A DANÇA DOS ORKSHAS

ESCRITOR  MARCELLO SCHWEITZER

essadança

O mundo de Morserus traz mais um livro de sua odisseia filosófica. Mais um conto sobrenatural, e mais um personagem que o autor apresenta –  Malfaer, um rapaz, um Rato que anseia mudar sua vida e a de sua família. Busca a liberdade para ver o céu amarelo e laranja de Morserus. Mesmo sabendo-se fraco e ocioso, ele anuncia à família que é o escolhido para a salvação da pobreza, e que sairão das favelas subterrâneas para a superfície, onde poderão viver com dignidade. As lágrimas de felicidade de sua mãe justificavam sua fantasiosa estória de herói.

Então começam seus conflitos, pois entra em um labirinto de mentiras, mentiras que, para ele, se tornam a única forma de trazer alívio para sua família.

O conto é ambientado em favelas subterrâneas povoada por ratos, onde imperam, além da pobreza, a dor de jamais se vislumbrar a superfície. E é na superfície onde, a cada ano, acontece uma batalha de vida e morte.

Os  animais têm uma espécie de oráculo, conhecido como Rodamorta. A partir da visita do Rato a esse oráculo, seu drama começa de forma intensa e dolorosamente conflitante. Malfaer precisa ir em frente com suas mentiras, e resolve se inscrever nessa tradicional disputa, onde acontece a Dança dos Orkshas, entidades que se dividem entre as de luz e as das trevas, entretanto, por alguma razão, as das trevas prevalecem.

Na verdade, é uma corrida pela sobrevivência, onde apenas um concorrente pode sair vencedor. Dentre os cem competidores, está Malfaer, o  fraco, covarde, obrigado a crer em seu Orksha, que representa o Medo. Contudo, o improvável herói aceita o desafio de sua própria mentira, se apresentando como voluntário para o evento de carnificina, onde apenas os ricos se divertem de forma sádica, brindando com o sangue dos concorrentes que, misturado a algum estranho elemento, permite que entrem nas mentes de seus concorrentes, compartilhando tudo que os participantes vivem nessa cruel corrida para a morte.

Como sempre, Marcello Schweitzer se posiciona como um escritor que não se envolve emocionalmente com seus personagens, e mesmo o narrador parece ficar indiferente diante de tanto sofrimento e medo. Exceto pela pérola “A ignorância do Mal não nos protege do Mal” citada no conto, os personagens estão entregues à sua solidão. À sua própria sorte.

Uma estória que remete à Caverna de Platão (as favelas são como pequenas cavernas), e faz com que o leitor transite pela história da própria humanidade, desde a Grécia Antiga, com suas arenas sangrentas, aos tempos atuais, onde a solidão abraça os menos favorecidos, e onde os miseráveis só servem para a reflexão de alívio dos ricos e bem sucedidos.

O Rato Malfaer traz uma grande lição de vida para nós, humanos. Lição essa que surpreende, não tanto pelas ações, mas pelas reflexões que o personagem consegue ter, em meio ao corredor da morte. Lidando com vertiginosa corrida pela sobrevivência, algo muda seu interior e surpreende o leitor.

O escritor é, indubitavelmente, um artista pós-moderno; ainda que mergulhando na filosofia grega, traz grandes estórias reflexivas do caos em que vivemos nesse século XXI. Lançando mão do estilo socrático-platônico, cria grandes e profundos diálogos entre seus personagens. O leitor fica diante de várias opções para lidar com sua própria vida.

Conheça esse mundo de estórias assustadoramente humanas, ainda que povoado por animais construídos por excitante morfologia.

A Dança dos Orkshas é uma obra prima, em minha opinião.

Leia no blog do autor e baixe o ebook

By Day

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Domingo, Bem Acompanhada

dayatual

Acordei sem vontade de assistir tv, olhar as notícias, ou fazer qualquer coisa que não seja ficar na cama, assistindo (isso sim) vários filminhos. O dia está nublado. Vou até publicar um poema do Fernandinho.

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

fernandop

O Maior de Todos os Poetas Americanos era uma Mulher – Emily Dickinson

                                 Justa Homenagem – Emily Dickinson

esta emily

 

O maior de todos os poetas americanos era uma mulher: Emily Dickinson (1830-1886). Apesar de ter vivido reclusa por 56 anos, sem receber visitas, numa casa de Amherst, no interior de Massachusetts, refém do puritanismo asfixiante da Nova Inglaterra e de um pai dominador, apaixonou-se por um homem casado (mas evitou consumar a paixão) e deixou 1775 poemas, que têm, até hoje, emocionado sucessivas gerações. Como escreveu Otto Maria Carpeaux em sua monumental História da Literatura Universal: “Ela não inspirará nunca admiração perplexa, como Poe, nem será tão popular como Whitman.”  Mas é o próprio Carpeaux quem lhe dá o mérito de “maior poeta americano”, considerando a sua obra das mais originais em língua inglesa, especialmente pela reiterada quebra das convenções, no conteúdo e, para desgosto dos puristas, também na forma: nunca hesitou em surrar a gramática, para sintetizar seu desconforto diante do mundo.

