Dele a Elegia

Ainda ouço ao longe a música do Violino...

Ainda ouço ao longe a música do Violino…

Como magia ou outro fenômeno qualquer

naquele momento deixei de ser artista

estanquei de ser mulher.

Vibrei o instrumento na vidraça

e o som das lascas de madeira, os cacos ruidosos

confundiram-se com a dor da tua elegia – Por que a compuseste?

Olhei a música quebrada

e notei nacos sangrentos espalhados no piso frio de nossas almas.

Apertei com força meu pulso e tua fronte – como estancar tal agonia…

Abracei-te dilacerada, quis morrer para sanar o teu martírio.

Rios de lágrimas beberam meu coração emudecido.

__ E a música, penosamente, sussurrou e não nasceu

pois que, só e lentamente, com os dois pereceu…

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NÃO AMAR NEM ODIAR by SCHOPENHAUER

Não Amar nem Odiar

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Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do carácter. Esquecer qualquer traço ruim de uma pessoa é como jogar fora dinheiro custosamente adquirido. No entanto, se seguirmos o presente conselho, estaremos a proteger-nos da confiabilidade e da amizade tolas.
«Não amar, nem odiar», eis uma sentença que contém a metade da prudência do mundo; «nada dizer e em nada acreditar» contém a outra metade. Decerto, daremos de bom grado as costas a um mundo que torna necessárias regras como estas e como as seguintes.
Mostrar cólera e ódio nas palavras ou no semblante é inútil, perigoso, imprudente, ridículo e comum. Nunca se deve revelar cólera ou ódio a não ser por actos; e estes podem ser praticados tanto mais perfeitamente quanto mais perfeitamente tivermos evitado os primeiros. Apenas animais de sangue frio são venenosos.
conversa de homem
Falar sem elevar a voz: essa antiga regra das gentes do mundo tem por alvo deixar ao entendimento dos outros a tarefa de descobrir o que dissemos. Ora, tal entendimento é vagaroso, e, antes que termine, já nos fomos. Por outro lado, falar sem elevar a voz significa falar aos sentimentos, e então tudo se inverte. Com maneiras polidas e tom amigável, pode-se falar grandes asneiras a muitas pessoas sem perigo imediato.
O tom é o que norteia uma conversa civilizada

O tom é o que norteia uma conversa civilizada

Arthur Schopenhauer, in ‘Aforismos para a Sabedoria de Vida’
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EXSPESDOMUS, UM CONTO ELETRIZANTE

MORSERUS

EXSPESDOMUS, UM CONTO ELETRIZANTE

Autor –  Marcello Schweitzer

“Não há infortúnio maior do que esperar o infortúnio.” [Pedro Barca]

Esse pensamento de Pedro Barca me veio à cabeça porque traduz exatamente o que acontece com ZEMIAL, um personagem à procura da felicidade através da perda do amor materno. Até aqui, pode parecer uma estória comum, mais um conto triste sobre órfãos, se eu não estivesse falando de uma criatura com inteligência, consciência, amor; e que essa estória acontece em um lugar – longe de ser Passárgada – chamado EXSPESDOMUS, uma cidade-torpor, ousada criação de absurdo do escritor. Ou, pergunto,  existe de fato um lugar assim, diferente de tudo que já vimos e lemos? Bem, vai depender do ponto de vista e da pré-disposição de sua alma de leitor e de ser humano. EXSPESDOMUS pode ser real sim, tamanha a força vital do autor.

Se o leitor levar para a consciência metafórica, subentender os códigos metafísicos, e associar o ambiente com seu próprio interior sombrio, possivelmente esse lugar existirá para cada um de nós, humanos.

Humanos?

Preciso inserir nessa introdução, que nesse “planeta” conhecido por MORSERUS, não exitem Adão e Eva, portanto, nada de ser humano. Nenhum sequer. Essa foi a genial ferramenta encontrada por Marcello Schweitzer para dissertar sobre a condição humana. Uma genial ferramenta, eu diria.

