A mulher como objeto sexual na Literatura

Equívocos de um misógino

Alguns escritores (?) não sabem mesmo a diferença entre um texto com linguagem coloquial/vulgar, e um bom texto com linguagem coloquial/vulgar. Trata-se do trabalho concorrente no Duelo de Escritores, do jornalista Fábio Ricardo, intitulado Sobre paus e pedras. O tema para o desenvolvimento do texto, seja conto, poesia, ou crônica, foi “Paquera”. ou “Flerte”. Ninguém saberia dizer qual parte do tema o autor não entendeu, dispondo um amontoado de palavras toscas e desconexas, totalmente inclinado ao machismo, o que, por si só, retiraria todo o  charme do texto.

Todavia, a coisa vai mais longe. Parece mesmo que o autor estava embriagado ou com uma tremenda dor cornícula ao escrever tal texto. O personagem é pedante, doentiamente fanático por sexo, e patologicamente mentiroso. Criar um personagem mentiroso é difícil, pois, não raro, ele se confunde com o autor, e, neste caso, tudo indica que sim, que a  personalidade do escritor migrou para tão sofrível trabalho literário, se é que podemos classificar um caminhão de palavrões como Literatura.

Falar de paquera e de mulher, ou vice-versa, não carece de uma linguagem tão chula, obscena e pornográfica, e até ofensiva para um leitor bem intencionado; para uma leitora então, fiasco total.

Devido às mudanças na sociedade humana, fica descabido uma redação  tão machista, vinculando a paquera à vagina, como se, em pleno terceiro milênio, a mulher ainda fosse objeto de falsos intelectuais. Eu até tentei entender o personagem, mas não o reconheci em nenhum arquétipo, e em nenhum lugar, a não ser na mente do escritor.

Para a maioria das mulheres e leitoras, um texto destes é risível (no mau sentido mesmo), já no primeiro parágrafo:

Eu não sou um cara bonito. Longe disso. Ok, bem longe disso. Mas mesmo assim eu tenho um jeito com as mulheres. Um jeito, é. Como posso explicar? Eu como mulher pra caralho.

Não sei se trata-se de regionalidade, pois que em muitas partes do mundo e do Brasil esse discurso não existe mais, graças a Zeus. A vulgaridade é tanta que chego a questionar se não foi proposital. Quem sabe o autor e proprietário do blog, Fábio Ricardo, não esteja com alguma frustração na alma, e se aproveitou, cegamente, de uma oportunidade para descer ao mais baixo nível literário, em nome de alguma raiva pessoal.

De qualquer forma, o texto é tão horrível, repleto de erros e de palavras grosseiras em relação às mulheres, que não resisti em apresentar-lhes um dos trabalhos mais infelizes que já li, não no Duelo de Escritores, mas em toda minha experiência de blogosfera. Lamentável assistir tamanho vitupério sociológico contra as mulheres. E, não podendo fazer nada, lavo minhas mãos e consciência, divulgando tanta sujeira literária aqui. Mais uma coisa, leitora e leitor: se vocês têm estômago fraco, ou são sensíveis demais, não leiam, pois aquilo é a bactéria das fezes de Bukowski.

Trechos do texto:

Quando eu era garoto eu não pegava ninguém. Nem sequer conseguia beijar alguém, imagina só comer.

Eles não são homens o suficiente para suas bocetinhas juvenis. Vagabundas.

Depois que comecei a agir assim, as vagabundas incrivelmente ficaram afim.

Sabe a menina de cabelo encaracolado, unhas mal cuidadas e a boceta peluda?

E não to falando daquelas vagabas que dormem com qualquer um.

… suas bocetas batem palminhas para o Almodóvar.

Uma mulher não aceita que o cara esteja mais preocupado em terminar de ler uma notícia de jornal do que em foder com ela.

Nada mais me resta, depois de tão insólita aventura, a não ser classificar o blog Duelo de Escritores como o pior espaço virtual  literário brasileiro da atualidade.

O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas…

Crarles Bukowski

Inté!

Literatura – Quem é o Narrador, afinal?

