Domingo, Bem Acompanhada

dayatual

Acordei sem vontade de assistir tv, olhar as notícias, ou fazer qualquer coisa que não seja ficar na cama, assistindo (isso sim) vários filminhos. O dia está nublado. Vou até publicar um poema do Fernandinho.

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

fernandop

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Pérolas de Luiz Guilherme Volpato

 

Marcas

triste2

Às vezes fazemos o que não queremos
Obrigados a viver, escolhas que não fizemos
Ou escolher viver o que escolheram para nós
Não quero lhe pedir mais nada
Cansei de me esforçar para ser visto
A dor de não ser encarado
Corta o coração, como a forma mais cruel de abandono
Eu escolhi amar você
E tenho culpa de deixar o mundo todo de lado
Eu me obriguei a te amar
E me inocentei da culpa de lhe deixar
Não sei por quanto tempo deixei de te olhar
Mas agora cada instante, simplesmente não se vai.
As coisas que ficam, as vezes mudam
Mudam de sentido
Mudam de opinião
Talvez por obrigação.
Será que obrigamos a vida a flexionar-se a nossa vontade?
Não obrigaria você a voltar para mim
Mas obrigaria o mundo a fazê-la feliz
Você não me obriga a nada…
Mas também não me dá escolhas

 

Meu libertar

gotica

Teu silêncio
Tão calado, voraz…
Como se devorasse todos os sons ao redor.
Uma exclamação muda, incapaz de se passar despercebida.
Os significados que me dizem respeito e não lhe serão atribuídos.
Finalmente virar a esquerda ao invés da direita.
Se deixar levar pela descoberta de um novo universo.
Nova vida, novos sentimentos.
Se surpreender com uma mudança em suas intensões e limites.
Violento então, teu silêncio desagregador.
Com meu grito de alívio,
Retomando a marcha, conduzindo a uma viagem a um novo velho mundo.
Para o qual rumo, cantarolando a felicidade de ser livre.

 

Esse poeta lida muito bem com o amor, afinal o amor não mente e não é egoísta. Você sempre bem vindo, Luiz Guilherme.

Beijo!

O Maior de Todos os Poetas Americanos era uma Mulher – Emily Dickinson

                                 Justa Homenagem – Emily Dickinson

esta emily

 

O maior de todos os poetas americanos era uma mulher: Emily Dickinson (1830-1886). Apesar de ter vivido reclusa por 56 anos, sem receber visitas, numa casa de Amherst, no interior de Massachusetts, refém do puritanismo asfixiante da Nova Inglaterra e de um pai dominador, apaixonou-se por um homem casado (mas evitou consumar a paixão) e deixou 1775 poemas, que têm, até hoje, emocionado sucessivas gerações. Como escreveu Otto Maria Carpeaux em sua monumental História da Literatura Universal: “Ela não inspirará nunca admiração perplexa, como Poe, nem será tão popular como Whitman.”  Mas é o próprio Carpeaux quem lhe dá o mérito de “maior poeta americano”, considerando a sua obra das mais originais em língua inglesa, especialmente pela reiterada quebra das convenções, no conteúdo e, para desgosto dos puristas, também na forma: nunca hesitou em surrar a gramática, para sintetizar seu desconforto diante do mundo.

emily em pé

Teve um amigo com quem se correspondia, Thomas Wentworth Higginson, um poeta hoje esquecido que inutilmente tentou “corrigir” as transgressões de seus poemas, copidescando forma e conteúdo, “para o bem de Emily”. Mas, sua obra sobreviveu a Higginson e ao pai. De Higginson ficaram as reminiscências que escreveu sobre ela. Seu pai, um tipo antigo e puritano, era sempre a figura princi­pal, um homem que, como ela disse, lia aos domingos “livros solitários e rigorosos”, e que, desde sua infância, lhe havia incutido temor. Até a idade adulta, Emily leu apenas a Bíblia e, escondida do pai, Shakespeare: “Quando perdi a visão, era um alívio pensar que os livros importantes são tão poucos. Depois, quando recuperei a visão, pensei: ‘Além de Shakespeare, por que preciso ler outro livro’?”. Na reclusão que escolheu, além de escrever, tinha ocupações gastronômicas que cumpria com prazer: diariamente ela fazia todo o pão da ca­sa, porque seu pai só gostava do pão feito por ela. E, segundo relatos de contemporâneos, seus pudins eram tão bons como os poemas. A obra de Emily Dickinson, exceto por raros versos isolados, acolhidos em pequenos jornais do interior, só foi impressa depois de sua morte.

