O Masoquista

Como sempre, era quase de manhã.

Palmira se levantou daquele sofá, onde seu corpo descansava. Andou alguns metros, subiu as escadas, até chegar ao banheiro. Banho. Só assim se sentia limpa de tanta sujeira.

Depois da morte da irmã, praticamente não vivera mais. Como que num consenso invisível e inaudível, ela desposara seu triste cunhado.

Muriel, sua finada irmã, vivera em conflito com o marido. O doce Manuel. Homem bom, de bons modos. Trabalhador e muito atencioso.

Viviam os três naquela sombria casa. Sem crianças, sem risos ou jantares alegres. Comiam em silêncio. Depois, cada qual seguia para seus aposentos.

Até que Muriel, nova, aos trinta e sete anos, sofrera um enfarto fulminante. Quase ninguém no enterro. Apenas Palmira, a irmã chorosa, o esposo Manuel, e alguns poucos vizinhos.

Depois do fúnebre cerimonial, seguiram, Manuel e Palmira para a casa que ficara mais triste e vazia, depois do ocorrido.

Durante a madrugada, ela sentia os suspiros do cunhado, podia ouvir até mesmo seu corpo robusto virando de um lado para o outro na cama. Sentia vontade de bater na porta, perguntar se ele queria alguma coisa – um chá, um copo com água. Porém, nunca conseguira reunir coragem para fazê-lo.

Entretanto, de forma natural, acabaram se entendendo, em silêncio. Consenso.

Até que, numa noite de temporal, Palmira estava sentada no pesado sofá da sala em penumbra. Deveria ser umas vinte e duas horas. O vento uivava. A mulher estremecia com o horrendo ruído das folhas das árvores. E as folhas de zinco da casa ao lado.

De repente escutou passos na escada, pois os quartos ficavam no segundo andar da casa herdada por ela e a falecida irmã.

Manuel descera devagar. Sentara-se em sua frente. Anunciou, sem rodeios:

_ Não podemos mais ficar nesta situação, traindo sua irmã.

Palmira pestanejou. Só então notou um brilho de loucura nos olhos do ex-cunhado.

Imaginou o que poderia falar. Já estavam dormindo juntos há três meses. Ela o amava e achava que fosse correspondida, entretanto, naquele momento, sentira o mundo desabar sobre sua cabeça.

Uma dor tomou conta de seu corpo. Sussurrou, com o coração em chamas:

_ Então, não me quer mais?

Ele a olhou com o olhar distante.

_ Eu amo Muriel.- revela, como quem anuncia algo comum.

_ Mas ela nem o amava assim. Até o tratava com frieza. – se debate Palmira.

_ Mas no amor, só ela sabia me satisfazer.

Palmira estremece outra vez. Que diabos a irmã fazia com aquele homem que não o deixava esquecê-la? Ela fazia de tudo: era carinhosa, o beijava, entregava-se totalmente com paixão.

Reunindo todo seu esforço, perguntou:

_ O que minha irmã fazia que eu não faço?

Ele demorou a responder, mas finalmente esclareceu:

_ Ela me desprezava. Quanto mais eu a amava, mais ela me excluía de seu coração. Isso me mantinha vivo.

No dia seguinte, Palmira vê seu amado saindo pela porta. Olha o retrato da irmã no bufê e o quebra, maldizendo sua sorte.

No dia seguinte põe anúncio no jornal, alugando quartos só para rapazes. A casa possuía seis quartos. Todos com banheiro.

Meses depois, a mansão era conhecida como o “Hotel das Libidinagens”. E ninguém entendia por que aquela mulher, antes tão reservada e virtuosa, tornara-se a mais popular das meretrizes daquelas paragens.

E em seu quarto, sempre que fazia amor com algum hóspede, olhava com vingança para Manuel que, depois de voltar para casa, sofria e a amava cada vez mais, sem jamais tocar em seu corpo.

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