 

O Narrador

Para o mundo literário amador, esta figura imprescindível, o narrador, simplesmente inexiste. Os incautos escritores tendem a contar a estória de seu próprio ponto de vista. Mas… Quem realmente  é este tal de narrador?

O narrador é a entidade que conta uma história. É uma das três pessoas em uma história, sendo os outros o autor e o leitor/espectador. O leitor e o autor habitam o mundo real. É função do autor criar um mundo alternativo, com personagens e cenários e eventos que formem a história. É função do leitor entender e interpretar a história. Já o narrador existe no mundo da história (e apenas nele) e aparece de uma forma que o leitor possa compreendê-lo.

Em inglês, para delimitar essa distinção, o autor é referido por he, o leitor por she e o narrador por it.

Uma boa história deve ter um narrador bem definido e consciente. Para este fim há diversas regras que governam o narrador. Esta entidade, com atribuições e limitação, não pode comunicar nada que não conheça, ou seja, só pode contar a história a partir do que vê. A isso se chama foco narrativo.

O narrador é uma pessoa, ou animal, e até um objeto, que só pode falar do que sabe, ou seja, ele experimentou tudo que contou, sejam odores, cores, paisagens, ou histórias que ouviu. Ele leva a credibilidade do que se conta.

O narrador é Onisciente, já que tudo sabe e tudo vê. Normalmente usado na literatura pela facilidade de narrar os sentimentos e pensamentos das personagens. Conta a história em 3ª pessoa, às vezes, permite certas intromissões narrando em 1ª pessoa. Ele conhece tudo sobre os personagens e sobre o enredo, sabe o que passa no íntimo das personagens, conhece suas emoções e pensamentos.

Ele é capaz de revelar suas vozes interiores, seu fluxo de consciência, em 1ª pessoa. Quando isso acontece o narrador faz uso do discurso indireto livre, nao se sabe quando é o narrador ou o personagem que esta falando ou pensando. Assim o enredo se torna plenamente conhecido, os antecedentes das ações, suas entrelinhas, seus pressupostos, seu futuro e suas conseqüências.

Não é raro o escritor inexperiente não entender a narrativa em primeira pessoa. É que em obra de ficção, o narrador é imprescindível. Jamais devemos confundí-lo conosco, ainda que seja uma personagem parecida com a gente.

Quando ele é o  narrador-personagem que tudo sabe a seu respeito,  não significa que saiba tudo em relação às personagens que o cercam, e  nem pode ver o contexto com tanta clareza. Pode narrar uma história em que é protagonista (Memórias Póstumas de Brás Cubas) ou não, como o Blau Nunes de Lendas do Sul. Conta na 1ª pessoa a história da qual participa também como personagem.

Quando é apenas observador, também chamado de narrador-câmera ou narrador testemunha, limita-se a contar uma história sem entrar no “cérebro” ou “coração” das personagens. Conta a história do lado de fora, na 3ª pessoa, sem participar das ações. Ele conhece todos os fatos e, por não participar deles, narra com certa neutralidade, apresenta os fatos e os personagens com imparcialidade. Não tem conhecimento íntimo dos personagens nem das ações vivenciadas.

Além da focalização, é importante notar na pessoa do narrador, seu nível narrativo, quais sejam:

Heterodiegético: o narrador não é personagem da história (forma mais comum na literatura). Ainda que seja um narrador intruso como o de As intermitências da morte, de Saramago, ele não é parte dela.

Homodiegético: o narrador é personagem, mas não protagonista. O exemplo mais comum é o Dr. Watson narrando as peripécias de Sherlock Holmes ou, trazendo para o Brasil, o já citado Blau Nunes de Contos Gauchescos e Lendas do Sul.

Autodiegético: Aplica-se esta designação ao narrador da história que a relata como sendo seu protagonista, quase sempre no decurso de narrativas de carácter autobiográfico.

Elementos básicos da narrativa

Fato – o que se vai narrar (O quê?)

Tempo – quando o fato ocorreu (Quando?)

Lugar – onde o fato se deu (Onde?)