emily em pé

Teve um amigo com quem se correspondia, Thomas Wentworth Higginson, um poeta hoje esquecido que inutilmente tentou “corrigir” as transgressões de seus poemas, copidescando forma e conteúdo, “para o bem de Emily”. Mas, sua obra sobreviveu a Higginson e ao pai. De Higginson ficaram as reminiscências que escreveu sobre ela. Seu pai, um tipo antigo e puritano, era sempre a figura princi­pal, um homem que, como ela disse, lia aos domingos “livros solitários e rigorosos”, e que, desde sua infância, lhe havia incutido temor. Até a idade adulta, Emily leu apenas a Bíblia e, escondida do pai, Shakespeare: “Quando perdi a visão, era um alívio pensar que os livros importantes são tão poucos. Depois, quando recuperei a visão, pensei: ‘Além de Shakespeare, por que preciso ler outro livro’?”. Na reclusão que escolheu, além de escrever, tinha ocupações gastronômicas que cumpria com prazer: diariamente ela fazia todo o pão da ca­sa, porque seu pai só gostava do pão feito por ela. E, segundo relatos de contemporâneos, seus pudins eram tão bons como os poemas. A obra de Emily Dickinson, exceto por raros versos isolados, acolhidos em pequenos jornais do interior, só foi impressa depois de sua morte.

emilylivro

A boa notícia é que foi lançada no Brasil (2008), em livro de bolso, uma primorosa edição de Poemas Escolhidos de Emily Dickinson (L&PM). O autor da magnífica tradução, além da seleção dos poemas, introdução e notas, é o professor Ivo Bender, que conseguiu preservar a graça, a originalidade e força dos versos, num criterioso trabalho de recuperação e adaptação dessa riqueza imensa à língua portuguesa. Por certo que ficaram de fora as receitas dos pães e pudins. Mas o professor Ivo Bender tem uma justificativa inatacável: as receitas desapareceram com Emily, em 1886.

Fonte: Zero Hora (14/03/08) /

10 Poemas de Emily traduzidos por Jorge de Sena

A Letter is a joy of Earth –
It is denied the Gods –

Uma carta é uma alegria da Terra
– Denegada aos Deuses.

* * *

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer’s morn –
A flash of Dew – A Bee or two –
A Breeze – a caper in the trees –
And I’m a Rose!

Sépala, pétala, espinho.
Na vulgar manhã de Verão –
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
Brisa saltando nas árvores –
– E sou uma Rosa!

* * *

Afraid? Of whom am I afraid?
Not Death – for who is He?
The Porter of my Father’s Lodge
As much abasheth me.

Of Life? ‘Twere odd I fear [a] thing
That comprehendeth me
In one or more existences –
At Deity decree –

Of Resurrection? Is the East
Afraid to trust the Morn
With her fastidious forehead?
As soon impeach my Crown!

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!

* * *

By a departing light
We see acuter, quite,
Than by a wick that stays.
There’s something in the flight
That clarifies the sight
And decks the rays.

A uma luz evanescente
Vemos mais agudamente
Que à da candeia que fica.
Algo há na fuga silente
Que aclara a vista da gente
E aos raios afia.

* * *

I died for beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb,
When One who died for Truth was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly why I failed?
“For Beauty,” I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren are,” He said –

And so, as Kinsmen met a-Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –

Morri pela Beleza – mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
– Pela Beleza – disse eu.
– A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos Irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes – tapou.

* * *

I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me –
Almost a loneliness.

Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures –
Quase uma solidão.
* * *

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também – tu não és – Ninguém?
Somos um par – nada digas!
Banir-nos-iam – não sabes?

Mas que horrível – ser-se – Alguém!
Uma Rã que o dia todo –
Coaxa em público o nome
Para quem a admira – o Lodo.

* * *

Silence is all we dread.
There’s Ransom in a Voice –
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.

O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz –
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.

* * *
Soft as the massacre of Suns
By Evening’s Sabres slain

Suave como o massacre dos Sóis
Mortos pelos sabres do Anoitecer.

* * *

Volcanoes be in Sicily
And South America
I judge from my Geography –
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb –
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.

Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia –
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir –
Cratera que eu possa ver –
Há um Vesúvio cá em casa.

Fonte: http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/antologia/traducao/texto.php?id=440

http://www.lpm-editores.com.br/site/default.asp?TroncoID=805133&SecaoID=816261&

ELA E EU

Ontem à noite, revirei meu apartamento procurando alguma coisa que havia perdido. Sei lá, era algo que me parecia imprescindível; alguma coisa que me fazia bem. Revirei os armários, olhei debaixo da cama, na cozinha, no porão e no sótão.

Vasculhei os jardins, e até no telhado do vizinho eu a procurei. Não estava lá também. Perscrutei em volta de mim mesmo, olhei para a garrafa de vinho vazia, a taça quebrada, e os guardanapos manchados. Parecia sangue, mas deveria ser apenas o vinho tinto. Como louco, até no banheiro, onde jamais a guardava, procurei.

