EXSPESDOMUS, UM CONTO ELETRIZANTE

MORSERUS

EXSPESDOMUS, UM CONTO ELETRIZANTE

Autor –  Marcello Schweitzer

“Não há infortúnio maior do que esperar o infortúnio.” [Pedro Barca]

Esse pensamento de Pedro Barca me veio à cabeça porque traduz exatamente o que acontece com ZEMIAL, um personagem à procura da felicidade através da perda do amor materno. Até aqui, pode parecer uma estória comum, mais um conto triste sobre órfãos, se eu não estivesse falando de uma criatura com inteligência, consciência, amor; e que essa estória acontece em um lugar – longe de ser Passárgada – chamado EXSPESDOMUS, uma cidade-torpor, ousada criação de absurdo do escritor. Ou, pergunto,  existe de fato um lugar assim, diferente de tudo que já vimos e lemos? Bem, vai depender do ponto de vista e da pré-disposição de sua alma de leitor e de ser humano. EXSPESDOMUS pode ser real sim, tamanha a força vital do autor.

Se o leitor levar para a consciência metafórica, subentender os códigos metafísicos, e associar o ambiente com seu próprio interior sombrio, possivelmente esse lugar existirá para cada um de nós, humanos.

Humanos?

Preciso inserir nessa introdução, que nesse “planeta” conhecido por MORSERUS, não exitem Adão e Eva, portanto, nada de ser humano. Nenhum sequer. Essa foi a genial ferramenta encontrada por Marcello Schweitzer para dissertar sobre a condição humana. Uma genial ferramenta, eu diria.

MORSERUS é dividido em reinos de animais que nem a Criação ousou imaginar ou sugerir (Exagero? Quem sabe!). Lá, nesse mundo, há os reinos de Gradel, habitado por Gorilas; Kazil, terra dos Ratos; Caltos, o reino dos Cães; Troferus, habitat dos Gatos, e, por fim, o reino de Iliys, onde a população é formada por Coelhos. Já deu para sentir que estamos falando de um mundo mágico. Além de mágico, é um mundo sombrio, repleto de animais inteligentes, no entanto, tudo parece estar eternamente no crepúsculo.
O escritor prima pelo mergulho nas mais angustiantes experiências metafísicas do ser vivente, e posso chamá-lo assim, já que, ainda que não sejam humanos, em muitos momentos a impressão que dá é de que são seres superiores a nós, principalmente na organização social, na filosófica forma de conduzir a vida, e no excesso – no bom sentido – do existencialismo, no sentido de que a busca da felicidade não se resume a procurá-la apenas, mas perdê-la cruelmente, para então, talvez, obtê-la.

ZEMIAL é um menino de doze anos proveniente de Troferus, logo é um Gato. De pelagem branca, é considerado um albino que, jogado no orfanato, passa os dias a olhar pela janela, sonhando com a mãe que, depois da morte do pai há alguns anos, nunca mais o procurara. Como todo órfão, o felídeo guarda em sua alma todo rancor, dissabores e uma forte dose de rejeição que o reduz a um menino calado e triste. Entretanto, o Gato não para de pensar em sua dor dilacerante, na morte do pai e na ausência da mãe. O pensamento de suicídio na mente de uma criança, é de cortar o coração de qualquer um. Exceto lá.

Esses pensamentos o transformam num garoto prodígio, em um jovem filósofo. Contudo, a solidão, somada à ausência da mãe, o levam a um torpor que poderia ser diagnosticado, facilmente, como um menino-problema, dotado de uma espécie de psicose, enfermidade que germina quanto mais o tempo passa. E, lá no fundo de sua alma, somente ele sabe o que está sendo construído, como se cada dia sem a mãe, fosse um tijolo para a construção de seu sinistro castelo.

Quando, finalmente, a mãe o visita, sua estupefação e felicidade são tão grandes, que o alvo felino não percebe os absurdos desse encontro, já que finalmente se sentia envolto em amor maternal. Sua mãe estava ali, diante dele, definitivamente! Assim, pelo menos, ele imaginou, o infeliz menino.

Diante desse encontro, todo o negror da alma de ZEMIAL vem à tona, o que parece paradoxal, já que ele estava ali, diante de sua genitora, uma gata de pelagem azul e olhos púrpura, penetrantes e amáveis, que fazem com que o menino aceite uma missão ordenada por ela, como se ele fosse o “escolhido” para uma missão, onde a felicidade venceria até mesmo a morte. Ou não?
E sim, o bichano morre pelas mãos da própria mãe, afogado em uma banheira, com a promessa de que renasceria e salvaria a família do tormento da morte eterna e escura. Ele viajaria, depois de renascido, para um lugar chamado Jardim Azul. Promessa alvissareira, bela. Por que não aceitá-la?

A partir daqui, deixo para o leitor saborear esse que é, sem dúvidas, uma obra prima do conto fantástico. O leitor irá notar agradáveis referências universais da literatura. Pensará em Allan Poe, Bioy Casares, e até em Kafka, pois há cenas de metamorfoses assustadoras e, ao mesmo tempo, emocionantes; carregadas de promessas de reencarnação e vida feliz. Entrementes, necessito admoestar o leitor de que o conceito de felicidade, tristeza, vida e morte em EXSPESDOMUS, é totalmente diferente do nosso, possivelmente mais lógico, me atrevo a divagar.

A narrativa vem embutida em filosofia. Em muitos momentos, parei para reflexão. Várias vezes quis chorar, gritar. E sorrir, quando, raramente, se vislumbra uma luz no fim do túnel. Entretanto, nesse sombrio mundo não há luz, não a que estamos acostumados, como a luz do sol, e das estrelas. Não obstante, o tempo todo o autor nos prende nessa esperança. Valeria à pena nutrir esperanças, me perguntei. A surpresa foi total.
A narrativa é riquíssima em detalhes, logo, o leitor, de fato, entra nesse lugar inimaginável, soturno e curioso. O conto, em suma, é de um realismo fantástico perturbador, e leva quem o lê aos mais altos graus de reflexão sobre vida, morte, virtude, moral, fé e esperança. A dualidade de todas as coisas faz parte de EXSPESDOMUS, um mundo dentro de outro mundo que está inserido em um mundo maior chamado MORSERUS.

Recomendo o conto, quase que obsecrando, pois considero uma lástima deixar de conhecer essa odisseia, esse lugar perdido no tempo e no espaço, mas que no entanto, é totalmente controlado por seu condutor maior, o próprio autor. Humano, claro.

Leia o CONTO AQUI

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4 comentários em “EXSPESDOMUS, UM CONTO ELETRIZANTE

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