emilylivro

A boa notícia é que foi lançada no Brasil (2008), em livro de bolso, uma primorosa edição de Poemas Escolhidos de Emily Dickinson (L&PM). O autor da magnífica tradução, além da seleção dos poemas, introdução e notas, é o professor Ivo Bender, que conseguiu preservar a graça, a originalidade e força dos versos, num criterioso trabalho de recuperação e adaptação dessa riqueza imensa à língua portuguesa. Por certo que ficaram de fora as receitas dos pães e pudins. Mas o professor Ivo Bender tem uma justificativa inatacável: as receitas desapareceram com Emily, em 1886.

Fonte: Zero Hora (14/03/08) /

10 Poemas de Emily traduzidos por Jorge de Sena

A Letter is a joy of Earth –
It is denied the Gods –

Uma carta é uma alegria da Terra
– Denegada aos Deuses.

* * *

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer’s morn –
A flash of Dew – A Bee or two –
A Breeze – a caper in the trees –
And I’m a Rose!

Sépala, pétala, espinho.
Na vulgar manhã de Verão –
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
Brisa saltando nas árvores –
– E sou uma Rosa!

* * *

Afraid? Of whom am I afraid?
Not Death – for who is He?
The Porter of my Father’s Lodge
As much abasheth me.

Of Life? ‘Twere odd I fear [a] thing
That comprehendeth me
In one or more existences –
At Deity decree –

Of Resurrection? Is the East
Afraid to trust the Morn
With her fastidious forehead?
As soon impeach my Crown!

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!

* * *

By a departing light
We see acuter, quite,
Than by a wick that stays.
There’s something in the flight
That clarifies the sight
And decks the rays.

A uma luz evanescente
Vemos mais agudamente
Que à da candeia que fica.
Algo há na fuga silente
Que aclara a vista da gente
E aos raios afia.

* * *

I died for beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb,
When One who died for Truth was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly why I failed?
“For Beauty,” I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren are,” He said –

And so, as Kinsmen met a-Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –

Morri pela Beleza – mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
– Pela Beleza – disse eu.
– A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos Irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes – tapou.

* * *

I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me –
Almost a loneliness.

Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures –
Quase uma solidão.
* * *

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também – tu não és – Ninguém?
Somos um par – nada digas!
Banir-nos-iam – não sabes?

Mas que horrível – ser-se – Alguém!
Uma Rã que o dia todo –
Coaxa em público o nome
Para quem a admira – o Lodo.

* * *

Silence is all we dread.
There’s Ransom in a Voice –
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.

O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz –
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.

* * *
Soft as the massacre of Suns
By Evening’s Sabres slain

Suave como o massacre dos Sóis
Mortos pelos sabres do Anoitecer.

* * *

Volcanoes be in Sicily
And South America
I judge from my Geography –
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb –
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.

Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia –
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir –
Cratera que eu possa ver –
Há um Vesúvio cá em casa.

Fonte: http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/antologia/traducao/texto.php?id=440

http://www.lpm-editores.com.br/site/default.asp?TroncoID=805133&SecaoID=816261&

Feliz aniversário, Drummond!

Singela homenagem

 

Carrega-me tu, Drummond,
com tuas asas imortais de letras e fogo.
Queria saber o que sentes, Carlinhos,
agora, daí de onde estás:
 Serás anjo, homem ou demônio,
_ Poeta das sábias coisas!
Fala-me, através de teus poemas,
digo até daqueles eróticos de
sugar e ser sugado pelo amor
Canta de onde estás,
que eu ouço daqui,
ouvirei de minha cama
com teu livro entre as pernas.
Sonho hoje, amado mineiro,
com a possibilidade amalucada,
de um dia estar contigo,
e novos poemas de ti ouvir,
pois sei que não paraste de escrevê-los,
eterno Andrade que és!

