Túmulo

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Brigite entrou em seu apartamento e sentiu que havia algo errado no ar. Precisamente no ar, um odor de queimado, pano queimado, correu até a porta a fim de chamar o síndico.

Antes que alcançasse a maçaneta, sentiu uma forte mão segurando a sua, pequena e trêmula. Foi um momento insuportável, aos poucos se virou e deu de cara com o síndico. “Graças a Deus”, respirou, “ia mesmo chamá-lo, há algo de errado aqui, sente o cheiro?”

Acordou e viu o teto do seu quarto. Pulsos e tornozelos doíam, estava amarrada. Entre as pernas uma gosma incômoda cheirava forte, era sêmen, ela constatou enjoada e quis vomitar. E vomitou pelo canto da boca, no travesseiro.

O síndico entrou, tinha olhos diferentes, com um brilho que Brigite jamais vira. Contorceu-se, mas era inútil, mil pensamentos passaram por sua cabeça. Pensou em Mônica, só pensava nela, era tudo que tinha. Jamais fora amada na vida. Pais ausentes, abusos, perdas, mortes. Pais drogados, tios, sombras, medo.

“Como se sente, sua vaca lésbica?”

E foi a última coisa que ouviu antes de desmaiar com um soco no queixo.

O síndico a retalhou em várias partes do corpo delicado e nu. Com um resto de consciência, Brigite pensou que era seu fim. Constatou resignada que a sua vida era assim, que felicidade nunca existiu. Pensou no sorriso de Mônica e pela última vez suspirou. Ainda viu seu gato tosquiado e morto ao seu lado. Sufocou com o sangue na garganta. Olhou para o síndico e esboçou o que julgou ser um sorriso.

“Obrigada”.

A vida é muito importante para ser levada a sério. Oscar Wilde

 

 

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NEUROSE

 

blog

“Mulher Sentada e Janela Gótica” __ Eduardo Machado

Espanto a vida é uma ruela que prende teu corpo minha vida estranha se jogará da janela, tantas nuances e a política apunhala entre as pernas o povo está nu, vilipêndio estupendas lágrimas mendigando fortunas no nome de Deus enquanto anjos tocam trombetas mendigos coçam bocetas e enquanto isso cachorros se alimentam de vômitos. Ruas desertas Moro o capeta e santo duas faces depende quanto pagará minha vida se despede e olha uma última vez para a antiga vitrola e Jmi Hendrix sorri, Lúcifer mija no fogo ardente das gurias do baixo cracolândia, beiços queimados futuros arruinados e dança a dançarina no Municipal. Cabral preso Brasil descobriu Cabral puta que o pariu tudo foi em vão a criação Eva e Adão, agora é suportar quando no pó descansarei, um dia serei estrela, desabou a  porra da janela virei cadáver.

Day

 

 

Rubro-Rútilo – Fernanda Cristina

Depois que tudo começou: o pai a trancou e nunca mais a deixou sair. Oito anos em menina, desesperava-se perguntas. Ela começou com engasgos assustadores: ameaça de morte de sufocamento. Num desses espasmos (na sala), tossindo engasgando envermelhando olhos cheios medo lágrimas tossindo medo e mãe aos berros (querendo ambulância): da tosse a primeira lagarta saiu pela boca da menina. A menina: passou a percorrer cômodos com lenços para recolher suas lagartas. Trancou-a. O pai teve nojo nojo nojo da filha. Um dia, na cozinha: menina engasgou tossiu envermelhou tossiu e preparou o lenço. Mas de sua boca (ela ria) saíram vermelhas-minúsculas-rutilantes-em-centenas borboletinhas. E a menina ria e chorava e a menina e a mãe e o pai maravilhados. A cozinha ficou torpe e dura do incêndio de borboletinhas. Centenas de milhares rubras: ininterruptas. Ela riu com mais força. Queria que elas entrassem pelos olhos do pai, até que rasgassem.

