O Fantasma Russo

 

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 ”… é a doença que gera o crime ou é o próprio crime que , por sua natureza específica, de certa forma é sempre acompanhado de algo como uma doença? (Crime e Castigo)

Neste dia eu estava especialmente má. Um gosto amargo específico destilando um ódio seco que escorria junto com a saliva quando imaginava que iria beijá-lo. Mais uma vez. E o beijaria enquanto vivesse. Joguei fora, pela manhã, Crime e Castigo, livro que lemos e relemos incansavelmente. Falávamos e defendíamos o direito à liberdade. Liberdade plena, e muitas vezes ríamos das leis punitivas que a nós não afligiam jamais. Bebíamos e arrotávamos niilismo e vódkas.

Por me chamar Sônia, ele, ridiculamente, insinuava que eu fosse a reencarnação do personagem de Dostoiévski. E eu certamente jamais seria pura e religiosa como a Sônia de Raskólnikov. Mas ele, meu espécie de marido, era incrédulo, um homem entre ateu e agnóstico, com aterrorizante sensibilidade mediúnica, algo metafísico, estranhamente desconhecido por mim.

Grigory Gatilov, este era seu nome, pressentia as coisas, e enquanto pintava seus quadros de violentas paisagens, eu sempre ficava impressionada com tantas coincidências. Não raro seus quadros viravam página criminal nos jornais.

Se na tela, por exemplo, uma linda moça de longos cabelos de fogo se mantinha estática em uma corda, enforcada, era certo que dias depois de terminada a obra alguma mocinha complexada apareceria dependurada em seu quarto, ou numa estalagem, e até mesmo numa sala de aula de alunas secundaristas.

Todavia, eu já vivia assombrada e determinada a me afastar de Grigory e suas enlouquecidas telas. Mesmo não sendo, digamos, sensitiva, eu podia sentir que algo terrível estava para acontecer. Vivíamos no passado. Isso me assustava às vezes, quando olhava em volta e observava tantas tecnologias e gente contemporânea. Enquanto eu era a Sônia russa.

Chueguei ao apartamento, naquele bairro sinistro, repleto de drogados e miseráveis prostitutos. Subi as escadas e entrei – a porta estava sempre aberta. Vi que no meio da sala, num cavalete, tinha uma tela por terminar. Um pano negro a encobria, entretanto, era voraz e mórbida minha curiosidade. Minha bexiga doía, precisava ir ao banheiro, mas fiquei ali, paralizada diante do quadro coberto.

Que premonição ele pintara desta vez? Outro suicídio? Homicídio como tantas outras? Embora já estivesse disposta a deixá-lo para trás em sua loucura que já não suportava a minha, eu não me contive. Este foi meu grande erro.

Puxei o pano. Um frio mortal percorreu meu corpo. Senti, pela primeira vez, uma espécie de desapego da vida, do amor, do meu próprio corpo.

 Muito calma, perambulei pelos cômodos da casa tentando adivinhar em qual deles eu morreria, pois sem dúvida aquele pescoço estrangulado na tela borrada de coloridas tintas era o meu, com a inconfundível medalhinha de ouro branco que eu jamais tirava do peito. E as mãos grandes, de dedos longos e austeros eram, indubitavelmente, as mãos de Grigory Gatilov.

 Suspirei resignada e sentei-me em uma cadeira próxima à janela, respirando uma brisa que soprava e anunciava uma noite fresca que, se não fosse o quadro de Grigory, seria uma noite perfeita para o amor.

 Entretanto, na tela inacabada do estrangulamento dava para ver ao fundo uma reprodução de Degas – a Prima Ballerina -, e este quadro pertencia a Grigory, à casa dele. Fiquei confusa.

Estiquei um sorriso ao lembrar dele me chamando sempre de ‘minha bailarina de Degas’. Confesso nunca ter entendido ao certo. Talvez este impressionista pintara a irmã prostituta que era bailarina, ah, eu nunca me importei muito com os porquês. Eu o amava tanto, eu era sua pupila, sua súdita.

