Máquina, eu ainda sei amar

Posted in Belas on Janeiro 27, 2012 by Daisy

Então eu vi vísceras em ocasiões diversas. Porque sou obrigada a conviver com miséria, fuligens, e sopros nem tão divinos assim. Caminho pelo planeta, nem sempre alegre, nem sempre triste, porém muitas vezes atenta a um atentado (como fosse mulher árabe), uma luta de esquina, de esquerda.

Vou caminhando, apanhando rosas, curando espinhos e beijando a mim mesma por pura piedade de ti. São tantos os tropeços, as viradas, as vielas por onde passo para abraçar meu pai, e o namorado que invento toda vez que choro sem amor, toda vez que luto sem motivo, sim, lá está um namorado, um beijo mordido, e sangue na alma.

Às vezes penso que a luta está perdida, minha voz falha e rouca flutua sobre você, querendo possuir-te, escravizar-te e ser vossa dona. Logo eu que cantei a liberdade em tempos outros. Eu que fui a favor do livre arbítrio e da liberdade de expressão, quero calar-te agora depois que o romance com a democracia dissolveu-se?

Não porque eu quisesse, mas porque a vida me endurece a cada ano que passa. E passa como se fosse apenas um minuto, um segundo roubado de meu peito que sangra junto ao rio de pragas.

Quantas vezes escrevi poemas de olhos fechados, na cama, e o sono me venceu e o poema se foi madrugada a dentro, sugado pelos vampiros e por espíritos que tomam do poeta sua veia principal.

Sem ternura, chicoteei a todos que não me entenderam. Olhei pela janela e lá estava a gárgula que me enfeitiçava e a meus contos que eram negros, e o negror de minhas palavras assustavam, mas impunham meu desejo.

Quantas Alices eu desenhei, quantas de mim eu desdobrei em personagens; quantas poesias roubadas daquele que inventei. Alma nua e a solidão de meus passos ficaram para trás. Hoje, vivo dentro de uma máquina, penso como ela, suspiro e arroto, tudo dentro dela, a máquina de fazer escrever, a máquina que me ama e me morde.

Sinto o gosto acre dos teus beijos, ó máquina cruel, o tempo passa e a hortelã vai mudando o paladar. Teu beijo tem gosto de uísque e meu céu já não é azul.

Busco ainda o amor, o que se fora, aquele que espera no cais do porto, no aeroporto, na cama qeen. Sinto saudades de mim, quando meu vestido rodava negro sobre saltos e eu atraía olhares e mais olhares famintos a me querer.

Hoje sou parte da máquina, sou solidão em meio a multidão. E meu amor eterno, ele se foi porque acabou. Minhas paixões são efêmeras. Eu poderia te amar por um dia, mas te faria feliz. Entretanto, sou parte dessa máquina. Engrenagem virtual. E meus beijos são, hoje, gélidos estalos mal identificados.

Por isso choro enquanto escrevo. E grito e ninguém me ouve. Apenas a máquina. Ela e eu. Para sempre nós.

Onde está você? Eu ainda sou mulher.

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Para Manuel

Necessitas

Posted in Contos on Janeiro 26, 2012 by Daisy

Certamente vivemos tempos difíceis. Há crises por toda parte, a fome se alastra; a globalização tem nos massificado com toneladas de informações que, em determinado ponto, não sabemos o que fazer com elas. Cinema caótico, telenovelas, poetas nos botequins achando-se contemporâneos. E assassinos. Muitos assassinos em série. Em minissérie de televisão. Rock, funk, bregas melodias que saíram do Interior para as grandes cidades. Dá medo, fobia. É como entrar e ficar preso num elevador com celular multimídia. Ao mesmo tempo sufocado e livre.

Joan acabou de escrever seu artigo e clicou enter. Olhou para o maço de cigarros, mas não se animou a acender um. Estava exausto. Precisava repor as energias. Noites seguidas de pouco sono. Escrevendo seu livro de ficção, cuidando dos sites, blogs, e de tantos amigos virtuais do facebook. Não fazia sexo há semanas, a namorada se fora para Londres, morar com amigo modelo. Ele continuava em São Paulo. Ele continuava insano.

Precisava assistir a estréia de um filme porque era também crítico, mas seu corpo precisava relaxar. Precisava fazer sexo. Dar uma, nem que fosse com uma putinha qualquer pescada na internet. Trinta anos. Não, peraí, quase trinta e cinco. Ouvira falar que nesta idade o homem começava a declinar sexualmente. Seria isso?