Para falar de poesia – Arkadii Dragomoshchenko

Leia a entrevista do poeta alemão Arkadii Dragomoshchenko a Régis Bonvicino  e Odile Cisneros

Para falar de poesia

Falar de poesia é falar do nada
ou possivelmente de algumas raias externas
(onde a língua se devora)
discernindo ou determinando um desejo
penetrar este nada, uma lei, um olho
para encontrá-lo em si mesmo, presente em nada
Impossível !
A morte não pode ser trocada por outra coisa.
Sinceridade – é o processo insaciável
de transição, de flutuação, em sentido oposto,
ou seja, eu-te-amo-não-te-amo
desaparece à beira da consciência

Não há mais tempo para a expressão
Eliminada pela simultaneidade
Onde achar um homem dançando como uma vela?
Escute, como o segundo milênio
a água avança sobre as margens – algas
A pétala-da-abelha seca seus lábios: pó em seus pés
seus quadris e ombros expostos

Lembro-me do tempo quando a lâmpada de querosene
noite fria o lilás brilhava verde, como um nervo
O halo da chama do querenosene, um hemisfério esmeralda
atraía mariposas do escuro.
O arco zênite de agosto, uma foice estrelada,
revelando os traços honestos da matéria,
pálpebras rasgadas.
Uma tela e letras, esta é a estória,
arquivo pulsante do nadir e nele, como a queima
de mariposas,
a descrição da noite aparece. Os ramais
do jardim pegam fogo,
campos magnéticos de palavras aparecem, tensos,
entrelaçados ao nada. O que mais posso falar!
O que mais dizer?
Deslizando dentro de você, no delta no meio do rio
abrindo-se, como um arco,
cuja corda está corroída
pelo silêncio.

Traduções: Régis Bonvicino

Para que escrever poesia? Para quem? – Les Murray

Reprodução/Internet / Les Murray.
Les Murray.

O instrumento

Quem lê poesia? Não nossos intelectuais;
eles querem controlá-la. Não os amantes, não os combativos,
não os examinadores. Eles também roçam-na em busca de bouquets
e trunfos mágicos. Não os alunos pobres
que peidam furtivamente enquanto criam imunidade contra ela.

A poesia é lida pelos amantes da poesia
e ouvida por mais uns que eles levam ao café
ou à biblioteca local para uma leitura bifocal.
Os amantes de poesia podem somar um milhão
no planeta todo. Menos do que os jogadores de skat.

O que lhes dá prazer é um roçar nunca-assassino
destilado, principalmente versado, e suspenso em êxtase
calmo na superfície de papel. O resto da poesia
de que isso uma vez já foi parte ainda domina
os continentes, como sempre fez. Mas sob a condição hoje

de que seu nome nunca seja dito: construções, poesia selvagem,
o oposto mas também o secreto do racional.
E quem lê isso? Ah, os amantes, os alunos,
debatedores, generais, mafiosos, todos leem:
Porsche, plástica, Gaia, Bacana, patriarcal.

Entre as estrofes selvagens há muitas que exigem tua carne
para incorporá-las. Só a arte completa
livre de obediência a seu tempo pode te fazer dar piruetas
ao longo e através dos poemas maiores em que você está.
Estar fora de toda poesia é um vazio inalcançável.

Por que escrever poesia? Pelo estranho desemprego.
Pelas dores de cabeça indolores, que devem ser aproveitadas para atacar
por meio de seu braço que escreve no momento acumulado.
Pelos ajustes posteriores, alinhando facetas em um verbo
antes que o transe te deixe. Para trabalhar sempre além

de sua própria inteligência. Para não precisar se erguer
e trair os pobres para fazê-lo. Por uma fama não-devoradora.
Pouca coisa na política lembra isso: talvez
os colonizadores australianos reinventando o falso
e muito adotado voto secreto, no qual a deflação podia se esconder

e, como um portador do bem-estar, envergonhar as Revoluções da vala-comum.
Tão cortada a machado, tão cônsul-ar.
Foi essa uma brilhante vitória mundial da covardia moral?
Respirar em ritmo de sonho quando acordado e longe da cama
revela o dom. Ser trágico com um livro na sua cabeça.