Personagens – quem participou ou observou o ocorrido (Com quem?)

Causa – motivo que determinou a ocorrência (Por quê?)

Modo – como se deu o fato (Como?)

Conseqüências –  (Geralmente provoca determinado desfecho)

Pesquisa O foco narrativo, Ligia Chiappini Moraes Leite (Ed.Ática,1997)

Fugindo das proibições, caiu em desatino pela Princesinha do Mar

              Quimera e loucuras, mas nem tudo é possível em Copacabana

Como não estou de TPM literária, o escritor Vogan Carruna passará pela malha fina sem muitos arranhões com seu conto Só mais um dia por aqui que está concorrendo na rodada do Duelo de Escritores, um blog de exercícios literários repleto de controvérsias, porém inegavelmente excitante no que tange à discussão e aprendizagem na arte de escrever.

Para quem não está acompanhando a via crucis, trata-se de um jogo onde, a cada quinzena, o ganhador da última rodada escolhe um tema para ser desenvolvido, fazendo com que muitas vezes os concorrentes, por falta de inspiração, tropecem em suas criações, já que são impulsionados por qualquer coisa, menos pela inspiração criativa. Vá lá, até aí morreu Neves.

Nesta rodada, o desafio da galera é escrever um conto ambientado em Copacabana, sendo, contudo, proibido usar 100 palavras que o autor do exercício, José Castello, chama de clichê , no que foi cegamente seguido pelo escritor e moderador do blog, Jefferson Maleski, um controvertido crítico de artes que, vez por outra, credita valores inexistentes a trabalhos literários, talvez para manter seus fiéis escudeiros, os participantes lá do blog.

Mas hoje é o dia de Vogan Carruna!, um bom escritor que representa, nesta rodada, minhas análises sobre o absurdo de se criar sob pressão, principalmente de proibições.

Quimera dos inocentes

Ao ler o conto de Carruna, a primeira palavra que me veio à cabeça foi quimera. Passei horas pensando no porquê desse substantivo feminino martelando em minha mente. Claro que, de cara, vi que a estória era totalmente inverossímel, com muitas deficiências,  abusando de uma linguagem coloquial que me lembrou alguns filmes nacionais e telenovelas, onde o roteirista e o escritor não conhecem a realidade do que escrevem quando o assunto é malandragem carioca.

O autor poderia argumentar que não se trata de malandros, mas de policiais malandros. A diferença seria pouca. Na verdade o policial malandro nem sempre usa gírias, porém geralmente faz uso de palavras obscenas, grosseiras e ofensivas, ou seja, os famosos palavrões. Pode até ser considerado estilo do autor não usar tais termos em suas criações, o que é uma pena, pois assim ele acaba com a verossimilhança dos personagens, conotando sua própria personalidade (a do autor).

O escritor que não faz uso correto da linguagem coloquial em seus personagens, geralmente é preconceituoso,  medroso, ou os dois, e isso prejudica sensivelmente suas obras. Melhor seria escolher outros personagens e ambientações, que deixar os personagens à deriva, entregues nas mãos do leitor e do crítico. Uma covardia. “Então presta atenção e tira o dedo dessa p**** de gatilho.” Quem pode levar isso a sério?

O  conto “Só mais um dia por aqui”

Trata-se da estória, até engraçada, de um policial veterano, e um policial novato que vive uma angustiante expectativa ante a disputa pela orla de Copacabana por dois bandidos. A ideia do tira iniciante apavorado pelo iminente confronto é boa, contudo, foi pouco explorada, levando o leitor a uma surpresa no desfecho, não posso negá-lo, entretanto, mais uma vez o escritor  virou criança, conduzindo-nos  a um espantoso o quê?!

Posso entender perfeitamente as limitações em criar quando  são impostas infindáveis regras para escrever. Compreendo que censura na arte é um vômito pela manhã, um absurdo despropositado. Todavia, como diziam os antigos, tá chuva é para se molhar. Ou se afogar, parceiro.

Deselegância, ô loco!

