Absurdos universalmente cariocas

Publicado em alforrias às Junho 23, 2009 por Daisy

Já era o quarto ou décimo conhaque. Sem contar as tantas long neck goela abaixo, numa esfusiante alegria mentirosa que só a cerveja trazia. As risadas acabrunhadas que saíam da boca de um homem triste. E dor nos dedos, de tanto rodar aquelas malditas chapinhas.

Olhou para a garota de programa. Disse que estava pagando hora extra, que ela escutasse o resto da estória. Ele preferira uma ouvinte a uma sinistra noitada de enlaces carnais. Sexo, dizia, nem sempre lhe era necessário. Não era um cão. Ao menos, não um que não pensasse, e sofresse por amor. É isso mesmo, ele continuou, estou pagando para ser ouvido. Pagando mico porque não sei se falei mesmo com Deus ontem. Você nem precisa analisar ou tentar adivinhar. Apenas ouça. Caladinha. Sem sorrisos condescendentes, sem ironias. Sem blasfêmeas porque pode ter sido mesmo uma experiência sobrenatural.

Onde eu estava mesmo? Hum… Sim, eu havia chegado em casa tarde da noite, depois que minha mulher dissera que estaria apaixonada por outro, e se foi, sem maiores explicações… O quê? Mais uma long? Tá bem, tá bem! Mas ouça com atenção. Sabe quem é Deus, né? Não? Bem, tudo bem. Eu também não sei. Não por incredulidade, mas, francamente.

Eu nem sei o que é genética, física quântica. Esses fenômenos da criação genial me distanciam de Deus. Micro-universos, um sem fim de galáxias. Quem sou eu, certo? Mais conhaque, meu chapa! Manda ver!

Então, eu chegara bêbado em casa. Não sabia se queria vomitar ou cagar. As duas coisas não dava. Assim começou minha agonia. Sou um homem limpo e não conseguia me imaginar vomitando na pia, enquanto a coisa me borrava nas calças. Chorei copiosamente, olhando-me no espelho. Eu via uma cara vermelha, uma imagem safada rindo de mim. Eu estava horrível, cara!

Meu cigarro acabou de novo. Garçom! Um Hollywood vermelho. Será que alguém ainda se orgulha de consumir coisas vermelhas? É política, bobinha! Você até que é bonitinha… Por que entrou nessa de prostituição? Volta a estudar, porra! Bem, eu nada tenho a ver com sua vida. Foi só uma sugestão. Onde eu parei? Ah… acendeu, obrigado, menina.

Resolvi que sentaria no vaso. Se vomitasse, seria no chão. Eu limparia tudo depois. Seria fácil, se não fosse a descoberta de que eu simplesmente não conseguia levantar-me daquele maldito vaso sanitário. Ou seria vaso sanatório? Eu estaria louco? Precisava me limpar e não tinha papel. Jornal de ontem. Nada! Olhei para o lado. Então eu a vi…

Por que você se coça enquanto eu falo, garota? Quer mais dinheiro? Um presente, sei lá! Dou um batom. D’O Boticário. Sei que vocês gostam…

Eu vi a Bíblia da minha mulher sobre a banqueta que deixávamos no canto do banheiro. Era como um revisteiro, entende? Revisteiro… de revistas! Ah! Então. Passou pela minha cabeça, eu confesso. Ocorreu-me usar aquelas folhas fininhas como papel higiênico. Ei, não precisa fazer esta cara! Aliás, eu estou pagando pelos seus ouvidos e só. Toma, bebe conhaque, talvez você sinta menos culpa. Batom rosa. Combina com sua idade. Deve ter uns vinte, não? Deveria ter pudor sobre isso também. Chega desta estória.

Se Deus existia ou não não era a questão. Ele existia sim, concluía com olhos vermelhos e brilhantes. Eu é que sou um vermezinho ignorante, portanto não tenho obrigação de entender o cara que criou isso tudo. Entretanto, o que chamou minha atenção, foi a atenção que Ele me dispensou naquele vaso.

Quanto custa o batom? Vinte pagam? Toma cem pelo seu silêncio. Bons ouvidos, garota. Estuda para ser terapeuta, psiquiatra. Com essa falsa concentração você vai longe. Pigarro. Ela, já relaxada de conhaque e com o dinheiro, fala, como se falasse sozinha. E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro, com enfeites de prostituta e astuto coração. Quê? Ela olhou para ele e riu: Provérbios de Salomão, 7, 10. A putinha era inteligente. Sabedoria ou ex-crente? Voilá!

