Rio quarenta e quatro graus vou pro sertão!

Posted in alô! on Fevereiro 8, 2010 by Daisy

SOBRADINHO
Biquini Cavadão
Composição: Sá / Guarabyra

O homem chega e já desfaz a natureza
Tira a gente põe represa, diz que tudo vai mudar
O são francisco lá prá cima da bahia
Diz que dia menos dia vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia
Do beato que dizia que o sertão ia alagar
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Na na na na na
Na na na na na
Adeus remanso, casa nova, sento-sé
Adeus pilão arcado vem o rio te engolir
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira o gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do sobradinho
E o povo vai se embora com medo de se afogar
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Virou
Na na na na na
Na na na na na
Na na na na na
Adeus remanso, casa nova, sento-sé
Adeus pilão arcado vem o rio te engolir
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira o gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do sobradinho
E o povo vai se embora com medo de se afogar
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Na na na na na
Na na na na na
Remanso, casa nova, sento sé, pilão arcado, sobradinho
Adeu, adeus
Remanso, casa nova, sento sé, pilão arcado, sobradinho
Adeu, adeus
Remanso, casa nova, sento sé, pilão arcado, sobradinho
Adeu, adeus
Remanso, casa nova, sento sé, pilão arcado, sobradinho
Adeu, adeus

Já fui

Posted in Contos with tags on Fevereiro 4, 2010 by Daisy

Eu disse a ela: Já fui triste, impávido, louco, músico e médico.
Na verdade, falar este tipo de coisa para uma garota denota ainda uma certa loucura. Neste caso eu retiro louco porque ainda sou.
Tirei a rosa mais bonita do jardim da frente. Uma que ainda não desabrochara totalmente. Nova e jovem. Fresca como a minha menina.
Em tempo: eu também já fui jovem. Bonito e arrogante. Fiz fortuna e alguns filhos mimados. Quantos anos? Cinquentinha. Ainda bonito. Viril o suficiente. Rico, esnobe, mas ao mesmo tempo desapegado do dinheiro. Estranho e verossímel. Eu sei.
Queria dar tudo para ela. Meu dinheiro, meu conhecimento, e principalmente meu corpo.
Não tinha vinte ainda. Loucura. Eu estava apaixonado. Morreria por ela.
Depois que fiquei cego, muita coisa mudou. Passei a aceitar a mentira. Não via nada. Se me dissessem: o céu está lindo, eu cria, sem questionar o vento frio.
Ela dissera-me que era linda. Nunca a viram, os amigos, ou meus filhos. Os empregados não se atreveriam.
Dormi com ela. Uma vez só. Foi bom. Foi realmente bom. Mas depois…
Eu sabia, um médico que fica cego, é algo mais profundo do que parece. Dramático. Engraçado.
Era tudo mentira. Ela era uma mentira. Eu já não me importava com as mentiras.
Ela poderia ser menor de idade. Ela poderia ser mais velha. Ela poderia enganar-me por algum tempo. Para sempre.
A única coisa que eu não suportava, era sua ausência. Não exatamente sua ausência. Mas o fato de eu não enxergar o motivo de seu sumiço. Como eu não lia jornais, foi por pura sorte que a empregada, admirada diante da televisão, gritara em meus ouvidos: Patrão! Aquela moça que vinha aqui!… Ela… morreu!
Ela era bonita?! – foi tudo o que eu consegui dizer.

