Ainda Bem…

 Em princípio, não saberia encontrar a pia. E ainda que eu quisesse vomitar, não saberia onde. Se desejasse gritar, pressinto que a parede não isolaria-me do ruído. E que ruído ruge mais que o leão?

Ao invés de delirar, eu poderia, ao menos, saber de que lado é o corredor.

Nasci bem pequeno. Criança, e, Deus!, eu já tinha propensões ao vômito. Acho que fui, aí, xingado, em princípio. Dane-se! Eu desabafei.

Nem sei como separar minhas lembranças. Penso eu no meu primeiro tombo? Na primeira trepada na árvore, ou em minhas subidas nas figueiras? Creio que Jamelão entrou em extinção. Mas daria samba eterno, se não fosse a efemeridade dos deuses…

Dito foi que as criancinhas serão bem vindas. Mesmo as prostituídas? Sem hímem?

Imaginem as valas de esgotos, misturadas com músicas clássicas e louvores; imaginem Lennon nesses últimos natais… Negros e brancos, natal para todos.

Para os filhos do silêncio; para as meninas prostituídas com batons no final; para pais de família adúlteros; poetas sem livros; mulheres sem gozo; fiéis sem gozo. O mundo inteiro sem gozo. O mundo inteiro esperando desmentir a Deus. Provavelmente Satanás e seus demônios estariam assistindo Almodóvar, ou roteirizando um ser chamado solidão.

Ainda quero vomitar. Ainda sou criança. Ai!… Placentas das mães desmentem as palhas burricas. Hei, minha mãe. Bom natal, eis que boas são as nozes!

Eram tantas brincadeiras na minha infância. Brinquei de papai e mamãe. Brinquei de casinha de madeira. Brinquei de vocês. Mas meu estômago, fraco, não se compara aos barcos dos marinheiros ferozes. Piratas e santos. Santos natais! Eis que brinco de bolas transparentes de natal.

Agora, é sério, vou mesmo retirar-me de vós. Meus avós estão aí? Se tiverem, digam que não bebi.

E mesmo assim, vomitei…

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