Ela levantou-se e andou em direção à porta de saída. Ele pensava se fora mesmo Deus que o tirara do vaso e o limpara no chuveiro. Apenas acordara na cama. Limpinho. Gritou para a garota se ela concordava que fora Deus naquele banheiro. Ela joga os cabelos para trás e dá mais um daqueles sorrisos soberbos. Não, não foi Deus. Foi sua mulher! Tá.

Manuscritos

Publicado em Belas with tags às Maio 29, 2009 por Daisy

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A vida, feita de instantes, não surpreende mais. Bom e mau é você que acorda às tantas e olha ao redor como se o mundo tivesse acabado. Em meio a apocalípticos arrotos, você encara um banho frio porque houve batida de carro, o poste se foi com os fios. Teus cabelos desgrenhados te deixam até mais bonito, mas nem só de beleza sobrevive tua concupiscência.
O lodo e a máscara de Veneza não mais te caem bem. Acabou o carnaval e já é junho, festa de bolos e milho, quentão é meu coração e ainda bem que tenho linda bota e botafogo não ganha, desliga esta televisão, dê descarga e vá logo!
É chegada a minha hora, desta vez eu vou escolher. Pode ser que acerte, e mesmo se eu errar, que bom errar sozinha. Meu nome é Suzana e sou escritora. Medieval, ainda creio em sacrifícios, mulher sangrando, masmorra e muitos amores. Sou bonita e falo muito entre amigos, até descobrí-los inimigos do meu ser.
Este cara aqui na minha cama é o Flávio, um homem, como podem ver, bem apanhado, magro e gentil. Mas não é o meu homem. Aliás, nunca é.
Preciso terminar um conto, pois publico no jornal Esfera, pois é, um grande jornal, porém, meu livro de ficção, “Arroubos de uma mulher sã” ainda não terminei e já gastei todo o dinheiro adiantado. Esse aí só dorme. Acabou nosso caso. Ele não me ama e eu começo a odiá-lo.
Meu nome é Cristina, Suzana é pseudônimo. Ambos são bregas, feios. Eu queria me chamar Anna. Anna Karenina eu queria ser. Mas ele me fez de vadia sem vódka e até quis me enganar com aliança e casório. Eu acho que acabamos. Ele me odeia e eu o desprezo.
Tenho várias botas e não sei qual usar no domingo. Uma de cano longo é perfeita, e cano longo tem o revólver que inventei para matar este que dorme ao meu lado. Ele me deixa e eu morro sem ele. Fez de conta que era eu uma princesa. Só que eu era mais a bruxa que enfeitiça.
Esta é outra personagem, do tal livro que não termino. Só manuscritos que eu sempre toco fogo. Meu nome é tristeza e este que dormia aqui chamava-se ladrão. De todos os meus sonhos eu sonhei escrever ladainhas, sou expert, não acham?
Meu nome é Maria, este é de batismo. Sou Maria, ele é João. João Ninguém é ele.
Eu, sou solidão. Esta cama aí vazia é minha há muito tempo, mas vou jogá-la fora. Vou viajar. Depois termino a estória. Ela não tem mesmo fim. São episódios, sou oportunista, ganho dinheiro com pseudônimos eróticos.
Pernóstico ele era. Eu sou pobre e soberba. Meu nome mesmo é Katrina, que rima com latrina, onde o joguei em pedaços de fotografia.
Esse cachorro não para de latir. O cachorro mesmo, um negro labrador, gordo e chato da vizinha. Nem digo quem ouço no rádio, aliás, computador.
Quis ser romântica, mas é MP3. É um louvor, música gospel, leveza em meu ser. Essa é outra personagem. O cara paga bem. Ele é o João Ninguém, entretanto, ama como poucos. Eu sou sonífero, ele é festa. Meu nome é ele, e ele anônimo é. O livro, eu vou conseguir… terminar.

