

Com passos lentos e precisos me arrastei sem olhar para baixo. Moramos no décimo andar de um prédio antigo e meu Deus!… Fora por pouco! Uma parte do concreto cedera. Não fosse a grade de ferro, eu estaria morto agora. Prossegui devagar, com a respiração controlada, atento a todos os ruídos e movimentos. No entanto, o coração batia mais rápido. Lembro-me que olhei para baixo e quase tive vertigem.

O tilintar infernal estava cada vez mais perto. As cortinas do quarto do menino brincavam, esvoaçando-se como almas transparentes. Pareciam dançar para mim, tentando me fascinar, me hipnotizar. Um som inesperado me fez paralisar o próximo passo. Olhei para a amendoeira. Lá estava ele, aquele pássaro negro desgraçado que eu já tentara caçar, dar um fim nele, mas era esperto, o demônio. Assim que me viu, deu uma risada e voou para a árvore do outro lado da rua. Pensei que em outra oportunidade eu o mataria, sim, eu o mataria de uma vez por todas. Então cheguei bem perto da janela. Bastaria esticar o pescoço e descobrir, finalmente, o tal zumbi, ou fosse o que fosse que vinha me tirando o sono. Respirei fundo e pensei nela de novo. E se eu morresse, como ela viveria sem mim? Éramos apenas nós dois. Amávamo-nos profundamente. Foi quando o astuto pássaro negro soltou um guincho, me avisando do perigo. Mas era tarde demais!

O estranho garoto me agarrou pelo pescoço. Não pude reagir, pois ele era muito forte. Se eu me debatesse poderia cair e morrer, estraçalhado na calçada. Eu sabia que os endemoniados tinham forças sobrenaturais, então me deixei arrastar para dentro de seu quarto, olhando-o em seus olhos vermelhos de insônia. Jogou-me em sua cama desarrumada e fechou a janela. Com um sorriso macabro pegou o sino de ferro e veio em minha direção. Mais uma vez pensei nela e me arrepiei todo. Não conseguia me mover, até que… O garoto, soltando o  brinquedo e abraçando-me, murmurou carinhoso “que bom que você veio me fazer companhia, gatinho…”

Continua…

 

Alma em Agonia

É apenas, apenas agonia, desterro, sangue, cheiro de sangue!

Nas pernas do ar é a guerra, o mar, tudo se prontifica em minhas mãos.

 Não quero saber de mais nada, há confusão por toda parte, há manadas,

gados obedientes, dor de dente, dor de parto, dor!

Já não me importo se amo, respeito, e não quero saber de cabresto,

amor ao próximo, perdoar e ser perdoada. Tudo acabou, o vento trouxe a miséria,

a agonia do vale da morte. Ossos secos que não tomam vida, não expurgam sangue

 nem verdade; o que posso fazer, eu, somente eu nesta estrada de poeira

nadando a pé, a sós.  Agora não quero mais ser tua amiga, te amar, ser boa,

não, não posso mais voltar, contaminada de ira e desejo torpe.

Aceito, resignada, que sou maldita entre as mulheres (de tua cama),

que poderei fazer, se a sina sinaliza nossas mortes, e ejeta-me para além das galáxias,

e eu nada posso afirmar, então escrevo, escrevo, escrevo!

Decido ficar por aqui mesmo.

Meu fim é apenas o começo.

Coração de Pedra Para Música

Música, para mim, vai além de acordes e sinfonias. Cresci no meio de maestros, portanto, se há algo que reluto postar é artigo sobre música. Não iriam gostar de minhas críticas. Porque não há como criticar o que não é música. Entretanto, vez por outra, algo toca meu coração.

Coração de Pedra – Grupo Semeando (1985)

PS – Descobri esta canção na madrugada. Ainda que sejam “taxados” como gospel, eu senti uma forte queixa aos que possuem coração insensível. Contudo, eles, segundo meu coração, não se referiam aos ímpios (os não cristãos). Filosofia é a arte de fazer pensar. Então, quem seriam esses com coração de pedra, no Cristianismo?