Levantei-me, fui à cozinha beber água. Voltei e me sentei outra vez.

Só neste momento atentei para o fato de que, talvez por pura tensão. eu não havia ido ao banheiro. Levantei-me mais uma vez e para lá me dirigi, já bastante aflita pela ausência de Grigory. Que ele viesse logo e terminasse sua tela, juntamente com a minha vida. Que era sua, afinal.

Caminhei lentamente pelo longo corredor sem luz e abri a porta do lavabo, sentindo-me mais morta do que viva. Imaginei meu homem na Sibéria a prestar trabalhos forçados como Rodka Raskólnikov, herói de meu querido Grigory. Sorri mais uma vez.

A porta do banheiro rangeu, como sempre acontecia. Eu entrei puxando a lingerie para baixo da saia, e sentei calmamente no vaso. Pareceram horas o tempo que ali fiquei a urinar minha última urina. Sentia o líquido quente escorrer pela vagina, e por um segundo experimentei prazer.

Lembrei das tantas vezes que nos amamos, eu e Grigory, das longas viagens à Europa, o orgulho que ele tinha em falar de seus antepassados russos, seus pais mortos de fome. Até de seu ódio pelos ingleses eu lembrei com carinho e amor. Eu já não tinha a boca amarga e nem ódio, talvez em nenhum momento chegara mesmo a enfastiar-me desse meu amor.

Fechei os olhos enquanto me enxugava e pedi a Deus que eu tivesse uma prova de amor do meu querido insano; que eu morresse, sabedora de seu amor por mim. Fiquei com a calcinha arriada enquanto lágrimas quentes davam vida a meu rosto pálido, naquele banheiro escuro.

Mas não sei se Deus ou Destino, ou mesmo Deus me perdoando – mas se eu nem cria n’Ele! – O fato era que por estar escuro eu não havia notado no box aquele lindo homem tão conhecido do meu afeto.

Névoa cobriu meus olhos e eu vi finalmente a morte diante de mim. Assim, sem susto ou alarde…

 Um corpo se redimia enfartado ao chão, secando as últimas gotas de um banho. Do último banho de Grigory Gatilov.

 

[Reedição de 2007]

Dia da poesia

                                  “TUDO É POESIA, O RESTO É SONO”

lendo

Dia hoje da poesia,

como pode ser

se todo tempo a ilusão poetiza nossa vida?

Como dia da poesia se as coisas são as mesmas.?

Gente sem amor, mulher sem aquele “cobertor”;

homens bebendo na calçada,

putas cheirosas levando sua vida

e a de tantos…

Dia da poesia?

Afinal

Quando foi que acabou a poesia?

 

Pérolas de Luiz Guilherme Volpato

 

Marcas

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Às vezes fazemos o que não queremos
Obrigados a viver, escolhas que não fizemos
Ou escolher viver o que escolheram para nós
Não quero lhe pedir mais nada
Cansei de me esforçar para ser visto
A dor de não ser encarado
Corta o coração, como a forma mais cruel de abandono
Eu escolhi amar você
E tenho culpa de deixar o mundo todo de lado
Eu me obriguei a te amar
E me inocentei da culpa de lhe deixar
Não sei por quanto tempo deixei de te olhar
Mas agora cada instante, simplesmente não se vai.
As coisas que ficam, as vezes mudam
Mudam de sentido
Mudam de opinião
Talvez por obrigação.
Será que obrigamos a vida a flexionar-se a nossa vontade?
Não obrigaria você a voltar para mim
Mas obrigaria o mundo a fazê-la feliz
Você não me obriga a nada…
Mas também não me dá escolhas

 

Meu libertar

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Teu silêncio
Tão calado, voraz…
Como se devorasse todos os sons ao redor.
Uma exclamação muda, incapaz de se passar despercebida.
Os significados que me dizem respeito e não lhe serão atribuídos.
Finalmente virar a esquerda ao invés da direita.
Se deixar levar pela descoberta de um novo universo.
Nova vida, novos sentimentos.
Se surpreender com uma mudança em suas intensões e limites.
Violento então, teu silêncio desagregador.
Com meu grito de alívio,
Retomando a marcha, conduzindo a uma viagem a um novo velho mundo.
Para o qual rumo, cantarolando a felicidade de ser livre.