Não foi elegante citar um famoso Morro que está pacificado, o Morro dos Tabajaras, fazendo alusão à violência. Esta e muitas outras comunidades estão pacificadas, o que é uma vitória, não somente para o Rio de Janeiro, mas para o mundo inteiro que vem nos visitar.

E, se a ideia tão singela da disputa pelo “ponto” foi para nos remeter a um Rio de Janeiro lúdico ou  Antigo, não poderia ter citado o contemporâneo crocks, muito menos o sofrível linguajar “cracudos”. Não se trata do “politicamente incorreto”, a arte é livre, mas trata-se da falta de pesquisa ao escrever, uma vez que fazer uso da gíria pejorativa “cracudos”  associada à  orla de Copa, é simplesmente impossível. Os viciados se reúnem em guetos e em linhas de trem, geralmente às portas das comunidades. E, por fim,  falar de crack em um momento em que este – graças a Zeus! – está sendo contido, é realmente um p*** despreparo de pesquisa.

Sentenças ao infrator

Para terminar a reflexão sobre pesquisa na criação literária, aponto mais uma falha do escritor ao dar vida a um personagem que seria dono do Leme à Lapa. Quimera. Do Leme à Lapa, mesmo sendo da mesma facção, não pode existir apenas um dono. Bicheiro? Nem.

Algumas sentenças equivocadas do autor:

“É só uma disputa pela orla.”

“Tu não tá na favela e nem num filme do Tarantino.”

“Um dia vamos subir a Ladeira dos Tabajaras para você ver o que é diversão.”

“Do Leme até a Lapa é ele que manda.”

“… o bicheiro que mandava aqui no bairro. Ele controlava além do bicho, a prostituição e o tráfico.”

“Se o Belzebu ganhar, isso aqui vai lotar de cracudos!”

Finalmente, para não dizer que não falei das flores, destaco positivamente:  alguns poucos, mas cômicos momentos do texto; a coragem do autor em dar alma carioca aos personagens (até agora foi o único);  e apresentar um desfecho menos violento do que o esperado, a julgar pela estrutura do conto.

A nota, de 1 a 5, para “Só mais um dia por aqui” de Vogan Carruna, é 2,7.

Em tempo: A Princesinha do Mar não tem dono, ela é de todos!

A grande coragem, para mim é a prudência. (Eurípedes)

Inté!

Copacabana ou kuta kahuana ou Kopakawana – Um mergulho literário na mitologia

              Dos Incas às atuais concupiscências de Copacabana – Elaine Rocha

Criatividade & Pesquisa

Recebi, com satisfação, o novo texto do site literário de criação Duelo de Escritores, o Kopakawana, da escritora Elaine Rocha, aquela autora que critiquei em seus últimos trabalhos. Sinto-me feliz em ver que minhas críticas foram construtivas, uma vez que este seu novo texto está excelente para uma  novata, como ela mesma se define, até porque, com quinze anos, a coisa vai indo muito bem.

Trata-se, ainda, do exercício de criar um conto ambientado em Copacabana, onde 100 “palavras-clichês” são proibidas. Uma ideia de um escritor, José Castello, que impôs tal exercício aos alunos, tempos atrás, e que um escritor e moderador do site propôs nesta rodada, onde cada participante envia seu texto a fim de concorrer ao primeiro lugar,  por votação.

Todo escritor, seja de qual for o segmento literário, deve ser adepto das pesquisas, das buscas mitológicas, das essências históricas. Da semântica, sintaxe, enfim.

Confesso que, a princípio, torci o nariz, como boa carioca “esperta” que desconfia de quem quer falar mal de nossa cidade. Devo, porém, dar um graças a deus, pois até aqui os concorrentes têm se saído muito bem. Surpreenderam-me, pois, devido à ousadia do desafio, esperava uma bela derrocada literária. Contudo, ganha a literatura com resultados contrários às minhas expectativas.

