Literatura Libertadora

A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade. Quer dizer que o seu ponto de partida é uma recusa aos constrangimentos. Quer dizer, ainda, que os constrangimentos estão na sua génese ou no desencadear da sua explosão, como tem sido proclamado por tantos criadores.
Homem livre, pois, o escritor – ou que visceralmente deseja sê-lo. Tão livre, ou tão necessitado de o ser, que nem sequer pode estar de acordo com certas situações para que ardorosamente contribuiu: seja numa sociedade burguesa, seja numa sociedade proletária, ele sempre encontrará razões para a sua insubmissão e para o seu inconformismo, mesmo se, muitas vezes, se trate de uma contestação inconsciente.

Fernando Namora, in ‘Jornal sem Data’

Reflexão

O que é ser livre para um escritor, que não seja, ao menos comigo é assim, acordar com um novo pensamento, uma nova recusa em meu íntimo, nova revolta contra algo que me injustiça?

O escritor não está preso a nada, pois a química celeste, nem mesmo ele a conhece. Não há como seguir imposições para criar, e exteriorizar em palavras escritas  sentimentos e ideais tão infinitamente obscuros aos outros, a menos que este outro seja o leitor propício. O escritor contesta, reclama, denuncia, levanta questões e sofre. E, se não ouve toda essa voz interior, ele não é um escritor, mas um alfabetizado que escreve. (Day)

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Ambientação no conto, um desafio e tanto!

                                             “Criar é matar a morte” –  Rolland

A ambientação na literatura do conto

A ambientação é a alma do conto. Cronologia é importante em romances e novelas, entretanto, não é de grande importância em contos. Quando o leitor “entra” na estória, algo já está acontecendo, portanto, é mister que ele seja imediatamente envolvido na atmosfera da narrativa. Ele deve entrar no clima das percepções, imagens e emoções.

Esta ambientação, porém, não deve ser cansativa, com excessos de descrições e adjetivos. Todavia, a carência na descrição pode fazer fracassar o que poderia ser uma bela obra literária.

Durante a ambientação algo ocorreu, está ocorrendo, ou ocorrerá, portanto, é necessário que o escritor tenha cuidado com este detalhe. O clima tem que envolver o leitor. Cabe ao narrador, seja ele em primeira ou terceira pessoa; seja um simples observador, ou um intruso, cabe ao narrador descrever tal ambientação, para só então desenvolver a estória, levando o leitor consigo.

Justamente por ser a ambientação tão importante na copilação de contos, volto a analisar o desafio literário imposto a escritores no blog já mencionado aqui, onde o concorrente deverá escrever um conto ambientado no bairro de Copacabana, sem contudo usar 100 palavras relacionadas à cultura e tradição do bairro. De fato um desafio e tanto!

Como esta rodada de comentários será mais trabalhosa, resolvi analisar conto por conto, até porque é um baita exercício de aprendizagem para todos nós, escritores.

Prós e contras do primeiro concorrente – “Escrever é perigoso”

O primeiro conto chama-se Escrever é perigoso, do escritor Jefferson Maleski. Vou abrir aqui  colchetes para explicar aos leitores por que venho fazendo análises sobre tais escritores e seus desafios. Na verdade, depois que de lá saí, fui acometida de um desejo nobre de estudar mais literatura e língua portuguesa, ao invés de ficar andando a passos curtos e lentos, escrevendo em um blog que não dá retorno, apenas nos faz exercitar na escrita ortográfica e gramatical, sem nenhum suporte de aprendizagem, de fato, literária.

Voltando ao conto “Escrever é perigoso”

Encarando um desafio insano de ser proibido de usar palavras alusivas à tradição, palavras estas que conotam a cultura de Copacabana, o autor Jefferson Maleski, como qualquer outro canditado vivenciará, se viu em maus lençóis, e isto dá para notar pelo excessivo cuidado de não infringir as regras do “exercício das proibições”.

O conto tem potencial e sairia vitorioso, se o escritor focasse justamente o que lhe fora proibido, ou seja, a descrição da ambientação. Por mais que seja um exercício árduo e cansativo, haveria Maleski de se concentrar no ambiente da ação – ok, sem clichês -, já que é  possível dar vida à narrativa, uma vez que Copacabana, de fato,  não é só praia, bunda, asa delta, surf, picolé, onda, etc.

Partindo deste princípio, ao criar sua ambientação, o escritor deveria “mergulhar”,  mais corajosamente,  no cenário da estória, pois  já que se passa em um hotel famoso de Copacabana, uma pesquisazinha lhe daria várias ideias, podendo até trazer fatos reais acontecidos em tal hotel, dando, assim, mais realismo à estória, no que tange à Copacabana.

O Conto e a ambientação

Trata-se da estória (possivelmente uma metáfora ou  alegoria, não fica claro) de um escritor entediado que, talvez enlouquecido, busca emoções fortes para um provável ou imaginário livro – o livro de sua vida (?), marcando encontro insólito com um assassino, em um hotel famosso de Copacabana muito mal descrito, infelizmente.

Não se sabe se intencionalmente, mas o fato é que o autor usa nomenclatura de audiovisual (plot point), sugerindo, talvez, que a insanidade do personagem o levou a viver a situação em tempo real, com cenas carnais, associando a estória ao cinema, em sua mente obviamente conturbada.

A partir de um anúncio que o escritor publica em um jornal de elite (por que não na imprensa marrom?!), oferecendo-se como matador de aluguel, o delírio mistura-se com realidade, levando-o  a um desfecho inesperado, o que dá um tom valoroso à narrativa. Entretanto, o desafio não é simplesmente escrever um bom conto livre, mas escrever um conto que desafia a alma do próprio conto: a ambientação.

Conclusão

O concorrente pode vangloriar-se por ter feito um bom trabalho, com bons diálogos, boa narrativa, tensão psicológica em boa medida; começo, meio e fim bem delineados. Contudo, no principal quesito o conto ficou aquém das expectativas. Diria mesmo que o autor pegou sua estória e a trouxe para o  terraço de um hotel no Rio de Janeiro, só para participar da rodada no Duelo de Escritores.

Uma coisa é seguir regras de desafio ao criar; outra, bem diferente, é se esquecer que driblar a literatura é algo, praticamente, impossível.

Nota de 1 a 5 para o conto “Escrever é perigoso”: 2,5. Errata: a referida nota é 3,5.

O verdadeiro crítico exige apenas que o plano
intencionado seja exemplarmente cumprido,
através dos meios mais eficientes.
Edgar Allan Poe

Boa sorte aos demais concorrentes e boas escritas!

Fonte: Aqui e aqui.

Inté!