Procurei nos bolsos dos paletós, entre as gravatas, na carteira, dentro de minha boca – quem sabe um pequeno vestígio para me indicar algo…

Imaginei que a única prova seria eu me olhar. Deveria haver algum detalhe diferente em mim. Qual nada!

Então, fui até à janela e acendi o charuto cubano –  mesmo não sendo de esquerda, eles eram ótimos. Respirei o perfume do fumo. Retirei o roupão, fiquei nu. Meu pensamento me ajudava a lembrar de mais algum lugar onde pudesse encontrá-la… Qual lugar? Onde? Quem?

Apaguei o charuto, voltei a ler Os contos fantásticos do século XIX.  Eu estava assombrado por vinte e seis autores do passado. Minha mente embaralhava com aquelas tradições literárias tão diversificadas. De Hoffmann e Walter Scott a Kipling e H. G. Wells, passando, claro, por Gogol, Poe e Andersen, dentre outros.

Sem falar dos autores considerados realistas famosos, como Balzac, Dickens, Maupassant e Henry James. Eu procurava, além da realidade, atrás da aparência cotidiana dos fatos, um mundo encantado, lúdico e infernal que, mais do que me atemorizar, me deixava perplexo. Eu flutuava dentro de mim, no silêncio que as paredes faziam ao meu redor.

Enlouquecera de tanto ler. Será?

Dormi entre os personagens aterradores. Quando acordei, lá estava ela, bem diante de mim. Como não a avistara no dia anterior?

Estava lá, bem no centro da mesa, ao lado da jarra de água, rodeada de livros e cinzeiros. Estiquei o braço, abri a caixa e tomei a medicação. Agora, era só esperar alguns minutos e puff! Eles sumiriam de vez. Contudo, depois, como sempre, eu não tomaria a pílula, só para voltar aos livros. E aos fantasmas de Italo Calvino.

O Eterno Marido – Fiódor Dostoiévski

Copiado do site Libru Lumen

Atenção: o texto abaixo contém revelações sobre o enredo (spoilers)

Alguns livros são inesgotáveis. A cada releitura revelam novos olhares, temas, teses e impressões da condição humana. Leia-os cem vezes e em cem vezes eles te surpreenderão. Entram facilmente nessa categoria as obras de Shakespeare, Cervantes, Homero e Dostoiévski  entre outras. E dentre os livros de Dostoiévski  O Eterno Marido certamente é uma rica fonte de reflexão e conhecimento. Escrito na Rússia de 1870, em apenas três meses, revela não só aspectos culturais e históricos como também psicológicos e humanistas. É considerado uma das poucas comédias escritas por Dostoiévski  embora carregada de dramaticidade. Ao lê-lo, o leitor vislumbra como que uma peça teatral sendo encenada à sua frente. Os protagonistas desfilam virtudes e defeitos que fazem ora odiá-los ora amá-los. Um paradoxo que só os seres humanos e os melhores personagens literários conseguem ter, tornando-os imperfeitos e íntimos aos leitores. Para os não iniciados em Dostoiévski  se quiserem antes de se aventurarem nos densos Crime e Castigo ou Os Irmãos Karamazov, O Eterno Marido é um ótimo antepasto que aguçará a vontade em se aprofundar mais na literatura russa.

Mas cuidado! Deve-se optar por edições recentes, traduzidas direto do russo, por preservarem o mais próximo possível o tom da língua original. As melhores edições de O Eterno Marido neste quesito são as da Editora 34 e da L&PM. As demais são traduções antigas do francês ou inglês que suavizam ou alteram o sentido de expressões e significados do texto. Contudo, a edição da 34, da famosa e cara Coleção Leste, apesar de trazer o nome de Boris Schnaiderman como tradutor, deixa a desejar pelo menos em três aspectos. Primeiro, por trazer palavras em total desuso aos brasileiros deste século, como cacete (adjetivo), incontinenti, imo, chusma, imiscuir, álacre e furibundo, para citar algumas. Não que se deva ser contra o uso de palavras da língua portuguesa para enriquecer o vocabulário do leitor, mas quando estas deixam uma impressão estranha e possuem alternativas torna-se uma falha de tradução e revisão, passando a impressão que ou a tradução é antiga (não neste caso) ou o tradutor é antigo (Schaneiderman nasceu em 1917). O segundo aspecto são as expressões estrangeiras traduzidas ao pé da letra – como “dar tiros de pólvora seca”, “sem mais aquela”, etc. – sem uma nota de rodapé que a situe no contexto brasileiro, quando muito só aparecendo entre aspas. O “dar tiros de pólvora seca” é encontrado em jornais lusitanos online, mas não se consegue captar o sentido. Por último, o tradutor indica no prefácio que a construção dos nomes em de Dostoievski dão importantes dicas sobre a personalidade das personagens, mas ele mesmo não traduz nenhum dos nomes do livro! É mostrar o doce à criança só para passar vontade. Na edição da L&PM tais detalhes aparecem, o que a torna uma opção interessante a se analisar. Além, é claro, da diferença no preço: enquanto a edição da 34 varia em torno de R$ 30,00 a de bolso da L&PM custa R$ 10,00.