Copiado do Blog Palavras Todas Palavras
Créditos – Gazeta do Povo
O blog traduz mais um poema de Les Murray, torcendo para na semana que vem ele ser anunciado como o vencedor do Nobel…

Um Conto sem Hoffmann

Autor – Thiers Rimbaud

A fome enevoava resquícios
verbo acrílico sem parâmetro
seguindo rastros
e Hoffmann?
tempos passaram e não eram verbos
eram tempos de algum pretérito
raiva escondida na esquina
apunhalava
roubava-me pedaços
de pão
contida como
paralelepípedo ensangüentado
chovia fino
os pensamentos dançavam…
teria enlouquecido?
debaixo do temporal
pensei nos cachos de mademoiselle
a permear nuca branca e saliente
abri a boca, lambi
precisava arder em sangue
precisava
queimar-me na lama
desta aventura
leva me, leva-me…
easy rider.

Thiers R> é uma promessa na literatura brasileira.

O Ato de Produzir Levado ao Limite

 

Ao longo da vida, acontece muitas vezes que, em meio das nossas maiores certezas, notamos subitamente que estamos a ser vítimas de um erro e que fomos cativados por pessoas ou por coisas com as quais sonhámos uma relação que não resiste ao olhar atento da vigília. E acontece também que, apesar de tudo, não somos capazes de nos desprender, como se fôssemos retidos por uma força que nos parece inexplicável. Mas por vezes atingimos uma consciência plena destas situações e compreendemos que, tanto quanto uma verdade, um erro pode motivar-nos e conduzir-nos a uma certa actividade.
E, como a acção comporta sempre decisões, um erro posto em acção pode muito bem dar origem a qualquer coisa de bom, se a eficácia desse fazer se estender até ao infinito. O acto de produzir é sem dúvida o que temos de melhor, mas do que fica dito compreende-se que também o acto de destruir não deixa de ter consequências benéficas.

Johann Wolfgang von Goethe, in “Máximas e Reflexões”

Culpabilidade – Isabel Gouveia

O que é o perdão?

Vivi na esperança
de o ter entre os dedos.
Quem diz que o alcança
só vive de enredos…

Fiz mal? Mas a quem?
Que venham contar-me
as mágoas geradas
por meu vil desdém
e as feridas mostrar-me
na carne rasgadas.

Fiz mal? Mas a quem?
Fui pedra lançada
no vosso caminho?
Barrei-vos a estrada
com traves de pinho?

Só sei que

há vozes gritando
a culpa que sinto
pesar-me na alma,
há ecos cavando
a dor que pressinto
em noites de calma…

Só sei que
suspensos enredos
da minha agonia,
urdida ao serão
em grande segredo,
tornaram vazia
a minha intuição.

Fiz mal? Sim ou não?
Onde e quando?
Dizei-mo, dizei-mo!

Eu sou como a rocha
virada prò norte,
que acolhe a rajada
em concha bem forte
e a atira prò nada…

Fiz mal? Sim ou não?
Até os duendes,
escondidos e aduncos,
me negam razão.

O que é que vós tendes?
Tremeis como os juncos
nas bordas do rio.
Escondeis-vos de mim,
do meu poderio?

Do meu poderio!
Ah! Ah! Ah!
Tesouros saídos
de cofre guardado
em cave nojenta,
demónios roídos
de querer aturado
em bolsa sangrenta?

Fiz mal? Mas a quem?
Àqueles que ainda
não viram a luz
das coisas imundas?
De ideias fecundas
fiz braços em cruz?

A treva gerada
em dúvida vã
que cobre a minha alma
andou apressada;
a todos levou
a ânsia e a calma
em Deus embarcou?

Fiz mal? Como e onde?
E quando? E quando?

Isabel Gouveia

Isabel Gouveia, in “Os Sete Dias Passados”