 

Esse poeta lida muito bem com o amor, afinal o amor não mente e não é egoísta. Você sempre bem vindo, Luiz Guilherme.

Beijo!

Mulheres Filósofas – Parte I

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Não são apenas lábios vermelhos e úmidos que encantam os homens; muitas vezes a secura de lábios retóricos enlouquecem de paixão o pensador. (Day)

O que pouca gente sabe é que, na história da filosofia, muitas de nós fizemos parte das grandes correntes de pensadores. Muitas se destacaram. Pensar não é privilégio do gênero masculino.

O homem (humanidade) está sempre buscando diferenciar-se entre si, seja por cultura, crença, raça.

Não querendo puxar a brasa para nossa sardinha, mas mulheres filósofas não foram e não são muito divulgadas. Contudo, a partir de hoje o Blog da Day faz homenagem a essas maravilhosas pensadoras.

                                       Algumas pensadoras da Antiguidade

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Enheduana

Foi o primeiro ser humano de que se tem notícia a assinar suas próprias obras, sendo por isso a primeira pensadora da História. Foi também a primeira sacerdotisa (sábia, filósofa) do templo da deusa lua; nestes templos dirigia várias atividades, comércio, artes; também eram ensinados matemática, ciências e especialmente o movimento das estrelas e dos planetas. Escreveu 42 hinos para a deusa Inana e é por isso uma das principais fontes da mitologia suméria.

Temistocléia

Foi uma filósofa, matemática e uma alta profetisa de Delfos, que viveu no século VI a.C. e foi, segundo o filósofo Aristoxenos a grande mestra de Pitágoras, introduzindo-o aos princípios da ética, Depois de Pitágoras criar o termo filosofia, Temistocléia teria sido a primeira mulher filósofa do Ocidente.

Melissa

Melissa foi uma filósofa e matemática pitagórica.

Safo de Lesbos(VII-VI a. C)

Poetisa e educadora nascida em Mitilene, na ilha de Lesbos. Rivalizou com o poeta Alceo e, junto com ele, representa a criação da poesia lírica grega, em contraposição à poesia épica (Homero). Da sua obra conservaram-se dez livros.

Aristocleia (Século V a. C.)

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Aristocléa (também Aristocleia; grego: Ἀριστόκλεια), (do século V a.C.) foi uma sacerdotisa grega em Delfos na Grécia Antiga. Ela foi citada por muitos antigos escritores como uma tutora do filósofo e matemático Pitágoras (Entre 580 a.C. – 500 a.C.)

Theano (546 a. C. -)

Nascida em 546 a.C., viveu na última parte do século VI a.C. foi uma matemática grega. É também conhecida como filósofa e física. Theano foi aluna de Pitágoras e supõe-se que tenha sido sua mulher. Acredita-se que ela e as duas filhas tenham assumido a escola pitagórica após a morte do marido.

Aspásia de Mileto (470-410 a. C.)

Nascida em Mileto, pertenceu ao círculo da elite de Atenas onde conhece Péricles e com ele tem um filho. Como sofista da época, Aspásia também nada escreveu, e os relatos de sua habilidade como argumentadora e educadora, bem como sua influência política sobre Péricles encontram-se na obra de Platão.

Diotima de Mantinéia (427- 347 a C)

Personagem criada por Platão é apresentada como sábia no diálogo o Banquete. Não se sabe ao certo se existiu, mas acredita-se que sim. A ela atribui-se toda a teoria socrático-platônica do amor.