 Copacabana – Da origem

Elaine Rocha, que escreve também no Recanto das Letras, teve um ótimo insight ao buscar, antes, uma luz mitológica onde  pudesse ambientar seu conto. Mergulhando na origem do adjetivo feminino copacabana, vislumbrou a possibilidade de trazer aos tempos atuais, personagens divinos, destilando irônicas controvérsias religiosas, e confrontando crenças.

Kuta Kahuana são palavras de origem inca, do dialeto Aymara, que significa vista do lago, ou olhando o lago. Na verdade, uma deusa foi criada para adoração por índios da Bolívia que, catequizados pelos espanhóis católicos, mantiveram a crença na deusa que se tornou santa católica. Uma estátua dessa deusa, a Virgem de Copacabana foi talhada por um indio chamado Tito Yupanqui, e trazida ao Rio de Janeiro, no final do séc. XVII por um comerciante português, onde está até hoje. Daí o nome do bairro.

O Conto “Kopakawana”

Uma mulher, a deusa pagã Kopakawana, vem ao Rio de Janeiro, trazendo consigo seu lacaio pessoal. Cosnpiratória e já envelhecida, hospeda-se em um hotel em Copacabana. Planeja enfraquecer a fé cristã dos cariocas e reinar na cidade, até porque acha justo tomar posse de Copacabana, já que o bairro recebeu seu nome e sua imagem no passado. Com certo humor refinado, a escritora discute crenças, paganismo, falência da fé cristã, e a alma corruptível do homem.

O desfecho é engraçado e inesperado. Boa escrita, ótima pesquisa. Eu exploraria mais a condição de deusa pagã, discutiria mais as questões da fé, aproveitando o ótimo gancho cômico advindo do personagem “lacaio”. De qualquer forma, gostei muito. Original. Um mergulho na história e na mitologia inca.

A nota, de 1 a 5, para o conto Kopakawana de Elaine Rocha, é 4,o.

E, aproveitando o ensejo e a inspiração mitológica das deusas, o Blog da Day homenageia a deusa carioca de todos os tempos, a imortal deusa transgressora de Ipanema e toda orla carioca, imortal  e linda, mesmo morrendo prematuramente em acidente de avião, aos vinte e sete anos – Leila Diniz

Não morreria por nada deste mundo,
Porque eu gosto realmente é de viver.
Nem de amores eu morreria,
Porque eu gosto mesmo é de viver de amores.

Inté!

Ambientação no conto, um desafio e tanto!

                                             “Criar é matar a morte” –  Rolland

A ambientação na literatura do conto

A ambientação é a alma do conto. Cronologia é importante em romances e novelas, entretanto, não é de grande importância em contos. Quando o leitor “entra” na estória, algo já está acontecendo, portanto, é mister que ele seja imediatamente envolvido na atmosfera da narrativa. Ele deve entrar no clima das percepções, imagens e emoções.

Esta ambientação, porém, não deve ser cansativa, com excessos de descrições e adjetivos. Todavia, a carência na descrição pode fazer fracassar o que poderia ser uma bela obra literária.

Durante a ambientação algo ocorreu, está ocorrendo, ou ocorrerá, portanto, é necessário que o escritor tenha cuidado com este detalhe. O clima tem que envolver o leitor. Cabe ao narrador, seja ele em primeira ou terceira pessoa; seja um simples observador, ou um intruso, cabe ao narrador descrever tal ambientação, para só então desenvolver a estória, levando o leitor consigo.

Justamente por ser a ambientação tão importante na copilação de contos, volto a analisar o desafio literário imposto a escritores no blog já mencionado aqui, onde o concorrente deverá escrever um conto ambientado no bairro de Copacabana, sem contudo usar 100 palavras relacionadas à cultura e tradição do bairro. De fato um desafio e tanto!

Como esta rodada de comentários será mais trabalhosa, resolvi analisar conto por conto, até porque é um baita exercício de aprendizagem para todos nós, escritores.