Cabe aqui um pequeno adendo sobre os nomes russos que ajudará na leitura. O site Falando Russo explica que existem nome + patronímico (para revelar o pai) + o sobrenome (para o nome da família ou clã). O que se percebe na leitura de O Eterno Marido é o uso formal do sobrenome (por exemplo, Trussótzki), informal do nome composto (Páviel Pávlovitch) e íntimo dos diminutivos e apelidos (Pál Palitch). Assim, um mesmo personagem pode ser chamado de vários nomes diferentes, o que pode confundir inicialmente os leitores, além dos ‘itchs’ e ‘ovs’. Como já mencionado, Dostoievski usa palavras na composição dos nomes para indicar algumas características das personagens. Vieltchâninov deriva da palavra grandioso, opulento; Trussótzki de medroso. Como se já não fosse o suficiente esta salada de nomes, patronímicos, sobrenomes e apelidos, ainda existem as variações de sobrenomes femininos: marido e esposa possuem sobrenomes diferenciados: Trussótzki e Trussótzkaia, Pogoriéltzev e Pogoriéltzeva, Zakhlébinin e Zakhlébinina.

O enredo do livro é o bem conhecido triângulo amoroso, com marido, esposa e amante (Páviel, Natália e Aleksiéi). Apesar de o narrador estar em terceira pessoa, o ponto de vista (POV) adotado é o do amante. Diferente de Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que o POV era o do marido supostamente traído (Bentinho, Capitu e Escobar). Aliás, um ponto em comum entre os dois livros envolve a paternidade duvidosa de uma criança. E também, que muitas impressões, desconfianças e julgamentos sobre os personagens provêm do POV, podendo ser parciais e até incorretas. Pelo menos 20 personagens transitam no livro, grande parte mulheres, apesar de a obra ser considerada uma novela curta. Contudo, os protagonistas são apenas quatro, que evocam algumas teorias interessantes:

  1. O amante, Aleksiéi Ivânovitch Vieltchâninov – POV, solteiro, de 38/39 anos, morador de São Petersburgo, robusto, de alta estatura, barba até o peito, olhos claros, experimentado sedutor. Já dilapidara duas fortunas e estava envolvido em um processo que lhe retornaria uma boa renda. Julga-se hipocondríaco e somente no final parece curar-se de seu mal imaginário, justamente quando se livra de Páviel. Seria a relação de dependência, amor e ódio entre amante e marido uma correlação entre o hipocondríaco e a doença?
  2. O marido, Páviel Pávlovitch Trussótzki – viúvo, 45 anos, morador em T…, aparece na vida de Vieltchâninov depois de 9 anos de ausência. Após o falecimento da esposa passa a maltratar a filha, se vingando na pequena os pecados da esposa. É muitas vezes descrito como um paspalhão que comete maldades por ignorância ou capaz de crimes hediondos por impulso, sem que os tenha planejado. Ao final do livro, reaparece casado com uma cópia simplória da primeira mulher: jovem e dominadora.
  3. A esposa, Natália Vassílievna Trussótzkaia – falecida há 3 meses, morre de tísica aos 37 anos, mãe de Lisa, amante de Vieltchâninov por um ano e de Bagaútov, na sequência, por cinco. Vieltchâninov é dispensado por ela, que arruma um novo amante de qualidade inferior logo em seguida, surge a dúvida: ela o dispensou porque ele se apaixonara e insistia para que fugisse com ele ou porque ela temia aceitar a proposta?
  4. A filha, chamada somente de Lisa (apelido de Elisabete ou Ielisavieta) – menina de 8 anos, órfã de Natália, que sofre nas mãos de Páviel e desperta a empatia de Vieltchâninov. Morre poucas semanas depois, aparentemente de tristeza. Poderia ter contraído a tísica da mãe já que a depressão é um dos sintomas. Ou definhou porque se viu maltratada e abandonada pelo pai. Mas outra teoria da conspiração seria a de que ela cometeu suicídio, sendo a menção sobre o seu dedinho negro um indício.

 

Os capítulos são curtos – o mais longo tem vinte páginas – apesar de trazerem descrições, informações e reviravoltas. Entra aqui a capacidade genial do escritor de sintetizar muito em poucas palavras. O tom de suspense permeia todo o livro, começando em Vieltchâninov tentar lembrar-se quem é o homem que o persegue inclusive em sonhos. Depois, ele procura até o final do livro descobrir o quanto Páviel sabe sobre suas intimidades com a viúva e sobre a paternidade de Lisa. Os diálogos entre Páviel e Vieltchâninov são geniais e cheios de ambiguidades, como um jogo de xadrez em que o amante tenta forçar o marido a revelar o que sabe e o marido procura torturar os nervos e a consciência do amante. Como na passagem em que Páviel apresenta Lisa como “esta é nossa filha!”, podendo referir-se tanto a ele e Natália ou ele e Vieltchâninov; ou quando Páviel se confessa corno fazendo um par de chifres sobre a testa, mas que desejava tomar champanhe com Bagaútov, ex-amante da esposa, enquanto o fazia com Vieltchâninov.

