Solidários, né?

O preço do tomate está absurdo. Crise mundial! Armagedom e etcétera. O garçom nem aí. O molho era natural. Caro, mas natural…

Enquanto isso, no Japão, Ricardo tentava se comunicar com a noiva que estava morando na casa da mãe no Rio de Janeiro, em Copacabana. Mãe dele. Internet pra quê? Procurou seu note. Nada. Suas roupas e nada. Japão já era! Sessenta mil dólares por mês. Casamento, casa de praia. Já era tudo. Olhou para o tofu e os salmões estragados. Os guardanapos de pano bordados, chiques… Tremores por seu corpo. Trocadilhos na alma. O tremor era terremoto. Real.

O cozinheiro pensou na poupança, na igreja cheia de flores. A perna sangrava. Ódio de tudo. Do mundo, de quem fez o mundo, da noiva metida a besta: restaurant in Japão, depois Frrrança! O mundo era dele. Emergente pupilo do chef August agora era um derrotado, prestes a amputar a perna – exagerro – com quatrocentos mil dólares no lixo!

No Brasil, Chef August provava um molho especial de manjericão para o fuzzili quando o celular gritou, atrapalhando as mãos perfeitas e precisas do especialista cientista em massas italianas. Filho de portugueses, casado com Cecile, ora soberbo, ora sem noção. Atende o celular. Laurinda, mãe de Ricardo em pânico! O filho morreu no Japão! Deus!

Horas mais tarde, jantando o macarrão com um delicioso queijo perfumado (segredos de August) e vinho branco. O vinho era uma homenagem. Estaria mesmo o amigo morto? Inda bem que o molho era esnobe e bem claro… Porque ela só imaginava o Ricardo cheio de sangue. Morto pro mundo, morto pra gastronomia. Morto! Molho vermelho nem pensar naquela ocasião.

Um arrepio percorreu o pescoço de Cecile. Vinho bom…

Perguntou a August por que o mundo tremia tanto… Fim dos tempos!, ele respondia taciturno, pensando no amigo e provando cada detalhe do molho. Como assim fim dos tempos? Está escrito, são profecias! Encolheu os ombros debaixo do casaco novo e ficou imaginando o terror que causava um terremoto, ou maremoto. Vinho de-li-ci-o-so.

O mundo vai acabar, August?

Certamente, querida, certamente.

Quando?

Não sabemos…

Sabemos quem?

Nós, os estudiosos dos fenômenos ambientais. Teorias teológicas. Teoria do caos e tantas outras. Apocalipse, Nostradamus. Fim é fim!

Ele disse isso constatando que as taças estavam vazias. Encheu-as novamente. Um brinde ao falecido. Mas ele morreu?

O celular toca. Ricardo?? Sim, pode deixar!

O que houve?! – Ela pergunta, com molho escorrendo garganta abaixo.

Era o Ricardo. Está pedindo que o busquemos no aeroporto.

Como ele está, meu Deus?

Triste mas bem, fisicamente… Lamenta por uns salmões de mar e tofus raríssimos e sei lá mais o quê. Mais vinho?

Ufa, o mundo não acabou… enfim… quer dizer… eu não morri, o Ricardo não morreu, nós! Pardon pelo egoísmo… aquelas pessoas… mortas… Tem mais vinho?

Vou abrir o Alex Gambal Chassagne Montrachet dois mil e seis, querida.Trezentinhos, mas vale a pena. Ricardo está vivo!…

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