[Para Anna Karenina]

Difícil é amar uma mulher e simultaneamente fazer alguma coisa com juízo. (Tolstoi)

Uma esperança

Publicado em Crônicas with tags às Maio 25, 2009 por Daisy

esperança

“Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre…”
O que pode ser melhor que iniciar a semana com… esperança? Melhor ainda, lendo Clarice Lispector, relembrando como é bor ser humano, ser feliz, ligar o rádio, pão com manteiga e um conto desta musa, trazendo à minha lembrança a palvra esperança.
Talvez não a palavra em si, mas o fato de vir à mim, numa segunda-feira, em uma manhã eu sozinha, sei lá. Há algo de sobrenatural, uma espécie de voz me dizendo: Olá, está chegando para ti algo de muito bom!
O fato é que eu me animei, liguei as máquinas, músculos e computador. Resolvi dar vida a esta esperança. Lá, no conto de Clarice trata-se de um trocadilho com um insetinho verde que realmente entra em sua casa. Entretanto, este detalhe (ser um inseto) não livra o poeta de divagar. Esperança não é, definitivamente, a última que morre. Muito ao contrário, ela se eterniza em nossa alma. Ela se revigora, passa por metamorfose, muda os sonhos e os desejos. Porém, está sempre lá, pousada na parede do nosso estômago, dando aquele friozinho gostoso e a certeza de que algo bom vai acontecer. Um novo dia, uma nova empreitada profissional, um novo casamento. Ah… e no coração, ela é sempre condescendente. Chama a amiga ilusão. O coração recepciona a festa que antecede um novo amor. E creia, ele sempre vem.
A Bíblia diz que três são as coisas boas e fundamentais para nós: o amor, a fé e a esperança. Devemos esperar sempre. Fé é algo invisível que acredita no invisível. Um tanto complicado. Todavia, a esperança faz parte da gente. Está no DNA. Mudanças é o que anseamos, necessitamos. Um novo governo mediano, um carro novinho, talvez importado. Uns quilos a menos e puf! Um novo amor. Poetas, somos privilegiados, pois roteirizamos nossas coisas de amor.
Diz mais o conto clariciano:
“Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça, numa parede.”
O inseto é frágil, bonitinho. Qualquer aranha pode comê-lo. Mas ele não desiste de viver entre os predadores. Coisas de esperança. Ela não morre não, meu amigo. Nem em última instância. Não mesmo.
Se eperança morresse, eu não teria acordado feliz, numa segunda-feira, com um livro antológico de Clarice Lispector em minhas mãos.

Vento preso entre as montanhas

Publicado em Contos às Maio 21, 2009 por Daisy

no ar

O homem estava cansado daquele fardo. Seu suor era pesado e salgado. A boca ressequida desistira de beijar. Os lábios rachados já não sorriam mais. As montanhas ficaram altas para seu pasto e suas pernas. Ele rugia de madrugada e roçava pela manhã o que restara da lavoura de sua vida.
Ele era um só, mas as dores e dívidas eram várias. Sem fim. A mulher se fora, doença infernal. A moça da fazenda vizinha, também infernal, ia, às vezes, brincar com seu corpo já pouco viril.
Era deserta aquela banda da terra e a menina se fartava de um mel ralo e sem amor, desmaiando no colo daquele homem ressentido e fraco. O fazendeiro não era mais que esquálido ser sem esperança, nem céu e nem a terra o adivinhavam mais. O sol ia e vinha. Somente seu rosto curtia naqueles dias.
E lá vinha a fogosa moça, cabelo de milho e seios de pera, bolinar sua solidão. O cão, latindo espreguiçava-se. A velha Bíblia enfeitava a estante rústica no meio da sala onde ele não mais estava.
Seu quarto tinha mofo. Seu pênis tinha bolor, que a menina lambia com misericórdia e raiva.
Naquelas bandas não tinham escolha. Ele preferiria estar morto. E ela, longe, com um belo rapaz de vinte anos. Nem um, nem outro tinham opção. O morro uivava na roça e o viúvo vomitava a cachaça envelhecida. Faziam amor de olhos abertos e ela engravidou.
O bastardo filho do sol, o filho da solidão daquelas bandas abandonadas. O garoto cresce em silêncio enquanto a moça envelhecida também, costura seu arrependimento e não mais vê seu rapaz de vinte anos.
O pai, com cara de avô ainda vomita com um mato entre os dentes. Naquelas bandas, um garoto não fala e nem ouve vozes. Comem o jantar feito na lenha e o povoado uiva aquela gente maldita.
Ela dorme nua e ainda tem fogo nas ventas. Mas ele desiste do sexo que já não dá prazer. Olha o filho e depois para o céu. O cachorro late, enquanto ela escolhe o melhor terno para o homem. O enterro seria digno naquelas bandas sem funeral.