MORSERUS é dividido em reinos de animais que nem a Criação ousou imaginar ou sugerir (Exagero? Quem sabe!). Lá, nesse mundo, há os reinos de Gradel, habitado por Gorilas; Kazil, terra dos Ratos; Caltos, o reino dos Cães; Troferus, habitat dos Gatos, e, por fim, o reino de Iliys, onde a população é formada por Coelhos. Já deu para sentir que estamos falando de um mundo mágico. Além de mágico, é um mundo sombrio, repleto de animais inteligentes, no entanto, tudo parece estar eternamente no crepúsculo.
O escritor prima pelo mergulho nas mais angustiantes experiências metafísicas do ser vivente, e posso chamá-lo assim, já que, ainda que não sejam humanos, em muitos momentos a impressão que dá é de que são seres superiores a nós, principalmente na organização social, na filosófica forma de conduzir a vida, e no excesso – no bom sentido – do existencialismo, no sentido de que a busca da felicidade não se resume a procurá-la apenas, mas perdê-la cruelmente, para então, talvez, obtê-la.

ZEMIAL é um menino de doze anos proveniente de Troferus, logo é um Gato. De pelagem branca, é considerado um albino que, jogado no orfanato, passa os dias a olhar pela janela, sonhando com a mãe que, depois da morte do pai há alguns anos, nunca mais o procurara. Como todo órfão, o felídeo guarda em sua alma todo rancor, dissabores e uma forte dose de rejeição que o reduz a um menino calado e triste. Entretanto, o Gato não para de pensar em sua dor dilacerante, na morte do pai e na ausência da mãe. O pensamento de suicídio na mente de uma criança, é de cortar o coração de qualquer um. Exceto lá.

Esses pensamentos o transformam num garoto prodígio, em um jovem filósofo. Contudo, a solidão, somada à ausência da mãe, o levam a um torpor que poderia ser diagnosticado, facilmente, como um menino-problema, dotado de uma espécie de psicose, enfermidade que germina quanto mais o tempo passa. E, lá no fundo de sua alma, somente ele sabe o que está sendo construído, como se cada dia sem a mãe, fosse um tijolo para a construção de seu sinistro castelo.

Quando, finalmente, a mãe o visita, sua estupefação e felicidade são tão grandes, que o alvo felino não percebe os absurdos desse encontro, já que finalmente se sentia envolto em amor maternal. Sua mãe estava ali, diante dele, definitivamente! Assim, pelo menos, ele imaginou, o infeliz menino.

Diante desse encontro, todo o negror da alma de ZEMIAL vem à tona, o que parece paradoxal, já que ele estava ali, diante de sua genitora, uma gata de pelagem azul e olhos púrpura, penetrantes e amáveis, que fazem com que o menino aceite uma missão ordenada por ela, como se ele fosse o “escolhido” para uma missão, onde a felicidade venceria até mesmo a morte. Ou não?
E sim, o bichano morre pelas mãos da própria mãe, afogado em uma banheira, com a promessa de que renasceria e salvaria a família do tormento da morte eterna e escura. Ele viajaria, depois de renascido, para um lugar chamado Jardim Azul. Promessa alvissareira, bela. Por que não aceitá-la?

A partir daqui, deixo para o leitor saborear esse que é, sem dúvidas, uma obra prima do conto fantástico. O leitor irá notar agradáveis referências universais da literatura. Pensará em Allan Poe, Bioy Casares, e até em Kafka, pois há cenas de metamorfoses assustadoras e, ao mesmo tempo, emocionantes; carregadas de promessas de reencarnação e vida feliz. Entrementes, necessito admoestar o leitor de que o conceito de felicidade, tristeza, vida e morte em EXSPESDOMUS, é totalmente diferente do nosso, possivelmente mais lógico, me atrevo a divagar.

A narrativa vem embutida em filosofia. Em muitos momentos, parei para reflexão. Várias vezes quis chorar, gritar. E sorrir, quando, raramente, se vislumbra uma luz no fim do túnel. Entretanto, nesse sombrio mundo não há luz, não a que estamos acostumados, como a luz do sol, e das estrelas. Não obstante, o tempo todo o autor nos prende nessa esperança. Valeria à pena nutrir esperanças, me perguntei. A surpresa foi total.
A narrativa é riquíssima em detalhes, logo, o leitor, de fato, entra nesse lugar inimaginável, soturno e curioso. O conto, em suma, é de um realismo fantástico perturbador, e leva quem o lê aos mais altos graus de reflexão sobre vida, morte, virtude, moral, fé e esperança. A dualidade de todas as coisas faz parte de EXSPESDOMUS, um mundo dentro de outro mundo que está inserido em um mundo maior chamado MORSERUS.

