A missão

Mais uma rodada do Jefferson Maleski que inspirou esse texto. O tema da vez é Missão. Aproveitando para agradecer ao Fábio Ricardo e Rodrigo Oliveira  do Duelo de Escritores, que nos visitam e incentivam.

Missão… Missão…

Ele precisava. Dependia de entender o que aquilo tudo significava. De que forma poria em prática aquilo que entendeu como uma espécie de obrigação solidária, um ato que levaria dele muita energia. Sacrifício. Talvez, pensou, esta seria a palavra mais adequada para classificar aquele pedido inesperado do amigo.

Olhou-se no espelho. Ao contrário do que muitos pensavam, seu reflexo era de fato algo doloroso. Não raro via sua imagem distorcida, desfocada, desleixada. Sabia que para as pessoas era bonito, possuía  charme. Era encantador. Entretanto, diante do espelho… Era melhor ignorar o espelho. Aliás, sentia-se mesmo envergonhado. Vexado, afinal ninguém prestava atenção em sua agonia.

A missão. O sacrifício.

O pedido o pegara de surpresa. Porém, segundo a canção, amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito…

Maldito pedido.

Já não dormia há três noites. Revirava pra lá e pra cá. Pesadelos horrendos. Boquiaberto percebeu que estava com medo! Logo ele, arrojado e feroz diante da vida. Um lutador, campeão das mazelas, ao contrário do tímido e indefeso amigo. Mas, fazer o quê? Eram amigos de infância. Somente uma cerca entre quintais os separava. Passaram alguns maravilhosos anos brincando de pique, fazendo aquelas arruaças próprias de crianças.

De alguma forma ele nutrira uma inusitada simpatia. Não, era mais que simpatia. Olhou-se de novo no espelho e viu ternura no fundo do olhar. Ele amava o amigo! Teria que cumprir aquela missão. Talvez deixasse de ser quem sempre fora. Sua auto-estima estaria em risco. O brio iria por ralo abaixo.

Mas amigos não pensam duas vezes.

Saiu de casa. Há muito não olhava o quintal daquela perspectiva. Do ponto de vista de sua infância.

Pensou em como era melhor ser criança. Lá, não existia essa coisa de disputas, inveja, competição. Não havia inimigos e nem rivais. Na infância, sorriu com olhar perdido, na infância eram todos iguais. Nenhuma casta ou raça separavam eles.

A missão.

Bocejou, andou pelo quintal. Voltou para dentro e mirou-se mais uma vez naquele espelho injusto. Sim, dentro de si havia uma alma boa. Aquela mesma que habitava seu corpo quando deixava o amigo mais franzino ganhar na brincadeira de luta. Ele, um futuro campeão, já fora condescendente. Perdia lutas por amor e ternura a um amigo.

Adormeceu, encolhendo-se sob seus pensamentos.

Acordou sobressaltado. Apavorado, abriu o portão e correu como louco. Estava fugindo. Da luta. Da perda. De tudo.

Correu veloz. Era forte e musculoso. As pessoas olhavam-no assustadas. “Enlouqueceu!”

Só parou quando suas pernas já não respondiam mais. Deitou-se numa grama fresca e pensou no amigo honestamente frágil. Estava cumprida a missão.

Não iria mais à rinha lutar. Só queria ser pra sempre uma criança…

Não seria mais o pit bull campeão.