Balançou a cabeça. Impossível. Ele era um touro. Daqueles. Foi para o banheiro. Tirou a roupa e se olhou no grande espelho. Era bonitão, gato. Forte. Os olhos azuis contrastavam com a pele morena. Mistura brava de sangues cruzados. Era bonito. No entanto estava vazio. Olhou os dentes. Tudo em ordem, exceto pela obturação velha no canino. Quem tem obturação no canino? Olhou seu pênis. Ele estava lá. Estava tudo bem. Precisava transar. Sexo. Sexo. Sexo.

Depois do banho desceu do apê e entrou naquele bar antigo onde seu pai bebia e jogava sueca com os amigos.

_ Olá, Joan! – a mulher do dono do bar – Nossa, você está a cara do seu pai! Está até com entrada no cabelo. – a mulher se divertia, sem noção da gafe.

Joan dedicou-lhe um sorriso de escárnio.

_ Está me achando velho?

_ De jeito nenhum! Tu és um gato! – sussurra: _ Ainda dá muito caldo.

O rapaz atendeu o celular. Depois o rádio. O celular de novo. Ir ao cinema, transar ou terminar o artigo do outro site? Lembrou da faculdade de jornalismo e em como sonhara ser repórter de televisão. Bebeu o uísque nacional de um só gole. Por fim dirigiu-se ao cinema. Precisava assistir ao filme. O tal filme.

Era de ação e discutia conspiração da CIA contra os muçulmanos. Nem tinha mulher bonita na película, mas ele estava excitado. Ainda. Sexo. Precisava se desligar de tudo e relaxar.

Na volta do cinema, estava odiando os americanos tanto quanto os muçulmanos. Ele nada tinha a ver com eles. E nenhuma gostosa no filme. Entrou de novo no bar da esquina, antes de ir para casa.

Pediu tequila, depois cerveja. A mulher do dono – Judite, lembrou – sentou-se em sua mesa e disse, convencida de que tinham intimidade:

_ Você parece cansado, Joan. Trabalhando muito?

Acordou com preguiça. Sentia-se relaxado. Até que Judite ainda dava caldo, sorriu.

Lembranças anos 90 e ainda hoje

Posted in Poetizando on Janeiro 25, 2012 by Daisy

DOR NO PEITO

Dói,
a truculenta
imagem
de homens
viciados,

O envelhecido
anseio
de ser feliz,
a espasmódica
lembrança
do amor.

Encerrei em mim
toda forma
de prazer,

E os coágulos
que se veem
são de minha alma
monstruosamente
só.

by Day

Lembranças anos 90 e sempre

Posted in Poetizando on Janeiro 24, 2012 by Daisy

DISTANTE

Sei que estás longe
para lá da minha cabeça
nesse momento confusa
e apaixonada.

Gostaria de explicação
já que eu não tenho chances
de trôpega lá te buscar,

Lá,
onde as aves cantam sem mim,
a paz tem cor de rosas
como minha vontade
que confundiste tesão.

Desmaio na primeira manhã
com a certeza de tê-lo
perdido.

by Day

Lembranças anos 90 e sempre

Posted in Poetizando on Janeiro 24, 2012 by Daisy

PRESENÇA

Sinto
a presença
o medo
e a luz.

Mas não sei
ao certo
de que lado estou,

Ando mesmo
duvidando
se ainda me encontro
viva.

É tamanha
a minha ânsia
de guardar
minha alma
e meus ossos
cada qual
em
sua
caixa.

by Day

Lembranças anos 90 e sempre

Posted in Poetizando on Janeiro 24, 2012 by Daisy

DEFINIÇÃO

Eu sou o que ninguém é.
Não posso levar a sério
esses traseiros rebolantes
cuspindo fratulências
Na cara de quem passa.

Pergunto a eles
O que era mesmo o fascismo
Não saberão, certamente
Mas são praticantes
estúpidos alienados
_ Isso eu não sou.

Sou o pássaro que mesmo ferido
canta, ainda que de dor
não desiste de voar
e voa
e voa…

Há os hematófagos:
querem meu sangue
meu pescoço pendurar
no varal do seu quintal,
que odeiam minha arte
enterram-me viva esfacelada
_ Mas isso eu não dou.