De volta ao futuro porque ninguém é como Kafka

Posted in autores on Fevereiro 2, 2010 by Daisy

Direi de nós, todos nós, animais que nada.
Somos a perfeição imperfeita.
E depois de Kafka, a humanidade ficou diferente,
o século vinte amanheceu em nós de forma perfeita e romântica.
Direi de nós e não de mim, que flutuamos numa atmosfera
chamada arte e que depois de Kafka, esqueci meu pai. E você?
Direi das estrelas que vagam, cada qual tem seu nome,
mas eu sei o meu e o teu. Estou falando de nós.
Da árvore que não cansa de dar frutos em nós,
nós somos assim, seres extraordinários. E fazemos arte.
Uns de nós escrevemos. E como é bom escrever. Melhor ainda depois de ser Kafka.
Eu não falo de mim, mas de nós todos, poetas,
dramascarados, escravos da poesia, romancistas… e contos!
Muitos contos. O Processo começou a ensinar,
vamos aprender mais, seguir os bons. Deitar a cabeça em travesseiro de madeira, morrer e viver de novo, escrevendo com o corpo e a alma.
Não falo de mim, falo de nós, escritores mortais de internet, o que faremos com Kafka? Abrimos um blog para ele? Gregor Samsa é editor, inventor de almas.
Precisa-se de Kafka. Correm os Processos.
Estamos condenados. Não sei escrever como Kafka. Falo por mim.

Se estou condenado, não estou somente condenado à morte, mas também a defender-me até a morte. (Franz Kafka)

Continho

Posted in Contos on Janeiro 27, 2010 by Daisy

Era real. Um ano, e nenhum contato. Telefone mudo, fotos perdidas. Em meio a confusas mudanças, ela queria esquecer tudo aquilo. Então, no meio da noite, ao se tocar, descobrira que já não tinha em quem pensar. A vida era mesmo misteriosa, pensou, domirndo em seguida.

Parte ll

No dia seguinte, saira feliz para trabalhar. Sentia-se livre, largada do amor escravo. Não havia mais aquela sensação de abandono. Aquela coisa enjoada e chata. Até seu chefe parecera mais belo, educado. Ah, a felicidade era engraçada, gratuita, boba. Entrou no elevador e deixou a pasta, tudo cair no chão. Aí, aquela mão peluda e perfeita recolherera suas coisas.

Parte lll

Estava apaixonada. Outra vez. Ele era representante de uma empresa que prestava serviços para a empresa em que ela era gerente de compras. Muitos contatos e vendas depois, foram morar juntos. Na casa dele. Tinha piscina e sauna.
E uma “mãe do meu filho” mal resolvida e ainda louca por ele.

Parte lV

Era meia noite. Não conseguia dormir. Dois meses de separação. Tédio, dor, sofrimento, solidão. Dor. O pior de tudo: sabia que demoraria ser feliz de novo. Mas ao menos sabia como sê-lo. Depois de amar, desamar era a melhor parte. Cadê esse sono que não vem…

Sou gay, minha mulher é puta… e meu filho é corno!

Posted in Contos on Janeiro 25, 2010 by Daisy

Parece mentira, ou algo aparecido. Mas o cara era realmente enfadado das coisas. A mulher, fora linda. O filho também. E ele, o patriarca… Ele era o cara!
Foi quando soube que a mulher, a mais alta e mais bonita, além de desejar um que fosse mais bonito e mais alto que o seu,… – ridículo baixinho – talvez por um estranho redescobrir, ele viu seu filho viado, e sua mulher dando para todos da Vila… e, o que parece mais válido na vida deles: depois de se sentir traído por uma que dava para todos… lembrou d’o quanto ela era ruim e fria.
Repensou a felicidade. E emprestou seu carrão para o filho babaca.
E quem, num momento assim, não quer ser gay?