Asioteia de Filos (393 – 270 a C)

Ensinava física na Academia de Platão ao lado de outras mulheres que frequentavam a escola.

Hipárquia de Maroneia

Aristocrata, é elogiada por Diógenes Laertios pela cultura e raciocínio, comparando-a com Platão. Escreveu: “Cartas e Tragédias”.

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Notaram que elas são da Era antes de Cristo, contudo, a série continuará até nossos dias.

Bem aventuradas as mulheres filósofas!

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Homenagem: Aspásia de Mileto

Fonte - Wikipédia

O Maior de Todos os Poetas Americanos era uma Mulher – Emily Dickinson

                                 Justa Homenagem – Emily Dickinson

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O maior de todos os poetas americanos era uma mulher: Emily Dickinson (1830-1886). Apesar de ter vivido reclusa por 56 anos, sem receber visitas, numa casa de Amherst, no interior de Massachusetts, refém do puritanismo asfixiante da Nova Inglaterra e de um pai dominador, apaixonou-se por um homem casado (mas evitou consumar a paixão) e deixou 1775 poemas, que têm, até hoje, emocionado sucessivas gerações. Como escreveu Otto Maria Carpeaux em sua monumental História da Literatura Universal: “Ela não inspirará nunca admiração perplexa, como Poe, nem será tão popular como Whitman.”  Mas é o próprio Carpeaux quem lhe dá o mérito de “maior poeta americano”, considerando a sua obra das mais originais em língua inglesa, especialmente pela reiterada quebra das convenções, no conteúdo e, para desgosto dos puristas, também na forma: nunca hesitou em surrar a gramática, para sintetizar seu desconforto diante do mundo.

emily em pé

Teve um amigo com quem se correspondia, Thomas Wentworth Higginson, um poeta hoje esquecido que inutilmente tentou “corrigir” as transgressões de seus poemas, copidescando forma e conteúdo, “para o bem de Emily”. Mas, sua obra sobreviveu a Higginson e ao pai. De Higginson ficaram as reminiscências que escreveu sobre ela. Seu pai, um tipo antigo e puritano, era sempre a figura princi­pal, um homem que, como ela disse, lia aos domingos “livros solitários e rigorosos”, e que, desde sua infância, lhe havia incutido temor. Até a idade adulta, Emily leu apenas a Bíblia e, escondida do pai, Shakespeare: “Quando perdi a visão, era um alívio pensar que os livros importantes são tão poucos. Depois, quando recuperei a visão, pensei: ‘Além de Shakespeare, por que preciso ler outro livro’?”. Na reclusão que escolheu, além de escrever, tinha ocupações gastronômicas que cumpria com prazer: diariamente ela fazia todo o pão da ca­sa, porque seu pai só gostava do pão feito por ela. E, segundo relatos de contemporâneos, seus pudins eram tão bons como os poemas. A obra de Emily Dickinson, exceto por raros versos isolados, acolhidos em pequenos jornais do interior, só foi impressa depois de sua morte.

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A boa notícia é que foi lançada no Brasil (2008), em livro de bolso, uma primorosa edição de Poemas Escolhidos de Emily Dickinson (L&PM). O autor da magnífica tradução, além da seleção dos poemas, introdução e notas, é o professor Ivo Bender, que conseguiu preservar a graça, a originalidade e força dos versos, num criterioso trabalho de recuperação e adaptação dessa riqueza imensa à língua portuguesa. Por certo que ficaram de fora as receitas dos pães e pudins. Mas o professor Ivo Bender tem uma justificativa inatacável: as receitas desapareceram com Emily, em 1886.

Fonte: Zero Hora (14/03/08) /

10 Poemas de Emily traduzidos por Jorge de Sena

A Letter is a joy of Earth –
It is denied the Gods –

Uma carta é uma alegria da Terra
– Denegada aos Deuses.

* * *

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer’s morn –
A flash of Dew – A Bee or two –
A Breeze – a caper in the trees –
And I’m a Rose!