Prós e contras do primeiro concorrente – “Escrever é perigoso”

O primeiro conto chama-se Escrever é perigoso, do escritor Jefferson Maleski. Vou abrir aqui  colchetes para explicar aos leitores por que venho fazendo análises sobre tais escritores e seus desafios. Na verdade, depois que de lá saí, fui acometida de um desejo nobre de estudar mais literatura e língua portuguesa, ao invés de ficar andando a passos curtos e lentos, escrevendo em um blog que não dá retorno, apenas nos faz exercitar na escrita ortográfica e gramatical, sem nenhum suporte de aprendizagem, de fato, literária.

Voltando ao conto “Escrever é perigoso”

Encarando um desafio insano de ser proibido de usar palavras alusivas à tradição, palavras estas que conotam a cultura de Copacabana, o autor Jefferson Maleski, como qualquer outro canditado vivenciará, se viu em maus lençóis, e isto dá para notar pelo excessivo cuidado de não infringir as regras do “exercício das proibições”.

O conto tem potencial e sairia vitorioso, se o escritor focasse justamente o que lhe fora proibido, ou seja, a descrição da ambientação. Por mais que seja um exercício árduo e cansativo, haveria Maleski de se concentrar no ambiente da ação – ok, sem clichês -, já que é  possível dar vida à narrativa, uma vez que Copacabana, de fato,  não é só praia, bunda, asa delta, surf, picolé, onda, etc.

Partindo deste princípio, ao criar sua ambientação, o escritor deveria “mergulhar”,  mais corajosamente,  no cenário da estória, pois  já que se passa em um hotel famoso de Copacabana, uma pesquisazinha lhe daria várias ideias, podendo até trazer fatos reais acontecidos em tal hotel, dando, assim, mais realismo à estória, no que tange à Copacabana.

O Conto e a ambientação

Trata-se da estória (possivelmente uma metáfora ou  alegoria, não fica claro) de um escritor entediado que, talvez enlouquecido, busca emoções fortes para um provável ou imaginário livro – o livro de sua vida (?), marcando encontro insólito com um assassino, em um hotel famosso de Copacabana muito mal descrito, infelizmente.

Não se sabe se intencionalmente, mas o fato é que o autor usa nomenclatura de audiovisual (plot point), sugerindo, talvez, que a insanidade do personagem o levou a viver a situação em tempo real, com cenas carnais, associando a estória ao cinema, em sua mente obviamente conturbada.

A partir de um anúncio que o escritor publica em um jornal de elite (por que não na imprensa marrom?!), oferecendo-se como matador de aluguel, o delírio mistura-se com realidade, levando-o  a um desfecho inesperado, o que dá um tom valoroso à narrativa. Entretanto, o desafio não é simplesmente escrever um bom conto livre, mas escrever um conto que desafia a alma do próprio conto: a ambientação.

Conclusão

O concorrente pode vangloriar-se por ter feito um bom trabalho, com bons diálogos, boa narrativa, tensão psicológica em boa medida; começo, meio e fim bem delineados. Contudo, no principal quesito o conto ficou aquém das expectativas. Diria mesmo que o autor pegou sua estória e a trouxe para o  terraço de um hotel no Rio de Janeiro, só para participar da rodada no Duelo de Escritores.

Uma coisa é seguir regras de desafio ao criar; outra, bem diferente, é se esquecer que driblar a literatura é algo, praticamente, impossível.

Nota de 1 a 5 para o conto “Escrever é perigoso”: 2,5. Errata: a referida nota é 3,5.

O verdadeiro crítico exige apenas que o plano
intencionado seja exemplarmente cumprido,
através dos meios mais eficientes.
Edgar Allan Poe

Boa sorte aos demais concorrentes e boas escritas!

Fonte: Aqui e aqui.

Inté!

Copacabana Princesinha do Mar Desafiada

                                                           De costas para as proibições!

Ótimo! Aliens no Duelo de Escritores. Quero ver, mui sinceramente, essa corja falsária anti-carioca escrever um texto sobre COPACABANA, e ainda por cima, proibida  de usar tudo que nós temos, ou seja, TODAS as carecterísticas de nossa cidade maravilhosa, nossa cultura! Inveja se, não sei. Mas que estou rindo até agora estou! Uma característica de quem não se garante no que faz, é idolatrar quem faz. Nós não fazemos isto. Por mais que o currículo de José Castello seja interessante, não confere a ele nenhuma coroa de deus.