Sou uma cabeça rodando
na beleza de ser gente
na delícia humana de cantar,
sou rabisco de rascunho
no livro de Deus,
Uma flor qualquer que cheira
o aroma de ser livre no campo
ou na cidade.

E vem o vento
ventar-me as pétalas,
e voo
e voo.

by Day

Fim daTemporada de Exposição de Contos e Poesias Jefferson Maleski

Posted in Contos on Janeiro 22, 2012 by Daisy

MEMÓRIAS DE UM MENTIROSO

Quando eu nasci, chorei sem apanhar. Por racismo, a minha avó não quis me ver, mas somente até me ver. Já tive bochechas rosadas e cabelo angelical, rosto inocente e olhar amedrontador. Eu já derrubei a bisa da escada. Já comi terra e massinha de janela. Cresci rodeado de flores, que me impregnaram com o seu perfume até hoje. Algumas eu colhi, outras eu pisei, ainda outras só admirei, porquanto elas sempre estiveram junto a mim.

Já fui raio de luz e anticristo. Já machuquei meus pais sem tocar neles. Já desembainhei e estoquei alguns com a minha língua. Já fui anêmico, canhoto, hepático, esquizofrênico, tímido, depressivo, revoltado. Já me indignei com burrice, preguiça, preconceito e falta de empatia alheios, sem perceber as minhas próprias. Já troquei festas pela televisão, namoradas por amigos, beijos por conselhos e sentimentos pela razão, e vice-versa. Já levei pedradas na cabeça e sangrei. Diferente ou semelhante às mulheres, já sangrei pelo nariz e pelo pênis. Já me queimei ao sol e virei vampiro. Já me transformei com a lua.

Eu já tive um melhor amigo de toda a minha vida diferente todo ano. Fui professor que se formou aluno. Já li todos os romances de Oscar Wilde. Já fui o companheiro certo nas horas erradas e achei um saco. Já fugi de casa por ter feito algo que só eu julgava errado. E voltei me achando um bobo. Já corri atrás de livros e mulheres e fugi de cobras e viados. Já mudei por causa disso. Já amei uma vez, mas fui amado muitas. Oxalá amar novamente mesmo que uma pequenita fração que amei ou me amaram. Já dormi com duas e três ao mesmo tempo. Já dei nove presentes iguais no dia dos namorados. Já fiquei dois anos sem beijar. Eu já me casei e enviuvei. Já vivi noventa e dois anos e achei pouco.

Eu já fui católico, evangélico, judeu, agnóstico. Depois filósofo, esoterista, hermeneuta, pragmático. Já morei no Paraguai e viajei até Roma. Já fui desenhista, poeta, ladrão, cdf, assassino, escritor, alien, mercenário, conselheiro sentimental e ombro amigo. Me formei em administração, psicologia, letras, teologia, computação e direito. Já bebi até ser outra pessoa, e ela nunca me contou o que eu fazia. Já fui abstêmio e careta. Já passei vergonha pela coisa errada e fui humilhado pela coisa certa. Já fui julgado, sentenciado, condenado e banido, talvez não nessa ordem.

Acreditei em coisas e pessoas que não acredito mais. Já fiz acreditarem – até a mim mesmo – naquilo que dizia. Já traí e fui traído mais vezes que gostaria. Já deixei de dizer eu te amo à pessoa certa. Mas não às erradas. Eu já fui a pessoa errada de alguém. Já tive uma filha que chama a outro de pai. Todavia, são os filhos que não tive que me (per)seguem. Já brinquei de capotar de carro e de voar da moto. Já viajei de avião, de catamarã e de alucinações. Já morri afogado. Já fui sapo rei e príncipe verde. Fiz sacanagem, sacaneei e fui sacaneado. Já fodi e fui fodido. Já conheci mulheres dos 13 aos 70. Já aprendi a amar e a desamar.

Eu já assisti o São Paulo jogar no Morumbi. Noivei em Foz do Iguaçú e em Florianópolis. Já me arrepiei com o barulho do Schumacher em Interlagos. Vi show de rock, samba, sertanejo, funk, pop, tudo de graça e odiei. Já abracei a Marjorie Estiano, não este ano. Já chorei com filme, livro, mulher e pecado. Já sorri com filme, livro, mulher e pecado. Já fiz chorarem por sadismo. De prazer. De alegria. Já gozaram com meu beijo, olhar, voz e palavras, separadamente. Já beberam veneno por minha causa e não deixaram nem um pouco pra mim. Já beijei mais de mil bocas, mas nunca a mesma boca mil vezes. Conheci a anatomia e a alma feminina melhor que as minhas. Já fui um cara mau, hoje sou apenas um cara mau que não faz maldades.