Sépala, pétala, espinho.
Na vulgar manhã de Verão –
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
Brisa saltando nas árvores –
– E sou uma Rosa!

* * *

Afraid? Of whom am I afraid?
Not Death – for who is He?
The Porter of my Father’s Lodge
As much abasheth me.

Of Life? ‘Twere odd I fear [a] thing
That comprehendeth me
In one or more existences -
At Deity decree -

Of Resurrection? Is the East
Afraid to trust the Morn
With her fastidious forehead?
As soon impeach my Crown!

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências -
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!

* * *

By a departing light
We see acuter, quite,
Than by a wick that stays.
There’s something in the flight
That clarifies the sight
And decks the rays.

A uma luz evanescente
Vemos mais agudamente
Que à da candeia que fica.
Algo há na fuga silente
Que aclara a vista da gente
E aos raios afia.

* * *

I died for beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb,
When One who died for Truth was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly why I failed?
“For Beauty,” I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren are,” He said –

And so, as Kinsmen met a-Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –

Morri pela Beleza – mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso perguntou por quem tombara…
– Pela Beleza – disse eu.
– A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos Irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quarto a Quarto a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes – tapou.

* * *

I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me –
Almost a loneliness.

Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures -
Quase uma solidão.
* * *

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também – tu não és – Ninguém?
Somos um par – nada digas!
Banir-nos-iam – não sabes?

Mas que horrível – ser-se – Alguém!
Uma Rã que o dia todo –
Coaxa em público o nome
Para quem a admira – o Lodo.

* * *

Silence is all we dread.
There’s Ransom in a Voice –
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.

O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz –
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.

* * *
Soft as the massacre of Suns
By Evening’s Sabres slain

Suave como o massacre dos Sóis
Mortos pelos sabres do Anoitecer.

* * *

Volcanoes be in Sicily
And South America
I judge from my Geography –
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb –
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.

Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia –
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir –
Cratera que eu possa ver –
Há um Vesúvio cá em casa.

Fonte: http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/antologia/traducao/texto.php?id=440

http://www.lpm-editores.com.br/site/default.asp?TroncoID=805133&SecaoID=816261&

Dias

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Nesses dias assim,

nem chuva nem sol,

arranco de mim toda ilusão,

esperança e faz-de-conta.

Não há vida que suporte

um dia atrás do outro

sem nada de novo.

Fazer o que, me pergunto,

com esse tédio

essa pasmaceira.

Lembrei do outro lado da vida…

Mais tarde pego um taxi e faço uma visita.

Onde ela está?

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Ontem à noite revirei meu apartamento procurando alguma coisa que havia perdido. Sei lá, era algo que me parecia imprescindível; alguma coisa que me fazia bem. Revirei os armários, olhei debaixo da cama, na cozinha, no porão e no sótão. vasculhei os jardins, e até no telhado do vizinho eu a procurei. Não estava lá também. Perscrutei em volta de mim mesmo, olhei para a garrafa de vinho vazia, a taça quebrada, e os guardanapos manchados. Parecia sangue, mas deveria ser apenas o vinho tinto. Como louco, até no banheiro procurei. Procurei nos bolsos dos paletós, entre as gravatas, na carteira, dentro de minha boca – quem sabe um pequeno vestígio para me indicar algo…

Imaginei que a única prova seria eu me olhar. Deveria haver algum detalhe diferente em mim. Qual nada! Nada! Então fui até à janela e acendi o charuto cubano –  mesmo não sendo de esquerda, eles eram ótimos. Respirei o perfume do fumo. Retirei o roupão, fiquei nu. Meu pensamento me ajudava a lembrar de mais algum lugar onde pudesse encontrá-la… Qual lugar? Onde? Quem?