Nota – Esta é uma estória verdadeira, de uma família aqui do bairro. Vivem normalmente, até porque são diferentes e não anormais. Uns dizem, à luz da Bíblia, da religião, que isto é maldição de maus espíritos que sonham acabar com o homem e sua imagem e semelhança com o Homem. Outros atribuem à desorganização da família como grupo social. Não importa se a família é pobre ou não. Neste caso, são de classe média.
Depois de escrever este texto, até certo ponto tendencioso e quase vulgar, acordei com essas reflexões na caixola. Eu, pessoalmente não ficaria muito confortável em nenhuma dessas condições, seja gay, puta, ou sei lá. Todavia, devo registrar que eles vivem bem e parecem felizes. O pai, ontem, tinha um brilhante sorriso nos lábos, enquanto o filho – que divide a noiva com a rua – também passava tranquilo em seu Santana Quantum preto. A mãe, é dessas mulheres que não aparentam, e talvez não tenha mesmo, problemas como TPM, fracassos sexuais, ou solidão frustrante própria de casamentos. Assim sendo, eles podem estar longe de serem um modelo de família organizada, entretanto, aquela felicidade é real. Ninguém pode fingir estar feliz todos os dias. E se o que valer for ser feliz, caiam aqui preconceitos e conceitos de uma sociedade hipócrita. Tenho dito.

Mensagens de Kito Mello

Posted in alô! on Janeiro 5, 2010 by Daisy

Esse vídeo foi produzido e roteirizado pelo meu amigo, o roteirista de TV e cinema Kito Mello. Vale a pena conferir.

O sumiço dos livros

Posted in Contos with tags on Dezembro 28, 2009 by Daisy

Era ano novo. Uma virada na vida daquele povo. Muitos fogos. Finalmente a liberdade! O decreto saíra minutos antes da meia noite. Homens, ministros e príncipes trabalharam muito. O povo estava livre. Não haveria mais livros naquele reino. Chegava de leituras, religiões, escolas, filosofia, romances, poesias, ficção científica, ficção.

Buba subiu as escadas, meio bêbado. Estava naquela casa havia muito tempo. Sempre fora um criado esmerado. Atencioso e servil. Não entendia direito todo aquele reboliço, aquela nova lei. Entendia, isto sim, daquela dorzinha no fundo do coração.

Soluçou, de álcool e dor. Urinou um pouco nas calças, mas dera tempo de ir ao banheiro. Pegou aquele cartaz de novo: “Caiu a leitura, livros nunca mais!”

O povo, todos falavam em ditadura intelectual. Homens inteligentes – antropólogos, sociólogos, etc. – falavam em reinvenção do Novo Homem. Nova era. Nova aliança.

Buba, simpático e obediente, correu para seu armário e juntou, com muito custo, todos os seus livros. E não lera a maioria. Começara a ler havia pouco tempo. Aos poucos, via desaparecer, no fundo da caixa de papelão Machado de Assis, a Bíblia, José de Alencar, Nietzsche, Castro Alves, Platão, Tio Patinhas, Playboys…

Suspirou quase resignado. Aqueles homens deveriam saber o que estavam fazendo. Eram agora uma ilha obtusa, pensou, com parada cerebral, cercada de países confusos por todos os lados.

Um Chanceler de uma grande nação considerara perigoso tamanha ousadia, abuso de poder. Sem livros, que país sobreviveria? Entretanto, a ilha era um paizinho fechado ao mundo, auto suficiente e muito bélico. Paradoxo serem eles tão tecnologicamente armados. Tinham até a tal bomba invisível, que matava pelo ar. Um assombro.

O pobre homem deve ter passado horas com Gonçalves Dias sobre as pernas, as velas estavam por um triz. Minha terra tem palmeiras… minha terra tem palmeiras… Acariciou um Lenin, bocejando. Estava tão orgulhoso de sua humilde biblioteca. Adormeceu, ouvindo sabiás.

Acordou com os cacetetes dos guardas. Estava sendo levado ao cárcere. “Memórias do cárcere”. Graciliano Ramos. A professora, os seios arfando sobre a, b, c, d, e… tão linda. Casaria com ela pouco depois. A cabeça doía. O sangue tinha gosto de revolução. Mas era século vinte e dois. Câmeras por todo lado. Chips nos pulsos. Nova era. Sangue e Charles Bukowski. Os seios da professora moreninha. Dormiu.

A primeira visão que teve foi de seu filho chegando com a mãe. Estivera sonhando. Riu, com a boca ressequida. O garoto subiu no colo do pai, o abraçou e beijou.

