Os Hóspedes

Eu vinha caminhando com meus lentos passos, jamais tinha pressa, nenhum motivo para chegar em casa, e não mais sentia fome. Já estava acostumado a chegar no maldito cortiço, ler o jornal da semana passada que o vizinho jogava no lixo, desembrulhar o pão dormido do amigo da padaria e me deleitar com as notícias que já havia escutado no metrô.

Minha vida era uma repetição de coisas sem graça e sem sentido, uma monotonia absurda, uma existência vazia de um homem ignóbil que toma conta de cachorros num abrigo pobre, mal cheiroso, que nem se sustentava. Uma rotina desgraçada, sem cor, sem sombra, uma vivência silenciosa, funesta.

Era uma sexta- feira e com um pouco de sorte eu teria mais de um jornal, já que a empregada do vizinho costumava deixar para o fim de semana a faxina. Não deu outra, lá estava aquela bonita pilha de jornais que, além de informar o que eu já sabia, servia também para esquentar a velha cama.

Entro em casa, a porta fica sempre aberta. Percebo que tenho visitas. Não saberia exprimir minha sensação naquele momento. Era bom desfrutar de companhia mas a comida era pouca.

Olhei para o meu amigo e reparei discretamente que não estava sozinho. Trouxera mulher e filhos. Óbvio que estava sem ter onde ficar, principalmente nestas noites frias de São Paulo. Sorri meio sem jeito, olhei para aquela família tão desgraçada quanto eu e apertei o pão na mão, amaldiçoando minha miséria.

Como dizer que eu estava mais acabado que ele… ao menos meu amigo era casado e tinha suas crianças. Já éramos companheiros de longa data mas confesso que embora soubesse que ele não era sozinho no mundo, não esperava que aparecesse com mulher e filhos. Todos com inconfundível olhar de fome.

Sempre nos comunicamos pelo olhar, era uma regra básica: para que falar se sabíamos ambos que não há assuntos para os famintos…

Voltei à padaria com passos apressados e atordoados; ainda deu tempo de pedir mais pão com o coração agoniando de vergonha. Por isso às vezes era mais fácil roubar, meu camarada, era preferível roubar a ter que suportar o olhar de misericórdia e desprezo do homem gordo, cheio de bigodes, era cabelo que não cabia mais na cara…

Voltei para casa emocionado por poder oferecer alimento ao meu amigo e sua família. Senti-me repentinamente forte, leal, um vencedor…

Jantamos em silêncio, cada qual mastigando timidamente sua dor. Disfarcei e reparei melhor nas crianças: eram magrinhas, mas possuiam os olhos espertos do pai. Tinham energia apesar da magreza.

Logo que acabaram seu jantar, puseram-se a correr pelo cômodo minúsculo do meu assombro. Parece que crianças não percebem a miséria, isso era bom porque eu, parceiro, era uma ilha de pobreza, cercada de azar por todos os lados, um agonizante morador da rua da perdição, um escravo do poder capitalista. Um pouco letrado de tanto ler os jornais, mas um João Ninguém…

Forrei umas cobertas rasgadas no chão, bem perto da porta para que ninguém abrisse e assustasse meus hóspedes. Ao meu amigo, ofereci-lhe minha surrada cama, afinal eram uma família e eu apreciava muito um família unida.

Dormiram todos confortavelmente enquanto eu tentava conciliar o medo, um inferno atordoando minha cabeça, maltratando meu sono com uma só pergunta: o que oferecer aos hóspedes para o desjejum? Virei pro canto e dormi com uma refrescante lágrima no meu rosto curtido de rua…

No dia seguinte, acordei antes de todos e resolvi que não iria pro abrigo de cães, eu precisava conseguir comida, não passaria essa vergonha, não eu, um farrapo de homem, mas com dignidade suficiente para entender que hóspedes devem ser bem tratados, ainda mais esse meu amigo, um verdadeiro companheiro de solidão e medo.

Cheguei à padaria no exato momento de muito movimento e roubei um pedaço de queijo branco, eu sabia que crianças gostavam. Empurrei para dentro das calças. Depois um salame médio que escondi no paletó surrado, enfiei no bolso que não era rasgado…

Na saída o bigodes fartos me chama e eu tremo como jamais tremi. Já roubara outras vezes, mas alí, logo na padaria do homem que matava minha fome, seria meu fim se fosse descoberto.

Porém ele se aproxima e estende mais pães da sobra de ontem. Olho para cima, fingindo agradecer à um Deus que jamais vi e nem acreditei. Corro para casa, com um sentimento parecido com felicidade, seria uma honra ver meu amigo, sua esposa e as crianças tomando um farto café da manhã!

Mas qual não foi minha surpresa ao chegar em casa e vir a porta demasiadamente aberta. Olho em volta apavorado, meu coração sem nobreza sacode e tenho ânsias de vômito.

De certa forma eu já adivinhava a tragédia, eu sentia em cada gota do meu sangue pobre o que se passara. Apertei as compras em minhas mãos calejadas e chorei, parceiro…

Chorei como jamais havia chorado, nem pelos cachorros mortos e aleijados do abrigo. Nem por nada neste mundo. Senti uma tal dor aguda no pescoço. Pensei que fosse sofrer um enfarto ou coisa parecida.

Neste momento, o mundo passou a ser, para mim, uma cruel avenida de gente que vai e que vem, sem olhar para um pobre homem sem sorte. Quando dei por mim, estava atirando a comida com tanta fúria que nem o cão da vizinha conseguiu alcançá-la, e a vida tornou-se finalmente um poço sem fundo e eu iria desistir de tudo. Me atiraria e de lá jamais quereria ver de novo a luz do dia…

Enxuguei os olhos com a manga surrada do casaco, enquanto a vizinha, orgulhosa, me mostrava em suas gordas mãos, pendurados pelos rabos finos, dois camundongos mortos. Os filhotes de meu amigo…

Eu nem precisei adivinhar que ele, mais esperto, fugiu com sua esposa para bem longe daquele lugar onde não encontrou acolhida e não foi tratado com respeito, como todo hóspede deveria ser…