Recomendo o conto, quase que obsecrando, pois considero uma lástima deixar de conhecer essa odisseia, esse lugar perdido no tempo e no espaço, mas que no entanto, é totalmente controlado por seu condutor maior, o próprio autor. Humano, claro.

Leia o CONTO AQUI

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DAS RELAÇÕES AFETVAS E SUAS TANTAS NUANCES ERÓTICAS

Sabemos que a natureza humana é dotada de certos privilégios, inclusive o de ter a consciência mais desenvolvida em relação aos demais animais. Não obstante, em muitos aspectos somos unos quando, por exemplo, se trata de sobrevivência.

Deixando introduções de lado, irei direto ao ponto. Sexo.

O sexo é uma dádiva para as espécies. Muito além de representar a continuidade da vida, ele traz consigo o cio. O desejo. A pré-concepção que vem dotada das mais variadas formas dos animais se atraírem e acasalarem. Uns dançam, outros cantam, assoviam, e se exibem de inúmeras formas.

Voltando ao ponto da espécie humana. O sexo é uma festa dionisíaca entre nós. Uma celebração tórrida acompanhada de vários apetrechos, tais como bebidas, roupas, perfumes, e tantas mais parafernálias de sedução. A festa do casamento e a espera dos filhos, no caso do casamento heterossexual, têm sido a principal forma de legitimar o sexo.

Não fosse a ética e a moral, possivelmente o homem experimentaria inenarráveis formas de sentir prazer. Por algum motivo – que vai além do apelo religioso – nos organizamos, envoltos em regras e pilares morais de acasalamento.

Antropologicamente colocando a questão, observamos certas exceções no que tange a leis de comportamento. Há tribos em longíquos lugares que pensam o sexo de forma muito distinta de nós, entretanto, são suas regras advindas de sua cultura, portanto a moral analisada pela ética vai bem além do nosso suposto monopólio orgástico.

O que o homem não conseguiu, contudo, foi reprimir certas formas de amar, tais como as relações homoafetivas, que aliás são a principal característica desse início de pós-modernidade. O queer é o desejo manifestado do amor entre pessoas do mesmo sexo, mas de gêneros variados; é a total quebra das tradições. Uma realidade que não poderá ser negada e nem intimidada com poderes das políticas e nem da Igreja.

Queer Culture

Entrementes, ainda é possível manter as coisas sob um certo controle administrativo. Não que isso vá inibir os amantes queers, mas eles precisarão aceitar alguns preceitos de moralidade, contribuindo, assim, para um consenso social legítimo e estável. E, da mesma forma, os heterossexuais terão a mesma responsabilidade, já que muitas vezes cometem torpezas inigualáveis.

Não fossem as organizações humanas como um todo, não seria de admirar que o homem chegasse ao ponto de se reinventar no amor, admitindo e praticando todo tipo de prazer, inclusive com espécies diferentes da sua, o que, em escala diminuta, já acontece de fato.

Concluo que a única explicação para que o homem necessite de freios a fim de  se relacionar afetiva e sexualmente, seja o fator biológico e genético que o retira do ordinário cenário da natureza e o eleva a um patamar melindroso, o que demoniza o entendimento sexual entre nós.

Porque o único ser que se utiliza de todos os seus cinco sentidos ao praticar o sexo, somos nós. Esta sensação única nos ensoberbece, e é quando confundimos tal dádiva com liberdade desenfreada de nossas ações. Os cinco sentidos trabalhando no ato sexual, faz do homem o maior beneficiário do amor. Mas também o mais confuso e irresponsável herdeiro de tão estonteante prazer.

 

 

 

 

 

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FINITUDE

O mais importante na vida é termos consciência de que nada merece nossa atenção em escala de cem porcento. Por mais que haja motivos e objetos necessitando de atenção, carinho e zelo, digo que não possuimos tempo para tantas tarefas; e desta forma tudo se torna sem importância. Hedonistas ou místicos; materialistas ou religiosos, todos estamos sem tempo. Por mais que queiram desdobrar-se em mil tarefas no intuito de vencer as barreiras dos anos, claro está que alguns destes afazeres deixarão a desejar, portanto não insistamos.

