ONTEM NÃO É HOJE

ONTEM NÃO É HOJE

Ontem eu era virgem e amada
Hoje trago o ventre vazio de fomes
Ontem me dizias coisas belas
Hoje olho o quarto, tu somes

Ontem eu ri, mais de mil vezes apaixonei
Hoje, acordei fraca, sem beijo
Ontem repeti te amo te amo
Hoje aos pés de Deus me ajoelhei

Ontem viramos crianças enamoradas
compomos juntos as músicas
Tirei a roupa dancei na varanda
Ontem foi como noites recém-casadas

Ontem foi madrugada em alarde
Hoje na mesa apenas um copo
Ontem tu ficaste até tarde
Mas sem ti por aqui não galopo

Ontem sorrias e me lambias feito gato
Hoje vi melhor eram arranhões
Ontem tu parecias lindo e mui grato
Hoje só tenho dor e degradações

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Solidão, e agora?

Solidão
Não basta sentir solidão.
Tem que vir o medo, o vazio e o nada.
Um escombro doloroso que, finalmente,

me enfrenta, mais audacioso e forte,
e me questiona, eu em coma.
Solidão é pouco,
tem que sacudir toda a minha existência
sem respostas e sem perguntas.
É um momento quieto
de dor e gozo ao mesmo tempo.
É possível ser feliz
quando não sei o que isso significa.
O objetivo talvez seja sofrer
um masoquismo que vem de longe,
e enquanto isso as moscas me olham
com grandes olhos de saber.
Solidão é mais que a própria solidão.
É conhecer a morte mesmo estando viva.
É saber que nas alturas do medo
nada acontece, até que meu corpo reaja
diante das armadilhas
preparadas por mim mesma.
É possível sentir solidão
sem ser nada que tenha vida,
e é angustiante pensar que tudo se foi, contudo,
ainda vir as toscas peles
e suas células sorrindo em camadas
de minha velhice, qual flor depois da primavera.
A solidão nunca vem só;
ela traz aquela sensação doida
de quem abre os olhos
e se depara com uma janela no sol.
Cansa a vista, cansa a vida, e nada mais acontece.