Buba perguntou: Quer que eu leia uma estória? Mas o filho arregalou os olhos para o pai e gritou: Mamãe, o pai endoidou! Buba, assustado, olhou para a esposa e o filho diversas vezes. Com horror piscava os olhos, enquanto o filho ria: Esqueceu que aqui não temos livros?!

Feliz Natal! Sejam bonzinhos o ano todo ho-ho-ho!

Posted in alô! on Dezembro 15, 2009 by Daisy

Apesar de receber visitas anônimas todos os dias – às vezes chegam a quatrocentas -, nada é mais confortável e feliz que a visita dos amigos.
Ando meio distante, mas percebo que a fidelidade ainda há nas pessoas. Porque mesmo sem direcionamento de posts, sem disciplina ou regras para escrever (ando desanimada), noto que alguns lindinhos vêm sempre aqui. Uns nada comentam, porém, ficam registrados na caixa de visitantes.
E há os que sempre comentam, o que para mim significa um “oi, não desista, to aqui, amiga”. É o caso do Erwin, aliás um dos maiores escritores da rede. Vale a pena visitá-lo, no Non Liquet. E o amável Luciano Alves, do Máquina de Letras. O Ask the Dust, super site de moda e informações que nem sempre comenta.
Tenho feito poucas visitas, mas gosto muito do Libru Lumen, não por acaso é o Blog do Jeff, tantas vezes professor e revisor meus (não esqueci teus livros).
Eu queria escrever um conto saidinho sobre natal e perus. No entanto, preferi fazer esta homenagem aos que, mesmo vendo minha flagrante desvontade de escrever, ainda me prestigiam com suas visitas.
Desejo a todos um Natal tranquilo, de paz. Dinheiro no bolso, amores calmos. Roupas elegantes, ou nus. Um Natal com a família ao redor. De reflexão e sinceridade. Rabanadas, vinhos e bacalhau. Que possamos ser boas pessoas o ano todo, lapidando as saliências da ignorância, buscando a luz aquela, enfim, tá na hora de sermos humanos de fato. Amar o próximo é tão difícil quanto necessário!
E tenham certeza que, apesar de virtuais, são, de fato, amados pela Dai.
Beijos no coração, pulmão, boca.
Feliz Natal!

Sugestões de presentes para o Natal: Para seu inimigo, perdão. Para um oponente, tolerância. Para um amigo, seu coração. Para um cliente, serviço. Para tudo, caridade. Para toda criança, um exemplo bom. Para você, respeito.

Oren Arnold

Força

Posted in alô! on Dezembro 10, 2009 by Daisy

Quero a força dele, e a certeza que tem de que tudo está sob controle. Quero ser um bicho feliz assim. Na selva de minha liberdade, quero ser como ele sim.

Saudades de amigos.

Quente

Posted in alô! on Novembro 24, 2009 by Daisy

Não quero me sentir assim. Jamais. Não vale a pena endurecer o coração, ou deixá-lo vivo apenas de forma orgânica, e o corpo esvair-se em ressentimentos. Prefiro ser de verdade, gente humana, que sofre e passa pelo que tem que passar. Não temer e não desejar ser temido. Encaro de frente quase tudo. Talvez não a morte nem o sol, como já disse o pensador. Entretanto, sei que é preciso ser guerreiro, levantar depois de um tombo. Alegrar-se com com um presentinho, ou um vento no final da tarde. Comer legumes, emagrecer. Depois, mais sorvete de goiaba, sem ser bicho dela. Sou da cidade grande, eufórica, ando pela cidade e não vejo os bandidos. Um amigo diria que é por causa da venda nos olhos. Mas não vejo violência, não percebo. O ser humano pode, se quiser, ver apenas o que olhar com o coração. Não permita ser de pau, ou cara de pau. Faça pulsar seu coração, lute. Ore pelas vítimas da minha cidade, mas continue se divertindo. É verão. Praia e brisa. Eu tenho sorte.