O sino da madrugada – Parte I

 

Medo

Eu acordei no meio da madrugada. Deveria ser algo por volta de duas horas. O sino do filho do vizinho havia disparado (de novo), e aquele som estridente e inconveniente me deixava verdadeiramente irritado. Revirei-me na cama, contudo, voltar a dormir, nesta madrugada, sentira não ser possível. Mesmo achando aterrorizante aquele maldito som, ainda assim, reunindo coragem, resolvi averiguar tal mistério.

Levantei-me, bocejando. Olhei para ela que dormia profundamente ao meu lado. Como era linda! Imaginei, caso fosse algo sobrenatural na casa do vizinho, se ela não correria perigo. Poderia ser um zumbi, um espectro, demônios. Essas coisas existiam, disso eu tinha certeza. Entretanto, nem todos podiam vê-las. A mãe dela costumava dizer que apenas os médiuns possuíam a capacidade de presenciar tais fenômenos. Na rua mesmo onde moramos, há um senhor que mora só. Dizem que é bruxo, que fala com os espíritos, e que se comunica à noite, e para tal acende velas e coloca umas coisas como pequenas caveiras e pedras sobre uma mesa coberta por pano vermelho. O sino voltou a tocar mais nervoso. Resoluto, saltei da cama e, sem fazer barulho a fim de não acordá-la, deslizei pelos cômodos escuros até chegar à janela da sala. Decidi que indo pelo beiral eu poderia chegar até ao quarto do menino sem ser visto. Talvez, dessa forma, eu o observasse impune. Se fosse fantasma, pensei na época, ele não me veria. Sentia-me um verdadeiro espião das trevas.

Com passos lentos e precisos me arrastei sem olhar para baixo. Moramos no décimo andar de um prédio antigo e meu Deus!… Fora por pouco! Uma parte do concreto cedera. Não fosse a grade de ferro, eu estaria morto agora. Prossegui devagar, com a respiração controlada, atento a todos os ruídos e movimentos. No entanto, o coração batia mais rápido. Lembro-me que olhei para baixo e quase tive vertigem.

O tilintar infernal estava cada vez mais perto. As cortinas do quarto do menino brincavam, esvoaçando-se como almas transparentes. Pareciam dançar para mim, tentando me fascinar, me hipnotizar. Um som inesperado me fez paralisar o próximo passo. Olhei para a amendoeira. Lá estava ele, aquele pássaro negro desgraçado que eu já tentara caçar, dar um fim nele, mas era esperto, o demônio. Assim que me viu, deu uma risada e voou para a árvore do outro lado da rua. Pensei que em outra oportunidade eu o mataria, sim, eu o mataria de uma vez por todas. Então cheguei bem perto da janela. Bastaria esticar o pescoço e descobrir, finalmente, o tal zumbi, ou fosse o que fosse que vinha me tirando o sono. Respirei fundo e pensei nela de novo. E se eu morresse, como ela viveria sem mim? Éramos apenas nós dois. Amávamo-nos profundamente. Foi quando o astuto pássaro negro soltou um guincho, me avisando do perigo. Mas era tarde demais!

O estranho garoto me agarrou pelo pescoço. Não pude reagir, pois ele era muito forte. Se eu me debatesse poderia cair e morrer, estraçalhado na calçada. Eu sabia que os endemoniados tinham forças sobrenaturais, então me deixei arrastar para dentro de seu quarto, olhando-o em seus olhos vermelhos de insônia. Jogou-me em sua cama desarrumada e fechou a janela. Com um sorriso macabro pegou o sino de ferro e veio em minha direção. Mais uma vez pensei nela e me arrepiei todo. Não conseguia me mover, até que… O garoto, soltando o  brinquedo e abraçando-me, murmurou carinhoso “que bom que você veio me fazer companhia, gatinho…”

Continua…

 

O sino da madrugada

            (Escrito sem revisão nem word, como experiência. Agora está pronto)

Eu acordei no meio da madrugada. Deveria ser algo por volta de duas horas. O sino de brinquedo do filho do vizinho havia disparado (de novo), e aquele som estridente e inconveniente me deixava verdadeiramente irritado. Até então decidira não dar vazão à minha curiosidade nata herdada dos meus antepassados, afinal, sempre fomos curiosos. Revirei-me na cama, mas voltar a dormir nesta madrugada, eu senti que não seria possível. Mesmo achando incomum aquele maldito sininho, ainda assim, reunindo coragem, resolvi averiguar tal mistério.

Levantei-me, bocejando. Olhei para ela que dormia profundamente ao meu lado. Como era linda! Imaginei se fosse algo sobrenatural na casa do vizinho. Um zumbi, um espectro. Essas coisas existiam, disso eu tinha certeza. Entretanto, nem todos podiam ver. A mãe dela costumava dizer que apenas os médiuns possuíam a capacidade de ver tais fenômenos. Na rua mesmo onde moramos, há um senhor que mora só. Dizem que é bruxo, e que fala com espíritos, que se comunica à noite, e que para tal, acende velas e coloca umas coisas como pequenas caveiras e pedras sobre uma mesa coberta por pano vermelho. O sino voltou a tocar ao lado. Resoluto, saltei da cama e, sem fazer barulho para não acordá-la, deslizei pelos cômodos escuros até chegar à janela da sala. Decidi que indo pelo beiral eu poderia chegar até ao quarto do menino sem ser visto. Talvez, dessa forma, eu o observasse impune. Se fosse fantasma, pensei na época, ele não me veria. Sentia-me um verdadeiro espião das trevas.

Com passos lentos e precisos me arrastei sem olhar para baixo. Moramos no décimo andar de um prédio antigo e meu Deus!… Fora por pouco! Uma parte do concreto cedeu. Não fosse a grade de ferro, eu estaria morto agora. Prossegui devagar, com a respiração controlada. Atento a todos os ruídos e movimentos. Meu coração batia mais rápido. Lembro que olhei para baixo e quase tive vertigem.

O som do sino estava mais perto. As cortinas do quarto do menino brincavam, esvoaçando-se como almas transparentes. Pareciam dançar para mim, tentando me fascinar, me hipnotizar. Um som inesperado me fez paralisar o próximo passo. Olhei para a amendoeira. Lá estava ele, aquele pássaro negro desgraçado que eu já tentara caçar, dar um fim nele, mas era esperto, o demônio. Assim que me viu, deu uma risada e voou para a árvore do outro lado da rua. Pensei que em outra oportunidade eu o mataria, sim, eu o mataria de uma vez por todas. Então cheguei bem perto da janela. Bastaria esticar o pescoço e ver, finalmente, esse zumbi ou fosse o que fosse que vinha me tirando o sono por tantas madrugadas. Respirei fundo e pensei nela de novo. E se eu morresse? Se ele me matasse, como ela viveria sem mim? Somos apenas nós dois. Amamo-nos profundamente. Foi quando o pássaro negro soltou um guincho, me avisando do perigo. Mas era tarde demais!

O garoto estranho me agarrou pelo pescoço. Não pude reagir, pois ele era muito forte. Se eu me debatesse poderia cair e morrer pelas mãos de um menino louco. Dizem que os endemoniados têm forças sobressalentes, então me deixei arrastar para dentro de seu quarto, olhando-o em seus olhos vermelhos de insônia. Jogou-me em sua cama desarrumada e fechou a janela, com um sorriso macabro. Pegou o sino de ferro e veio em minha direção. Pensei nela e me arrepiei todo. Não conseguia me mover, até que… O garoto, soltando o  brinquedo e abraçando-me, murmurou “que bom que você veio me fazer companhia, gatinho…”