Quente

Posted in alô! on Novembro 24, 2009 by Daisy

Não quero me sentir assim. Jamais. Não vale a pena endurecer o coração, ou deixá-lo vivo apenas de forma orgânica, e o corpo esvair-se em ressentimentos. Prefiro ser de verdade, gente humana, que sofre e passa pelo que tem que passar. Não temer e não desejar ser temido. Encaro de frente quase tudo. Talvez não a morte nem o sol, como já disse o pensador. Entretanto, sei que é preciso ser guerreiro, levantar depois de um tombo. Alegrar-se com com um presentinho, ou um vento no final da tarde. Comer legumes, emagrecer. Depois, mais sorvete de goiaba, sem ser bicho dela. Sou da cidade grande, eufórica, ando pela cidade e não vejo os bandidos. Um amigo diria que é por causa da venda nos olhos. Mas não vejo violência, não percebo. O ser humano pode, se quiser, ver apenas o que olhar com o coração. Não permita ser de pau, ou cara de pau. Faça pulsar seu coração, lute. Ore pelas vítimas da minha cidade, mas continue se divertindo. É verão. Praia e brisa. Eu tenho sorte.

Oscar, o Pintarroxo, Wilde e novas amizades!

Posted in Contos with tags on Novembro 23, 2009 by Daisy

Parece confuso. E é mesmo. Explico, amigo. Posso te chamar de amigo? Creio que sim: se entrou aqui, parece confiável. Fica à vontade, meu camarada.
É que eu estava relendo uns contos do Wilde. Os preferidos. Para comparar as escritas, as mudanças de comportamento, mudanças ortográficas – é um livro antigo, enfim. Passei o final de semana lendo Oscar Wilde. Um pouco de Allan Poe, confesso. Releituras. Sou um pouco passado de idade. Um jovem senhor.
De Poe, deliciei-me com O gato negro - que sempre me assusta, Manuscrito encontrato numa garrafaEleonora! Mas vamos ao Wilde:
Reparou no tremor de minhas mãos, não é? Muito observador. Ando deveras meio trêmulo. Estou apaixonado por uma menina. Dezoito anos e meio, veja só!
Olha aqui, na tela do computador, esta notícia: Dois pastores evangélicos se casam. Com testemunha e tudo. Eu, bem, confesso que assustou-me a notícia. Não pela peculiaridade do casal. Mas a peculiaridade de serem, ou se dizerem pastores. Conheço as coisas pentecostais. E lá não tem benevolência com certas… opções.
Eu havia acabado de ler O amigo dedicado, do Wilde. Se não leu ainda, precisas!

Ah!… Este conto dele relata as falcatruas da amizade. Ou o que o homem supõe ser amizade. É a estória de um homem rico que explora um rapazinho humilde, em nome de sua “sincera” amizade. É triste. Muito triste. Principalmente a ingenuidade de Joãozinho que acredita cegamente nas coisas que o homem fala. Um final terrível. E o lúdico dos lúdicos: a estória é narrada por um pintarroxo, que tem como ouvintes um rato celibatário convicto e uma pata, mãe de família. Uma lindeza estes contos de Oscar Wilde.

Sim! Quando terminei a estória, olhei pela janela e fiquei imaginando se haveria no mundo amizade verdadeira. Um amigo, desses que nos ouvem caladinhos. Assim como você. Sede? Bebe água, está fresca. Como ia dizendo, foi quando deparei com a notícia dos rapazes homossexuais. Embaralhou minha cuca. Pastores? De que ovelhas serão? Serão bons amigos? E o Joãozinho me gritando: Quer ser meu amigo, como o Moleiro?…

Levantei-me e fui ao quarto pegar o livro, a fim de ler o conto para o meu visitante. Porém ele não esperou. Depois de beber água e descansar em minha varanda, ele se foi, como todo amigo faz.

Eles simplesmente se vão. Este voou, sem ouvir a estória do pintarroxo. Talvez ele não fosse amigo dos pintarroxos. Era um pardal. E não quis ser meu amigo.

nervos rompidos

Posted in Contos on Novembro 16, 2009 by Daisy

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Ânimo, ânimo!

Aquela voz… aquele cheiro de éter. Os olhos do médico verdes por baixo dos óculos. Ânimo! Reage!