Apaguei o charuto, voltei a ler Os contos fantásticos do século XIX.  Eu estava assombrado por vinte e seis autores do passado. Minha mente embaralhava com aquelas tradições literárias tão diversificadas. De Hoffmann e Walter Scott a Kipling e H. G. Wells, passando por Gogol, Poe e Andersen, entre outros, sem falar dos autores considerados realistas famosos, como Balzac, Dickens, Maupassant e Henry James. Eu procurava, além da realidade, atrás da aparência cotidiana dos fatos, um mundo encantado, lúdico e infernal que, mais do que me atemorizar, me deixava perplexo. Eu flutuava dentro de mim, no silêncio que as paredes faziam ao meu redor.

Dormi entre os personagens aterradores. Quando acordei, lá estava ela, bem diante de mim. Como não a avistara no dia anterior?

Estava lá, bem no centro da mesa, ao lado da jarra de água, rodeada de livros e cinzeiros. Estiquei o braço, abri a caixa e tomei a medicação. Era só esperar alguns minutos e puff! Eles sumiriam de vez. Contudo, depois, como sempre, eu não tomava a pílula, só para voltar ao livro. E aos fantasmas de Italo Calvino.

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O Amor é Acidente, uma Renúncia, um Hábito, uma Maldição – José Eduardo Agualusa

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O amor é um acidente.
Eu estava sentada no regaço de uma mulher de cobre, uma escultura de Henry Moore, e Bill debruçou-se sobre mim e beijou-me nos lábios. E de repente eu amava-o. Amava-o e só isso importava. Reparei nas mãos dele, mãos de pianista. Mãos preparadas para o amor. Ainda hoje gosto de lhe ver as mãos enquanto folheia um livro, enquanto lê um jornal. As mãos dele envelheceram, envelheceram a apertar outras mãos, milhares de outras mãos, a jogar golfe, a assinar autógrafos e documentos importantes. Envelheceram, sim, mas continuam belas. Continuam a excitar-me.

O amor é uma renúncia. Amar alguém é desistir de amar outros, é desistir por esse amor do amor de outros. Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convicções mais profundas. Não me queixo! Não sou ingénua nem estúpida. Quando digo que o amor é uma renúncia, quero dizer que foi assim para mim. Para Bill foi sempre uma outra coisa. Eu sabia que ele reparava noutras mulheres, e que outras mulheres reparavam nele. Um homem feio, com poder, é quase bonito. Um homem bonito, com poder, é quase um Deus.

Apesar da minha educação cristã, ou por causa dela, sempre me recusei a viver sujeita à ameaça do pecado. As grandes indústrias vêm tentando convencer-nos de que é possível tirar o veneno ao prazer e ficar apenas com o prazer: café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro sem nicotina – amor platónico. Quanta estupidez. Quem bebe café procura a exaltação da cafeína. Quem pede uma cerveja numa tarde de sol quer refrescar o corpo, sim, mas também quer soltar o espírito. Se é para pecar quero o pecado inteiro.

Bill teve o seu castigo. Tivemos os dois. Foram dias difíceis, foram noites ainda mais difíceis, mas passaram. Uma manhã acordei e já não tinha lágrimas. Noutra manhã acordei e já não o odiava. Finalmente acordei e estava de novo abraçada a ele.
O amor é um hábito. Como acham que cheguei até este dia? Foi o amor que me trouxe. Maldito seja.

José Eduardo Agualusa

Conclusão

Desejando as asas da galinha

Desejando as asas da galinha

Andar andei como é a vontade do corpo

Pensar pensei como é a exigência da mente

Cuspi, vomitei

Perdi coisas, gente, mãe e pai. Você…

Chorar chorei porque faz parte do metabolismo

Jung eu li, e Freud quase não.

Tive prisão de ventre mas não pensei em Deus.

E agora, não sei por que, penso nessa causa.

De onde eu vim?

De um jardim que ninguém jamais viu?

Achava que a vida era um mistério

E agora acho minha vida muito simples:

Nasci para morrer.