O livro apresenta um desfile dos costumes russos do século XIX. Se por um lado traz duas famílias grandes (os Pogoriéltzev e Zakhlébinin) com várias filhas além de agregados, morando em zonas rurais e com chefes de família funcionários públicos, por outro lado apresenta a vida boêmia dos solteiros e viúvos na cidade, arrumando facilmente amantes, noivas ou esposas. Também aparecem secundariamente preconceitos de idades, classes sociais e gêneros. Aparecem as tradições do beijo na boca entre homens em sinal de amizade, do crepe no chapéu como luto, das cuspidas de desprezo. A influência francesa é evidenciada no beber champanhe ao invés de vodca e no uso de expressões e palavras. Dostoievski cita peças teatrais e músicas conhecidas pelos leitores da época que se encaixam perfeitamente no enredo.

Outra característica importante de Dostoievski é que “o escritor é exaltado por especialistas justamente por ter adiantado em sua obra muitas das questões que seriam desenvolvidas pela psicanálise nos anos seguintes” (fonte). Além dos sonhos de Vieltchâninov repletos de significados com a trama, a obra analisa a psique dos protagonistas, levantando algumas teses únicas:

  • Existem mulheres predispostas inconscientemente a serem esposas infiéis. Antes de se casarem são modelos de virtude, mas depois se tornam dominadoras e veem a infidelidade apenas como um mero aspecto do casamento.
  • Toda esposa infiel tem um parceiro que a aceita assim. São os “eternos maridos”, que lembram os cornos-mansos definidos nas peças de Nelson Rodrigues.
  • Pode-se amar alguém pelo ódio que se sente por ele. Páviel admirava Vieltchâninov por sua cultura antes de descobrir que era amante da esposa. Por ser de personalidade inocente, facilmente enganável, quando confrontado com a verdade, perdeu-se entre sentimentos e pensamentos. Como poderia odiar quem sempre admirou por uma falta cometida há tantos anos?
  • Existem homicidas não premeditados, irracionais, impulsivos. Estes estariam na teoria do crime andando sobre a linha tênue que separa os criminosos culposos dos dolosos, podendo desiquilibrar-se e cair tanto para um lado quanto para outro.

Tais considerações iniciais servem apenas como provocações para quem leu ou pretende ler O Eterno Marido. Embora em uma nova leitura, possam aparecer novos aspectos a serem considerados. A filmografia existente sobre a obra indica dois filmes: um francês de 1946 e um canadense de 1999, ambos inacessíveis. Porém, mais inacessível é a peça encenada em 1964, no sétimo episódio da 14ª temporada do programa Grande Teatro Tupi, da brasileira TV Tupi.

Feliz aniversário, Drummond!

Singela homenagem

 

Carrega-me tu, Drummond,
com tuas asas imortais de letras e fogo.
Queria saber o que sentes, Carlinhos,
agora, daí de onde estás:
 Serás anjo, homem ou demônio,
_ Poeta das sábias coisas!
Fala-me, através de teus poemas,
digo até daqueles eróticos de
sugar e ser sugado pelo amor
Canta de onde estás,
que eu ouço daqui,
ouvirei de minha cama
com teu livro entre as pernas.
Sonho hoje, amado mineiro,
com a possibilidade amalucada,
de um dia estar contigo,
e novos poemas de ti ouvir,
pois sei que não paraste de escrevê-los,
eterno Andrade que és!

Parabéns, Drummond, para sempre!

Estou postando exatamente como recebi em minha caixa de e-mail. Hoje é Dia “D” aqui no meu blog também!

Hoje é o Dia D, data do nascimento do grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Comemore essa data com a Companhia das Letras!
MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens

[presentes,

a vida presente.

(Poema de Sentimento do mundo)
Programação Completa
Antologia Poética Claro Enigma Contos de Aprendiz Contos Plausíveis
Fala, amendoeira As Impurezas Lição de Coisas A Rosa do Povo
Sentimentos do Mundo Menino Drummond José

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9 livros que mudaram o mundo

 

Desde o nascimento da civilização, os seres humanos têm registrado seus pensamentos em paredes, pedras, papiros, e nos famosos livros. E volta e meia, alguns livros causam abalos nas leis sociais reinantes, modificando o pensamento de muitos. Hoje, ainda há a possibilidade de não precisar comprar o livro, já que muitos clássicos estão disponíveis gratuitamente na internet!

Essa não é uma lista no estilo 1001 livros, que vai abarcar todas as fases do mundo da literatura e do pensamento. É só uma lembrança de alguns títulos, e espero que nos comentários cada um lembre também daqueles que mudaram a sua vida!