Uma sensação incrível toma conta de mim. Era confortável me sentir nua, me deixava mais à vontade. Dava mais confiança.
Estava sedada. Sei disso porque não sentia dor. Era para sentir. Mas no lugar disso, uma sensação tão boa. Lembranças começaram a visitar-me. Meu espírito subia e descia, juntinho com minha tranquila respiração…

Estava debaixo do chuveiro. César havia me procurado a noite toda. Mas eu não quisera, não o amava mais. Eu estava muito bonita. Uma geral na pele; lifting, drenagem linfática. Estava linda e fria.

À força! Filho da puta. Doeu. Uma dor de coração. Fina e insistente.
As lágrimas quentes destoavam da ducha gelada. Lembrei de minha infância.

Meu avô era músico. Cada criança que nascia na família, ele fazia uma música. A minha era um bolerinho lindo. Sorria para um sofredor… Não conhecia a melodia, só a letra. Ele morreu antes, o meu avô… Nunca me interessei em ir à Biblioteca Nacional pegar a partitura. Um bolero…

Meu gato ficara espantado com meus gritos. A brutalidade de César era realmente repulsiva. Lembro ter caído no chão. Bum! O gatinho saíra correndo. Miaaauuu! Inclemente, me possuiu alí no chão. Eu arranhava ele, suas costas, o mordia. Parecia gostar, pois se excitava mais e mais.

Acho que tem beija flor na música. Um bolero com beija flor pode ser legal. Confesso que desconfio da qualidade. Sou ridícula. O avô era maestro.

Entretanto, música pode ser linda com uns dois ou três acordes. Música vem dos anjos. Do céu. Da alma….

Estou sedada. Estou sedada. Se…da…da. O teto é branco. Os olhos do médico são lindos. Quero eles. Agora sinto desejo. Deve ser a droga. Tento estender a mão para alcançá-lo, a sua mão. Beijá-la. Esfregá-la em meus… lábios. Estou nua. Sedada é bom, parece que vou voar. Vou…

César tornara-se asqueroso para mim. Seu hálito de uísque e charuto. Seus dólares, a cocaína. E aqueles amigos insuportáveis. Todos de olho em mim. Desejavam-me. Aliás, tudo que era de César. Mas era a César o que é de César. Só olhavam. Eu vomitava só de pensar.

Estou com quatro anos e brinco de boneca. Não, não quatro. Sim, seis anos… quase dez. Bebi uma garrafa de sinzano miniatura. Na estante do meu avô. Danço com minha boneca. O avô toca o trombone. Será que é a minha canção? Estou inocentemente bêbada. Beijo a boca da boneca e danço bolero…

Escorrego no banheiro. Sangue. Muito sangue. Cortei o pulso no vidro de bancada. Minha mão está pendurada. À César…

Um litro de sangue! Ai, meu Deus, vou morrer, né? Depois de tudo que houve. Que tristeza, morrerei assim, nua e sedada num hospital, apaixonada pelo médico de olhos verdes!

Não… não dá para ler seu nome. Quantos litros de sangue ainda tenho? Três, um pouco mais… já era meu tendão. Tendão e nervo esfacelados. Paralizada a mão. Bem me quer, mal me quer… sem mão.

Tentou suicídio?

Eu?! Logo eu, que amo a vida?

Só não amava mais o César! Cachorro, fedorento. Mau. Lobo mau…

Chapeuzinho vermelho eu era. Teatro na escola. Errei a fala. Todos riem. Ha-ha-ha!

Vou dormir. Sono. Talvez sobreviva. Não chamem o César. Quero um amante. Pode ser o senhor, doutor. Pode ser qualquer um… O bolero. Tá ouvindo, doutor? É… é lindo!…

Indicações by Dai :)

Posted in Cinema with tags on Novembro 6, 2009 by Daisy

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Na minha opinião o filme é cult pela direção. Com cenário e trilha sonora apropriados aos questionamentos das décadas de 60 e 70, onde Pink Floyd é o carro chefe na trilha sonora que levou pelo menos a metade do orçamento (!)
Eu gosto de cinema canadense, principalmente falado em francês, como C.R.A.Z.Y.

