Wings – Paulo Castro

Ficou muito claro. Eu tenho que voar.

Nunca fui o único em nada.

Talvez o único idiota,

mas isso me colocaria no clube dos auto-suplicantes,

que são um saco.

Nunca teriam coragem de voar.

Fazem propaganda do voo, mas são uns bostas.

O único, ser o único é uma exceção.

E toda lei tem exceção. Nada de irracional em voar, portanto.

Em tirar toda a roupa, subir até a cobertura

 – vento que assopra no salão de festas,

 ondulação bonita na superfície da piscina lua

– ficar de costas para a possibilidade em mil,

não pensar, apenas sentir a felicidade disso tudo,

 e voar.

Um salto de braços abertos.

Exatamente. Eu não caio. Eu estou subindo.

 Luzes. Cidade. O rodopiar faz a curva elétrica do sorriso,

 assim, deu tudo certo.

 É o céu, não o chão, que cada vez mais se aproxima.

Maravilhoso. O baque nas nuvens cinzas

& com lixos voadores & o rato anjo

 que corre de voar é minha recepção descarnada,

ossos em asas, no paraíso furtado

de minha doce exceção.

Paulo Castro, escritor e médico psiquiatra, sem linha divisória.

Cartas de Amor de Rua – Paulo Castro

Antes dela ter uma ideologia, a gente a fodia em troca de pinga e histórias em quadrinhos. Eu sempre acrescentava algo mais, tinha pena do menino, presenteava o pequeno com roupas, mas sempre estava um tanto atrasado em seu crescimento.
Bêbada, ela me chamava de saudosista.
A gente ria muito e depois íamos para a praça ou algum quarto vago e barato por ali.
Depois ela foi colocada contra a parede pelo Conselho Tutelar, algo assim, arrumou um emprego, conversava com outras moças e ainda bebia, mas falava de seus direitos e segurava um pouco a onda.

Eu a prefiro assim.
Parece outra mulher, óculos, os cabelos curtos estão lisos e brilhantes, ela me conta das notícias de jornal, frequenta passeatas e o menino já é um rapaz que sonha com a faculdade de Sociologia.
Somos bons amigos e atualmente é ela que me aconselha.
Nunca deixará de ser uma dona de boa alma.
Mas eu estou bem como estou.
Tomando coragem pra lhe entregar todas as cartas de amor que não entreguei durante esses anos.
Mas ela vai me achar tolo.
É uma besteira arrastada e nada mais.
Paulo Castro é escritor e  médico psiquiatra, e já não dá para saber onde começa um e termina outro.