1 – A República, de Platão

Os gregos têm seu lugar reservado na história. E quando não estavam passeando por aí enrolados em lençóis, praticando sexo com os anciões ou guerreando, exploravam a filosofia, a natureza e a sociedade. E o incrível é a simplicidade: Platão sublinhou conceitos morais e sociais apenas com diálogos entre seus contemporâneos. E podem apostar, as ideias dele estão por aí até hoje.

2 – O Kama Sutra, de Vatsyayana

O primeiro livro de “sacanagem” da história. O texto Hindi foi um dos primeiros guias para os casais atingirem o prazer máximo. O livro descreve 64 práticas sexuais diferentes (as fotos só foram inseridas depois, infelizmente). Quer saber o mais incrível? Dizem que Vatsyayana seguia a castidade, mas através de muita meditação atingiu um conhecimento profundo da natureza humana. O que o livro influenciou? Não preciso nem dizer.

3 – Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, por Sir Isaac Newton

Com esse livro, um tanto complexo para aqueles sem bases nesse tipo de conhecimento, Newton revolucionou completamente todas as ciências da época. Aqui estão os três princípios básicos da mecânica, que provavelmente você estuda ou estudou na sua vida: o da inércia, da dinâmica e da ação e reação.

4 – Senso Comum, de Thomas Paine

Talvez não tão conhecido por aqui, mas muito famoso nos Estados Unidos. Na época dos reis e da colonização britânica, Paine começou a falar abertamente sobre liberdade e tirania. O resto você já sabe. Porque é radical? Junto com outros autores rebeldes, como Henry David Thoreau (não necessariamente envolvido nesse caso, mas por semelhança de ideal), convenceu o “João” comum da sociedade de que a Independência é uma boa ideia, dando espaço para a Revolução Americana.

5 – Folhas de Relva, de Walt Whitman

Considerado um dos expoentes da poesia, Whitman foi importantíssimo para quebrar barreiras desse estilo: ele tirou a poesia da academia, trazendo uma linguagem mais próxima de todos. Ele também uniu o romantismo e o realismo, gerando uma poesia livre. Influenciou muita gente, desde os Beatnicks até os poetas atuais.

6 – A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells

Escrito há mais de um século, esse livro deu origem ao que hoje chamamos de ficção científica. Wells influenciou uma geração inteira, contaminando a mente de crianças que passaram a sonhar em serem cientistas, astronautas e coisas do gênero. Ah, e também influenciou o Tom Cruise.

7 – A Reivindicação dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft

Essa obra, lançada no fim do século 18, num muito período turbulento da Revolução Francesa e dos ideais de liberdade do homem, formou a base do começo do feminismo. Nela, Wollstonecraft afirma que a mulher precisa ter direito a educação para sair de sua condição inferior, e condena o casamento como escravidão disfarçada. Por foi marcante? Deu ideias para acabar com a sociedade patriarcal.

8 – A Origem das Espécies, de Charles Darwin

Em um época onde o ateísmo está crescendo muito, esse provavelmente ainda é o livro de cabeceira de muitos cientistas e pensadores. Na época de Darwin todas as religiões eram criacionistas, e o livro de Darwin um de seus mais terríveis ‘inimigos’ já que deu base inequívoca sobre como os organismos evoluem para se transformarem em outros. Termos tão usados atualmente, como Seleção Natural, devem muito ao barbudo Darwin. Com certeza, um dos maiores livros científicos da história.

9 – Pé na Estrada, de Jack Kerouac

Saindo um pouco da ciência, e voltando à literatura, esse é um clássico marcador de uma geração. Ainda lido por muitos “alternativos”, “On The Road”, no original, foi o livro base da geração Beatnick, das décadas de 50 e 60 dos Estados Unidos. Essa geração marcou o começo de uma contra cultura que lança suas ideias até hoje. Além de toda a importância histórica, o livro ainda foi escrito de uma maneira completamente radical, em apenas três dias.

Copiado do site Hipe Science

 

Vai virar febre: Livros eróticos invadem a Feira de Frankfurt e o Brasil

Sexo é bom. Na literatura é elegantemente excitante. E com criaturas fantásticas?

Se você é humano, já pensou em sexo. Prazer, fantasias, intimidade — palavras que sempre aparecem ligadas ao ato sexual, ao erotismo. Mas se tudo o que move o imaginário erótico está ligado a um instinto que serve primordialmente para a reprodução, por que personagens terráqueos sempre estenderam seu desejo a alienígenas, seres mágicos e criaturas artificiais de todas as espécies por toda a história da literatura fantástica? Como seria ter um selvagem lobisomem entre quatro paredes, ou mesmo uma terrível e sedutora vampira? Seriam os androides eficientes também na arte do amor?

Foi para responder essas perguntas que 16 autores, conduzidos sem censura pelo veterano das letras e do erotismo Gerson Lodi-Ribeiro, que nasceu a coleção Erótica Fantásticada Editora Draco. Já está em pré-venda aqui.

 

Fenômeno?

Como nada precisa de muita explicação, o fenômeno deve passar despercebido. Ou não. Afinal, em literatura tudo é buxixo. Principalmente quando tem ares de movimento. Seria, então, um movimento literário feminino?

