Dicas de literatura ruim, por Camila Kehl

Do Blog Livros Abertos

Acho complicadíssimo falar em literatura boa e literatura ruim, até porque as coisas não funcionam necessariamente como uma dualidade. Mas, se compararmos os romances de capa mole vendidos em bancas de revista e cujo título é um nome de mulher a uma obra como Ulisses, de Joyce, fatores como qualidade da narrativa, alusões à história, mitologia e saberes diversos, profundidade de reflexões e o próprio cuidado com a edição e revisão, que complementam o livro no sentido do que se convencionou chamar de obra de arte, me forçam a dizer que o segundo é, de alguma forma, superior ao primeiro. Joyce, portanto, é o vitorioso nesta briga desleal. Analisando a questão por outro prisma, Ulisses tem um diferencial importante em relação aos folhetins baratos: é mais difícil de ler, e exatamente porque exige maior capacidade de apreensão, mais conhecimento e maior intimidade com a literatura. É um entretenimento e tanto para os que vivem rondando as bibliotecas e livrarias, mas talvez não seja a obra de cabeceira daqueles que estão dando os primeiros passos em direção a elas. É, portanto, muito mais fácil para um habituado às obras literárias ler e gostar de folhetins ordinários do que o contrário – um iniciante ler e gostar de Joyce. Então, usando o adjetivo pejorativo e irônico, embora levemente equivocado, podemos dizer que a literatura ruim é uma unanimidade. Não a mística, esotérica ou pedante, o que exclui automaticamente uma porção de autores ligados a essas temáticas, e nem de autoajuda (que nem arte é), mas simplesmente ruim.

Cansaço, despreocupação, vontade de se entregar a um prazer cheio de culpa: nesses casos, a literatura ruim é uma salvaguarda. E o mundo está cheio dela. Romances policiais, romances açucarados, romances de terror… Quantos se conhece? Mas há uma autora tão ruim que chega a ser sensacional, e tão cafona que chega a ser kitsch, que é uma ilustre desconhecida. Conhecem V.C. Andrews? Pois deveriam conhecer.

Observem a capa deste livro:

Tem como ser bom? Não, não tem. E não é bom. O editor, o diagramador, o responsável pela arte, todos eles estão alertando, apelando, apontando para a má qualidade da obra. Quando retira aquele livro da prateleira, qualquer um sabe o que vai levar para casa. Todos os elementos que compõem a imagem aludem à desgraça do enredo, que, por sinal, é fantástico: “Ela era a resposta para todos os sonhos de seus novos pais… mas tão frágil quanto uma borboleta. As aventuras e desventuras da órfã Janet Taylor, de 12 anos, estão em Borboleta, primeiro volume da Série Órfãs, de V.C. Andrews. Para a pequena menina, seu mundo sempre fora o orfanato, com suas brincadeiras cruéis e o desejo silencioso do dia em que teria a própria família. Acolhida como filha pelo casal Sanford e Celine Delorice, que a afasta de seu trágico passado, Janet custa a acreditar que finalmente ganhará um lar e uma família. Seu novo pai é bonito e gentil. Celine, a mãe, embora confinada a uma cadeira de rodas, é a mulher mais linda e elegante que Janet já conheceu. Ansiosa em proporcionar alegria aos pais, Janet procura agradá-los com todo o empenho. Mas dança sobre uma frágil teia de felicidade, jamais sabendo o que poderá acontecer se um filamento romper…”.

GENIAL! PÉSSIMO! P*TA QUE PARIU, QUE LIVRO RUIM! Tão ruim, mas tão ruim, que dá uma vontade de abrir e começar a ler na frente da lareira, em um domingo de inverno, ou na beira da praia lotada no auge do verão. É como junk food: a gente sabe que é uma porcaria, mas gosta. A diferença é que as histórias da autora não exigem esforço nenhum, de órgão nenhum, para que sejam digeridas. Viram? Fiz uma comparação horrível, de um mau gosto impressionante, típica da má literatura.

Eu li muitos livros da V.C. Andrews. Quase todos, suponho. Quando eu era criança, minha mãe já tinha a coleção de obras traduzidas para o português praticamente completa (foi mal, mãe). E aí comecei a lê-los, ainda bem pequena. Um pior do que o outro, mas todos igualmente divertidos. Depois que se começa a leitura de um, é difícil largar.

As temáticas são escabrosas, mas abordadas como se fossem rotineiras: incesto, estupro, brigas de família, decadência. As histórias são um turbilhão de cafonices, todas elas cheias de reviravoltas estapafúrdias e acontecimentos bizarros. As ilustrações (principalmente das edições mais antigas, compradas a preço de banana em sebos) são tão feias que chegam a ser uma gracinha.

Recomendo fortemente toda A Saga dos Foxworth, além de Minha doce Audrina e Raven. Sintam só a sinopse: “Vivendo com a mãe bêbada em um apartamento, uma jovem de 12 anos não se cansa de sonhar com um verdadeiro lar. (…)”.

Corram para os sebos, preparem um drinque com rum com coco e guarda-sol na borda, vistam uma peça de roupa de veludo molhado, abracem o pinguim da geladeira, coloquem Sidney Magal para tocar e deliciem-se. Diversão garantida ou sua dignidade de volta.