Agir como Nietzsche e desligar os relógios e a rotação da terra, é demais para mortais, este foi encargo pessoal do filósofo que assim vislumbrou o mundo, e com sucesso, tendo em vista que dedicou-se apenas a pensar.

Lembremo-nos do tempo que é finito e implacável. Volto a insistir – larguemos as incumbências secundárias e terciárias para apenas haver dedicação àquilo que mais nos dá prazer, e seja o que for, façamos apenas o que amamos, porque dentro em pouco a Morte se ocupará de nós, e este é seu único e irrevogável prazer.

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FÊNIX APOPLÉTICA A FACE VIRIL

Gustus sempiterno igne!

Quase tudo me causa espanto. A vida é um espasmo apenas. Sou ave apoplética, irada com a condição humana. Apoplética porque me encontro muitas vezes em estado de solidão e paralisia cerebral. Quando morro estou cansado; quando ressuscito, volto mais forte e ávido por aterrissar sobre a angústia latente do homem.

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DOR

Não fosse o milagre de acordar todos os dias renovadas, muitas pessoas cometeriam o suicídio. A renovação em questão alivia a dor passada, contudo, não garante novas manhãs belas e perfeitas; apenas que algo inusitado pode acontecer; e esta expectativa basta para que  suportem todo tipo  de sofrimento imposto pela própria negação de um administrador. Pelo constrangedor comportamento que assumem, tais pessoas aprendem, ao longo de suas vidas, que a independência as legitima enquanto ser pensante. O preço pago por sua decisão é aceitável, já que não cogitam a morte. A questão são clichês do tipo ser feliz para sempre, do seu jeito. A única falha em tal estilo de vida, é não perceberem que a morte pode ter vários significados, já que tanto elas quanto quaisquer outros têm o direito de olhar a vida sem, contudo, driblar como num ginásio de patéticos iniciantes, a mais cruel e definitiva realidade da gente: a morte as deixam estúpidas e vulneráveis diante de toda sua teoria estilosa de vida, quando se tornam adubo, e apenas isso é real – a continuidade dos ciclos e das manhãs ensolaradas, mas só que sem a presença delas.

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O VOO SENSUAL

A sensualidade é a percepção de todos os sentidos em alerta maior, para que a consciência, previamente preparada, deixe-nos alcançar sensações tais como voos de animais sagazes e ávidos por se alimentar de todas as formas. Acasalando-se e recriando-se em doces ciclos naturais, sim, é a natureza nos prevenindo da importância dos sentidos, porém parece que em nós – amargos humanos – os sentidos não nos são preciosos, uma vez que importamos do mundo exterior, amores e desejos pré-ajustados para uma maquiagem sinistramente desprovida de originalidade, e tão comum a ponto de um simples voo de uma ave qualquer nos envergonhar por nossas podadas asas humanas.

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A Dualidade Do Coração Humano

Todo coração carrega duas faces sentimentais. De nada adianta querermos fugir da verdade. Todos somos cruéis e bondosos, embora possamos notar a obsessiva predileção em fazermos mal aos outros, o que invariavelmente transforma-nos em monstros predadores dos outros seres viventes e o pior e mais assustador é que somos nossos próprios algozes e nos devoramos em rituais de humanismos medonhos e indizíveis.

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PAZ E HORROR

Agrego nas entranhas todo um desejo místico, com simples e ingênuo sonho que não pode ser realidade. Desta forma, encontramos – através de muitos caminhos – portas, saídas de escape para sanar a dor da verdade cruel e mítica. Nada é tão hediondo que não possamos deixar mais complexo do que nossa própria experiência possa sentir. Nos calabouços de toda condição humana, prescrevem-se leis de todo o universo. A nós nos resta tão-somente a dor real da passagem de toda gente pela terra viva. Depois, apenas a morte a nos trazer prazer e alívio momentâneo quando ainda não é nosso cadáver nas catapultas da alma carrasca que domina e sempre dominará as espécies do mundo conhecido.

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