Como informa o título, a Feira de Frankfurt, na Alemanha,  causou frisson. Deve ser um novo boom. Mudança de foco. Já estão sendo negociados alguns títulos estrangeiros pelas editoras brasileiras. Sexo é saudável, afinal de contas, ainda mais na literatura.

Trecho da matéria na Veja:

“Desde a Feira do Livro de Londres, em abril, o que se constata é a explosão da produção e da venda de romances eróticos, com Cinquenta Tons de Cinza abrindo caminho para dezenas de outras autoras e assumindo a liderança — já são mais de 40 milhões de exemplares vendidos. “Agora, o mundo está tentando encontrar um livro, ou uma trilogia, que possa ter uma performance como a de E L James”, conta Andy Hine, diretora de direitos estrangeiros da britânica Little, Brown, do grupo Hachette, que também está tentando pegar carona no fenômeno. Ela publicou, entre outros, A Haven of Obedience (Um Refúgio da Obediência, em tradução direta) e Dark Secret (Segredo Obscuro, em tradução livre), de Marina Anderson, já vendidos no Brasil para a Ediouro.”

Editoras já trabalham com reedições

Um exemplo da corrida do ouro é o livro Falsa Submissão, da escritora Laura Reese. A editora Record divulgou o lançamento de uma nova edição do título.  Doses do mais inusitado erotismo. A escritora admite, em entrevistas, que, em muitos casos, as estórias partem de experiências pessoais.

 

 

Mas parece que a mola propulsora foi mesmo a trilogia “Cinquenta tons de Cinza”, de E L James, que foi comparada a um “Crepúsculo adulto”. Sexo sobrenatural?  Leia resenha.

Trecho

“…Sinto aquela tesão dentro de mim. Músculos com os quais agora já estou mais familiarizada se contraem diante dessas palavras. Mas não posso aceitar isso. Sua arma mais potente usada de novo contra mim. Ele é muito bom com sexo – até eu já entendi isso.”

Seria uma exigência do público feminino? Certamente, se analisarmos que a mulherada está, digamos, se expandindo nesta era de libertação e queda de valores morais.

Um ótimo exemplo é outra trilogia da Editora Leya – “Luxúria”, da escritora Eve Berlin, que trata do apimentado tema sadomasoquismo.

Sinopse

SE VOCÊ NÃO FOR AO LIMITE, COMO SABERÁ ATÉ ONDE PODE IR?

Quando Dylan Ivory, escritora de romances eróticos, recebe o contato de Alec Walker, nem imagina o quanto esse homem pode mexer com seus pensamentos.
Conhecido por ser um famoso dominador em relações sadistas e sadomasoquistas, Alec tenta convencer Dylan de que a melhor forma de se aprofundar no assunto – e então escrever um livro o mais próximo possível da realidade – é viver uma experiência como submissa e sentir na pele a sensação desse tipo de relação. Para Dylan, essa proposta será difícil de ser aceita – uma vez que ela é fanática por ter o controle de tudo em sua vida.
Embalados por um misto de prazer e apreensão, o casal se vê em uma situação tentadora enquanto evitam entregarem-se ao sentimento que nasce entre eles.
Primeiro romance da trilogia erótica de Eve Berlin, Luxúria traz uma história envolvente carregada de desejo e amor em que cada limite superado revela sensações ainda mais prazerosas.

Então é isso. Leitoras e leitores, deleitem-se com essa onda de erotismo na literatura. Para quem aprecia o gênero, nunca o mercado esteve tão quente.

 

 

 

 

Os 10 melhores finais de livros – Carlos Willian Leite

Esta excelente matéria é do site BULA Revista, com Carlos Willian Leite que colheu opiniões de escritores, críticos, professores e jornalistas. Os com asterísticos eu concordei, outros ainda não li.

Nada de Novo no Front
(Erich Maria Remarque)

“Estou muito tranquilo. Que venham os meses e os anos, não conseguirão tirar nada de mim, não podem tirar-me mais nada. Estou tão só e sem esperança que posso enfrentá-los sem medo. A vida, que me arrastou por todos estes anos,  eu ainda a tenho nas mãos e nos olhos. Se a venci, não sei. Mas enquanto existir dentro de mim — queira ou não esta força que em mim reside e que se chama “Eu” — ela procurará seu próprio caminho… Tombou morto em outubro de 1918, num dia tão tranquilo em toda a linha de frente, que o comunicado se limitou a uma frase: “Nada de novo no front”. Caiu de bruços, e ficou estendido, como se estivesse dormindo. Quando alguém o virou, viu-se que ele não devia ter sofrido muito. Tinha no rosto uma expressão tão serena,  que quase parecia estar satisfeito de ter terminado assim.”


On The Road *
(Jack Kerouac)

“Assim, na América, quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? A estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa, que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia, e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice. Penso então em Dean Moriarty, penso no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos, penso em Dean Moriarty.”