Nota – Nem sempre a vida é triste. Bom mesmo é vê-la assim.

Sol com mamão

Publicado em Crônicas às Maio 16, 2009 por Daisy

foto

Andei longe de casa por alguns meses. Para meu lagarto, o Pery, foram longos meses, já que o bichinho, de um ano e meio, ficara triste. Mal comia. Escondera-se no terraço da casa, seu habitat natural. Eu até duvidei, mas ele estava mesmo arredio e triste. Vejam só, um pecilotérmico sofrendo de amor e saudades.
Quando retornei de minha aventura, e eu sempre volto, quis vê-lo. Então, eu preparei uma salada de mamão com ovo batido que ele adorava. Não apareceu na hora, no entanto. Constatei, um tempo depois, que a comidinha havia desaparecido. Alguém estava com muito apetite.
Fiquei feliz, mas ainda queria vê-lo. Eu também sentia saudades, não era privilégio do Pery. Eu também tinha sentimentos. Igualmente perdia o apetite quando em tempos de saudades e separação. Eu o amava, afinal ele viera para mim ainda um bebê e dormia enroladinho debaixo do meu travesseiro. Acho que ele confundiu minha ausência com falta de amor. De alguma forma seu amor por mim havia esfriado.
Horas mais tarde subi ao terraço e dei com ele nas suas pedras, pegando seu solzinho costumeiro.
Em silêncio, me aproximei e sentei-me bem próximo. Com gestos calmos, pois verifiquei que o animal tornara-se arisco. Fiquei triste.
Passamos momentos silenciosos. Estáticos, ficamos nos fitando todo o tempo, nos avaliando. Avaliando a vida. A mágoa da separação. Medíamos o tamanho de nossas falhas, a falta de consideração por parte dos que amamos.
Ele estava crescido e lindo, porém, faltava um pedacinho de sua calda. Os lagartos, para sobrevivência, muitas vezes comem seus rabos, pois eles se regeneram.
Fiquei magoada com aquilo. Seria mais fácil ele aceitar a comida que lhe davam, ao invés de se multilar. E tudo por amor a mim.
Uma lágrima rolou em meu rosto, já que eu também sentia-me mutilada de alguma forma. Todavia, o bichinho não entenderia essas analogias. Eu não merecia perdão.
De repente ele agitou-se e se foi para dentro de uma poltrona velha, sua casa.
Fechei os olhos e pensei que por mais que estivéssemos tristes, desfrutamos naquela manhã do calor do sol.
Porque ao menos o sol, definitivamente, nascia para todos.

Quanta bobagem

Publicado em Crônicas às Maio 11, 2009 por Daisy

lendo
Ela estava na varanda molhando as plantas quando viu aquele livro jogado ao sol. Provavelmente alguém, a empregada ou o ex-marido, o deixaram por lá. Notou que era Platão. Fedro. Sentiu-se velha como velho era o Sócrates. Entretanto, cedeu à nostalgia dos tempos de faculdade e abriu o livrinho, esquecendo-se da vassoura e do jardim. Afinal, como mulher ela até que apreciava aquele discurso sobre o Amor. Inda mais nesses tempos de fossa e solidão. Ela, quer dizer, eu, eu mesma, confesso, abri numa parte bem interessante. Para quem nada estava fazendo sentido mesmo, arriscou, arrisquei aquele trecho em voz alta, enquanto pombos e rolinhas bebericavam a água que escorria das plantas. Parecia bobagem, parecia bom. Parecia verdadeiro, parecia iventivo. Talvez contundente, talvez vazio. De qualquer forma, desisti do jardim e me perdi entre estas palavras platônicas. Que coisa mais antiga. Talvez do amor. Talvez da loucura. Li em voz alta com estranho fundo musical que só depois verifiquei ser a água da borracha molhando meus pés…
[..]Queres te tornar cada vez mais virtuoso? Confia em ti e não na pessoa que te ama, pois o que ama louvará sempre as tuas palavras e teus atos sem se preocupar com a verdade e com o bem, de medo de te perder ou pela simples cegueira que é própria da paixão. São estas as ilusões do amor. O amor infeliz aflige-se com aquilo que a ninguém incomoda; o amor feliz acha que tudo é encanto, as menores e mais insignificantes coisas. O amor é mais digno de piedade do que de inveja. Se cederes aos meus desejos, não me verás à procura na tua intimidade, de um simples prazer efêmero.
Hei de estar vigilante a que nos liguem interesses duráveis, pois que, liberto do amor, sou capaz de me dominar. Sem me deixar levar por motivos fúteis a ódios furiosos, não me aborrecerei por causa de faltas insignificantes, mas só diante de erros graves me irritarei contigo. Perdoarei o que fizeres sem intenção e tentarei impedir as más ações. São estes os sinais de uma amizade duradoura.[..]