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Ambientação no conto, um desafio e tanto!

                                             “Criar é matar a morte” –  Rolland

A ambientação na literatura do conto

A ambientação é a alma do conto. Cronologia é importante em romances e novelas, entretanto, não é de grande importância em contos. Quando o leitor “entra” na estória, algo já está acontecendo, portanto, é mister que ele seja imediatamente envolvido na atmosfera da narrativa. Ele deve entrar no clima das percepções, imagens e emoções.

Esta ambientação, porém, não deve ser cansativa, com excessos de descrições e adjetivos. Todavia, a carência na descrição pode fazer fracassar o que poderia ser uma bela obra literária.

Durante a ambientação algo ocorreu, está ocorrendo, ou ocorrerá, portanto, é necessário que o escritor tenha cuidado com este detalhe. O clima tem que envolver o leitor. Cabe ao narrador, seja ele em primeira ou terceira pessoa; seja um simples observador, ou um intruso, cabe ao narrador descrever tal ambientação, para só então desenvolver a estória, levando o leitor consigo.

Justamente por ser a ambientação tão importante na copilação de contos, volto a analisar o desafio literário imposto a escritores no blog já mencionado aqui, onde o concorrente deverá escrever um conto ambientado no bairro de Copacabana, sem contudo usar 100 palavras relacionadas à cultura e tradição do bairro. De fato um desafio e tanto!

Como esta rodada de comentários será mais trabalhosa, resolvi analisar conto por conto, até porque é um baita exercício de aprendizagem para todos nós, escritores.

Prós e contras do primeiro concorrente – “Escrever é perigoso”

O primeiro conto chama-se Escrever é perigoso, do escritor Jefferson Maleski. Vou abrir aqui  colchetes para explicar aos leitores por que venho fazendo análises sobre tais escritores e seus desafios. Na verdade, depois que de lá saí, fui acometida de um desejo nobre de estudar mais literatura e língua portuguesa, ao invés de ficar andando a passos curtos e lentos, escrevendo em um blog que não dá retorno, apenas nos faz exercitar na escrita ortográfica e gramatical, sem nenhum suporte de aprendizagem, de fato, literária.

Voltando ao conto “Escrever é perigoso”

Encarando um desafio insano de ser proibido de usar palavras alusivas à tradição, palavras estas que conotam a cultura de Copacabana, o autor Jefferson Maleski, como qualquer outro canditado vivenciará, se viu em maus lençóis, e isto dá para notar pelo excessivo cuidado de não infringir as regras do “exercício das proibições”.

O conto tem potencial e sairia vitorioso, se o escritor focasse justamente o que lhe fora proibido, ou seja, a descrição da ambientação. Por mais que seja um exercício árduo e cansativo, haveria Maleski de se concentrar no ambiente da ação – ok, sem clichês -, já que é  possível dar vida à narrativa, uma vez que Copacabana, de fato,  não é só praia, bunda, asa delta, surf, picolé, onda, etc.

Partindo deste princípio, ao criar sua ambientação, o escritor deveria “mergulhar”,  mais corajosamente,  no cenário da estória, pois  já que se passa em um hotel famoso de Copacabana, uma pesquisazinha lhe daria várias ideias, podendo até trazer fatos reais acontecidos em tal hotel, dando, assim, mais realismo à estória, no que tange à Copacabana.

O Conto e a ambientação

Trata-se da estória (possivelmente uma metáfora ou  alegoria, não fica claro) de um escritor entediado que, talvez enlouquecido, busca emoções fortes para um provável ou imaginário livro – o livro de sua vida (?), marcando encontro insólito com um assassino, em um hotel famosso de Copacabana muito mal descrito, infelizmente.

Não se sabe se intencionalmente, mas o fato é que o autor usa nomenclatura de audiovisual (plot point), sugerindo, talvez, que a insanidade do personagem o levou a viver a situação em tempo real, com cenas carnais, associando a estória ao cinema, em sua mente obviamente conturbada.

A partir de um anúncio que o escritor publica em um jornal de elite (por que não na imprensa marrom?!), oferecendo-se como matador de aluguel, o delírio mistura-se com realidade, levando-o  a um desfecho inesperado, o que dá um tom valoroso à narrativa. Entretanto, o desafio não é simplesmente escrever um bom conto livre, mas escrever um conto que desafia a alma do próprio conto: a ambientação.

Conclusão

O concorrente pode vangloriar-se por ter feito um bom trabalho, com bons diálogos, boa narrativa, tensão psicológica em boa medida; começo, meio e fim bem delineados. Contudo, no principal quesito o conto ficou aquém das expectativas. Diria mesmo que o autor pegou sua estória e a trouxe para o  terraço de um hotel no Rio de Janeiro, só para participar da rodada no Duelo de Escritores.

Uma coisa é seguir regras de desafio ao criar; outra, bem diferente, é se esquecer que driblar a literatura é algo, praticamente, impossível.

Nota de 1 a 5 para o conto “Escrever é perigoso”: 2,5. Errata: a referida nota é 3,5.

O verdadeiro crítico exige apenas que o plano
intencionado seja exemplarmente cumprido,
através dos meios mais eficientes.
Edgar Allan Poe

Boa sorte aos demais concorrentes e boas escritas!

Fonte: Aqui e aqui.

Inté!