A Espera dos Bárbaros
(J. M. Coetzee)

“No centro da praça, algumas crianças estão construindo um boneco de neve. Acerco-me, temendo assustá-las, mas tomado de uma inexplicável alegria. Não se assustam, estão ocupadas demais para sequer me notar. Terminaram o grande corpo redondo e, agora, estão fazendo uma bola para a cabeça! – Alguém tem de ir buscar as coisas para a boca, o nariz e os olhos – diz o menino que os lidera. Ocorre-me que o boneco de neve precisará de braços também, mas não interfiro. Colocaram a cabeça sobre os ombros e, com seixos, fazem os olhos, as orelhas, o nariz e a boca. Um deles o cobre com o boné. Não está mal o boneco. Não se trata da cena com que costumo sonhar. Como tantas outras vezes atualmente, deixo-os, sentindo-me tolo, como um homem que há muito se extraviou, mas que ainda insiste em seguir pela estrada que não o levará a parte alguma.”


Cem Anos de Solidão
(Gabriel García Márquez)

“Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra”.


1984 *
(George Orwell)

“Já não corria nem dava vivas. Estava de volta ao Ministério do Amor, tudo perdoado, a alma branca de neve. Estava na tribuna dos réus, confessando tudo, implicando todos. Ia andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol, acompanhado por um guarda armado. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão esperada. Levantou a vista para o rosto enorme. Levou quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh mal-entendido cruel e desnecessário! Oh teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gin escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente vencida a batalha contra si mesmo. Amava o Grande Irmão.”


Lolita *
(Vladimir Nabokov)

“Nenhum de nós estará vivo quando o leitor abrir este livro. Mas, enquanto o sangue ainda pulsa nesta mão com que escrevo, você faz parte, como eu, da bendita matéria universal, e daqui posso te alcançar nas lonjuras do Alasca. Seja fiel a teu Dick. Não deixe que nenhum outro homem te toque. Não fale com estranhos. Espero que você ame teu bebê. Espero que seja um menino. Esse teu marido, assim espero, sempre te tratará bem, porque, se não, meu fantasma o atacará como uma nuvem de negra fumaça, como um gigante insano, e o destroçará nervo por nervo. E não tenha pena do C.Q. Era preciso escolher entre ele e o H.H., e era desejável que H.H. existisse pelo menos alguns meses a mais a fim de que você pudesse viver para sempre nas mentes das futuras gerações. Estou pensando em bisões extintos e anjos, no mistério dos pigmentos duradouros, nos sonetos proféticos, no refúgio da arte. Porque essa é a única imortalidade que você e eu podemos partilhar, minha Lolita.”

Notas do Subsolo *
(Fiódor Dostoiévski)

“Deixem-nos sós, sem livros, e imediatamente ficaremos confusos, perdidos – não saberemos a quem nos unir, o que devemos apoiar; o que amar e o que odiar; o que respeitar e o que desprezar. Até mesmo nos é difícil ser gente – gente com seu próprio e verdadeiro corpo e sangue; sentimos vergonha disso, achamos que é um demérito e nos esforçamos para ser uma espécie inexistente de homens em geral. Somos natimortos, e há muito tempo nascemos não de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Estamos tomando gosto. Em breve vamos querer nascer da ideia, de algum modo. Mas basta, não quero mais escrever “do subsolo”… Entretanto, aqui não terminam as “notas” desse paradoxista. O autor não resistiu e prosseguiu com elas. Mas nós também pensamos que é possível terminar por aqui.”
Crime e Castigo *
(Fiódor Dostoiévski)

“Ela esteve também comovida todo aquele dia e, à noite, voltou a ficar doente. Mas era feliz a tal ponto que quase a assustava a sua felicidade. Sete anos, só sete anos! No princípio da sua felicidade, houve alguns momentos em que tinham estado dispostos a considerar aqueles sete anos como sete dias. Ele nem sequer sabia que a vida nova não lhe seria dada gratuitamente, mas que ainda teria de comprá-la caro, pagar por ela uma grande façanha futura… Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, completamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa… mas a nossa presente narrativa termina aqui.”


O Grande Gatsby
(F. Scott Fitzgerald)

“E, quando lá me achava a meditar sobre o velho, desconhecido mundo, lembrei-me da surpresa de Gatsby, ao divisar pela primeira vez, a luz verde e existente na extremidade do ancoradouro de Daisy. Ele viera de longe, até aquele relvado azul, e seu sonho de ter-lhe parecido tão próximo, que dificilmente poderia deixar de alcança-lo. Não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite. Gatsby acreditou na luz verde, no orgiástico futuro, que ano após ano, se afastava de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços… E, uma bela manhã… E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.”


O Estrangeiro
(Albert Camus)

“Pela primeira vez, em muito tempo, pensei em mamãe. Pareceu-me compreender por que, ao fim de uma vida, arranjaram um ‘noivo’, porque recomeçara. Lá, também lá, ao redor daquele asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma trégua melancólica. Tão perto da morte, mamãe deve ter-se sentido liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me senti pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.”