Quando o vento soprar

Publicado em poema? às Abril 27, 2009 por Daisy

essa

Coisas simples
Como um relógio cansado
Que atrasa a hora da colheita
Simples como um sol negro
A despedida vem com a chuva
E memórias entrecortadas
Naquela colcha de retalhos
Estampada de rosas tristes
Ressequida de suor
Ressentida na esquina eu
Simples assim, uma flor esmagada
Pela pata do mau entendido
Sem sentidos
Calo o meu cl’amor
Só eu sou.

Dor

Publicado em Belas with tags às Abril 27, 2009 por Daisy

esta

Desejos são fragmentos de um mesmo querer, assim, sem muitas frescuras, não há como não desejar. Desejam o homem alheio, o país alheio, a mulher daquele, um sorvete, um carro novo.

Desejos são bucólicos, certeiros, errados, inofensivos, e muitas vezes mortais. Vide Shakespeare. Difícil conter alguns desejos, uns nem tanto, mas há desejos ferozes, mordazes, animalescos, assassinos.

Quem não quis matar alguém, ou algo, uma lembrança…

Desejos loucos, insanidades poéticas, desejos de se afogar por um amor, ou trepar na videira e morrer enforcado de uma vez. Desejos caninos, lobos e coelhas no mesmo pasto com vacas burras e homens maus, muito maus.

Vontade não dá e passa, é mentira, se não sacia ela mata aos poucos. Pode até esquecer, mas é difícil. Tesão ou não, desejo é desejo, é dormir com esse barulho que nem é muito e nem é por nada, é difícil como uma doença rara.

Amor é ruim, chato, limita as possibilidades de outros desejos. Um cinema cai bem, mas com quem? Maldito desejo de estar com a pessoa que rouba, como o diabo a nossa paz. Leva embora as flores do apocalipse, contradições de embriaguez de quem deseja desejar.

Desejar uma cama macia, um perdão, roupa nova, vestidos e luvas de pelica. A porrada é certa, e na hora de dormir, vira pro lado e sonha com um anjo que cospe fogo e agarra a saia com garras de dragão.

Homens que desejam e não sabem ter. Não me têm, não mais. Isso é desejo: não desejar querer mais alguém. Para isso fazer o quê? Achar outro corpo para hospedar a libido morta em escamas cintilantes. Matar um e beneficiar a outro.

Desejos matam, mas morre quem não os sacia. Morre quem não arrisca. Morre. Eu morro sempre. Vida louca. Vida minha. Vidinha.
Se não cobiço não estou viva, fim de semana, é tempo de desejar. Mas a quem vou querer nesse fim de mundo? Minha cabeça é confusa e esses tecnológicos encontros me insatisfazem.

Na insatisfação corro riscos. Há tentações em meus porões, creio que ficará difícil sair dessa sem um crime. Crime sem castigo. Eu e minha consciência nos bastamos. Na minha ou na sua (cidade)?