Selecionado para exposição a partir do 4º Concurso de Minicontos do IST Taguspark/Portugal

Leia mais a escritora Fernanda Cristina em seu blog Numa Dessas.

A Garota do Jack

Ela nasceu, cresceu e morreu da mesma forma. Sorria e chorava nos tempos certos, comedidamente. Tristemente. Nada pediu da vida, nem mesmo irmãos teve para brincar.

Era só, escondida no final do corredor, no quartinho úmido onde raramente alguém entrava. Ela era esquecida, abandonada pela desolação daqueles duros tempos. Londres era fria como sempre fora. Escura-cinzenta, agourenta, má.

Homem bom, namorado, não sabia deveras o significado.

Sua única companheira era aquela, mesmo deixando-a só nas noites de natal, sempre voltava com um presente barato, e ela sabia que era daqueles homens que a apertavam, na velha cama, quando ela resolvia não sair de casa. Preguiça alcoólica, dores no corpo. Cólica de aborto.

Viveu da forma que aprendeu na vida. Desgraçada e nebulosa, sem filhos, sem irmãos. Apenas marcas na alma, e profundos arranhões no coração.

Os assassinatos não pararam até que a próxima vítima fora sua mãe. Estripada e só, jogada numa calçada.

Anos mais tarde, igualmente, morreu sozinha, numa noite de chuva fina. Afecção desconhecida. Londres se despediu dela, com um leve sorriso de alívio. E nada mais.

A Puta de Cada Dia – O Desbunde

Uma Thurman

Seria a puta daquele que a fizesse uma. Não era mulher cotidiana, esporrava entre pernas dores de uma barbárie. Não sabia o significado da palavra “felicidade” e abortava filhos não desejados, quase corrompidos. Ainda sangrava e como sangrava. Confundia-se entre o existencialismo e o materialismo. Não era mulher parideira. Era um ser em eterno combate com sua própria natureza. Ventava cabelos entre florestas e relutava em aceitar existência. Não era mulher refletida e manifesta em costelas de um único indivíduo. Era a própria coluna: mulher. A diferença rasgava sua boceta de Pandora, ainda molhada pelos males do mundo. Negava! Negava! Abnegava! E, na Bíblia, encontrou sua resposta: seria a puta que jamais iria parir.
Salve Nossa Senhora!

O Desbunde

O Que Há de Errado?…


Com os domingos nas praças, cadê os namorados?
Com os shows nas areias das praias? Violência?
Com os dedos de minhas mãos, dormência? Demência?
Cadê a poesia, a música, os livros e livreiros?
Internet se mete se mete se met!
Cadê meu gibi e meus discos, minhas fotos feias?
E no bar, mataram a garçonete, coitada!
Foi ela, foi a net, foi a internet
Que matou a Margaret…

Numerologia

Dia desses o Zé Roela ganhou na loteria. Não muito, mas pagou dívidas, comprou casa.

Viajou e colecionou algumas namoradas.

Zézinho gastou todo dinheiro e vendeu a casa para as dívidas pagar.

Um, dois, três filhos que nasceram, três chifres e três processos.

Agora Zé Roela descansa em paz; e na terceira cachaça desmaia sobre a nota de três reais.

 

Osso duro

O cachorro latiu depois de molhar a perna dele.

Bêbado deprimente, a mulher de camisola esperando o bom marido.

De novo dorme no jardim. O amante demora mais que de costume e a garrafa tá vazia.

No céu uma única estrela o observa e mesmo assim só para rir.

Lá vem o cachorro de novo…

Decepção

Cora era envergonhada. Criança estúpida, não falava com ninguém. Anti-social, o fiasco de filha única.

Menina estranha, óculos grossos, pernas finas.

Cora cresceu, foi à faculdade e ainda balbuciando casou-se com Pícaro.

Mas o circo pegou fogo e Cora virou Mulher Barbada.