Sinopse

Zac (interpretado por Émile Vallée até os oito anos e por Marc-André Grondin na idade madura) é filho do rigoroso Gervais (Michel Côté) e Laurianne (Danielle Proulx). Com a mãe, ele tem uma relação estreita; com o pai é mais complicado. Incompreendido por ambos.
Ao lado de quatro irmãos, Zac cresce sentindo desejos homossexuais, enquanto tenta lidar com a religiosidade da mãe e a intolerância do pai, entre os anos 60 a 80.
Argumentos para bons roteiros não são muitos, por isso o roteirista precisa buscar pérolas, sejam nos diálogos, na composição dos personagens, etc.
Neste filme Jean-Marc Vallée desempenha uma direção contundente no sentido de captar a tensão dos personagens quase que esteorotipados, ou melhor, são mesmo estereótipos: dos quatro irmãos Zachary, o protagonista, tem tendências ao homossexualismo, enquanto o irmão mais velho torna-se drogado, outro é intelectual e outro desportista. O desafio é saber trabalhar os tipos comuns. Arquétipos fundamentais para resolver um drama/comédia como C.R.A.Z.Y.
Por aqui o filme estreou em 2005, um ano após seu lançamento, no Canadá.
O que vale o título de cult e mais prêmios é, sem dúvidas, o trabalho de roteiro. Acho perfeito.
Não por acaso o filme levou 11 prêmios Genie (o “Oscar” canadense) e mais 19 prêmios em outros festivais.
É só conferir.

Antiga e maravilhosa

Posted in Crônicas with tags on Outubro 23, 2009 by Daisy

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Nostálgico

Tudo já foi melhor.
O Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa. O que eu posso dizer? Ela, a minha cidade, ainda é uma beleza. Jardim Botânico, Santa Teresa, Ipanema, Prainha, Jacarepaguá. Centros culturais. Teatros, muitos teatros e cinemas. Shows na praia de Copacabana. Poetas, cervejas e orações no fim da tarde. O Rio é lindo. Talvez, e só talvez, sejamos apenas um reflexo de um mal entendido: Que parte, nós, homens falhos, não entendemos de “nos amar uns aos outros”? Porque a violência e o descaso com vidas humanas ultrapassam as barreiras cariocas. As fronteiras. Mundo a fora, o homem tem matado homem. Crianças estão sendo aliciadas, abusadas, beijadas à força. Antigamente, não existiam internet e nem Mc’ Donalds. Não havia sexo perigoso, e autoridades eram respeitadas. Tinha que tirar nota boa e ir para a faculdade federal. Violência? Era menos, exceto a fase ditadura militar na América. Dormia-se com tranqüilidade, não se sabia o que eram estampidos. Tiros. Sangue. Podia namorar até tarde na praça. No cinema. Sem drogas, a alegria era genuína. Bons tempos o planeta viveu. Não deveria ser assim.
Mas, tudo passa…

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Suicídio

Posted in Contos with tags , on Outubro 21, 2009 by Daisy

Para o brother Rafael

favela
I

O médico o fitou por longos minutos. Silêncio total. Paciente pálido, dedos nervosos. Ricto de dor. Psicólogo corado, tranqüilo, sereno.

Júlio César, o foguete, assumiu. Vencido pelos argumentos, declarou:

_ Oquei, doctor. Eu me precipitei. Mas e agora?

O médico levantou-se. Andou com passos suaves pelo recinto. Parecia flutuar. Júlio arrepiou-se.

_ Engraçado. Quando eu estava lá, depois de usar crack, maconha e cocaína, eu tinha essa sensação. Sabe, de voar, ver todo mundo flutuando. Mas aqui, de cara limpa… mó doideira, hi-hi.

O médico, de cabelos lisos, longos e branquíssimos, olhou para seu pescoço. Tocou nas cicatrizes deixadas pela faca. O jovem esquivou-se discretamente. Riu:

_ Tarde demais, doctor. Eu te disse.

O médico, com um longo sobretudo de linho, bem fino, deu uns passos pela sala. Inesperadamente falou:

_ Vou até sua casa. Preciso ver tudo de perto.

Surpresa de Júlio:

_ Não há mais o que fazer. Algumas coisas não têm jeito. De morte eu entendo. Lá na favela, já vi muito cair. Depois que o espírito se manda, um abraço! Ressuscitar não é papo pra mim. Nem to aí pra Deus. Pra dizer a verdade, nem pro diabo. Minha pistola é quem me guia ha-ha-ha.

O doutor, com expressão séria:

_ Irei e verei o que posso fazer.

_ Por mim, nada. Mas pode dá uma olhadinha na Pâmela. E no moleque. Ela, com aquela bunda enorme, vai esquecer de mim rapidinho. Mas o moleque, eu queria que fosse diferente com ele. (Tristeza inesperada).

Médico, tirou o sobretudo:

_ Verei o que posso fazer.

De repente, num piscar de olhos, sumiu. O rapaz fechou os olhos, tamborilando no braço da poltrona do consultório. Sua palidez crescia, assim como seus movimentos ficavam cada vez mais lentos. Estava desfalecendo.