Confiram a lista de proibições e o desafio:

EXERCÍCIO DAS PROIBIÇÕES

Escreva um conto, que tenha no máximo 5 mil caracteres com espaços, ambientado na praia de Copacabana. As 100 palavras que constam da lista abaixo não podem ser usadas, estão proibidas. A idéia desse exercício é levar o aluno a refletir sobre as facilidades oferecidas por clichês, lugares comuns, e tudo o mais que escrevemos “sem pensar”. Eles podem ser úteis para a publicidade, para o marketing, para a propaganda, até para o jornalismo – não para a literatura.

Lista da proibição do ditador (Só no Duelo de Escritores mesmo):

1- água de coco
2- amendoim
3- areia
4- asa delta
5- avião
6- barco
7- barraca
8- barriga
9- bermudas
10- bíceps
11- biquíni
12- bicicleta
13- biscoito
14- bola
15- boné
16- bronzeador
17- bunda
18- cachorro
19- calçadão
20- calor
21- camarão
22- caminhada
23- campeonato
24- canga
25- cedê
26- cerveja
27- céu
28- chapéu
29- chinelo
30- chuva
31- cochas
32- cooper
33- COPACABANA
34- conversa fiada
35- domingo
36- ducha
37- esporte
38- esteira
39- estrela
40- flacidez
41- futebol
42- futevôlei
43- galera
44- garota
45- garotão
46- ginástica
47- horizonte
48- ilha
49- jornal
50- livro
51- lua
52- mar
53- mate
54- mulher
55- músculos
56- namoro
57- navio
58- oceano
59- óculos
60- óleo
61- ondas
62- panfleto
63- paquera
64- patins
65- peitos
66- pelada
67- peteca
68- picolé
69- praia
70- prancha
71- propaganda
72- protesto
73- protetor solar
74- publicidade
75- quiosque
76- rádio
77- rede
78- refrigerante
79- revéillon
80- revista
81- sábado
82- sandália
83- sexo
84- show
85- sol
86- som
87- soneca
88- sorvete
89- suco
90- sunga
91- suor
92- surfe
93- tanga
94- tênis
95- tira-gosto
96- toalha
97- trânsito
98- turma
99- vôlei
100- Voo livre

Detalhe, qual deles sabe o que é ser carioca?!

Segundo José Castello, falar de Rio de Janeiro, Copacabana e seu perfil cultural, é CLICHÊ.  Certamente não haverá UM único carioca participando desta sandice. Desta vez, vou chamar um jornalista que é escritor e crítico literário e, hahaha, carioca! Seria cômico se tivessem praia.

Castello é descendente do Piauí. Seu pai, José Ribamar Martins Castello Branco, migrou de  Parnaíba, no Piauí, para a capital do Estado do Rio de Janeiro onde estabeleceu-se.

Castello, ingrato, deixou tristes os cariocas. Bom convidado para o Duelo de Escritores. Combinação perfeita de falsos intelectuais e/ou artistas.

Minha pergunta, enquanto tomo água de coco em minha cidade maravilhosa, é: Por que essa gente metida a intelectual, gente encanada, de bobeira, não se conforma com seus Estados? Por que, ó, Pepeu, tanta inveja de nossas asas deltas e de nossas gatas?

Do nosso surf, nosso vôlei, nossos shows nas areias de Copa, nosso revéillon, o picolé do Zé, as ondas, a gíria (essa não entrou, seria demais). Enfim, se o Duelo buscou uma reviravolta, tomou caixote, daqueles que só carioca encara!

E, aos alunos de José Castello, este que nunca pegou onda, deixo minhas sinceras condolências. Boa sorte aos duelistas, mas sei que tomarão uma tremenda sunga arriada.

Eu iria aliviar, mas não dá, alguém precisa fazer algo hehe. A pior das participantes, Natália Oliveira,  comentou – será que ela estava careta? – “Gostei do desafio.” Paguemos para ver.

Inté!