Um conto indígena

Não vou dizer que é um conto, e não sei se é ficção. Ou loucura. O fato é que neste dia…

As janelas do velho casarão ficavam entreabertas. Sempre que ventava muito, um arrepio percorria meu corpo, quando eu passava em frente à antiga casa da velha índia, ou descendente, eu nunca soube ao certo. Não podia evitar um medo primitivo, intuitivo. Não que eu, agora um homem maduro, fosse dado a estas crendices, entretanto, este era, sem dúvidas um caso à parte…

Uma casa antiga, de dois pavimentos. A fachada era de um rosa muito desgastado. As janelas tinham grades enferrujadas. O quintal ficava à mostra pelo lado do portão da garagem, pois este era vazado.

 No lugar de fechadura, um arame, também enferrujado dava algumas voltas, unindo os portões. Pequenos pés de café resistiam ao tempo. Matos saíam das rachaduras das paredes. Até mesmo aquele pé de erva cidreira estava lá, sobrevivendo às custas de chuva e sol, já que a senhora de aproximadamente cem anos já não se encontrava mais aqui, entre os vivos há uns quatro anos. A velhice a levara, a índia baixinha de pouca fala, mas exímia contadora de estórias.

A velha costumava ficar todas as manhãs sentada em um banco de madeira a tomar sol. Era taciturna, mas lembro que quando eu era menino, ela nos reunia, a mim e as outras crianças da vizinhança em sua calçada para narrar horripilantes estórias de espíritos e tantas facetas do mundo invisível , como ela chamava. E sempre à noite.

De tantas patranhas que ouvi da sinistra índia, houve uma que ficou pregada em minha memória. Era impossível não lembrar desta porque, ao voltar  todos os dias do trabalho, eu passava em frente a casa abandonada, e lá vinham as imagens da anciã de cabelo ralo e comprido, todo grisalho. Ouvia sua voz densa e firme a me torturar.

Eu me sentia mal porque já não era um guri, mas um homem casado e pai de dois filhos. Cinco e três anos. Todavia, era impossível não lembrar daquela estória dos ‘olhos vigilantes’.

Antes, porém,  deixe-me explicar algo. As narrativas por ela elaboradas tinham um tom de sabedoria mística que nos transmitia força de realidade, e por isso as absorvíamos como a mais absoluta verdade…

Era um verdadeiro acervo de personagenas do terror. A menina que negara água à mãe doente e que por fim, levou-lhe água quente. A mãe, depois de desencarnada voltara para açoitar a filha incrédula que gritava e esperneava. A vizinhança nada fazia, por medo de provocar o fantasma da mãe rancorosa.

Ou da meretriz vestida de branco que seduzia homens casados, era o fantasma inconformado de uma moça que não se casara com seu amado e assim cometera suicídio. E da outra mulher, que quando estava com pressa andava no ar, como que voando.

E ainda, do vizinho antigo que virava lobisomem em noites de lua cheia. A índia nos fitando séria, perninhas cruzadas, cigarro queimando, afirmava que os lobos-homens existiam de fato. Que eram demônios devoradores de almas.

Quando conseguÍamos nos desverncilhar da velha, éramos um grupo de crianças aterrorizadas, indo para casa tentar dormir sem urinar nas calças, ou na cama. E as noites eram mais longas quando a índia prometia nos ‘vigiar’ por toda a vida, mesmo quando fôssemos adultos e ela já estivesse morta. Engolíamos em seco e rezávamos em voz alta antes de entrarmos em casa. Um alívio nos fazia esquecer desta promessa. E lá íamos de novo, no dia seguinte, ouvir as patranhas da índia cruel.

De todos os amigos de infância, somente eu continuei a morar no bairro. E agora devo confessar ao leitor, cá entre nós. Eu não só não me desvencilho do passado, como toda vez que passo e olho para a janela do que era o quarto da velha, eu vejo seus olhos a me seguirem até que eu desapareça na esquina!… Posso afirmar em sã consciência ser real.

Nada comento com minha esposa, nem com ninguém.

Certa vez, encontrei um de meus antigos vizinhos no centro da cidade. Entre um chopp e outro eu insinuei o que ocorria. Ele riu e disse que nem lembrava mais dessa ‘estória idiota’. Senti-me ridículo, companheiro. E não toquei mais no assunto.

Entretanto, resolvi neste dia entrar na velha casa, na volta do trabalho. Acabaria com essa maluquice. Era coisa de minha cabeça. Eu, um homem adulto, pai de dois filhos homens, não poderia acovardar-me deste jeito.

Cheguei ao portão. Era tarde. Tinha ficado bebendo para as horas passarem. Olhei o relógio: dez para meia noite. O celular tocou! Minha mulher. Sussurrei que estava chegando e desliguei.

Desenrolei o arame e entrei. Com coragem. Afinal, eu era homem, e não um menino assustado que molhava a cama todas as noites.

 Caminhei  no escuro. O quintal era iluminado pela luz do poste. Mas dentro da casa era breu. Lembrei de sacar a lanterna que havia comprado no camelô. Pronto. Fui direto ao quarto de onde via o par de olhos todas as noites. Confesso, aqui entre nós, que fiquei apavorado, afinal, eu era humano.

Entrei no quarto e quase morri de susto. Tropeçei num corpo encolhido no chão. Queria correr, mas não saía do lugar. Porém enfrentei o medo e iluminei o chão.

Hehehe!… Lá estava o corpinho da velha. Encolhida, parecia uma criança. Nos olhamos e eu sorri para a mendiga, a hóspede da casa da índia.

Fui para casa aliviado. A mendiga contara que dormia alí todas as noites, pois tinha medo de ficar nas ruas. Passava pelo vão do portão. Era bem magrinha. Despreocupado, cheguei em casa e beijei minha esposa, com desejo renovado.  Sentia-me um novo homem. O garoto assustado se fora.

A mendiga morreu dias depois, era doente, a pobre. Eu não veria mais seus olhos a me seguirem hehehe.

Dias depois, após o trabalho, comprei flores. Era nosso aniversário de casamento. Amaria minha mulher. Eu estava feliz e livre desta maldita estória.

E lá estava eu, de novo passando pela frente da casa abandonada. Como todo ser humano, a curiosidade me fez ‘procurar’ os olhos da índia.

Foi quando deixei cairem as flores. As pernas tremeram mais que na infância.

Desta vez, sem dúvidas, eram eles! Os olhos da velha a me olhar!…

Uma angústia me fez sentir o maior dos covardes. Eu ainda era um menino tolo, repleto de medo…

Apressei os passos com um frio na espinha, mas um líquido quente escorreu pelas pernas. Não deu tempo de chegar em casa…