Apesar do que fiz ou penso que fiz, tudo não chega nem à metade da minha realidade e criatividade. Não é o fim nem o começo. É só aquilo que sempre vai estar na minha mente influenciando atitudes, amores, paixões. Tudo pode ser mentira para outros, mas não naquele Universo visto atrás dos meus olhos verdes

Temporada de Exposição de Contos e Poesias Bukowski

Posted in Poetas on Janeiro 20, 2012 by Daisy

POEMA PARA UM ENGRAXATE (E PARA MARCELA)

o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz…
tudo o que contenha a energia original do
gozo.

BUKOWSKI dispensa comentários.

Nota - A identificação com minha filha Marcela, é notar o amor inerente a todo poeta, maldito ou não.

FIM

De Day:

Porque eu, quando achava que bebia e as pessoas falavam
Descobri que elas é que bebiam e eu nada falava.

As pessoas falavam demais, gritavam demais
Enquanto eu passava os anos embalando minha Marcela,
A que esteve comigo em todos os momentos
De ferro escandescente, e de flores de algodão,
É para ela esse poema; ela que guentou a barra com tantos quilos.

Na escuridão que só o poeta errado viveu, eu pari
E, não tive índole para erradicá-la a mundos distantes.

Eu não fui mãe antes de ser poeta, eu só fui poeta.
Escolho as coisas que me fazem escrever, e nem sempre elas vem,
Eu não quero falar de maternidade, apenas convivo com ela.

Marcela foi o acontecimento que mudou minha vida,
Mas que, de certa forma, em nada mudou porque continuo por aí,
Em busca da essência que produza em mim poesia.

Temporada de Exposição de Contos e Poesias Camila Marins

Posted in Belas, Poetas on Janeiro 19, 2012 by Daisy

QUASE DUAS DA MANHÃ DESTE 13 DE MAIO FALACIOSO

Perco-me de mim mesma
confesso diante deste altar
sedento de hipocrisia:
anos se passaram

e houvera a época que escrevia sobre ânus
brincava na cama entre Kafka e Sartre
Ah! Como Simone me espiava

de repente, não mais do que pânico
me afundo em redundâncias da existência
cálida queda cama
casa come quero

admito! Os verbos me causam orgasmos
daqueles múltiplos
não mais do que língua afiada

e o vento não existe, nada é
diante de minh’alma orquestrada
cacofonias de um dialeto mal dito
maldito!

e quanto ao hoje?
redoma que engole
enrolo-me em lençóis
nua de falácias ancestrais

sou um anjo mascarado
de sedutor: Lilith (dê) me acompanha em arquétipos
divido entre gêneros
o divã – testemunha de uma alma rodriguiana

meu canto vai além
atinge sustenidos famélicos
e meus poetas pedem mais
mais
mais – sussurram ao pé de minha orelha quente

brinda comigo
quem se atreve?
deixo minhas bodas de prata
e mendigo pelas próximas

nexo? coMneXo
e o plural retorna aos meus escritos
sempre na dúvida, temerosa
de alcançar
a plenitude fantasiosa

that’s me or not…

meus joelhos denunciam a forma do meu pecado
em flor

FIM

Nota – O wordpress não mantém a formatação original do texto.

Mais pérolas da jornalista, contista e poetisa Camila Marins em seu Blog O DESBUNDE.

Temporada de Exposição de Contos e Poesias Patrícia Raphael

Posted in Belas, Poetas on Janeiro 18, 2012 by Daisy

DAR O MELHOR DE MIM

A loucura é minha…
A sinceridade é minha…
A luta é minha…
O futuro é meu…
A promessa é minha…
A conquista é minha…
A surpresa é minha…
A hora é minha…
O carinho é meu…
O outro lado é meu…
A força é minha…
A paixão é minha…
A promessa é minha…
A amizade é minha…
A coragem é minha…
A sutileza é minha…
O ficar é meu…
O sentimento é meu…
O pensamento é meu…
A provação é minha…
O desejo é meu…
O receio é meu…
O amanhã é meu…
A passagem é minha!

Patrícia Raphael é poetisa e faz parte da Revista Literária Estilingue, donde recebemos energias dos irmãos de África.

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