Por Luciano Ayan

 

Uma tática para devastar a apologética neo-ateísta: a tática Prometheus

 

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Quando um neo-ateu faz sua apologética, tentará arrumar contradições para Deus e a Bíblia a todo momento, mas sempre o fará com o uso de alguma fraude intelectual. (Isso não significa que eu queira provar a existência de Deus. Aliás, demonstrar a lógica ou não de um pensamento não é mesmo que a definir comprovação ou não da existência de Deus)

Além do mais, o neo-ateu é incapaz de perceber o quanto está sendo ridículo em sua atuação, e tudo isso fica facilitado pelo aspecto “nublado” do escopo de existência de Deus. Por exemplo, a Bíblia não diz onde Deus vive, o detalhe de suas motivações e daí por diante. Em torno destes aspectos pouco detalhados, fica fácil para o neo-ateu criar situações de contradição no comportamento de Deus, e, em seguida, usar essas alegadas contradições para constranger um cristão, judeu ou islâmico.

Uma forma de se resolver esse problema é desnublar esse cenário, tornando-o tangível e substituindo a questão do Deus bíblico pelos engenheiros do filme “Prometheus”, de Ridley Scott. Embora a idéia possa parecer incômoda à primeira vista para um cristão purista, o efeito no debate é devastador, pois torna tudo tangível, e todos os argumentos apologéticos do neo-ateu podem ser colocados sob teste. (Note que esta metodologia serve para os argumentos apologéticos dos neo-ateus, isto é, aqueles que são mais filosóficos)

Vamos a um exemplo.

Imagine um neo-ateu que chegue dizendo que “não é possível existir um ser onisciente, que saiba tudo o que vai acontecer, e eliminaria o livre arbítrio dos humanos”.

Transpondo para o universo do filme Prometheus, os engenheiros estariam no papel de Deus, e poderiam conhecer todas as opções que os seres humanos tomariam,e ainda assim isso não eliminaria o poder de escolha do ser humano. Supondo que os engenheiros teriam como antecipar e burlar as regras de “espaço-tempo”, um ser humano poderia escolher suas ações, e um engenheiro poderia saber qual ela seria de antemão. Com essa contextualização, já fica claro que não existe contradição entre onisciência de um criador (que tenha superado as regras de “espaço-tempo”) e o livre arbítrio de sua criação.

Suponha agora que o neo-ateu surja com o paroxo da onipotência. O truque é mais ou menos assim: “Poderia Deus criar uma pedra que não consiga levantar? Ou poderia Deus deixar de ser Deus?”

Transpondo para o universo do filme Prometheus, bastaria contextualizar os engenheiros como donos de todas as possibilidades em relação aos seres humanos, e são capazes disso por que são os criadores dos seres humanos. Eles ainda assim poderiam criar uma pedra que não conseguissem levantar por si próprios, mas poderiam continuar movendo as pedras relacionadas ao mundo dos humanos. Como se vê, a onipotência percebida por uma criação em relação ao seu criador, não limita a onipotência do criador em relação a esta criação. Se esta pedra criada pelos engenheiros não fosse possível de ser levantada pelos engenheiros, isso em nada implicaria na onipotência com relação à sua criação.

Note que é uma abordagem preliminar, mas o objetivo é levantar questões e contextualizar aquilo que fica “nublado” no discurso.

Com um cenário tangível, fica muito mais difícil praticar uma fraude intelectual, pois trabalhamos com “modelos” que podem ser descritos em detalhes de seu funcionamento, ao invés da mera elocubração metafísica.

É importante notar também que o cenário do filme Prometheus não serve para provar a existência de Deus (a meu ver, nem a existência de Deus nem sua inexistência podem ser definitivamente provadas), mas sim para testar as contradições alegadas nos atributos de Deus.

Considerem a tática Prometheus como um antídoto contra a pseudo-intelectualidade neo-ateísta.

Do blog

http://lucianoayan.com/2013/01/03/uma-tatica-para-devastar-a-apologetica-neo-ateista-a-tatica-prometheus/#comment-13292