II

Quando chegou ao barraco do paciente, o homem de branco seguiu direto para o banheiro. Lá estava o corpo do Júlio. De fato, não tinha mais vida. Ele não mentira. Um corte profundo o secara. Todo o sangue parecia ter saído por ali.

Balançou a cabeça com tristeza. Abriu a porta, sussurrando: Tarde demais.

Quando dobrava a esquina, ainda ouvia a gargalhada cruel: Mais um!

Enquanto isso, a polícia procurava as drogas na casa da namorada. A Pâmela.

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Quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade. [ Betinho ]

Chuvas

Posted in poema? on Outubro 19, 2009 by Daisy

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Num dia como o de hoje,
Eu poderia falar de qualquer coisa.
Poderia fazer qualquer coisa.
Errar, acertar. Errar de novo.
Fazer um bolo ou tomar uma batida.
Entretanto, insisto em ligar a televisão.
Só depois me dou conta de que estou sem tv a cabo.
Tarde demais. Estatísticas o comprovam.
Morreu mais um. Um aí. Deve ser preto e ladrão.
O ibope prefere os sádicos e as crianças.
Tudo estatística. E vaidade.
Quando parar de chover vou querer um namorado.

Antigo

Posted in Contos with tags on Outubro 16, 2009 by Daisy

correio_1

Sabendo das limitações e do copo vazio longe do filtro, as pernas, às vezes tremem de cansaço, desânimo. A sede podemos saciar, vez por outra, numa límpida e genuína vontade de gritar.

Um grito surdo. Para muitos, desnecessário. Entretanto, agoniza de véspera, a redenção tão difícil. A carne resfria na chuva. Um corpo é arrastado nas curvas dinâmicas de um tufão. Maremoto. Mar é morto.

Nas dívidas a pagar, os evangelhos e as rugas de Metusalém, efe eme i de um Brasil soberano. Prostitutas mirins. Inferno na terra. Ou, simplesmente inferno. Acabou. A rapadura é doce, mas é dura…

Nordeste, paraíso das meninas de dentes podres, miséria com o padre Cícero, e o espírito dorme. Ronca atrás da porta do esquecimento. Resta minha alma, ó minh’alma encardida sem sabão, só bolhas de um champanhe azedo.

Tudo pode ser falsificado. As companhias de seguro e os correios. O que têm em comum?

A mulher entrou insegura e olhou os selos nos correios. Regularizar o cê pê efe e provar que ainda é viva. Mas suas pernas andam flácidas. Suas noites andam escuras. Ela está só, constata o carteiro galante.

Diz, sorrindo: Ajuda, madame? Ela ri, docemente e mente: Sim.

Dias se passam, o pagamento cai na conta. Reajusta o cinto que a grana aumentou. Comprar tinta suvinil e reformar a sala. Mais o quê? Tarde demais para um sobretudo de couro, sobretudo pelo calor que faz. Rio de janeiro. De janeiro a janeiro tem praia.

O aumento é bom. O chefe, que bonzinho. Uma arma, talvez. Com uma arma, fica mais fácil convencê-lo. O rapaz: Me convencer de quê? Ela, pefumada em flores: Fazer amor.

Ele enrubece como um rapaz do interior: Tem que casar? Ela: Temo que sim. Esqueçamos. Mas ela olha para sua igreja ao longe e se vê em um deserto. Pega o comprovante. O cê pê efe fica legal em dois dias. Até lá eu ando viva. Valeu a pena regularizar o documento.

Este é um documentário. O rapaz muda de idéia e casa. Ela muda de idéia e fica viva. Dois cê pê efes, duas escovas de dente. Amém.

Conto rápido

Posted in Contos with tags on Outubro 13, 2009 by Daisy

dreamcatcher

Trágico

Era tarde demais. Sem chaves, Oneida entrou no partamento do vizinho. A porta ficava sempre aberta. Péantepé, vasculhou o armário. Pegou um cobertor e deitou ali mesmo, no chão do quarto. A cabeça rodava, a poesia arrotava. Finalmente dormiu.
Sonhou com o vizinho. Um senhor muito bom. Honesto.
Entretanto, não esperava aquilo dele.

Conto rápido

Posted in Contos on Outubro 13, 2009 by Daisy

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Bola fora

Sentou-se em frente a ele. Bocejou triste. Estava tudo acabado.
Sem beijo de despedida, resolveu comprar um apartamento em frente ao Maracanã.