Necessidades

Publicado em Contos with tags às Abril 20, 2009 por Daisy

manequim

Naquele dia, acordara diferente. Senti que meus cabelos estavam mais compridos. Sentia-me mais esguia e mais suave, Até no andar; isso eu notei ao caminhar para o banheiro, pois sempre o fiz em correria, já que tenho mania de ‘prender’ aquele xixizinho da madrugada.
Olhei minhas mãos na hora de lavá-las e, nossa! Minhas mãos estavam lindas, sedosas, e as unhas haviam crescido um pouco. Notei que nelas não havia cutículas. Até ali, eu pensei, deveria ter uma explicação. Para tudo havia explicação neste mundo. Até eu olhar meu rosto no espelho, ao escovar os dentes. Falo sério, é verdade, eu nem gostaria de contar a ninguém, mas é maravilhoso, é mágico, sei lá. Meu rostinho. É, rostinho. Eu havia rejuvenescido. Porém, era de uma jovialidade além de física, e embora algumas rugas de expressão se tivessem ido, eu observei no reflexo, um rosto que provavelmente eu deixara para trás havia anos.
Perambulei encantada pela casa, e em meu quarto peguei o celular e tirei fotos de mim. Que sorriso alegre, que…
O gran finale, a hora do banho. Tirei a roupa e não cri no que vi e senti. Um corpo mais magro, pernas roliças e firmes – não que eu fosse flácida antes – entretanto, aquele não era meu corpo, mas não era mesmo. O que não significava impecilho para mim, muito pelo contrário, deveras agradou-me ensaboá-lo, e sentir um arrepiozinho daqueles.
Esperta que sou, fui lá no armário e pesquei um vestidinho que há muito não usava. Sabe como é, uns quilinhos a mais arrasam qualquer mulher solteira.
O vestido escorregou ombro abaixo como uma luva, como calda de morango na garganta. Que delliciosa sensação.
Agora, com os cabelos mais longos, escovei-os com prazer e fui andar na rua para ver se as pessoas notavam a diferença.
Lá fui eu, mais feliz que criança abrindo presentes de aniversário.
Eu não desejava que homens me olhassem com cobiça, nem que mulheres – as vizinhas – me invejassem. Só gostaria que compartilhassem comigo aquela sensação de alegria. De renovação.
Tudo deu errado.
Os homens confundiram as coisas, como sempre. E a maioria das mulheres não sabe mesmo viver sem a inveja.
Como eu gostaria que todos mudassem também. Era bom me sentir mais bonita e cheia de ânimo. Mas algumas sensações, ou as sentimos sozinhos, ou melhor não sentí-las.

Servir

Publicado em Luz e escuridão às Abril 13, 2009 por Daisy

servir

Inspirada no post do amigo Jhônatas, resolvo fazer umas considerações a respeito da nossa convivência. Com tantas filosofias e tantos pensamentos pela rede, vejo, através de blogs dos mais variados segmentos, que ainda nos encontramos desencontrados. A impressão que tenho é que não sabemos bem fazer uso da nossa inteligência.
Dostoievski declarou que a maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é infeliz. Por outro lado Agostinho deflagra a ignorância mais refinada é a ignorância da própria ignorância.
Ora, claro está que somos andarilhos perdidos em nós mesmos. Não quero levantar bandeiras, entretanto, é notável a decadência filosófica da humanidade. Tantas voltas para descobrir que o mundo é redondo. Uau.
O ateísmo, por exemplo, permeia pela blogosfera. Todavia, numa análise mais profunda, sem querer dar uma de antropóloga ou metida a besta, é fácil entender esta sensação de auto-suficiência com as novas ferramentas das novas linguagens com seus hipertextos e afins. Se o sujeito pode comandar, sentado em seu quarto, o seu blog, navegar mundo afora, tendo acesso a todo tipo de informação e imagens, ele se pensa uma espécie de deus. Até porque está onipresente, onisciente na net, e a salvo de qualquer violência. É seu quarto, afinal.
Mas esta sensação é momentânea, como tudo no ser humano. Já andamos por aí sem roupa e sem internet. Neste caso, levando em conta a infinitude das coisas, podemos muito bem esperar por boas novas. E elas sempre vêm.
Não é discurso religioso, nem filosofia infundada, dessas que não chegam a uma conclusão – coisa chata até. Apenas fui inspirada, talvez até por alguém mais esperto e inteligente que eu. Possivelmente, a mesma pessoa que criou os mares, os céus, não?
Bem, a idéia do texto é analisar a falsa auto-suficiência nossa de cada dia. Tem uma mensagem que diz que devemos nos servir uns aos outros. Assim, escrevendo textos sérios que levem à reflexão pacífica entre as pessoas na rede, acho que praticamos, mesmo sem querer, a vontade da sabedoria.
Oxalá.