A mulher como objeto sexual na Literatura

Equívocos de um misógino

Alguns escritores (?) não sabem mesmo a diferença entre um texto com linguagem coloquial/vulgar, e um bom texto com linguagem coloquial/vulgar. Trata-se do trabalho concorrente no Duelo de Escritores, do jornalista Fábio Ricardo, intitulado Sobre paus e pedras. O tema para o desenvolvimento do texto, seja conto, poesia, ou crônica, foi “Paquera”. ou “Flerte”. Ninguém saberia dizer qual parte do tema o autor não entendeu, dispondo um amontoado de palavras toscas e desconexas, totalmente inclinado ao machismo, o que, por si só, retiraria todo o  charme do texto.

Todavia, a coisa vai mais longe. Parece mesmo que o autor estava embriagado ou com uma tremenda dor cornícula ao escrever tal texto. O personagem é pedante, doentiamente fanático por sexo, e patologicamente mentiroso. Criar um personagem mentiroso é difícil, pois, não raro, ele se confunde com o autor, e, neste caso, tudo indica que sim, que a  personalidade do escritor migrou para tão sofrível trabalho literário, se é que podemos classificar um caminhão de palavrões como Literatura.

Falar de paquera e de mulher, ou vice-versa, não carece de uma linguagem tão chula, obscena e pornográfica, e até ofensiva para um leitor bem intencionado; para uma leitora então, fiasco total.

Devido às mudanças na sociedade humana, fica descabido uma redação  tão machista, vinculando a paquera à vagina, como se, em pleno terceiro milênio, a mulher ainda fosse objeto de falsos intelectuais. Eu até tentei entender o personagem, mas não o reconheci em nenhum arquétipo, e em nenhum lugar, a não ser na mente do escritor.

Para a maioria das mulheres e leitoras, um texto destes é risível (no mau sentido mesmo), já no primeiro parágrafo:

Eu não sou um cara bonito. Longe disso. Ok, bem longe disso. Mas mesmo assim eu tenho um jeito com as mulheres. Um jeito, é. Como posso explicar? Eu como mulher pra caralho.

Não sei se trata-se de regionalidade, pois que em muitas partes do mundo e do Brasil esse discurso não existe mais, graças a Zeus. A vulgaridade é tanta que chego a questionar se não foi proposital. Quem sabe o autor e proprietário do blog, Fábio Ricardo, não esteja com alguma frustração na alma, e se aproveitou, cegamente, de uma oportunidade para descer ao mais baixo nível literário, em nome de alguma raiva pessoal.

De qualquer forma, o texto é tão horrível, repleto de erros e de palavras grosseiras em relação às mulheres, que não resisti em apresentar-lhes um dos trabalhos mais infelizes que já li, não no Duelo de Escritores, mas em toda minha experiência de blogosfera. Lamentável assistir tamanho vitupério sociológico contra as mulheres. E, não podendo fazer nada, lavo minhas mãos e consciência, divulgando tanta sujeira literária aqui. Mais uma coisa, leitora e leitor: se vocês têm estômago fraco, ou são sensíveis demais, não leiam, pois aquilo é a bactéria das fezes de Bukowski.

Trechos do texto:

Quando eu era garoto eu não pegava ninguém. Nem sequer conseguia beijar alguém, imagina só comer.

Eles não são homens o suficiente para suas bocetinhas juvenis. Vagabundas.

Depois que comecei a agir assim, as vagabundas incrivelmente ficaram afim.

Sabe a menina de cabelo encaracolado, unhas mal cuidadas e a boceta peluda?

E não to falando daquelas vagabas que dormem com qualquer um.

… suas bocetas batem palminhas para o Almodóvar.

Uma mulher não aceita que o cara esteja mais preocupado em terminar de ler uma notícia de jornal do que em foder com ela.

Nada mais me resta, depois de tão insólita aventura, a não ser classificar o blog Duelo de Escritores como o pior espaço virtual  literário brasileiro da atualidade.

O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas…

Crarles Bukowski

Inté!

ÍNDOLE – O livro da vez

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Há tempos não leio um livro que possa ser denominado excelente, principalmente de um autor brasileiro/carioca, no caso, Kito Mello.

 

O livro é primoroso nos detalhes e na narrativa, onde o sotaque carioca de Mello não impede que ÍNDOLE possa vir a ser um best seller, já que o personagem protagonista MÁRCIO (descendente de ricos judeus), transita, literalmente, pelo mundo; desde uma viagem patrocinada aos mais belos lugares das Américas, à distante Israel, o que proporciona ao leitor incríveis descrições do mundo islâmico, e de Jerusalém, brindando-nos com curiosidades idiomáticas e culturais daquele mundo.

 

O autor tem embasamento e, através do personagem, ministra verdadeira aula sobre o terrorismo, até porque MÁRCIO se transforma em uma espécie de Polícia Secreta Antiterrorismo.

 

O título da obra não poderia ser mais adequado. Desde a infância de MÁRCIO e sua irmã BIA, até a maturidade, todos os personagens que transitam pela sua vida, incluindo, e, principalmente seus pais, são revistados psicologicamente pelo protagonista. E mesmo seus filhos não são poupados de suas críticas ácidas, às vezes cruéis, porém sempre verdadeiras e honestas.

 

A estória é narrada do ponto de vista do sofrimento impingido a MÁRCIO, desde as surras recebidas da mãe neurótica, à ausência paterna de um homem que já começa a estória abandonando a genitora de MÁRCIO grávida para mergulhar, com dois amigos igualmente irresponsáveis, numa aventura de navio a Portugal.

 

MÁRCIO, já adulto, é vítima de uma “armação” na empresa em que trabalha e vai preso. Como não bastasse, logo após é internado pela esposa descontrolada, em uma clínica psiquiátrica porque, num momento de profunda angústia, ele tenta o suicídio.

 

É o estopim para que os limites de um homem, ainda que honesto, sejam rompidos e ele próprio esqueça das leis e de Deus. MÁRCIO foge da clínica e se une a um bandido para executar vingança contra seus algozes.

 

A partir daí o leitor se vê envolvido até o pescoço nas tramas do genial e complexo protagonista lutador de jiu-jitsu que, num desespero calculado, leva a cabo seu plano de vingança aos que o feriram, na alma e no corpo.

 

Muita ação, mortes, assassinatos, sequestros, violência e tramas diabólicas, são ingredientes fermentados desse bolo humano chamado ÍNDOLE.

 

É impossível parar de ler o livro porque ele transcorre como um thriller. Cenas são coladas e costuradas num ritmo vertiginosamente excitante. Aqui, o leitor pode se deliciar com ficção, mas com total verossimilhança da vida humana.

 

O personagem, por mais cáustico que seja, frio e calculista, tem um lado carente e amoroso, o que se comprova no amor aos filhos e à SARAH, mulher que conhece em São Paulo e reencontra mais tarde, em Israel.

O desfecho é carregado de suspense. É impressionante!

 

Todo o tempo, ÍNDOLE remete a um pensamento de Mark Twain: “A verdade é mais estranha que a ficção, mas é por causa que a ficção é obrigada a lidar com possibilidades; já a verdade, não.”

 

 

 

 Título – “Índole”

Autor – Kito Mello

Editora – Livro Pronto

Páginas – 347
Contatos – http://www.kitomello.blogspot.com